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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

Print version ISSN 0004-282XOn-line version ISSN 1678-4227

Arq. Neuro-Psiquiatr. vol.61 no.1 São Paulo Mar. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2003000100013 

Diagnóstico dos aneurismas cerebrais por angiotomografia tridimensional

 

Cerebral aneurysms diagnosis by three-dimensional CT angiography

 

 

Guilherme Cabral de AndradeI; Pedro Augusto Deja TeixeiraI; Helvércio Fernando Polsaque AlvesII; Erik Evandro DonatoIII; Carlos Alexandre Aguiar MoreiraIV; Renato Campos Soares de FariaV; Luís Antônio Araújo DiasVI

Serviço de Neurocirurgia/Neurorradiologia da Santa Casa de Ribeirão Preto SP, Brasil
IPós Graduando da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM-SP)
IIEspecializando em Dor e Neurocirurgia Funcional Hospital AC Camargo SP
IIIResidente
IVPreceptor
VChefe do Serviço de Neurorradiologia
VIChefe do Serviço de Neurocirurgia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A angiotomografia é método diagnóstico rápido e minimamente invasivo que passou a ser utilizado recentemente nos casos de aneurisma intracraniano, possuindo 100% de especificidade e podendo atingir 95% de sensibilidade, na avaliação dos aneurismas do círculo de Willis, substituindo a angiografia digital, mas não em todos os casos. Apresentamos nossa experiência na avaliação do exame de angiotomografia tridimensional em período de 2 anos, comprendido entre junho de 1997 e junho 1999, em que foram realizados exames de angiotomografia tridimensional para detecção de aneurismas intracranianos em 136 pacientes Em 118 pacientes foi realizada apenas angiotomografia e em 18 casos foi realizada além da angiotomografia tridimensional, também a angiografia digital convencional. O exame de angiotomografia tridimensional possui baixo risco, sendo melhor utilizada na detecção dos aneurismas com diâmetro maior que 3mm. Possui algumas limitações, como os aneurismas muito pequenos <3mm aneurismas da carótida cavernosa e da circulação posterior, como também a não realização do exame dinâmico.

Palavras-chave: aneurisma cerebral, angiotomografia tridimensional.


ABSTRACT

Three-dimensional computerized tomography angiography is a fast diagnosis method and low invasive that passed to be used recently in the cases of intracranial aneurysms. This method presents a 100% specificity and can reach 95% of sensibility in the evaluation of the aneurysms in the circle of Willis, substituting the digital angiography but not in all of the cases. We report our experience in evaluation of the three-dimensional angiotomography exams in a period of 2 years between June of 1997 and June of 1999, were accomplished for detection of intracranial aneurysms in 136 patients, being 118 just with three-dimensional angiotomography and in 18 cases they were accomplished besides three-dimensional angiotomography also the conventional digital angiography. The exam of three-dimensional angiotomography possesses low risk being used better in the detection of the aneurysms when possess higher diameter than 3mm, with some limitations as in the very small aneurysms when smaller than 3mm, carotid intern cavarnous aneurysms, posterior circulation aneurysms as well as the non accomplishment of the dynamic exam.

Keywords: cerebral aneurysm, computerized three-dimensional, angiotomography.


 

 

Aneurismas cerebrais e hemorragia subaracnóidea possuem elevado índice de morbi-mortalidade. O seu diagnóstico precoce é um dos fatores que possibilita a boa evolução da doença. O diagnóstico dos aneurismas intracranianos passou a ser realizado com o advento da angiografia cerebral apresentada à comunidade científica por Egas Moniz em julho de 19271. Ainda hoje, o exame "padrão ouro" para a detecção dos aneurismas intracranianos é a angiografia. Nos últimos anos surgiram duas novas modalidades diagnósticas para as patologias vasculares intracranianas: a angiotomografia tridimensional e a angio-ressonância magnética. O uso da tomografia com infusão de contraste, nos casos em que há suspeita de aneurisma intracraniano, pode detectar, dependendo da localização, de 36% no complexo carótida interna até 76% na artéria comunicante anterior e artéria cerebral média2, com média de 57% no polígono de Willis3, havendo maior sensibilidade para os aneurismas com tamanho >7mm, principalmente quando há presença de calcificação ou massa com aumento de densidade nas cisternas basais. Porém, ramos arteriais ou "loops" podem simular pequenos aneurismas4,5 com a necessidade da complementação do estudo. Vasos de até 1,5mm de diâmetro também podem ser vistos neste tipo de estudo6. As principais causas de dificuldade de visualização de aneurismas no estudo tomográfico com infusão de contraste são: 1) posicionamento inadequado do paciente; 2) baixa velocidade de infusão do contraste; 3) vasoespasmo ; 4) artefatos3. O primeiro relato na literatura com o uso de tomografia espiral foi realizado por Kalender7. Os primeiros estudos experimentais com angiotomografia helicoidal foram realizados com reconstrução de artéria aorta8, artéria renal, esplênica e de membros inferiores9,10 e outras áreas, incluindo as artérias extracraniais11-13.

