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Arquivos de Neuro-Psiquiatria

versão impressa ISSN 0004-282Xversão On-line ISSN 1678-4227

Arq. Neuro-Psiquiatr. v.62 n.3a São Paulo set. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0004-282X2004000400031 

Síndrome de Hallervorden Spatz: achados na resonância magnética. Relato de caso

 

Hallervorden Spatz syndrome: magnetic resonance findings. Case report

 

 

Luciano FarageI; Mário Augusto Padula CastroI; Túlio Augusto Alves MacedoI; Marcelo Cardoso de AssisII; Lincoln Pereira de SouzaIII; Luiz Oliveira de FreitasIV

IMédico-Residente do Setor de Radiologia, Hospital de Clínicas (HC), Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia MG, Brasil(UFU)
IIProfessor Adjunto da Disciplina de Neurologia, Departamento de Cirurgia, Faculdade de Medicina (Famed), UFU
IIIProfessor Assistente de Radiologia, Departamento de Clínica Médica, Famed-UFU e Médico do Centro de Diagnóstico por Imagem (CDI), Hospital Santa Genoveva
IVProfessor Adjunto de Radiologia, Departamento de Clínica Médica, Famed-UFU, Chefe do Setor de Radiologia do HC-UFU e Médico do CDI-Uberlândia

 

 


RESUMO

A síndrome de Hallervorden-Spatz é afecção neurodegenerativa, autossômica recessiva com duas apresentações clínicas: precoce e tardia. Esta última é caracterizada pelo acometimento psiquiátrico e a presença de sinais piramidais e extrapiramidais. Relatamos o caso de mulher de 41 anos, com história de alterações extrapiramidais. O exame de ressonância magnética (RM) mostrou o sinal dos olhos-de-tigre, lesão dos globos pálidos mediais com deposição de ferro periférica (hipo-sinal) e gliose central (hipersinal), nas seqüências com tempo de repetição (TR) longo. Há forte relação entre o sinal na RM e mutações no gene responsável pela lesão, fazendo deste exame sensível o suficiente para a realização do diagnóstico da doença.

Palavras-chave: síndrome de Hallervorden-Spatz, ressonância magnética, sinal do olho-de-tigre.


ABSTRACT

Hallervorden-Spatz syndrome is a neurodegenerative disease, autosomic recessive with two clinical features: early and late onset. Psychiatric, pyramidal and extrapyramidal signs are present in the late subtype. We report the case of a 41-old woman with extrapyramidal signs. Magnetic resonance imaging (MRI) showed the eye-of-the-tiger sign in the medial globus pallidus. This is due to a gliosis (increased signal) and accumulation of surrounding iron (decreased signal intensity) in long TR sequences. There is a strong relationship between MRI findings and the gene mutation responsable for this disease. It makes the MRI sensible for diagnosing this syndrome.

Key words: Hallervorden Spatz syndrome, magnetic resonance imaging, eye-of-the-tiger sign.


 

 

A síndrome de Hallervorden-Spatz (HS) (2342003) é afecção neurodegenerativa autossômica recessiva relacionada a mutações do gene localizado no cromossomo 20p131-3. É caracterizada por distúrbios de deposição do ferro nos globos pálidos e substância negra e perda neuronal1-4. São descritas duas formas de apresentação da doença: uma forma precoce, clássica e uma forma tardia, atípica1,5.

Na forma clássica o aparecimento é precoce (primeira década) e os achados clínicos são desequilíbrio e alterações extrapiramidais (distonia, disartria, rigidez e movimentos coreicos e atetósicos)1,2,4,5. Nesta forma ocorre evolução rápida da doença com perda da capacidade de deambular em 10 anos após o diagnóstico inicial. A forma atípica apresenta-se numa faixa etária mais tardia, entre a 2ª e 3ª décadas e tem quadro clínico diverso, em que as alterações extrapiramidais são menos graves, as alterações piramidais (espasticidade) são progressivas e os achados psiquiátricos (distúrbio cognitivo, da fala e agressividade) são freqüentes1,2,3,5.

A confirmação diagnóstica pode ser dada pelo estudo histopatológico ou pela imagem de ressonância magnética (RM) que apresenta o sinal do "olho-de-tigre"1,2,4-10. O achado de imagem se caracteriza por hipo-sinal periférico com hipersinal central no globo pálido medial nas seqüências de tempo de repetição longos - spin-echo poderadas em T2 e FLAIR ("fluid attenuation inversion recovery"). A zona periférica corresponde a áreas de deposição de ferro e a região central a gliose1,6-8.

Relatamos um caso de forma tardia e seus achados de RM.

