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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282XOn-line version ISSN 1678-4227

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.57 n.2A São Paulo June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1999000200013 

OLIGODENDROGLIOMAS

ESTUDO ANATOMOPATOLÓGICO E CLÍNICO DE 15 CASOS

 

JORGE SERGIO REIS FILHO*, MÁRIO RODRIGUES MONTEMÓR NETTO*, BEATRIZ GARCIA SLUMINSKY**, LINEI AUGUSTA BROLINI DELLÉ**, AFONSO ANTONIUK***, RICARDO RAMINA****, LUIZ FERNANDO BLEGGI TORRES*****

 

 

RESUMO - Oligodendrogliomas correspondem a 4-5% dos tumores primários do sistema nervoso central apresentando crescimento infiltrativo e lento. Relatamos os achados anatomopatológicos e clínicos de 15 casos de oligodendrogliomas. Oito pacientes eram do sexo masculino e 7 do feminino. As idades oscilaram entre 17 e 66 anos, apresentando média de 39,73 anos. A sintomatologia apresentada correspondeu ao crescimento expansivo, sendo cefaléia (60%) e crises convulsivas (60%) os sintomas mais frequentes. O lobo frontal (n=6) foi o sítio anatômico mais acometido, seguido pelo parietal (n=2), temporal (n=1) e occipital (n=1). Cinco pacientes foram submetidos a ressecção total do tumor e 10 pacientes a exerese parcial; dentre estes, 3 foram submetidos a radioterapia adjuvante, 1 a quimioterapia e 1 a quimio e radioterapia. Evidenciou-se taxa de recidiva tumoral total de 60% em período médio de 32 meses de acompanhamento. Cinco recidivas tumorais ocorreram nos pacientes submetidos apenas ao tratamento cirúrgico e quatro nos pacientes submetidos a quimio ou radioterapia adjuvante. Estes achados aproximam-se dos encontrados na literatura, auxiliando na compreensão do comportamento biológico deste raro tumor cerebral.

PALAVRAS-CHAVE: oligodendrogliomas, gliomas, sistema nervoso central.

 

Oligodendroglioma: a pathological and clinical study of 15 cases

ABSTRACT - Oligodendrogliomas account for 4-5% of primary central nervous system tumours with a slow and infiltrative growth. We report the clinical and pathological findings of 15 cases of oligodendrogliomas. Eight patients were males and 7 were females. The ages ranged between 17 and 66 years, with a mean of 39.73 years. The symptoms reflected the growth and topography of the tumours; migraine (60%) and seizures (60%) were the most frequent symptoms. Frontal (n=6), parietal (n=2), temporal (n=1) and occipital (n=1) lobes were affected. Five patients undergone total resection of the tumor and 10 were submitted to partial resection, from which 3 received adjuvant radiotherapy, 1 adjuvant chemotherapy and 1 chemotherapy and radiotherapy. The overall recurrence rate was 60% for a 32 month follow up. Five recurrences were observed in patients submitted only to the surgical treatment and 4 in which adjuvant radio or chemotherapy were performed. These results are similar with the literature and may contribute to further understanding the biological behavior of these rare tumours.

KEYWORDS: oligodendroglioma, gliomas, central nervous system.

 

 

Oligodendrogliomas são raros tumores encefálicos primários compostos por células que morfologicamente se assemelham a oligodendrócitos1-3, descritos inicialmente por Bailey & Cushing4. Apesar de sua histogênese incerta, apresentam um curso indolente e bom prognóstico quando comparados a outras neoplasias gliais1,5-8. Relatamos os achados anatomopatológicos e clínicos de 15 casos de oligodendrogliomas diagnosticados em pacientes da Cidade de Curitiba no período compreendido entre 1990 e 1997, realizando correlação entre o tratamento realizado e o prognóstico dos portadores desta neoplasia. Até o presente momento, este é o primeiro estudo clínico-patológico na literatura brasileira indexada no MEDLINE e LILACS.

