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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282X

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.56 n.4 São Paulo Dec. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1998000500038 

ANÁLISES DE LIVROS

 

 

THE HANDBOOK OF PROBLEM ORIENTED PSYCHOTHERAPY. A. H. CHAPMAN, MIRIAM CHAPMAN-SANTANA. Um volume (14,5x21,5 cm) encadernado, com 216 páginas. ISBN 1-56821-682-3. Northvale, 1997: Jason Aronson Inc (230 Livingston Street, Northvale, New Jersey 07647 USA).

O livro do Dr. Chapman e da Dra. Miriam é um manual prático de psicoterapia e, como outros escritos com os mesmos objetivos, trata o tema levando em consideração principalmente os seus aspectos pragmáticos. Assim, estabelece regras e princípios de como a psicoterapia deve ser praticada, que são ilustrados com inúmeros exemplos de diálogos entre terapeuta e paciente.

A organização dos capítulos segue nessa direção, com tópicos sobre a importância das palavras, atitudes, manejo das situações difíceis e até sobre o uso do humor na situação psicoterápica. A maneira clara e didática, como é definida a trajetória psicoterápica, constitui a maior qualidade do livro.

O texto poderia ser enriquecido com mais pormenores sobre a posição dos autores frente ao modelo psicanalítico, ainda um paradigma a ser referido quando o assunto é psicoterapia. Eles recusam o conceito de mente, com a alegação de que não pode ser cientificamente verificado e comprovado, preferindo como bases para seu modelo psicoterápico os sentimentos, experiências e pensamentos que ocorrem no relacionamento interpessoal.

Convém lembrar que, mesmo sendo uma experiência vivida, a psicoterapia não dispensa um referencial teórico: a escolha dos conceitos é o que permite sua prática.

O capítulo sobre a associação psicoterapia e medicação poderia trazer informações sobre a eficácia dos tricíclicos e ISRS no tratamento do pânico e dos quadros obsessivos.

O livro pode ser bem aproveitado principalmente por psicoterapeutas no começo do seu percurso.

GETULIO BEZERRA CASTRO

 

 

GUILTY BY REASON OF INSANITY: A PSYCHIATRIST EXPLORES THE MINDS OF KILLERS. DOROTHY LEWIS. Um volume (16x25 cm) encadernado, com 301 páginas. ISBN 0-449-00277-2. New York, 1998: Fawcett Colombine, The Ballantine Publishing Group.

Todos já sentiram o impulso de matar. A maioria das pessoas não mata. Alguns matam. A autora, uma psiquiatra e expert reconhecida internacionalmente no campo da violência, passou o último quarto de século estudando as diferenças entre aqueles que matam e os que não matam. Entre os assassinos que ela examinou estão muitos notoriamente conhecidos, inclusive Mark David Chapman, que matou John Lennon. Agora ela escreve sobre suas descobertas e seus aterrorizantes encontros com assassinos.

Sua carreira começou em uma corte juvenil em Connecticut, com o caso de uma garota de 13 anos que subitamente, em pleno dia e na frente de vários colegas, esfaqueou uma colega. Aos poucos ela convenceu um colega neurologista, Jonathan Pincus, a ajudá-la no caso, e a associação continua até hoje.

Sua devoção pelos fatores determinantes de crimes violentos levaram a dupla a se mudar para o Bellevue Hospital em New York e a viajar para várias prisões americanas. Eventualmente, se especializaram em assassinos nos corredores da morte das prisões de máxima segurança. Aos poucos a dupla de neurologista e psiquiatra vai utilizando as novas armas de investigação neurológica, demonstrando retardo mental e lesões frontais na maioria absoluta dos assassinos realmente violentos. Também aos poucos vão demonstrando a quase universalidade de sofrimento agudo, usualmente com abuso sexual grave, na infância dos matadores.

Finalmente, se defrontam com a doença que colocam como sua hipótese etiológica principal, a desordem de múltiplas personalidades. Segredos grotescos vão aparecendo na história pessoal destes matadores extremos. Uma somatória de abusos na infância e danos cerebrais principalmente frontais parece ser a causa das situações mentais limítrofes, crepusculares, algo parecidas com o que ocorre em pseudocrises epilépticas, durante as quais ocorrem crimes.

