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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282XOn-line version ISSN 1678-4227

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.57 n.2B São Paulo June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X1999000300014 

DISTÚRBIOS DE COMPORTAMENTO EM PACIENTES COM DEMÊNCIA

IMPACTO SOBRE A VIDA DO CUIDADOR

 

REGIANE GARRIDO*, OSVALDO P. ALMEIDA**

 

 

RESUMO - Diversos estudos indicam que o cuidado de pacientes com demência está associado a sobrecarga importante sobre a vida do cuidador. Há evidências crescentes de que esse desgaste está mais intimamente ligado à presença de sintomas não cognitivos (ou psiquiátricos). Este estudo tem como objetivo realizar revisão sistemática da literatura sobre esse assunto de todos os trabalhos listados no banco de dados MedLine, que incluíssem os seguintes unitermos: 'burden or impact or cost' e 'dementia or Alzheimer's disease' e 'carer or caregiver or caregiving or family'. Foram incluídos artigos impressos entre janeiro de 1990 e janeiro de 1998. Quatorze estudos preencheram os critérios de inclusão da revisão, dentre aqueles disponíveis nas bibliotecas das universidades de São Paulo. Estes revelaram que transtornos de comportamento em pacientes dementados são importantes causas de sobrecarga na vida do cuidador, porém um consenso sobre o conceito desses transtornos ainda não está totalmente estabelecido. Além disto, não está claro quais sintomas não cognitivos são os principais responsáveis por aumento do impacto. Futuras pesquisas devem abordar esses aspectos no sentido de elucidar quais os melhores métodos de intervenção para esses casos.

PALAVRAS-CHAVE: demência, doença de Alzheimer, transtornos do comportamento, depressão, delírios, alucinações, psicose, burden, impacto, cuidador.

 

Behavioural problems in patients with dementia and their burden on carers

ABSTRACT - Many studies have suggested that caring for patients with dementia may be associated with increased burden, particularly when subjects present with prominent behavioural problems. The present work aimed to review studies appearing on MedLine between 1990 and January 1998 that included the following keywords: 'burden or impact or cost' and 'dementia or Alzheimer's disease' and 'carer or caregiver or caregiving or family'. Only fourteen of the studies retrieved fulfilled the entry criteria for this review: crossectional or longitudinal studies looking at the association between behavioural problems in patients with dementia and burden of carers. All studies indicated that behavioural disturbances are an important cause of burden, although there was little consistency on the definition of 'behavioural disturbances'. As a consequence, it is still unclear which behavioural symptoms are more closely associated with increased burden of care. Future research in the area should aim to clarify these issues and develop management strategies to decrease burden on carers of patients with dementia.

KEY-WORDS: dementia, Alzheimer's disease, behavioural disorders, depression, delusions, hallucinations, psychosis, burden, carer.

 

 

Demência é um termo genérico que caracteriza síndromes de etiologias diversas cujo aspecto fundamental é o prejuízo da memória. Somado a este, o comprometimento de pelo menos uma outra função cognitiva (linguagem, praxia, gnosia ou funções executivas) deve estar presente. Os pacientes portadores de síndrome demencial vivem, em sua grande maioria, na comunidade1. Habitualmente eles necessitam de auxílio para a realização de várias atividades da vida diária e, como consequência, de um "cuidador". O cuidador responsável é, na maioria das vezes, um familiar próximo (cônjuges ou filhos) e, mais raramente, outros parentes ou amigos2. A demência, sabidamente, evolui em estágios e, desde um quadro incipiente até uma demência grave, o cuidador é obrigado a enfrentar diversas dificuldades. O desenvolvimento de distúrbios de comportamento é um dos problemas que emergem com freqüência durante a evolução da doença3. Assim, a vida do cuidador passa a ser influenciada tanto pelos aspectos cognitivos como comportamentais da demência4,5.

