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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.56 n.2 São Paulo June 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1998000200025 

COMPRESSÃO MEDULAR TORÁCICA EM DOIS NÍVEIS POR CALCIFICAÇÃO DE LIGAMENTO AMARELO

RELATO DE CASO

 

JACKSON GONDIM*, FRANCISCO RAMOS JR*

 

 

RESUMO - Calcificação e/ou ossificação do ligamento amarelo é patologia bem conhecida na literatura japonesa. Causa estenose do canal vertebral torácico e compressão medular. Os autores apresentam o caso de um paciente de origem não japonesa com mielopatia torácica causada por compressão devida a calcificação do ligamento amarelo.

PALAVRAS-CHAVES: medula torácica, mielopatia, ligamento amarelo, compressão medular.

 

Thoracic spinal cord compression at two levels due to ligamentum flavum calcification: case report

ABSTRACT - Calcification and/or ossification of the ligamenta flava is a well reported clinicopathologic entity causing narrowing of the spinal canal and spinal cord compression. It has been described almost exclusively in Japanese people. The authors present the case of a non Japanese patient with thoracic myelopathy caused by ossification of the ligamentum flavum.

KEY WORDS: thoracic spine, myelophaty, ligamentum flavum, spinal cord compression

 

 

Ossificação ou calcificação do ligamento amarelo (OCLA), associado ou não a ossificação do ligamento longitudinal comum posterior, são frequentes na literatura japonesa nos últimos trinta anos. Foram inicialmente descritos em 1920 por Polgar1, baseado em radiografias laterais de coluna cervical. O primeiro caso clínico de ossificação do ligamento amarelo foi publicado em 1960 por Yamaguchi e col.2. Outras descrições feitas em 1931 por Shore3 e 1942 por Oppenheimer4 eram essencialmente rádio-anatômicas. Esta patologia é quase exclusivamente encontrada em publicações japonesas5-12. Alguns artigos não japoneses já foram publicados13-17. Recentemente, o encontro desta patologia em um paciente, aliado à ausência de publicações nacionais sobre o tema, apesar de uma importante imigração japonesa no pais, nos levou a registrar este caso.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, branco, de 50 anos, sem ascendência japonesa, com quadro de paraparesia espástica de evolução progressiva há 6 meses, acompanhado de dores cérvico-torácicas de predominância noturna, intermitentes e bem localizadas em T2-T3. O exame neurológico mostrava síndrome piramidal bilateral, marcha difícil sem ajuda, com diminuição das sensações proprioceptivas nos membros inferiores, e com nível sensitivo em T4. Não apresentava radiculalgias ou alterações esfincterianas. Os exames complementares laboratoriais foram normais, excluindo causas metabólicas. O estudo radiológico da coluna cérvico-torácica foi inconclusivo, assim como a mielografia torácica, que não mostrou compressão medular. A ressonância nuclear magnética (RNM) mostrou dupla compressão posterior em T2 e T3, com sofrimento medular (Figs 1 e 2). O paciente foi submetido a laminectomia T2-T3, evidenciando-se uma verdadeira estenose do canal raquidiano dorsal, essencialmente causada pela calcificação do ligamento amarelo, que estava intimamente aderido às superfícies articulares e à dura-máter, resultando em lesão desta, que foi fechada com enxerto de aponeurose muscular. No pós operatório imediato, houve piora do quadro motor com recuperação progressiva posterior. Na segunda semana pós operatória uma fistula liquórica na cicatriz cirúrgica foi fechada por nova cirurgia. Atualmente, 8 meses após a ultima cirurgia, o paciente apresenta excelente recuperação do seu quadro sensitivo motor, voltando a deambular sem ajuda.

 

 

 

   

DISCUSSÃO

Na coluna vertebral torácica, o ligamento amarelo insere-se sobre uma crista óssea situada na borda inferior da lâmina, logo em baixo de sua superfície lisa endocanalar, estendendo-se até a reborda superior da lâmina do corpo vertebral subjacente. Lateralmente, cada ligamento amarelo estende-se à cápsula da articulação entre as facetas e desta forma contribui para o limite posterior do forame intervertebral. Os dois ligamentos são separados por um intervalo estreito, mediano, através do qual passam as veias que ligam os plexos venosos epidural e extravertebral. Esporões ósseos existem frequentemente nos ligamentos amarelo das vértebras torácicas18. O ligamento amarelo é constituído de tecido conjuntivo elástico, que tem a capacidade de manter constante o diâmetro ântero-posterior do canal raquidiano entre as duas lâminas adjacentes, qualquer que seja a mobilidade da coluna19.

