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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol. 56 n. 1 Campinas  1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87051997000100012 

V. FITOTECNIA

 

MISTURAS DE HERBICIDAS: EFEITOS DE ADJUVANTES NO CONTROLE DE PLANTAS INFESTANTES NA CULTURA DA SOJA(1)

 

VALDEMIR ANTONIO PERESSIN(2,5), RICARDO VICTÓRIA FILHO(3,6) e DILERMANDO PERECIN(4,6)

 

 

RESUMO

Estudaram-se efeitos de misturas de graminicidas com latifolicidas, aplicados em pós-emergência, acrescidos ou não de seus respectivos adjuvantes, no controle de plantas infestantes na cultura da soja (Glycine max (L.) Merrill) cv. IAC-8, em condições de campo. Os tratamentos consistiram em quatro graminicidas (haloxifop-metil, HM; sethoxydim, S; quizalofop-etil, QE e fluazifop-p-butil, FpB) e quatro latifolicidas (chlorimuron-etil, CE; fomesafen, Fom; fluoroglycofen, Flu e lactofen, Lac), aplicados isoladamente e em misturas, além das testemunhas com e sem convivência da cultura com a comunidade infestante. Os resultados mostraram que os adjuvantes, de maneira geral, intensificaram a injúria dos herbicidas. Os graminicidas mais eficazes, aplicados isoladamente ou em misturas, no controle de Eleusine indica e de monocotiledôneas, foram HM, QE e FpB. Não houve diferenças significativas no controle de Digitaria horizontalis entre os quatro graminicidas isolados; porém, as melhores misturas foram as que utilizaram os graminicidas QE ou HM. Para controle de Mollugo verticillata, os melhores tratamentos foram obtidos com Lac aplicado isoladamente e com as misturas de QE, S ou HM com Fom e seus respectivos adjuvantes. As misturas de tanque apresentaram efeitos predominantemente antagonísticos no controle de E. indica, D. horizontalis e monocotiledôneas. Efeitos estatisticamente antagonísticos e sinergísticos no controle de M. verticillata foram obtidos, respectivamente, nas misturas de tanque com Lac e com Fom. Uma possível interação entre os adjuvantes e as misturas de herbicidas ocorreu nas avaliações de controle para E. indica, quando as misturas de S ou de HM foram usadas com ou sem adjuvantes. Os tratamentos com herbicidas não influíram na produção do cultivar de soja IAC-8.

Termos de indexação: soja, misturas de herbicidas, adjuvantes, antagonismo, sinergismo.

 

ABSTRACT

MIXTURES OF HERBICIDES: THE EFFECTS OF SURFACTANTS ON WEED CONTROL IN SOYBEAN CROP

Mixtures of narrowleaf and broadleaf herbicides, with or without their respective surfactants, were evaluated as to postemergence selectivity for weed control in a soybean (Glycine max (L.) Merrill) cv. IAC-8 field experiment. Four narrowleaf herbicides (haloxyfop-methyl, HM; sethoxydim, S; quizalofop-ethyl, QE and fluazyfop-p-butyl, FpB) and four broadleaf herbicides (chlorimuron-ethyl, CE; fomesafen, Fom; fluoroglycofen, Flu and lactofen, Lac) were applied either alone or mixed. Two controls, manual weeding and no weeding, were included. The surfactants increased the fitotoxicity of the herbicides. The most effective narrowleaf herbicides applied either alone or in mixtures, in controlling Eleusine indica and narrowleaf weeds were HM, QE and FpB. No significant differences were observed among the four narrowleaf herbicides for the control of Digitaria horizontalis Willd. However, the best mixture combinations were those with QE or HM. The best control of Mollugo verticillata L. was obtained with Lac and mixtures of Fom and QE, S and HM with their respective surfactants. The tank mixtures resulted in antagonistic effects for the control of E. indica, D. horizontalis and narrowleaf weeds. Antagonistic effects were observed in the control of M. verticillata, when Lac was mixed with the following herbicides: S, HM, QE or FpB. Sinergistic effects were observed in the control of this species with mixture of Fom with S, HM and FpB. A possible interaction among the mixtures of herbicides with their surfactants was observed in E. indica control, when the mixtures with narrowleaf herbicides, S or HM, were used, alone or mixed with their respective surfactants. Soybean production was not affected by the tested herbicides treatments, when compared with the manual weeded control.