O termo 'burden', da língua inglesa, é o mais freqüentemente utilizado para descrever os aspectos negativos associados ao cuidado de indivíduos doentes. Termos várias vezes utilizados como equivalentes incluem 'fardo', 'impacto', 'sobrecarga' e 'interferência'. O conceito preciso da palavra ainda é muito discutido, principalmente por se referir apenas aos aspectos negativos do ato de cuidar. O conceito que nos parece bastante claro é o de Platt6, para quem o termo 'burden' se refere à presença de problemas, dificuldades ou eventos adversos que afetam significativamente a vida das pessoas que são responsáveis pelo paciente. Os pesquisadores dividem, ainda, o estudo desta interferência em aspectos objetivos e subjetivos. O primeiro refere-se às dificuldades sociais advindas do ato de cuidar do paciente (rotina do lar, relações familiares, relações sociais, lazer, finanças); e o segundo refere-se ao estresse físico e mental sofrido pelo cuidador e seus familiares7.

Outro conceito que vem sendo muito discutido é o de 'cuidador'. Malonebeach & Zarit8 entendem que enquanto não houver consenso, é importante considerar o estado funcional do paciente, número e duração das tarefas que necessitam de supervisão e envolvimento emocional mínimo do cuidador com o paciente. Em geral cada estudo propõe, a seu modo, quais os critérios necessários para que alguém seja incluído numa pesquisa como cuidador. Em alguns casos, esses critérios sequer são explicitados9,10. Draper e col.11 selecionaram cuidadores que fossem co-residentes e que atuassem no cuidado há mais de 6 meses. Hinrichsen e Niederehe12 consideraram 'o membro da família que provia cuidados ao paciente' como definição de cuidador. Coen e col.13 definiram cuidador como 'o principal responsável por prover ou coordenar os recursos requeridos pelo paciente'. Como não dispomos de consenso para o conceito de cuidador, vale ainda o alerta de Dillehay e Sandys14 de que a 'falta de uma definição precisa sobre o assunto interfere até hoje com as pesquisas sobre o ato de cuidar'.

O terceiro e último conceito que vamos rever é o que se refere a 'distúrbios do comportamento' ou 'alterações não cognitivas da demência'. Estes incluem um grupo de sintomas que, em sua maioria, relacionam-se a transtornos mentais e do comportamento como alucinações, delírios, tristeza, falta de interesse, agressão e perambulação. Consequentemente, as amostras de pacientes selecionadas para os estudos são bastante heterogêneas, com alguns enfatizando sintomas como agitação, agressão verbal, violência inesperada, distúrbios do sono, delírios e alucinações15, e outros enfatizando sintomas como ansiedade, preocupação, choro e tristeza, agressão verbal e/ou física16. Apesar disso, há um consenso emergente de que esses sintomas têm impacto sobre a vida do cuidador. Alguns autores acreditam que os sintomas deficitários (apatia, depressão, isolamento) seriam os de maior impacto sobre a vida do cuidador17, enquanto outros sugerem que agitação e comportamentos agressivos são mais freqüentemente associados com o fardo do cuidar18. Poucos estudos questionam o conceito de 'distúrbio de comportamento' nas síndromes demenciais, embora vários autores tenham tentado defini-lo. Rabins17 afirma que 'não há um caminho melhor para se conceituar os transtornos de comportamento na demência'. Zaudig4 concluiu que 'apesar de os transtornos do comportamento e sintomas não cognitivos serem um componente integral da psicopatologia da demência, nenhuma descrição ou definição consensual pôde ser alcançada até o momento'.

Este estudo tem como objetivo revisar de forma sistemática os artigos abordando o impacto dos transtornos do comportamento sobre a vida do cuidador de pacientes com demência.

 

MÉTODO

A revisão foi realizada pelo sistema MedLine, utilizando-se as palavras chaves: 'burden or impact or cost' e 'dementia or Alzheimer's disease' e 'carer or caregiver or caregiving or family', de janeiro de 1990 até janeiro de 1998, e suplementada por pesquisa manual. Dos 142 artigos listados pelo MedLine e pela pesquisa manual, apenas 76 (53,5%) foram encontrados nas bibliotecas da cidade de São Paulo. Destes, 35 avaliavam o impacto do cuidado do paciente demenciado sem abordar o aspecto 'comportamento'. Doze eram revisões discutindo vários aspectos da sobrecarga, citando apenas os transtornos de comportamento como exemplo. Quinze outros artigos discutiam questões relacionadas ao impacto apenas de maneira descritiva. Somente quatorze artigos (18,4%) eram sobre estudos que relacionavam o impacto do cuidador com os transtornos de comportamento do paciente. Um estudo avaliou a relação entre distúrbio de comportamento do paciente/depressão e saúde física do cuidador ao longo do tempo. Nenhuma revisão específica sobre a relação comportamento/impacto foi encontrada.

