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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol. 56 n. 1 Campinas  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87051997000100011 

NOTA

 

COMPORTAMENTO DE SEMENTES DE GRÃO-DE-BICO NA ARMAZENAGEM(1)

 

LUIZ D'ARTAGNAN DE ALMEIDA(2,7), NELSON RAIMUNDO BRAGA(3), RUI RIBEIRO DOS SANTOS(4), PAULO BOLLER GALLO(5) e JOSÉ CARLOS VILA NOVA ALVES PEREIRA(6)

 

 

RESUMO

Lotes homogêneos de sementes de grão-de-bico (Cicer arietinum L.) colhidas em quatro locais no Estado de São Paulo, em 1991, foram analisados, no início, quanto à umidade, germinação, vigor e massa de mil sementes. Em seguida, procedeu-se ao armazenamento, por dois anos, nas seguintes situações: (a) em câmara à temperatura de 12oC e 48% de umidade relativa, (b) em laboratório sem controle das condições ambientes. Efetuaram-se testes de germinação e de vigor pelo método de envelhecimento acelerado (42oC/48 horas), aos 6, 12 e 24 meses, a fim de avaliar o comportamento das sementes nas diferentes formas de armazenagem. As sementes colhidas em Campinas revelaram maior massa que as demais, apesar da semelhança entre os lotes, quanto ao teor de umidade. Os índices de germinação e de vigor decresceram de maneira significativa com o tempo de armazenamento. Sementes conservadas em câmara, cujas condições eram controladas, mantiveram melhor qualidade em relação às armazenadas em laboratório. Sementes oriundas de Monte Alegre do Sul mostraram índices de germinação e vigor superiores aos das demais localidades; quanto aos valores menos satisfatórios, pôde-se observá-los no material de Campinas.

Termos de indexação: germinação, vigor, sementes, grão-de-bico, armazenamento.

 

ABSTRACT

CHICKPEA SEEDLOT BEHAVIOUR DURING STORAGE

Chickpea (Cicer arietinum L.) homogeneous seedlots, harvested in four sites in São Paulo State, Brazil, were initially evaluated for germination, vigor, moisture content and seed weigth. Thereafter, seedlots were submitted to storage, during two years, under the following conditions: (a) chamber at 12oC and 48% of relative humidity and (b) at room conditions. Germination and vigor tests (accelerated aging test, 42oC/48h), were applied at 6, 12, and 24 month intervals. All four seedlots showed similar water contents, ranging from 10.7 to 11.2%. However, seeds from Campinas were heavier than those harvested in the other localities. Seed germination and vigor decreased significantly with the increase of the storage period. Seedlots stored under controlled conditions presented higher germination and vigor values than those kept in the laboratory. Seeds harvested at Monte Alegre do Sul showed better germination and vigor than those from other places.

Index terms: germination, vigor, seeds, chickpea, storage.

 

 

A cultura de grão-de-bico ainda não se firmou no Brasil, sendo escassas as informações sobre os problemas que podem afetar o seu desenvolvimento. No Estado de São Paulo, segundo Braga (1989), trabalhos de pesquisa com grão-de-bico vêm-se intensificando apenas recentemente, e visam, sobretudo, à avaliação de genótipos para seleção dos mais adequados às condições paulistas de cultivo.

A qualidade do material a ser semeado é fator relevante no empreendimento agrícola e, nesse contexto, torna-se fundamental o caráter fisiológico dos lotes de sementes. Entre os principais fatores que podem interferir na germinação e no vigor das sementes, destacam-se as condições de armazenamento.

De acordo com Delouche (1968), obtêm-se boas condições para a correta preservação da qualidade fisiológica da semente, mediante localização dos armazéns em áreas com clima favorável. Harrington (1972) concluiu que para a correta preservação da viabilidade das sementes, faz-se necessário reduzir a umidade e a temperatura do confinamento a níveis adequados, mantendo-os pelo período de armaze-namento. Carvalho e Nakagawa (1983) incluíram, entre os fatores que afetam a conservação das sementes, as condições climáticas durante a maturação, pois tanto o excesso como a falta de água podem provocar a perda do potencial germinativo. Ellis et al. (1982) estudaram o efeito de diversos fatores na longevidade de sementes de grão-de-bico, caupi e soja e verificaram que, nas três espécies, à perda da viabilidade correspondeu o aumento da temperatura na armazenagem.