O livro é fascinante e absorvente. O leitor corre o risco de lê-lo inteiro duma vez, como ocorreu comigo, logo após comprá-lo atraído por sua capa preta e o título, durante um recente congresso americano.

A atitude feminina da psiquiatra Dorothy, que conta durante toda esta odisséia com o apoio do marido psicoterapeuta, é completada pela objetividade do clássico neurologista Pincus, produzindo uma história fascinante, especialmente para neurologistas interessados em comportamento e funções do lobo frontal.

PAULO ROGÉRIO M. DE BITTENCOURT

 

 

DISTÚRBIOS DO SONO. BARBARA BECKER. Tradução de Paulo Fróes. Um volume (12x21 cm) com 183 páginas. Rio de Janeiro, 1994: Editora Ediouro.

No prefácio deste livro, Michael J. Thorpy, M.D., uma autoridade americana bem conhecida neste ramo, escreve "Os distúrbios do sono são extraordinariamente comuns; mais ou menos um terço da população sofre de insônia ou de algum outro problema de sono que interfere em seu repouso noturno, ou que tem algum impacto sobre a eficiência durante o dia. Sem uma boa noite de sono repousante, as perspectivas de um dia agradável e produtivo diminuem de forma dramática. E considerando todos os acidentes de trânsito [observe isto, morando no país que tem a maior incidência de fatalidades de trânsito no mundo] e de trabalho que associamos à falta de sono ou à sonolência excessiva, vemos que os distúrbios do sono adquirem importância crescente, como genuíno problema de saúde pública em nossa pressionada sociedade."

Este livro bem escrito, dirigido a leigos e pessoas nas profissões de saúde, trata de uma maneira compreensiva do campo inteiro dos distúrbios do sono, as suas causas e os tratamentos. A autora dá ênfase ao fato de que a orientação médica é necessária em todos esses distúrbios que não sejam leves e transitórios. Um glossário amplo no fim do livro aumenta a sua utilidade.

Este livro é "recommended reading" para médicos, profissionais das várias profissões de saúde individual e pública, e o leitor em geral.

A.H. CHAPMAN, DJALMA VIEIRA E SILVA

 

 

THE BASAL GANGLIA AND NEW SURGICAL APPROACHES FOR PARKINSON'S DISEASE. Advances in Neurology Vol 74. J. A. OBESO, M. R. de LONG, C OHYE, CD MARSDEN, editores. Um volume (18,5x26 cm) encadernado, com 226 páginas. Philadelphia, 1997: Lippincott-Raven.

A importância dos núcleos da base para o início do movimento e para a "execução automática de planos motores aprendidos" (Marsden, 1982), há tempos intuída a partir de estudos clínicos, vem sendo, em boa medida, corroborada por estudos eletrofisiológicos mais recentes. Além disso, a aquisição de novas informações originadas da farmacologia, da bioquímica e de estudos com tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a consequente formulação de modelos mais adequados de organização funcional dos circuitos córtico-basais permitiram um melhor entendimento da fisiopatologia da acinesia e de diversos movimentos involuntários anormais. Uma das consequências desse desenvolvimento foi o renovado interesse na utilização de algumas técnicas de cirurgia estereotáxica no tratamento da doença de Parkinson. A história da palidotomia é um exemplo modelar: utilizada na década de 50 e logo depois abandonada, surge agora, embasada por convincente substrato fisiopatológico, como um dos procedimentos mais eficazes no tratamento da acinesia.

Este volume de Advances in Neurology, dedicado inteiramente aos núcleos da base, é dividido em duas partes: na primeira, são revistos os principais aspectos anatômicos, funcionais e fisiopatológicos dessas estruturas; na segunda, novas e antigas estratégias neurocirúrgicas para o tratamento da doença de Parkinson são reavaliadas à luz das aquisições discutidas no início.