Index terms: soybean, mixtures of herbicides, surfactants, antagonism, sinergism.

 

 

1. INTRODUÇÃO

As perdas de produção de soja causadas pelas plantas infestantes, em condições de clima tropical e subtropical, são bastante variáveis, podendo ser totais. Blanco et al. (1973) registraram perdas da ordem de 90% da produção em dois experimentos desenvolvidos na região de Campinas (SP). Mas, de maneira geral, situam-se na faixa de 50 a 60% (Bhan, 1974; Hammerton, 1974; Pulver, 1974). Ao passo que, em clima temperado, essas perdas dificilmente ultrapassam os 25% da produção de grãos (Ashley & Pfeiffer, 1956).

Para prevenir tais efeitos maléficos sobre a cultura, além de outros métodos de controle das plantas infestantes, tem sido utilizado, em média, de 1,6 a 1,7 L ou kg de herbicidas (produto comercial) por hectare/ano (Velini, 1989). Esse elevado consumo de herbicidas, associado à grande área de cultivo da soja, faz dessa cultura a maior consumidora nacional desses produtos.

Os herbicidas podem ser aplicados na parte aérea das plantas ou no solo. Aqueles aplicados na parte aérea e seletivos à cultura da soja possuem, em geral, efeitos mais pronunciados ou eficazes sobre as gramíneas ou sobre as dicotiledôneas. Como as espécies de plantas infestantes apresentam-se, quase sempre, de maneira muito heterogênea no solo, a mistura de graminicidas com latifolicidas faz-se necessária, tornando-se, pois, prática comum entre os produtores. Tal prática, contudo, não é recomendada pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura, em função do desconhecimento das características toxicológicas dessas misturas (Almeida & Rodrigues, 1988).

Segundo Colby (1967), quando a resposta da mistura é maior que a esperada, a mistura é sinergística; quando é menor que a esperada, é antagonística e quando igual, aditiva. Existe grande número de fatores que podem interferir nas interações entre as misturas de herbicidas, entre os quais se encontra a utilização ou não de adjuvantes (Sorensen et al., 1987). A presente pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de estudar os possíveis efeitos de misturas de graminicidas com latifolicidas, aplicados em pós-emergência, em área total, na cultura da soja, com e sem a utilização de seus respectivos adjuvantes, em condições de campo.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

Desenvolveu-se a pesquisa em condições de campo, na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", da Universidade de São Paulo, em Piracicaba (SP), no ano agrícola 1986/87, utilizando o cultivar de soja IAC-8, em latossolo vermelho-amarelo distrófico, série Sertãozinho, com as seguintes características químicas e físicas: pH em CaCl2: 5,2; C: 0,42%; PO43- 1,0; K+: 1,0; Ca2+: 8,8; Mg2+: 8,0; Al3+: 1,2; H+: 32,0 em mmolc/dm3 de terra fina seca ao ar e argila 12,0%; limo 9,0% e areia 79,0%.

Empregou-se delineamento experimental de blocos casualizados com três repetições; os trata- mentos consistiram em oito herbicidas, sendo quatro graminicidas (haloxifop-metil(7), sethoxydim(8), quizalofop-etil(9), fluazifop-p-butil(10)) e quatro latifolicidas (chlorimuron-etil(11), fomesafen(12), fluoroglycofen(13), lactofen(14)), aplicados isoladamente e em mistura (um graminicida com um latifolicida), além das testemunhas (duas com e duas sem a convivência da cultura com as plantas infestantes). Avaliaram-se todos os tratamentos com ou sem a utilização de seus respectivos adjuvantes, resultando em 52 tratamentos dispostos no esquema fatorial, sendo um fator a utilização ou não do adjuvante e o outro fator o herbicida, a testemunha sem capina e a testemunha com capina. Conforme o quadro 1, no caso das testemunhas, do chlorimuron-etil e do lactofen, as parcelas com adjuvantes receberam produto igual ao das parcelas sem adjuvantes.