Segundo esses autores, o envelhecimento das sementes é determinado pelo tempo, pela temperatura e pelo teor de umidade durante o período em que ficam armazenadas. Smith et al. (1987) afirmaram que o índice de germinação das sementes de grão-de-bico do cultivar Garnet, conservadas a 22oC, melhorou com a idade, atingindo o máximo aos 23 meses após a colheita. Sendo assim, as sementes do referido cultivar têm necessidade de um tempo, após a colheita, para atingirem a maturação. Frisbee et al. (1988) observaram que as mudanças no ambiente de armazenamento, como, por exemplo, de uma temperatura que passa de 5 para 23oC, provocaram rápida queda no índice de germinação e aumento na porcentagem de sementes duras. Ram et al. (1989), estudando as relações entre vigor em laboratório e emergência no campo, para sementes de grão-de-bico, concluíram que o teste padrão de germinação e o teste de envelhecimento acelerado foram os que melhor se correlacionaram com a emergência no campo.

O presente trabalho teve por objetivo estudar o comportamento da germinação e do vigor de sementes de grão-de-bico, colhidas em diferentes localidades no Estado de São Paulo e submetidas a duas condições de armazenamento por um período de dois anos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizaram-se sementes de grão-de-bico (Cicer arietinum L.) do cultivar IAC-Marrocos, provenientes de campos de multiplicação localizados nas Estações Experimentais do Instituto Agronômico, em Monte Alegre do Sul, Ribeirão Preto, Mococa e Campinas, fazendo-se uso de um lote por local.

Após a colheita, as sementes foram beneficiadas em laboratório, com o objetivo de eliminar impurezas e malformações; obtiveram-se, portanto, lotes homogêneos de sementes puras. Determinou-se o teor de umidade, utilizando-se duas amostras de 100 g cada uma, pelo método da estufa a 105oC por 24 horas, conforme as Regras para Análise de Sementes (Brasil, 1992).

Determinou-se, também, a massa de mil sementes por meio de oito repetições de cem sementes por teste, segundo as mesmas regras (Brasil, 1992).

Os testes de germinação foram desenvolvidos com quatro repetições de cinqüenta sementes, que eram colocadas entre folhas de papel-toalha Germitest. Em seguida, todo o material foi levado ao germinador tipo câmara com temperatura alternada de 20-30oC (20oC por 16 horas e 30oC por 8 horas), sendo as contagens efetuadas aos cinco e oito dias após a semeadura, conforme prescrevem as Regras para Análise de Sementes (Brasil, 1992).

Para o teste de vigor, utilizou-se o método do envelhecimento acelerado (Delouche e Baskin, 1973), com quatro repetições de cinqüenta sementes mantidas em câmara à temperatura constante de 42oC e com cerca de 100% de umidade relativa. As sementes foram expostas a tais condições por 48 horas e, a seguir, submetidas ao referido teste padrão de germinação.

Após as determinações iniciais de germinação e vigor, os lotes foram divididos em duas partes, acondicionados em sacos de papel e armazenados no Centro Experimental de Campinas, em duas situações distintas, a saber: (a) câmara à temperatura de 12oC e 48% de umidade relativa; (b) laboratório sem controle das condições ambientes.

Verificou-se o desempenho das sementes durante o armazenamento, efetuando-se teste padrão de germinação e de envelhecimento acelerado, aos 6, 12 e 24 meses. Os dados obtidos em porcentagem foram transformados em arco seno da raiz quadrada de %/100, para análise estatística. O delineamento experimental utilizado foi inteiramente ao acaso, em esquema fatorial, sendo os fatores compostos por locais (Monte Alegre do Sul, Ribeirão Preto, Mococa e Campinas) e tempo de armazenamento (0, 6, 12 e 24 meses), em dois ambientes, com quatro repetições. Compararam-se as médias pelo teste de Tukey a 5%, conforme Pimentel-Gomes (1985).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os diversos lotes de semente apresentaram teores de umidade em níveis adequados para o armazenamento, tendo-se verificado os seguintes valores: 11,2; 11,1; 10,8 e 10,7% para Monte Alegre do Sul, Ribeirão Preto, Mococa e Campinas respectivamente.

É possível que as pequenas diferenças nos teores de umidade se devam às condições locais de secagem natural, as quais, por sua vez, não devem ter exercido influência na germinação e vigor das sementes. Quanto à massa de sementes, observaram-se diferenças significativas entre os lotes, pois o de Campinas atingiu o maior valor (26,09 g/cem sementes), seguido pelo de Monte Alegre do Sul (25,32 g/cem sementes), Mococa (24,23 g/cem sementes) e, finalmente, Ribeirão Preto (23,34 g/cem sementes).

O tamanho das sementes colhidas nesses quatro locais pode ser classificado como médio, em função da massa, conforme o que foi relatado por Braga et al. (1992).

Pelos resultados inseridos no quadro 1, verifica-se que as sementes de Monte Alegre do Sul, no tempo zero e aos seis meses de armazenamento, mostraram índices de germinação superiores aos das demais localidades, embora sem diferir significativamente das de Mococa aos seis meses. Entretanto, aos doze meses, seu índice de germinação caiu muito, igualando-se ao de Ribeirão Preto e Mococa. O material de Campinas apresentou os piores índices de germinação em todas as épocas de análise. Todos os lotes de semente apresentaram índices de germinação decrescentes com o tempo de armazenamento em condições não controladas, contrariando o que foi verificado por Smith et al. (1987). Esses autores verificaram que o índice de germinação das sementes do cultivar Garnet aumentou com o tempo de conservação em ambiente com temperaturas entre 19 e 28oC.