 

RESULTADOS

Em nenhum dos 76 artigos encontrados, ou mesmo nos resumos dos artigos trazidos pelo sistema MedLine, encontrou-se relato de relação inversa entre comportamento e impacto. Em outras palavras, a maioria dos estudos não avalia o impacto que as alterações de comportamento do paciente têm sobre a vida do cuidador, embora aqueles que investigaram esse tipo de associação tenham observado uma interferência importante. O que descreveremos a seguir é uma revisão dos 14 estudos encontrados.

Os estudos incluídos diferem grandemente em sua metodologia. Apenas três deles (n=14) apresentavam grupos-controle. Observou-se variação importante no tamanho da amostra (25 a 474 pacientes) e no número de indivíduos com diagnóstico de demência (23 a 219). A procedência dos pacientes também foi diversificada: alguns estudos recrutaram pacientes de clínicas e ambulatórios de geriatria, enquanto outros abordavam indivíduos vivendo na comunidade.

Os instrumentos para avaliação cognitiva, comportamental, atividades de vida diária, saúde física e impacto, entre outros, variaram grandemente entre os estudos escolhidos; 68 instrumentos diferentes foram utilizados, variando de 2 a 17 por estudo.

As escalas utilizadas para avaliação dos transtornos de comportamento foram extremamente variadas, sendo a maioria delas escalas de sintomas e distúrbios psiquiátricos aplicados à população geral.

As descrições das características dos pacientes variaram grandemente entre os estudos. Em geral, 5 características principais são avaliadas na maioria dos relatos: idade, sexo, grau de deterioração cognitiva, gravidade do quadro demencial, e se o paciente e o cuidador moravam juntos. A idade média dos pacientes foi 76,07 anos. A média de idade dos controles avaliados foi 73,70 anos. Não foi possível avaliar se a diferença de idade destes em relação aos dementados é significante, pois apenas dois artigos apresentaram idade de seus controles11,19. Sessenta por cento dos pacientes eram do sexo feminino. Cinqüenta por cento dos controles eram mulheres.

O grau de deterioração cognitiva foi, em média, moderado. Os estudos utilizaram pacientes com escore < 23 no Mini Exame do Estado Mental como critério de inclusão e o escore médio entre os estudos foi 15,45. Também a gravidade do quadro demencial apresentou-se moderada, com Clinical Dementia Rating (CDR)20 médio de 1,60.

Quase todos os estudos (85,7%) escolheram pacientes que co-residissem com seus cuidadores, talvez numa provável tentativa de avaliar fidedignamente o impacto do cuidado na vida do cuidador. Demência de tipos diferentes foram avaliadas, possivelmente porque a apresentação de prováveis distúrbios de comportamento não é exclusiva de nenhum tipo de demência em particular.

Grau de escolaridade e tempo de doença dos pacientes foram relatados em quatro estudos (28,5%); saúde física e estado civil em apenas dois (14,3%). Houve pouca padronização na coleta de dados demográficos, impedindo que estudo comparativo mais detalhado fosse realizado. Escolaridade, por exemplo, varia grandemente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e interfere com o ponto de corte utilizado no Mini Exame do Estado Mental21. Renda mensal ou anual, citada em apenas um estudo, poderia oferecer melhor visão comparativa de populações de baixa, média a alta renda e sua correlação com sobrecarga do cuidador. Grupo racial do paciente, embora tema muito estudado como característica da família cuidadora22, foi também descrito em apenas um artigo.

Em relação aos cuidadores, sexo, idade e parentesco com o paciente foram as únicas variáveis em comum encontradas nesses estudos. Características como tempo de cuidado, grupo racial, rendimento anual, saúde física, condições de trabalho, grau de escolaridade e presença ou não de um segundo cuidador foram todas analisadas em um ou dois estudos no máximo, a critério do autor. Alguns dados acima citados são de relevância e interesse na literatura, atuando muitas vezes como variáveis no impacto do cuidador1,23. Os cuidadores eram em sua maioria mulheres (63,3%), com idade média de 63,16 anos para os de demência e 67,70 anos para cuidadores dos controles. Mais de 50% eram cônjuges, seguidos por 38,3% de filhos(as).