Histologicamente, existe uma variedade de condições patológicas que afetam o ligamento amarelo, variando entre hipertrofia, calcificação e ossificação. Na hipertrofia, a estrutura fibrosa normal é substituída por tecido fibroso hipertrófico contendo numerosas células fibrocartilaginosas com matriz abundante20. A calcificação do ligamento amarelo mostra grânulos calcificados por dentro das fibras ligamentares e ausência de osso maduro20,21. A calcificação é constituída de hiperplasia ligamentar, com espessamento de camadas profundas do ligamento e ossificação interessando somente as camadas mais superficiais22. É essencialmente uma calcificação endocondral, devida a células mesenquimatosas cartilaginosas. A ossificação do ligamento amarelo localiza-se no nível torácico inferior, menos frequentemente na região lombar e raramente na região cervical. No nosso paciente, ao contrário dos casos publicados na literatura, a calcificação situava-se em T2 e T3. Em indivíduos orientais, a frequência desta patologia é de 20% após os 60 anos23. A região cervical é mais afetada em mulheres. Nos homens, as regiões torácica e lombar são as mais atingidas. Embriologicamente, o ligamento amarelo começa o seu desenvolvimento a partir da 12 semana e vai se espessando até a 15 semana. Em torno da 21 semana forma a junção óssea ligamentar. A elasticidade do ligamento amarelo vai diminuindo com a idade e, em indivíduos idosos, movimentos de extensão bruscos e forçados podem ocasionar compressão medular cervical24.

A apresentação clínica habitual é de uma mielopatia crônica, relacionada com compressão da medula cérvico-torácica, podendo vir acompanhada de radiculopatias e alterações esfincterianas. A OCLA foi associada com doença de Paget, raquitismo vitamino resistente hipo-fosfatêmico25, condrocalcinose26, pelviespondilite reumática19, hipoparatireoidismo, hiperostose esquelética idiopática difusa27. Estes pacientes apresentam grande prevalência de obesidade, diabetes melito, hiperinsulinismo, alteração na tolerância da glicose e anormalidades no metabolismo do cálcio28. A associação com hiperostose vertebral anquilosante foi evocada, mas parece ser razoável pensar em duas doenças distintas. Na realidade, a etiologia desta calcificação/ossificação ainda permanece obscura. Os exames laboratoriais, na maioria das vezes, não mostram alterações metabólicas. O papel de um traumatismo inicial não foi demostrado, mas pode agravar as alterações neurológicas29.

Radiografias laterais da coluna vertebral torácica podem ser de ajuda no diagnóstico, especialmente na região inferior, onde calcificação/ossificação são encontradas fortuitamente em radiografias de tórax ou de coluna dorsal, sendo assintomáticos. Na transição cérvico-torácica e torácica alta geralmente é prejudicada pela superposição dos ombros e escápulas. A mielografia frequentemente tem valor relativo pois, sendo realizada na posição prona, pode não evidenciar defeitos de enchimento no espaço subaracnóide póstero-lateral11, como ocorreu com nosso paciente. Ressonância nuclear magnética é muito útil em determinar o grau de compressão da medula e características da ossificação. Ela mostra o ligamento hipointenso em T1 e T2. A indentação é melhor vista em imagens em T2. A tomografia computadorizada (TC) é um bom exame, mostrando massa extra dural calcificada/ossificada em baixo da lâmina, indo até o forame intervertebral, com perda da gordura extradural. Atualmente, a combinação de RNM e TC oferece dados são mais úteis e precisos no diagnóstico de calcificação do ligamento amarelo9,20.

O único tratamento para a OCLA é a descompressão cirúrgica posterior através de laminectomia ou laminoplastia com preservação articular, levando a melhor estabilização da coluna vertebral. O prognóstico na maioria das vezes é bom. No entanto, um programa de reabilitação fisioterápico deve ser começado de maneira gradativa, desde que possível no pós operatório imediato.

Em conclusão, a OCLA do ligamento amarelo é patologia rara em não japoneses, podendo levar a compressão medular por estenose do canal raquidiano. O diagnóstico é dado preferencialmente pela combinação de RNM e TC. O prognóstico é variável, algumas vezes severo devido à importância e extensão da estenose. Um melhor conhecimento da doença poderia aumentar o número de casos diagnosticados em pacientes não japoneses.

 

REFERÊNCIAS

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*Serviço de Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza. Aceite: 5-janeiro-1998.

Dr. Jackson Gondim - Rua Dr. Pedro Sampaio 50 - 60181-560 Fortaleza CE - Brasil. E-mail: jagondim@secrel.com.br