 

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As sementes de Campinas, aos seis meses de armazenamento, e as das demais localidades, aos doze, apresentaram índices de germinação entre 58,57 e 70,05%, o que as inviabiliza como semente básica. Com relação ao vigor, observou-se que todos os lotes apresentaram índices de germinação bem mais baixos após o envelhecimento, durante todo o tempo de armazenagem, comprovando o efeito do tratamento sobre as sementes.

Ficou claro, portanto, que a utilização somente do teste padrão de germinação não foi suficiente para detectar as verdadeiras condições dos lotes aqui estudados, conforme já destacado por Delouche e Caldwell (1960), para diversas espécies. Verificou-se, ainda, que as sementes de Monte Alegre do Sul, Mococa e Ribeirão Preto, apresentaram, no início, índices de germinação, após o envelhecimento, significativamente superiores ao das provenientes de Campinas, que se mostraram, ao longo do armazenamento, como as de pior qualidade. Deve-se ressaltar que as sementes colhidas nas quatro localidades apresentaram, aos seis meses de armazenamento, índices de vigor muito baixos, não sendo mais recomendável sua utilização como semente. Também, nesse caso, o vigor dos diversos lotes decresceu de forma significativa com o tempo de armazenagem, em condições de laboratório.

Considerando que essas condições são, em geral, semelhantes às encontradas para armazenamento, as sementes de grão-de-bico deverão receber tratamento especial para sua correta conservação.

Quanto à germinação em ambiente controlado, observa-se, no quadro 2, que as sementes de Monte Alegre do Sul mostraram índices sempre superiores aos das demais localidades, ao passo que as de Campinas foram as de pior qualidade, sobretudo a partir dos seis meses de armazenamento, quando seus índices de germinação foram significativamente inferiores aos demais. Sementes de Ribeirão Preto e Mococa apresentaram, durante todo o armazenamento, valores intermediários quanto à germinação e, juntamente com as de Monte Alegre do Sul, mostraram índices superiores a 70% até os 24 meses, qualificando-se, pois, como semente básica.

 

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Em relação ao vigor, pode-se verificar que os índices após o envelhecimento foram sempre menores que os de germinação; entretanto, a queda não foi tão acentuada como no caso das sementes armazenadas em laboratório, o que demonstra melhor conservação em condições controladas. As sementes colhidas em Monte Alegre do Sul e Ribeirão Preto mantiveram índices de vigor acima de 70% até 24 meses de armazenamento. O mesmo aconteceu com as sementes de Mococa até 12 meses; as de Campinas, porém, mostravam, já aos 6 meses, índices de vigor ao redor de 60%, comprometendo sua qualidade como semente básica. Verifica-se, ainda, que os índices de vigor dos diversos lotes decresceu com o tempo de armazenamento, embora em alguns casos, a queda não tenha sido significativa.

Em face dos resultados deste trabalho, observa-se que os índices de germinação e de vigor decresceram de forma significativa com o período de armazenamento, sobretudo em condições não controladas, o que sugere a necessidade de cuidados especiais no que se refere à correta conservação das sementes. As sementes de Monte Alegre do Sul mostraram melhor qualidade, muito provavelmente, pelo fato de aquela localidade estar situada numa região serrana, cujas temperaturas são mais baixas em comparação à dos demais locais estudados (Camargo et al., 1974).Temperaturas menos elevadas permitem que a cultura se desenvolva em condições mais favoráveis, produzindo sementes com qualidade superior. Tal opinião é corroborada por Sharma (1984), o qual afirmou que o grão-de-bico se desenvolve muito bem em regiões de clima frio e seco. Em termos de qualidade, o material de Campinas foi o menos satisfatório.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(1) Recebido para publicação em 20 de agosto de 1996 e aceito em 6 de janeiro de 1997. Trabalho apresentado no IX Congresso Brasileiro de Sementes, Florianópolis (SC), 1995.

(2) Seção de Sementes, Instituto Agronômico (IAC), Caixa Postal 28, 13001-970 Campinas (SP).

(3) Seção de Leguminosas, IAC.

(4) Estação Experimental de Monte Alegre do Sul, IAC, Caixa Postal 1, 13910-000 Monte Alegre do Sul (SP).

(5) Estação Experimental de Mococa, IAC, Caixa Postal 58, 13730-970 Mococa (SP).

(6) Estação Experimental de Ribeirão Preto, IAC, Caixa Postal 271, 14001-970 Ribeirão Preto (SP).

(7) Com bolsa de produtividade científica do CNPq.

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