Os pacientes eram significativamente mais velhos que seus cuidadores (t= -5,50, p<0,0001), não ocorrendo o mesmo com os grupos controles (t= -7,67, p=0,083). A sobrecarga dos cônjuges (53,3% da amostra) está provavelmente ligada à relação pré-mórbida do casal e personalidade do paciente antes da doença24.

Todos os estudos concordam que o impacto ou sobrecarga sofridos na vida do cuidador, assim como o desenvolvimento de sintomas depressivos, têm relação direta com a presença de transtornos psiquiátricos apresentados pelos pacientes. Nos três estudos realizados com grupos controles, os cuidadores de pacientes com demência apresentaram maiores índices de impacto que cuidadores de pacientes com depressão, indivíduos que sofreram acidente vascular cerebral ou idosos hígidos da comunidade (controles).

Sete artigos (50,0%) registraram relação positiva entre transtornos de comportamento do paciente e desenvolvimento de sintomas depressivos no cuidador. Sete estudos (50,0%) sugeriram que a sobrecarga estava associada ao comprometimento das atividades da vida diária do paciente, enquanto um estudo13 relatou não haver relação entre essas duas variáveis. Quatro artigos (28,5%) não detectaram piora do impacto em relação à gravidade do quadro demencial, mas outros três (21,4%) encontram exatamente o contrário. Prováveis diferenças metodológicas e/ou de análise de dados, além dos diferentes instrumentos utilizados nos estudos devem ser responsáveis pelos resultados acima referidos. Tempo de doença influenciando impacto foi avaliado em apenas três estudos, não havendo também consenso da relação entre eles. O uso de psicotrópicos pelos cuidadores de demenciados é maior que em grupos controles (cuidadores de seqüelados de acidente vascular cerebral e idosos hígidos)11,25.

Em contrapartida, outros itens avaliados apresentam relação negativa com o fardo do cuidar. Por exemplo, os níveis de depressão desenvolvidos pelo cuidador num primeiro momento se mantêm estáveis, ocorrendo decréscimo nos níveis de sobrecarga com o passar do tempo19,25. Apesar da sobrecarga, muitos cuidadores se sentem gratificados com os aspectos do cuidar11,26. O estado cognitivo do paciente não influencia o impacto27. Intervenções psicoeducacionais com cuidadores que facilitem o manejo do paciente, bem como mais de uma pessoa responsável pelo cuidado, resultam em diminuição do impacto12. Além disso, a limitação social e afetiva do cuidador diminui com o passar do tempo, assim como a gravidade do impacto19.

 

DISCUSSÃO

Apenas 3 dos 14 trabalhos incluídos nesta revisão foram prospectivos. A Tabela 1 apresenta as características metodológicas desses estudos.

 

 

O que se pôde notar em relação aos instrumentos é que apenas três são amplamente utilizados: Mini Exame do Estado Mental28 (MEEM) para avaliação cognitiva (64,2%), 'Zarit Burden Interview'29 para avaliação do impacto na vida do cuidador (42,8%), e Índice de Atividades de Vida Diária30 sobre o estado funcional do paciente (35,7%). A falta de padronização desses instrumentos dificulta a comparação entre os estudos e a generalização dos achados.

Em relação às escalas, somente três utilizadas foram desenvolvidas especificamente com o objetivo de avaliar distúrbios de comportamento em pacientes demenciados: 'Revised Memory and Behaviour Problems Checklist'16 (RMBPC) — três estudos, 'Behavioural Pathology in Alzheimer's Disease'31 (Behave-AD) e 'Dementia Behaviour Disturbance Scale'32 (DBDS) — um estudo cada. Isto significa que 9 dos 14 estudos em questão não avaliaram a gravidade dos transtornos de comportamento de forma sistemática.