 

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As parcelas experimentais foram constituídas por quatro linhas de semeadura com 6,0 m de comprimento, espaçadas de 0,5 m, perfazendo 12 m2, com exceção das parcelas testemunhas sem capinas que eram de 24 m2. Entre as linhas das parcelas, foram deixados arruamentos (duas linhas de soja) mantidos permanentemente no limpo para trânsito dentro do ensaio. Consideraram-se como área útil para avalições, os 5 m centrais das duas linhas centrais de cada parcela, num total de 5 m2.

A aplicação dos herbicidas foi feita no dia 15/1/87 (33 dias após a semeadura). No momento da aplicação, a temperatura do ar era de 28,65°C, a umidade relativa do ar, de 66,80% e a umidade do solo, alta. O céu achava-se parcialmente coberto de nuvens, os ventos eram fracos (1,0 a 3,0 km/h) e os primeiros índices pluviométricos foram de 7,2 e 15,0 mm, respectivamente, nos dias 16 e 17/1/87. A precipitação total de janeiro de 1987 e a acumulada de fevereiro de 1987 (até 15/2/87) foram 282,30 e 187,20 mm respectivamente.

Utilizou-se de pulverizador costal, à pressão constante (mantida pelo CO2 comprimido) de 2,1 kgf/cm2, com barra de 1,5 m de comprimento, munida de quatro bicos de jato plano (tipo "leque") 8003, distantes 50 cm uns dos outros, mantidos a 50 cm do solo e com consumo de calda correspondente a 300 L/ha.

A comunidade infestante foi avaliada por meio de duas amostragens de 0,25 m2 por parcela. As espécies presentes foram identificadas e quantificadas antes da aplicação dos herbicidas (1.a avaliação) e vinte dias após (2.a avaliação). Essas determinações foram realizadas em área fixa correspondendo a 10% da área útil de cada parcela. Aos 21 dias após a aplicação dos tratamentos, o ensaio foi totalmente capinado (exceto a testemunha sem capina) e mantido no limpo até a colheita; evitou-se, assim, que se confundisse o efeito da competição com as plantas infestantes com o efeito dos herbicidas na cultura da soja.

Quanto às parcelas testemunhas sem capina, objetivou-se determinar, na segunda avaliação, a importância relativa das espécies componentes da comunidade infestante, as quais foram arrancadas e separadas por espécie, lavadas e secas em estufa de circulação forçada de ar a 70-75°C, até peso constante. Considerou-se apenas a parte aérea das plantas. A biomassa seca foi determinada em balança de precisão de 0,01 g. Em seguida, calcularam-se, para cada população, a densidade relativa, a freqüência absoluta e relativa, a dominância relativa e o índice de valor de importância. De posse de tais valores, calculou-se a importância relativa, segundo Mueller-Dombois & Ellemberg (1974).

No que se refere às plantas infestantes, levantaram-se os seguintes dados: (a) x = número de plantas antes da aplicação dos herbicidas; (b) y = número de plantas aos vinte dias após a aplicação dos herbicidas; (c) y/x = razão ou taxa de alteração do número de plantas, durante o período de observação.

