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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.56 n.2 São Paulo June 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1998000200034 

IN MEMORIAM

 

Inicialmente, permitam-me compartilhar com os senhores a emoção de estar de volta àquela que foi a minha casa por quase 20 anos. Permitam também que eu compartilhe convosco outra emoção: a de pela primeira vez participar de uma homenagem ao Dr. Portugal Pinto, que por mais de 10 anos foi meu chefe. Portugal Pinto aposentou-se há mais de 15 anos, está falecido há mais de uma década e é, provavelmente, um ilustre desconhecido para a maioria dos neurocirurgiões jovens. Meus senhores, quando homenageio José Portugal Pinto, presto meus louvores a todos os que trabalham ou trabalharam no Serviço de Neurocirurgia do HSE, em especial àqueles que o chefiaram ou chefiam.

Portugal Pinto era sobrinho dileto de José Ribe Portugal, primeiro da neurocirurgia nacional e, a despeito do parentesco e dos fortes laços afetivos e familiares, não foi discípulo do Professor. Formado em 1948 pela Faculdade Nacional de Medicina, sua iniciação na Neurocirurgia deu-se pelas mãos de Renato Barbosa, que lhe concedeu seu primeiro emprego, no Hospital Psiquiátrico Pedro II, vínculo depois transferido para o antigo IPASE. Em 1950 foi para os Estados Unidos, tornando-se um dos mais queridos discípulos de William James Gardner. Em Cleveland, Ohio, por quatro anos serviu como residente, acumulando vasta experiência, graças à guerra da Coréia que convocara para o serviço militar quase todos os neurocirurgiões da clínica. Conforme falou o imperador Adriano, pela pena de Marguerite Yoursenar, o grande feito de um grande homem é manter-se na posição ocupada sem deixar transparecer sua importância. José Portugal Pinto era assim. Os exemplos de honestidade, caráter firme, bom senso e ética profissional eram diuturnamente exercitados, na prática neurocirúrgica e fora dela. Por trás do fazendeiro escondia-se o humanista, capaz de citar Aristóteles. Por trás do homem de posses transparecia o cidadão simples, capaz de gestos comuns e de incontáveis momentos de grandeza. Por trás de um aparente conservadorismo, vislumbrava-se o cirurgião habilidoso, de técnica refinada, inventivo e profundo conhecedor da anatomia, cujos resultados igualavam-se aos dos mestres de seus tempos. Tempos românticos, sem coagulador bipolar, sem aspirador ultra-sônico, sem tomografia computadorizada, sem ressonância magnética, sem angiografia digital, mas prenhe de clips de Olivecrona e de Scoville, repleto de pneumo-encéfalos e ventriculografias.

José Portugal Pinto foi um grande homem. Era daqueles raros exemplos que, no dizer de Radinbranath Tagore: "não pediu a graça de ser resguardado dos perigos, mas de ser destemeroso ao enfrentá-los; não rogou que a dor se acalmasse, mas que tivesse coragem para dominá-la; não procurou aliados no campo de batalha, mas confiou em sua própria força".

 

Homenagem Hospital dos Servidores do Estado (HSE), Rio de Janeiro, 1997
José Francisco M. Salomão