A primeira parte é inaugurada com excelente revisão crítica de elementos de fisiopatologia (Capítulo 1). São revistos aspectos metodológicos, modelos de funcionamento dos circuitos córtico-basal-tálamo-corticais ¾ com ênfase na integração entre circuitos "direto" e "indireto" ¾ e conceitos fisiopatológicos atuais do parkinsonismo e das discinesias. Não escapam críticas ao próprio modelo que, a despeito do grau de detalhamento adquirido, apresenta ainda intrigantes inconsistências. As "entranhas" dos núcleos da base são esmiuçadas nos Capítulos 2, 3 e 4, em que são estudadas as conexões estriato-palidais e o estratégico núcleo subtalâmico. Os Capitúlos 5, 6 e 7 são dedicados às vias eferentes (pálido-tálamo-corticais) e a novos dados sobre as, muitas vezes esquecidas, projeções tálamo-estriatais. O núcleo pedunculopontino e suas conexões constituem o tema do Capítulo 8, enquanto no Capítulo 9 o estudo da atividade neuronal no estriado serve de pretexto para algumas reflexões acerca do envolvimento de alguns desses circuitos no aprendizado de comportamentos motores. Os dois últimos capítulos dessa seção versam sobre correlações neuroquímicas da doença de Parkinson (Capítulo 10) e observações funcionais "in vivo" em estudos de PET (Capítulo 11).

A segunda parte tem início com texto introdutório (Capítulo 12) que descreve o desenvolvimento histórico dos procedimentos neurocirúrgicos visando ao tratamento do parkinsonismo desde a década de 1940 até nossos dias. Os autores enfatizam que uma das grandes diferenças entre a época anterior e a atual reside no fato de que agora o impacto da cirurgia ocorre em pacientes que estão, ao menos parcialmente, controlados com drogas antiparkinsonianas. Dessa forma, espera-se uma ação sinérgica entre os dois tipos de intervenção. No Capítulo 13, são revistos os processos pré-operatórios gerais e as diretrizes para escolha do alvo mais adequado de acordo com a manifestação clínica predominante. Para a realização de coagulação ou estimulação em alvos precisos, considera-se que mesmo o método computadorizado mais sofisticado não dispense a identificação eletrofisiológica através da utilização de microregistros. A essas técnicas de microregistro e estimulação com microeletrodos durante os procedimentos estereotáxicos são dedicados os Capítulos 14, 15, 16 e 17. Em seguida (Capítulo 18) são discutidos resultados da palidotomia na doença de Parkinson avançada e em algumas formas de parkinsonismo-plus. Essas últimas, infelizmente, continuam essencialmente refratárias a qualquer tipo de intervenção cirúrgica ou farmacológica. As técnicas de estimulação cerebral profunda são discutidas no Capítulo 19. Esse procedimento, embora de custo mais elevado e envolvendo riscos inerentes à presença de corpo estranho no parênquima cerebral, pode ser tão eficaz quanto as lesões por coagulação. Além disso, por acarretar modificações funcionais potencialmente reversíveis, pode constituir alternativa mais segura em lesões bilaterais. As cirurgias talâmicas e a escolha do núcleo subtalâmico para alvo do tratamento da doença de Parkinson são abordadas, respectivamente, no Capítulos 20 e 21. O capítulo seguinte, oferece análise crítica abrangente dos transplantes neurais como tratamento para a doença de Parkinson que, em contraste com outras formas de terapia, são potencialmente capazes de restaurar a reinervação dopaminérgica perdida em consequência do processo degenerativo. O último capítulo apresenta interessantes observações relativas à utilização de PET como ferramenta para o estudo das alterações funcionais "in vivo" após diversos procedimentos estereotáxicos.

Fiel à tradição de Advances in Neurology, o presente volume tem edição cuidadosa e traz contribuições de diversos centros espalhados pelo mundo. O material aqui apresentado é bastante atual e contém informações valiosas para os que se dedicam às neurociências e principalmente àqueles com especial interesse no estudo dos distúrbios do movimento.

JOÃO CARLOS PAPATERRA LIMONGI

 

 

JOHN HUGHLINGS JACKSON: FATHER OF ENGLISH NEUROLOGY. MACDONALD CRITCHLEY & EILEEN A. CRITCHLEY. Um volume (16x24 cm) encadernado, com 228 páginas. ISBN 0-19-512339-5. New York, 1998: Oxford University Press (198 Madison Avenue, 10016 New York NY, USA)

Este é o livro de despedida de Macdonald Critchley. Ele o escreveu com sua esposa e colaboradora, com quem dedicou quatro anos (1992-1996) ao cuidadoso preparo do texto. Eileen A. Critchley cuida em especial de aspectos pessoais da vida de Jackson e de sua família. Macdonald Critchley analisa e avalia sua contribuição científica. Andrew J. Lees, um dos seus mais destacados continuadores no National Hospital, da Queen Square, em Londres, e que em outra seção deste número da revista presta homenagem à memória de Critchley (1900-1997), lembra como este, como autor, acompanhou o livro até suas provas finais.