 

CASO

Mulher, 41 anos, com história iniciada há seis anos com hipercinesia de membro superior direito, caracterizada como movimentos coréicos, com piora progressiva destes sintomas. Há dois anos vem apresentando disartria e discinesia oro-facial. A paciente é filha de pais consangüíneos (primos de primeiro grau) e nega casos semelhantes na família.

O exame neurológico mostra paciente consciente, com desorientação temporal e distúrbios da fala (disartria). Presença de movimentos coréicos na face e membro superior direito. Hiperreflexia profunda, simétrica. Reflexos cutâneo-plantares em flexão. O exame oftalmológico não apresentou anormalidades.

O estudo por RM, em aparelho de 1,0T (Siemens Magnetom Expert), demonstrou lesões simétricas nos globos pálidos com hipo-sinal nas seqüências ponderadas em T1 (TR 570 ms TE 14 ms). Não houve realce com uso do agente paramagnético (gadolínio) na dose de 0,1 mmol/ Kg. As cabeças dos núcleos caudados tinham volume normal. Nas seqüências ponderadas em turbo T2 (TR 5667ms TE 128ms) e FLAIR (TR 5500ms TE 114ms) as lesões apresentaram centro com hiper-sinal e margens com hipo-sinal, Figura 1 (cortes axiais) e Figura 2 (cortes coronais), caracterizando o sinal do "olho-de-tigre".

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A HS foi descrita originalmente em 1922 por dois patologistas11. A patogênese desta doença está no distúrbio do metabolismo do ferro com sua conseqüente deposição anormal no tecido cerebral, por alteração do gene da pantothenate kinase1,3,12. Hayflick et al. em 2003 descreveram uma longa série de casos em que a HS não está relacionada à mutação de uma única enzima, mas de um grupo destas que leva ao polimorfismo clínico da síndrome1. Neste mesmo estudo a alteração da RM foi encontrada mais freqüentemente na forma clássica e associada a mutação do gene da pantothenate kinase 2 (PANK2)1,12. O sinal na RM se encontrado na forma tardia (menos freqüente) também se mostrou associado a mutação no mesmo gene, sugerindo grande associação gênica com a RM.

A revisão da literatura nacional mostra, até o presente momento, dez casos relatados sendo nove estudados com RM em que o diagnóstico foi realizado pela presença do sinal do "olho-de-tigre"10,14 e um com tomografia computadorizada comprovado na necropsia13.

O uso da RM é preconizado nos estudos recentes para o diagnóstico da HS1,4-9,14 em que devem ser realizadas seqüências de longo tempo de repetição (TR), o que permite um realce das áreas de gliose associadas a lesão. Não houve nenhum relato de realce pelo agente paramagnético nos exames realizados1,4-9,14. Savoriato et al.7 estudaram oito casos compando os achados de RM em aparelhos de 0,5 e de 1,5T e concluiram que os aparelhos de mais alto campo têm mais sensibilidade na demonstração das lesões características.

Em pacientes adultos, como o nosso caso, clinicamente é necessário realizar o diagnóstico diferencial entre HS com as doenças de Wilson, Huntington, Parkinson, encefalopatia pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e hipotireodismo de aparecimento tardio. O diagnostico diferencial deve ser realizado pelos estudos de RM, bioquímico e genético1,2,4,12.

 

REFERÊNCIAS

1. Hayflick SJ, Westaway SK, Levinson B, et al. Genetic, clinical, and radiographic delineation of Hallervorden-Spatz syndrome. NEJM 2003;348:33-40.        [ Links ]

2. Garg N, Hanna PA. Hallervorden-Spatz syndrome. URL: http://www. emedicine.com/neuro/topic151.html (visitado em 06/08/2003).        [ Links ]

3. Online Mendelian Inheritance in Man: URL: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/omim (visitado em 06/08/2003).        [ Links ]

4. Shah J, Patkar D, Patankar T, Krishnan A, Prasad S, Limid J. Hallervorden-Spatz disease: MR Imaging. J Postgrad Med 1999;45:114-117.        [ Links ]

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11. Hallervorden J, Spatz H. Eigenartige Erkrankung im extrapyramidalen System mit besonderer Beteiligung, des Globus pallidus und der Substantia nigra. Z Gesamte Neurol Psychiatr 1922;79:254-302.        [ Links ]

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Recebido 7 Outubro 2003, recebido na forma final 21 Janeiro 2004. Aceito 4 Março 2004.

 

 

Dr. Luciano Farage - SQS 207 Bloco A apto 201 - 70253-010 Brasília DF - Brasil. E-mail: lucianofarage@yahoo.com.br

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