O uso da angiotomografia helicoidal ou espiral com reconstrução em três dimensões é técnica de diagnóstico dos aneurismas intracranianos recentemente adotada, sendo grande aliado na estratégia terapêutica destes. Vem firmando-se como opção no diagnóstico dos aneurismas intracranianos. Apresentamos nossa experiência.

 

MÉTODO

De junho de 1997 a junho de 1999, foram estudados 262 pacientes com hemorragia subaracnóidea, a qual foi causada por aneurisma em 244 pacientes. Do total, 118 (41%) pacientes foram investigados apenas com angiotomografia, 18 pacientes (7,4%) foram investigados com angiotomografia e angiografia digital convencional, e, no restante, 126 (51,6%) usou-se a angiografia digital apenas.

Os exames de angiotomografia foram realizados com o aparelho de tomografia helicoidal da Picker International (PG 5000), com cortes tomográficos axiais de 3mm. Após a punção venosa periférica com Abocath 20R e conexão do mesmo a uma bomba mecânica de infusão de contraste Liebel-Flarsheim-Company (ANGIOMAT 6000), são injetados cerca de 120cc de contraste iodado hidrossolúvel (IopamironR), levando-se um tempo médio de 8 minutos até a realização completa do exame. Em todos os pacientes que foram submetidos ao diagnóstico com angiotomografia, o exame foi realizado na admissão, imediatamente após ter sido confirmado o diagnóstico de hemorragia subaracnóidea nos cortes convencionais de tomografia, submetendo-o de imediato ao protocolo de angiotomografia. Após realização do exame, as imagens foram transferidas para uma estação de trabalho PickerR, para reconstrução do sistema arterial em três dimensões (Fig 1), correlacionando-o com estruturas ósseas, permitindo rotações em 360° (Fig 2 e 3), como também mensuração do diâmetro do colo do aneurisma (Fig 4). Todos os exames eram discutidos com neurocirurgiões juntamente com um neurorradiologista com experiência no método diagnóstico e, em algumas situações onde havia dúvida da localização e relações anatômicas do aneurisma, houve acompanhamento intra-operatório do neurorradiologista com o intuito de melhorar a precisão do método.

 

 

 

 

RESULTADOS

Os resultados são apresentados na Tabela 1.

 

 

DISCUSSÃO

O diagnóstico dos aneurismas intracranianos ainda possui como método "padrão ouro" a angiografia digital através da técnica de Seldinger, com cateterização da artéria femoral e estudo dos quatro grandes vasos intracranianos, possuindo elevada especificidade e sensibilidade. Tem a grande vantagem de ser realizado o estudo dinâmico da vascularização intracraniana, porém, como todo método invasivo, possui riscos de complicações que variam entre 0,1% e 2,6% em pacientes saudáveis, com déficit neurológico permanente em 0,33% dos pacientes submetidos ao estudo angiográfico nas mais diversas patologias e de 0,63% nos pacientes com doenças cérebro-vasculares14. Em estudo comparativo entre angiografia convencional e angiotomografia15, é vista como vantagem do método a possibilidade de reconstrução tridimensional da arquitetura dos vasos do polígono de Willis, permitindo rotação de até 360º, além de relacionar o aneurisma com as estruturas ósseas adjacentes, o que possibilita ao neurocirurgião melhor precisão no entendimento das relações do aneurisma e estruturas ósseas em torno deste, o que poderá influenciar na escolha da abordagem. Outra vantagem do método é o diagnóstico de calcificações no colo aneurismático, quando presentes16-18. Outra vantagem do método é a rapidez, com a necessidade de punção venosa periférica apenas, diminuindo os riscos de complicações, inerentes ao uso de contraste iodado. Segundo Yamamoto e cols19, a dose mínima de contraste iodado utilizada para a realização do exame é de 1ml/kg com velocidade de infusão de 2ml/s, o que possibilita uma concentração de contraste sanguíneo na artéria carótida de mais de 15mg/ml por tempo estimado de 20 segundos. Isto permite obter imagens do polígono de Willis, veias profundas e corticais.