Da mesma forma que em outras obras de Critchley anteriormente analisadas neste periódico, em primeiro plano destacam-se sua cultura e seu estilo. Neste livro, focaliza ele a figura ímpar daquele que foi um dos mais eminentes neurologistas da era vitoriana e que é considerado o pai da neurologia britânica e o êmulo do moderno raciocínio nas ciências neurológicas, John Hughlings Jackson (1835-1911).

Critchley era um garoto de onze anos quando Jackson faleceu e só indiretamente o conheceu, através de seus próprios mestres no National Hospital, Kinnier Wilson entre eles. Estes conviveram com Jackson e desfrutaram de suas lições e de sua amizade. Com a reverência que só os grandes têm, Critchley expressa "nos meus 97 anos nunca eu conheci um neurologista que, como ele, despertasse tão profunda afeição entre seus companheiros de trabalho". É esta admiração cercada de respeito que faz de Jackson uma das fontes de inspiração para o desempenho em ensino e pesquisa que marcam o National Hospital. Esta instituição foi e é notabilizada pela obra de Jackson, pelas homenagens a ele dedicadas, pela escola que ele criou e pela linha de pesquisa que introduziu, que persiste em foco até o presente.

Com grandeza, Critchley e sua esposa construíram neste livro um verdadeiro memorial a Jackson. Os dois primeiros capítulos e parte do penúltimo (Capítulo 20) tratam das origens de Jackson e sua família. O terceiro capítulo trata de sua educação e os dois seguintes, de seu estabelecimento em Londres e seus primeiros passos médicos. Do sexto capítulo até o final do livro estende-se a análise de sua produção e da sua atuação em neurologia.

Enriquecida pelas conquistas de uma época em que a filosofia de pesquisa foi inovada, a produção científica de Jackson decorre essencialmente da sua atuação junto a cada paciente, da autocrítica severa a que se impunha e da troca de experiência com seus colegas de hospital.

Essa obra é reavaliada por grupos de conteúdo. Assim acontece com os conceitos de hierarquia de sistemas e de dissociação de função, com a papel do cerebelo, com as epilepsias e os focos corticais a partir de que se desenvolveu tanto sua teoria de localização de função como a própria cirurgia da epilepsia. Assim acontece também com os estudos da linguagem a que ele dedicou a maior parte de sua atividade. Com a crítica severa que primeiramente o qualifica como amigo da verdade, Critchley finaliza a reavaliação salientando que muitas dos conceitos desenvolvidos por Hughlings Jackson continuam hoje tão atuais como na época em que primeiramente foram expostos.

Critchley salienta ainda que tais contribuições foram quase exclusivamente expostas em artigos. Neste particular, analisa (Capítulo 18) o desempenho de Jackson na revista Brain. Em 1878, com Bucknell, Crichton-Browne e Ferrier, integra ele o célebre quarteto de fundadores e mentores desse periódico ímpar. A esse mesmo propósito, também lembra as apresentações e o desempenho de Jackson na Neurological Society of London, fundada em 1895 e de que foi o primeiro presidente. Honrarias e os muitos tributos a Jackson ocupam o final do Capítulo 20 e todo o Capítulo 21, que encerra este precioso livro.

O conteúdo do livro deixa claro que enquanto persistirem as neurociências nos rumos atualmente adotados, as lições de Hughlings Jackson persistirão. Estas reforçam o sadio princípio de que a pesquisa em medicina ¾ e em particular em neurologia ¾ se origina no assistir o paciente. É este ato que alimenta essa pesquisa. Qual seja o recurso adicional de investigação de que se possa dispor, será ele sempre um complemento à imponderável e indiscritível essência do método médico de estudo, o da relação direta médico-paciente. E o exemplo de tanto é a obra de John Hughlings Jackson, oportunamente revisitada neste livro, cuja leitura é plenamente recomendada aos cultores da Neurologia.

ANTONIO SPINA-FRANÇA