Os efeitos (aditivos, sinergísticos ou antago-nísticos) das misturas de graminicidas com latifolicidas foram determinados pelas diferenças entre os valores observados na prática (obtidos nos tratamentos 17 a 48, quadro 1) e os valores esperados (calculados segundo o critério de Colby, 1967). Submeteram-se tais diferenças à análise da variância, e para testar se a diferença média pode ser nula, empregou-se o teste t = (média . wpe3.jpg (851 bytes) / desvio-padrão, onde n é o número de repetições com que se obtiveram a média e o desvio-padrão na respectiva análise da variância). O valor da diferença, quando há antagonismo, é significativo e negativo, quando há sinergismo, é significativo e positivo. Quando a diferença é não significativa, aceita-se a hipótese de que os efeitos sejam aditivos.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Observou-se a ocorrência de 27 espécies de plantas infestantes inseridas em treze famílias botânicas. Dessas espécies, sete apresentaram importância relativa superior a 3,0% e somente três, importância relativa superior a 10,0% (Quadro 2). Estas últimas foram consideradas as principais espécies de ocorrência no experimento, porque se apresentaram com distribuição mais uniforme no terreno e com freqüência absoluta igual a 100%. Realizou-se a análise estatística com base nos dados dessas espécies principais, ou seja, Eleusine indica, Digitaria horizontalis e Mollugo verticillata. De acordo com Pitelli (1987), D. horizontalis é muitas vezes confundida e citada como D. sanguinalis. Das três espécies infestantes analisadas, duas estão entre as principais do Brasil (Forster & Alves, 1976) e uma, entre as mais importantes do mundo (Holm et al., 1977).

 

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Embora as dicotiledôneas tivessem apresentado índice de importância relativa igual a 56,18%, esse valor estava distribuído em 22 espécies, o que tornou a avaliação geral de controle das dicotiledôneas bastante difícil, em função dos seguintes fatores: (a) diversidade de espécies deste grupo de plantas encontradas na área experimental; (b) heterogeneidade de distribuição das populações; (c) existência de diferença de suscetibilidade das espécies às moléculas de herbicidas. Logo, não foram apresentadas as análises dos dados referentes às dicotiledôneas. Isso não ocorreu para as monocotiledôneas, pois embora o índice de importância relativa tivesse sido igual a 43,81%, estava distribuído em cinco espécies e concentrado em apenas duas.

Os dados relacionados ao controle químico das principais espécies de plantas infestantes e das monocotiledôneas, assim como as respectivas análises das variâncias, encontram-se no quadro 3.

 

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O efeito dos adjuvantes no controle de E. indica, D. horizontalis, monocotiledôneas e M. verticillata foi significativo, indicando que sua utilização, de maneira geral, favoreceu o controle. Esses dados estão de acordo com os de diversos pesquisadores (McWhorter & Jordan, 1976; Camargo, 1986) segundo os quais, a adição de adjuvantes tem aumentado a fitotoxicidade de vários herbicidas aplicados em pós-emergência.

Importa ressaltar que o efeito dos adjuvantes se mostrou dependente do tratamento e da espécie, uma vez que a interação adjuvante x tratamento foi significativa para E. indica e M. verticillata e não significativa para D. horizontalis e monocotiledôneas, concordando com Freed & Montgomery (1958) que também observaram ser a interação adjuvante/herbicida/planta altamente específica. Entretanto, mesmo com interações significativas, os tratamentos mais eficientes no controle das plantas infestantes foram os que se utilizaram de seus respectivos adjuvantes (Quadro 3).

Na aplicação dos graminicidas isolados, os melhores tratamentos no controle de E. indica foram FpB, HM, e QE e no controle de D. horizontalis, não se observaram diferenças significativas (Quadro 3). Slife (1985) comenta que existe diferença de suscetibilidade a graminicidas, tanto dentro de gramíneas anuais como nas perenes. Almeida (1986), avaliando o comportamento de diferentes espécies no tocante ao sethoxydim, concluiu que a ordem de suscetibilidade foi esta: Sorghum bicolor > Brachiaria plantaginea > Zea mays > Digitaria horizontalis > Eleusina indica > Oryza sativa, o que está de acordo com os dados obtidos neste experimento, em que o sethoxydim foi mais eficiente no controle de capim-colchão do que no de capim-pé-de-galinha.