Dusch e cols20 dividiram os pacientes em grupos clínicos definidos para a realização de angiotomografia: grupo 1) avaliação de pacientes mostraram lesões suspeitas de aneurisma intracraniano em exame de tomografia convencional, após investigação de cefaléia ou outros sintomas; grupo 2) seguimento dos pacientes com aneurismas intracranianos não tratados, avaliando aumento de seu tamanho; grupo 3) seguimento dos aneurismas tratados mas que apresentaram colo residual após o tratamento; grupo 4) diagnóstico de aneurismas em pacientes com hemorragia subaracnóidea e angiografia convencional normal; grupo 5) screening para famílias com história de aneurisma intracraniano e para pacientes com passado de aneurisma.

A angiotomografia tridimensional possui sensibilidade em torno de 95% para todos os aneurismas intracranianos com tamanho acima de 2mm21-25. Para os aneurismas da artéria comunicante anterior, a angiotomografia tridimensional mostra-se superior à angiografia convencional24,26.

As limitações do método são: 1) a não visualização de vasos com o diâmetro menor que 1mm, como as artérias perfurantes, artéria coroidéia anterior, artéria recorrente de Heubner; 2) dificuldade na discriminação entre artéria e veia, quando demonstradas simultaneamente; 3) não informação da dinâmica vascular; 4) aneurismas localizados na base do crânio, como os aneurismas da carótida cavernosa23.

A avaliação pós operatória dos pacientes submetidos ao tratamento cirúrgico dos aneurismas intracranianos, com a clipagem do aneurisma, pode ser realizada com o uso da angiotomografia em 3D, avaliando: a clipagem total ou não do colo aneurismático; a oclusão inadivertida de vasos na periferia do aneurisma e colo aneurismático; a permanência de fluxo sanguíneo no interior do aneurisma27.

Na avaliação do exame de angiotomografia em 3D é de fundamental importância a participação do neurocirurgião juntamente com o neurorradiologista com experiência no método18.

 

CONCLUSÃO

A angiografia digital convencional ainda é o método "padrão ouro" na avaliação dos aneurismas intracranianos. Hoje, o arsenal diagnóstico possui outros métodos investigativos, porém todos eles colocam-se como estudos complementares, não podendo substituir a angiografia digital convencional. A angiotomografia tridimensional é um novo método diagnóstico que vem sendo usado nos últimos anos, trazendo novas informações na investigação dos aneurismas intracranianos. Tem como principais vantagens a rapidez, pouca invasividade, menor risco de complicações, menor custo; fornece ainda detalhes que não são vistos na angiografia digital, podendo diminuir os riscos de morbi-mortalidade inerentes à patologia. Em virtude das vantagens encontradas no método, todos os casos de hemorragia subaracnóidea admitidos no serviço são submetidos a investigação inicial com angiotomografia em 3D; em grande quantidade de casos fornece subsídios para definição do tratamento, mesmo sem a ajuda da angiografia digital. Outro fator importante é a experiência do neurorradiologista com o método, por não ser ainda utilizado de maneira generalizada.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Guilherme Cabral de Andrade
Avenida Dr. Altino Arantes 865/62
04042-000 São Paulo SP, Brasil
E-mail: cabralnec@uol.com.br

Recebido 19 Junho 2002, recebido na forma final 23 Agosto 2002.
Aceito 12 Setembro 2002.

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