 

MÉTODO

Este estudo deriva da linha de pesquisa denominada "Banco de Patologia Tumoral do Sistema Nervoso Central da População da Cidade de Curitiba", que tem como objetivo tabular todos os dados referentes aos tumores do sistema nervoso central (SNC) que acometem a população dessa cidade e sua região metropolitana. A pesquisa tem o intuito de analisar epidemiologicamente os principais tumores do SNC. Para tanto, foram pesquisados os livros de registros ou arquivos de biópsias do período de 1990 a 1997 dos Serviços de Anatomia Patológica dos principais hospitais da Cidade de Curitiba que são responsáveis por mais de 95% da rotina neurocirúrgica do município. Do total de biópsias de diversos órgãos e tecidos realizadas neste período, foram compiladas as de SNC, pesquisando-se o sexo, idade, localização tumoral e diagnóstico histológico. Deste total, foram separados os oligodendrogliomas avaliando-se as variáveis sexo, idade e localização tumoral. Os dados clínicos dos pacientes, como história clínica, tempo de evolução dos sintomas, exame físico, tratamento e evolução foram obtidos a partir dos prontuários médicos. Todas as biópsias foram preparadas conforme técnicas histológicas convencionais9, sendo utilizados os critérios da Classificação da Organização Mundial de Saúde(OMS)3 para o diagnóstico dos oligodendrogliomas.

 

RESULTADOS

Das 3318 biópsias realizadas, 2427 (73,14%) corresponderam a neoplasias primárias do SNC e, dentre estas, 38 (1,56%) tiveram diagnóstico histológico de oligodendrogliomas (grau II). Destes, 23 não apresentaram dados clínicos e prognósticos suficientes para a inclusão no estudo. Dos quinze pacientes analisados, 8 ocorreram em pacientes do sexo feminino. As idades variaram de 14 a 66 anos, com média de 39,73 anos (Fig 1). Quanto à localização, treze casos acometeram hemisférios cerebrais, sendo 7 no hemisfério esquerdo e seis no direito; dois casos eram intraventriculares (Fig 2). Os sinais e sintomas observados incluiram cefaléia (60% dos pacientes), crises convulsivas (60% dos pacientes), sinais de hipertensão endocraniana e desordens neurológicas focais (Fig 3), com período de evolução variando de 2 a 36 meses, com uma média de 12,93 meses. Cinco pacientes foram submetidos a ressecção cirúrgica total , 5 a exérese parcial, 3 a exérese parcial associada a radioterapia adjuvante, 1 a ressecção parcial seguida de radio e quimioterapia e 1 a tumorectomia associada a quimioterapia (Fig 4). Evidenciou-se taxa de recidiva tumoral total de 60%, sendo 50% nos pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico parcial ou total com período médio (PM) entre o tratamento e a recidiva de 38,4 meses, 66,6% nos que receberam radioterapia adjuvante (PM = 18) e 100% nos dois pacientes que receberam quimioterapia associada (PM = 30 meses) (Tabela 1). Apenas um caso de progressão maligna fora observado 6 anos após o tratamento cirúrgico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Os oligodendrogliomas são neoplasias relativamente raras, correspondendo a cerca de 4 a 5% de todos os tumores cerebrais primários8. Acometem predominantemente adultos, com a moda da incidência entre a quinta e sexta décadas de vida, manifestando-se na proporção de 2:1 entre homens e mulheres2,7,8. Na presente série, os oligodendrogliomas representaram 1,56% das neoplasias primárias do SNC. Cerca de 6% dos oligodendrogliomas acometem pacientes pediátricos, com os sintomas manifestando-se até 10 anos nos tumores supratentoriais8 e 7,5 anos nos pacientes acometidos por tumores infratentoriais10. Não mais que 10 casos de ocorrência familial de oligodendrogliomas foram relatados e a associação de oligodendrogliomas com síndromes tumorais familiais não é comprovada. Em nossa casuística houve maior prevalência de casos na quinta década, entretanto com leve predomínio em mulheres.

Os oligodendrogliomas originam-se preferencialmente na substância branca dos hemisférios cerebrais, sendo únicos na sua grande maioria. O lobo frontal está acometido em cerca de 50 a 65% dos pacientes. Os lobos temporal, parietal e occipital são progressivamente menos afetados. Ventrículos, cerebelo, ponte, medula e meninges raramente são acometidos1,2,7,8,11. Em nossa casuística, 86,6% (n=13) dos tumores localizavam-se em hemisférios cerebrais, sendo que 40% (n=6) ocorreram em lobo frontal. Os dois casos intraventriculares receberam especial atenção no diagnóstico diferencial com neurocitomas centrais, porém a imuno-histoquímica para marcadores neuronais (sinaptofisina e enolase neurônio específica) foi negativa, corroborando o diagnóstico de oligodendroglioma.