No controle das monocotiledôneas, com graminicidas isolados, observaram-se diferenças altamente significativas, sendo HM, QE e FpB os melhores graminicidas, provavelmente em função da E. indica, uma vez que essa espécie é bastante representativa das monocotiledôneas presentes no experimento. Tais graminicidas também foram os melhores quando aplicados em misturas. Isso não ocorreu no controle de D. horizontalis, para o qual não se observaram diferenças significativas entre os graminicidas isolados; quanto aos graminicidas aplicados em misturas, QE e HM foram os melhores. Entre os latifolicidas com aplicação isolada, o lactofen foi significativamente melhor que os demais, seguido pelo fomesafen e fluoroglycofen (Quadro 3). Almeida & Rodrigues (1988) destacam que entre as principais plantas infestantes dicotiledôneas controladas pelo lactofen e fomesafen, encontra-se o M. verticillata. Considerando-se que em geral as dicotiledôneas são controladas em estádios mais precoces de desenvolvimento, pode-se aceitar que os resultados da presente pesquisa, sobretudo os que se referem ao lactofen, estão de acordo com Almeida & Rodrigues (1988).

No que tange às misturas, houve significância apenas para os latifolicidas, com destaque para o fomesafen, que foi o mais eficiente. É interessante observar que nas aplicações dos herbicidas isolados, o latifolicida mais eficiente foi o Lac, ao passo que nas misturas, foi o Fom (Quadro 3).

Warren (1985) comenta uma série de vantagens no uso de misturas de herbicidas, as quais têm aumentado muito nos últimos anos. Deve-se lembrar, porém, que os efeitos dessas misturas podem não ser iguais aos teoricamente esperados.

De acordo com o método de Colby (1967), por meio dos efeitos dos produtos químicos aplicados isoladamente, calcula-se um valor esperado para esses mesmos produtos quando em mistura. O valor esperado é comparado com o valor observado na prática quando da aplicação das misturas. Se o valor observado na prática for superior, igual ou inferior ao esperado, o efeito é considerado sinergístico, aditivo ou antagonístico respectivamente. Nash (1981) relata como desvantagem desse método a não-consideração da variação do acaso. Para solucionar tal problema, os valores das diferenças (dados observados menos dados esperados) foram submetidos à análise da variância.

Os dados relacionados aos efeitos das misturas sobre a porcentagem de controle (observados menos esperados) das principais espécies de plantas infestantes e das monocotiledôneas constam do quadro 4, assim como as respectivas análises da variância. Esses resultados estão sintetizados na figura 1.

 

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Figura 1. Efeitos de misturas de herbicidas na porcentagem de controle das principais espécies infestantes e das monocotiledôneas. Médias dos graminicidas sem adjuvantes ( foqua.GIF (139 bytes)) ou com adjuvantes (foqua2.GIF (145 bytes)) (A); média geral de todos os tratamentos (com e sem adjuvantes) para os graminicidas quizalofop-etil (QE), sethoxydim (S), haloxifop-metil (HM) e fluazifop-p-butil (FpB) ( B e C ) e para os latifolicidas chlorimuron-etil (CE), fomesafen ( Fom ), fluoroglycofen ( Flu ) e lactofen (Lac ) ( D e E ).

 

A utilização ou não de adjuvantes pode interferir nas interações entre as misturas de herbicidas. A interação adjuvante x graminicida foi significativa para E. indica, evidenciando-se maior tendência ao antagonismo nas misturas de S sem adjuvantes e nas de HM com adjuvantes (Figura 1A). Quanto às misturas de QE e FpB para essa espécie, assim como para os demais tratamentos para D. horizontalis, M. verticillata e monocotiledôneas, não se observaram diferenças significativas quando da adição de adjuvantes. Sorensen et al. (1987), estudando as interações entre acifluorfen e bentazon com e sem a adição de adjuvante, sobre o controle de várias espécies de plantas infestantes, também obtiveram resultados contraditórios entre os tratamentos.

Os dois graminicidas que produziram os maiores efeitos antagonísticos, quando em misturas, no controle de E. indica e D. horizontalis foram, respectivamente, o S sem adjuvante e o HM com adjuvante (Figura 1A) e o FpB e o S (Figura 1B). Whitwell et al. (1985), avaliando graminicidas em misturas de tanque com latifolicidas no controle de Sorghum halepense, concluíram que o S foi o graminicida mais sensível ao antagonismo. Minton et al. (1989) detectaram efeitos significativamente antagônicos nas misturas de fluazifop-p-butil com os sete latifolicidas avaliados no controle de Echinochloa crusgalli. Reduções na eficácia de controle de D. horizontalis nas misturas de graminicidas com latifolicidas já foram observadas por diversos autores (Parker et al., 1985; Godley & Kitchen, 1986; Grichar & Boswell, 1987).

