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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.56 n.2 São Paulo June 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1998000200032 

IN MEMORIAM

 

Às vésperas de completar 79 anos de idade, faleceu em São Paulo, em 8 de fevereiro último, o Prof. Dr. Roberto Melaragno Filho, vulto de médico neurologista, cuja memória ficará marcada nos anais da Medicina Brasileira.

Graduado em 1942 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, associou-se ao Serviço de Neurologia desta Faculdade já em 1943 como Assistente Voluntário, onde exerceu, com o entusiasmo que lhe era característico, profícua atividade didática e científica. Nos anos de 1947 e 1948 completou seus estudos como Assistente-Estrangeiro na Faculdade de Medicina de Paris, no Serviço do Prof. Raymond Garcin. Em 1963, já Livre-Docente de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP, fundou o Serviço de Neurologia do recém inaugurado Hospital do Servidor Público Estadual, de São Paulo, dirigindo-o até 1989, época de sua aposentadoria. Neste Serviço, sua inata capacidade didática atraiu jovens estudantes de todos os pontos do País, imantados por sua simpatia pessoal, pela acolhida generosa e pelo vigor de seus ensinamentos. Incontáveis conferências e cursos foram por ele ministrados e organizados. Sua curiosidade científica excursionou pelas diversas áreas da Neurologia, resultando em obras que marcaram a literatura médica nacional. Entre elas, destacam-se os volumes: Afecções Vasculares Cerebrais, editado em 1959; Neuroimunologia, de 1982; Esclerose Múltipla ­ Manual para Pacientes e suas Famílias, de 1992. Além deles, igualmente destacam-se os capítulos que escreveu para diversos livros didáticos de Clínica Médica e de Neurologia, assim como dezenas de trabalhos publicados em revistas científicas.

Acima de suas qualidades profissionais, como médico e professor, estava o homem gentil e carismático, que soube fazer amigos e conquistar admiradores.

Conhecendo Roberto Melaragno desde 1968, e tendo tido o privilégio de conviver diuturnamente com ele durante quase trinta anos, é com profundo sentimento de pesar que registro o seu falecimento.

 

Antonio Carlos Paiva Melo

 

ARQUIVOS DE NEURO-PSIQUIATRIA foi o periódico a que Roberto Melaragno Filho permanentemente enriqueceu com contribuição científica. A equipe do periódico homenageia o amigo, o estimulador, o mestre de muitas lições. Em sua memória, relembra alguns aspectos de suas contribuições.

Dedicado colaborador do Dr. Oswaldo Lange, Editor de Arquivos de Neuro-Psiquiatria, no primeiro número da revista (Junho 1943) publica seu primeiro artigo original (1:26-42). Desde então, com regularidade, apareceram muitas de suas contribuições, sempre voltadas à neurologia clínica. Com especial destaque aqui merecem lembrança o estudo sobre os distúrbios da denervação voluntária ­ com que conquistou a láurea de Assistente-Estrangeiro da Faculdade de Medicina de Paris (1948;6:334-351) ­ e o estudo da farmacologia da circulação cerebral, sua tese para o concurso no qual galhardamente conquistou o grau de Livre Docente em Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1954;12:Supl 2). Ao longo de sua carreira publicou na revista cerca de trinta artigos, o último deles sobre importância da hemorreologia clínica no estudo do fluxo sanguíneo cerebral (1995;53:157-168).

Colaborou assiduamente na seção Análises de Revistas do periódico, assim como colaborou para que a seção Análises de Livros mantivesse seu pulso, suas três últimas análises tendo aparecido no número Dezembro 1997.

Verdadeiro embaixador da neurologia pátria, Melaragno era presença de destaque em todas as reuniões neurológicas brasileiras e, igualmente, internacionais ­ a última delas em Buenos Aires, no Congresso Mundial de Neurologia (setembro 1997). Cada uma dessas reuniões era marcada pelas suas relevantes contribuições, assim como pelos elegantes comentários sobre estudos nelas apresentados. Do seu modo de atuar, muito resultou da abertura de caminhos para a projeção da pesquisa nacional e, mais ainda, para entrelaçar em amizade aqueles neurologistas com os quais seu caminho cruzava. Assim reuniu vultos internacionais da neurologia ao rol de seus companheiros e assim, também, muito fez para que vários outros neurologistas brasileiros internacionalmente se projetassem. Em muitas situações era aquele de melhor palavra, por intimamente conhecer vultos da neurologia e seus feitos. Dessa bagagem resultaram vivas colaborações especiais de Melaragno ao periódico, as homenagens in memoriam que escreveu. Delas destacam-se aquelas a seus mestres da escola francesa, Raymond Garcin (1971) e Théophile Alajouanine (1981), esta escrita com André Roch Lecours, e ao Professor Deolindo Couto, príncipe da neurologia brasileira (1992;50).

Membro Fundador da Academia Brasileira de Neurologia, Melaragno foi um dos que dela fez seu foro. Sempre atuou nos congressos e reuniões de modo ativo, tendo como alvo o estímulo aos jovens e para eles buscando reconhecimento, como ao incentivar a criação do Prêmio Henrique S. Mindlin. A propósito de sua atuação na Academia, é o momento de lembrar as sentidas manifestações póstumas expressas por um de seus integrantes ­ Luís dos Ramos Machado ­ na qualidade de Secretário da Academia Brasileira de Neurologia:

"Perde a Neurologia brasileira um de seus maiores e mais ilustres membros. Talento nato, refinado senso clínico, grande mestre na arte de unir conhecimento e intuição. Gigante e terno, simples e complexo, fidalgo e amigo, apreciador de grandes desafios. A Academia Brasileira de Neurologia, ao buscar a difícil tarefa de confortar os familiares por tão grande perda, sente-se honrada por poder testemunhar a grandeza com que Roberto Melaragno se esquiva ao tempo para ganhar a dimensão de ser definitivamente a figura ímpar cujo perfil esse mesmo tempo nos foi desvendando, dia após dia, gesto após gesto, luta após luta."

A sua esposa e companheira de todas as horas, Helena de Souza Aranha Melaragno, e a seus filhos, toda a equipe de Arquivos de Neuro-Psiquiatria presta particular e sentida homenagem.

 

Antonio Spina-França