A média de idade dos pacientes acima dos 70 anos basicamente exclui demências de aparecimento precoce (antes dos 65 anos). Vale lembrar que a demência pré-senil tende a evoluir mais rapidamente e está, com frequência, associada à presença de delírios persecutórios, alucinações e agitação grave18. Apesar disso, pouco se sabe sobre distúrbios de comportamento e sobrecarga dos cuidadores nesses casos.

Era de se esperar que por volta de 70% dos dementados fossem do sexo feminino, uma vez que doença de Alzheimer é responsável por aproximadamente 50% do total de casos de demência e apresenta prevalência maior entre as mulheres33. Já os controles não demenciados (deprimidos, com sequela de acidente vascular cerebral e idosos hígidos da comunidade) perfizeram exatamente 50% para cada sexo. Este equilíbrio reside provavelmente no fato que: (1) depressão de início tardio não apresenta predomínio entre sexos34; (2) pacientes que sofreram acidente vascular cerebral são em maior número do sexo masculino (4,5 homens/3,8 mulheres35); e (3) idosos da comunidade apresentam predomínio feminino na maioria dos países36. A amostra de cuidadores apresenta 63,3% de mulheres, sendo possível que a parcela de filhas seja maior que a de esposas, uma vez que também 60,0% dos demenciados são do sexo feminino. Em geral, cuidadores do sexo feminino apresentam maiores índices de sobrecarga27 e depressão25.

Como citado anteriormente, não há uma padronização de instrumentos de avaliação entre os estudos. Além disto, muitos deles não registram seus resultados de maneira estatística, objetiva, apenas relatando de forma descritiva seus resultados. Mesmo assim, a Tabela 2 apresenta os resultados da relação comportamento/ 'burden' dos 14 estudos avaliados por este artigo.

 

 

O fardo do cuidar não está associado apenas às alterações de comportamento do paciente, mas também com a pouca disponibilidade de suporte social12,25, disfunção ou dificuldade do paciente na realização de tarefas rotineiras9,37, insatisfação do cuidador com a assistência recebida de parentes ou amigos11,37, incontinência26, muitas horas de cuidado diário quando o nível de adaptabilidade do cuidador é baixo38, relação pré-morbida da dupla paciente/cuidador insatisfatória37.

Mangone39, Hadjistavropoulos10 e seus respectivos colaboradores afirmam que os déficits objetivos dos pacientes não são diretamente preditivos de sobrecarga, enquanto a percepção que o cuidador tem da gravidade destes déficits o são. Wenger26 relata que há um preocupante baixo grau de envolvimento entre equipes psicogeriátricas com dementados e seus cuidadores. Questiona se isto reflete uma falta de referência de outras especialidades que eventualmente atendam esses pacientes ou se não há disponibilidade dessas equipes nos serviços de saúde.

 

CONCLUSÃO

Síndromes demenciais afetam grande número de idosos em todo o mundo. Com o aumento na expectativa de vida, o número de pessoas que apresentam demência vem aumentando progressivamente. Distúrbios de comportamento em pacientes com demência têm impacto negativo na vida do cuidador, tornando-os mais vulneráveis ao desenvolvimento de quadros depressivos e ansiosos, além de contribuírem para deterioração das condições físicas. Além disso, as dificuldades crescentes com o cuidado do paciente aumentam a chance de que este venha a ser institucionalizado, onerando ainda mais os já deficitários serviços de saúde disponíveis para o atendimento dessa população. Assim, é importante determinar quais são os distúrbios de comportamento que causam maior dificuldade ao cuidador e desenvolver estratégias eficazes para o controle desses sintomas. A psicogeriatria tem, portanto, papel fundamental no manejo desses pacientes e seus cuidadores, já que essa é a via final comum para a grande maioria dessa população.

 

Agradecimentos - Osvaldo P. Almeida é parcialmente financiado pelo CNPq, Brasil.

 

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Unidade para Idosos (UNID) do Departamento de Saúde Mental da Irmandade Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: *Segunda Assistente da UNID; **Primeiro Assistente da UNID. Aceite: 28-janeiro-1999.

Dra. Regiane Garrido - Departamento de Saúde Mental da Santa Casa de São Paulo - Rua Major Maragliano 241 - 04017-030 São Paulo SP - Brasil. Fax: 5087 7003. Email: unidsc@uol.com.br

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