Assim, pode-se sugerir que a interação entre as misturas de graminicidas com latifolicidas é altamente específica e dependente, além de outros fatores, do graminicida utilizado, bem como da espécie de planta infestante.

No tocante às monocotiledôneas, observaram-se diferenças significativas tanto para graminicidas como para latifolicidas (Quadro 4).

Pela figura 1C, observa-se que apenas o graminicida QE não diferiu significativamente de zero, pois os demais (HM, FpB e S) apresentaram comportamento significativamente antagonístico, com destaque para o S.

No caso dos latifolicidas utilizados em misturas para o controle de monocotiledôneas, o Lac foi o mais negativo, ao qual se seguiram CE, Flu e Fom (Figura 1D). É interessante ressaltar que apenas o Fom não diferiu significativamente de zero, uma vez que os demais revelaram comportamentos significativamente antagonísticos, sobretudo o Lac. Desse modo, as misturas com tendências menos antagônicas, no controle de monocotiledôneas, foram as que se utilizaram dos graminicidas HM, QE ou FpB com os latifolicidas Fom, Flu ou CE.

A aplicação em pós-emergência de graminicidas com latifolicidas, em misturas de tanque, normalmente tem resultado em menores níveis de controle de gramíneas do que o esperado, em decorrência das interações entre os herbicidas (Dortenzio & Noris, 1979; Chen & Penner, 1985; Croon & Merkle, 1988). Os dados desta pesquisa confirmam tal observação. Entretanto, isso não ocorre com todas as espécies de gramíneas. Chen & Penner (1985) observaram efeito sinergístico da mistura de acifluorfen com sethoxydim no controle de capim-arroz.

Como visto, as pesquisas têm evidenciado que há antagonismo no controle de gramíneas nas misturas de tanque de graminicidas com latifolicidas. Além disso, dados têm evidenciado a ausência ou a redução de antagonismo, quando os graminicidas e os latifolicidas são aplicados separadamente, em especial quando os graminicidas são aplicados antes dos latifolicidas e espaçados por alguns dias. Isso pode sugerir que o antagonismo ocorre com a mistura dos compostos, mas as análises químicas, até o momento, não revelaram nenhuma alteração nas soluções herbicídicas (Slife, 1985; Godley & Kitchen, 1986; Croon & Merkle, 1988; Gerwick, 1988; Croon et al., 1989).

Muitos pesquisadores têm demonstrado que os herbicidas difenil-éteres, as tiadiazinas, assim como as sulfonil-uréias reduzem o controle das gramíneas em função do decréscimo na absorção e/ou translocação dos herbicidas fenoxipropiônicos e dos herbicidas ciclocetonas (Godley & Kitchen, 1986; Chow, 1988; Gerwick, 1988; Croon et al., 1989). No entanto, nem todos os autores detectaram essa redução na absorção e/ou na translocação (Minton et al., 1989), mas o antagonismo da mistura foi constatado, o que demonstra a complexidade do assunto e a necessidade de mais pesquisas para, de fato, determinar a razão dessas interações.

Com relação ao efeito de misturas de herbicidas no controle de M. verticillata, a análise da variância detectou diferenças altamente significativas apenas para latifolicidas (Quadro 4), entre os quais o Fom e o Lac foram os únicos que produziram efeitos significativamente sinergísticos e antagonísticos respectivamente (Figura 1E).