A sintomatologia apresentada pelos pacientes com oligodendrogliomas é decorrente da localização e do crescimento infiltrativo do tumor, sendo constituída de distúrbios epileptiformes e cefaléia com longo período de evolução, o qual pode exceder 5 anos2. Em nosso estudo, os principais sintomas foram cefaléia (66,6%) e crises convulsivas (66,6%), apresentando tempo de evolução médio de 12,92 meses. Síndrome de hipertensão endocraniana e desordens neurológicas focais são possíveis manifestações4, entretanto, menos frequentes, o que ocorreu em nossa casuística.

À análise neurorradiológica, as massas tumorais podem ser observadas tanto pela RNM quanto pela TAC sendo caracterizados por massas lobulares heterogêneas e bem delimitadas12. Calcificação tipo serpinginosa é achado frequente, bem como o edema peritumoral. Em alguns casos podem ser encontradas hemorragias intra-neoplásicas e degenerações císticas12.

O exame histopatológico evidencia aspecto monomórfico com moderada celularidade1-3,7,8,13. Áreas de maior celularidade podem ocorrer no centro de nódulos circunscritos por áreas hipocelulares1-3,7,8,13. As células neoplásicas são arredondadas, com citoplasma claro, com limites bem definidos, apresentando núcleos arredondados, discretamente maiores e com cromatina mais densa quando comparados com os oligodendrócitos normais1-3,7,8,13. A atividade mitótica é baixa, não sendo evidenciadas mitoses atípicas1-3,7,8,13. O achado de aglomerados celulares em "favo-de-mel", apesar de nem sempre presente, pode direcionar o diagnóstico. A presença de microcalcificações é frequente, ocorrendo na periferia do tumor ou no córtex adjacente. Áreas com deposição de mucina extracelular, microcistificação e pseudo-rosetas não são infrequentes. Os tumores exibem tendência a apresentarem hemorragias intratumorais. Em alguns casos o estroma capilar arborescente pode dividir o tumor em lóbulos1-3,7,8,13 (Fig 5).

 

 

O crescimento dos oligodendrogliomas é difuso na substância branca e infiltrativo no córtex, onde se formam estruturas como satelitose perineuronal, agregados perivasculares e acúmulos subpiais. A infiltração leptomeníngea pode acarretar reação desmoplásica e fibrótica1-3,7,8,13.

A análise imuno-histoquímica ainda não determinou um marcador biológico específico para células oligodendrogliais neoplásicas, podendo haver positividade para proteína S-100, Leu-7 e vimentina14-16. Proteína glial fibrilar ácida pode ser reativa em oligodendróctios minigemistocísticos ou gliofibrilares, o que é corroborado por estudos ultraestruturais15. A utilização de marcadores de proliferação celular, como Ki67(MIB-1) evidenciou-se significativamente positiva em oligodendrócitos gliofibrilares, mas pouco frequente no restante das células neoplásicas, o que enfatiza o crescimento lento do tumor5,6.

Os pacientes portadores de oligodendrogliomas (grau II da OMS) apresentam sobrevida média de 4,4 a 9,8 anos, com taxas de 38 a 75% de sobrevida após 5 anos e 19 a 59%, após 10 anos8,13. Recidiva local é frequente, porém a progressão maligna é rara1,2,5,7,8,13. Em nosso estudo, recidiva tumoral ocorreu em 50% dos casos submetidos apenas a tratamento cirúrgico, 66,6% dos casos em que se associou radioterapia e em 100% dos casos em que se realizou quimioterapia adjuvante. Os fatores clínicos de bom prognóstico incluem baixa idade, localização em lobo frontal e possibilidade de tumorectomia total8,13, como corroborado pelo presente estudo.

 

REFERÊNCIAS

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Estudo realizado na Seção de Microscopia Eletrônica e Neuropatologia do Serviço de Anatomia Patológica (SAP) do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, PR.: *Médico Residente em Anatomia Patológica - SAP - HC- UFPR; **Estagiário da Seção de Microscopia Eletrônica e Neuropatologia - SAP - HC - UFPR; ***Professor Titular da Disciplina de Neurocirurgia-UFPR; ****Médico Neurocirurgião do Hospital das Nações- Curitiba;*****PhD em Neuropatologia (Londres), Chefe do SAP - HC - UFPR. Aceite: 17-dezembro-1998.

Dr. Jorge Sergio Reis Filho - Serviço de Anatomia Patológica, Hospital de Clínicas - Rua General Carneiro 181- 80060-900 Curitiba PR - Brasil. Fax 041 264 1304. E-mails: jsreis@hotmail.com ou neuropat@hc.ufpr.br

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