Informações sobre os efeitos de aplicações dos herbicidas graminicidas com latifolicidas, em misturas de tanque, no controle de dicotiledôneas são pouco encontradas na literatura. Grichar & Boswell (1987) relatam que o controle de Amarantus hybridus pelo 2,4-DB não foi afetado pelas misturas de tanque com fluazifop-P ou haloxyfop. Chow (1988), trabalhando com quatro graminicidas em mistura de tanque com chlorsulfuron, concluiu que o controle de folhas largas proporcionado pelo chlorsulfuron não foi afetado pelos graminicidas. Também nesta presente pesquisa, o controle de M. verticillata pelo CE ou pelo Flu não foi estatisticamente afetado pelas misturas de tanque com os graminicidas avaliados.

Por outro lado, foram detectados efeitos estatisticamente antagonísticos e sinergísticos no controle dessa espécie, respectivamente, nas misturas de tanque de Lac e de Fom com todos os graminicidas avaliados (Figura 1E e Quadro 4).

A análise da variância, no que concerne à produtividade da cultura, mostra que apenas a testemunha sem capina diferiu significativamente dos demais tratamentos (Quadro 5).

 

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Comparando-se a produtividade das parcelas que permaneceram todo o ciclo no limpo, com as que permaneceram por todo o ciclo em convivência com a comunidade infestante, observa-se que a redução na produção ocasionada pelas plantas infestantes foi da ordem de 45,0%. Jackson et al. (1985) obtiveram reduções bastante variáveis na produtividade da cultura da soja, oscilando entre 31 e 95%.

 

4. CONCLUSÕES

1. O efeito dos adjuvantes mostrou-se dependente do herbicida e da espécie, tanto na avaliação de controle como na determinação das possíveis interações entre as misturas de herbicidas.

2. Os melhores graminicidas aplicados isoladamente (HM, QE e FpB), no controle de E. indica e monocotiledôneas, também foram os melhores quando aplicados em misturas.

3. Todos os graminicidas aplicados isoladamente foram eficientes no controle de D. horizontalis, ao passo que os melhores aplicados em misturas foram QE e HM.

4. Nas aplicações dos herbicidas isolados, no controle de M. verticillata, o Lac foi mais eficiente; nas misturas, foi o Fom.

5. As misturas de tanque resultaram em efeitos predominantemente antagonísticos no controle de E. indica, D. horizontalis e monocotiledôneas.

6. O efeito de misturas de herbicida no controle de M. verticillata evidenciou que o Fom e o Lac foram os únicos latifolicidas que produziram efeitos significativamente sinergísticos e antagonísticos respectivamente.

7. Houve redução da ordem de 45,0% na produção de grãos do cultivar de soja IAC-8, na ausência de controle das plantas infestantes. Não houve diferenças de produção de grãos entre os tratamentos com herbicidas que, por sua vez, não diferiram da testemunha com capina.

 

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(1) Parte da Dissertação de Mestrado do primeiro autor, defendida na ESALQ/USP em 31-11-91. Trabalho apresentado no XIX Congresso Brasileiro de Herbicidas e Plantas Daninhas, Londrina (PR), de 26 a 29 de julho de 1993. Recebido para publicação em 17 de abril e aceito em 20 de setembro de 1996.

(2) Seção de Raízes e Tubérculos, Instituto Agronômico (IAC), Caixa Postal 28, 13001-970 Campinas (SP).

(3) Departamento de Horticultura, ESALQ/USP, Caixa Postal 9, 13418-900 Piracicaba (SP).

(4) Departamento de Ciências Exatas, FCAV/UNESP, Rodovia Carlos Tonanni, km 5, 14870-000 Jaboticabal (SP).

(5) Com bolsa de Doutorado da CAPES.

(6) Com bolsa de produtividade científica do CNPq.

(7) Verdict, 240 g/L, concentrado emulsionável.

(8) Poast, 184 g/L, concentrado emulsionável.

(9) Assure, 96 g/L, concentrado emulsionável.

(10) Fusilade 125, 125 g/L, concentrado emulsionável.

(11) Classic 250, 250 g/L, grânulos dispersíveis em água.

(12) Flex, 250 g/L, solução aqüosa concentrada.

(13) Compete, 240 g/L, concentrado emulsionável.

(14) Cobra, 240 g/L, concentrado emulsionável.

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