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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol. 56 n. 2 Campinas  1997

https://doi.org/10.1590/S0006-87051997000200009 

IV. TECNOLOGIA DE SEMENTES

 

PRODUÇÃO DE SEMENTES DE CULTIVARES PRECOCES DE SOJA EM DUAS ÉPOCAS E DOIS LOCAIS PAULISTAS: I. CARACTERÍSTICAS AGRONÔMICAS E PRODUTIVIDADE(1)

 

PRISCILA FRATIN MEDINA(2), LUIZ FERNANDES RAZERA(3,6), JULIO MARCOS FILHO(4,6) e NELSON BORTOLETTO(5)

 

 

RESUMO

Com o objetivo de analisar as características agronômicas e a produtividade de sementes de cultivares precoces de soja (IAC-100, IAC-16, IAC-Foscarin-31, BR-4 e IAS-5) na estação seca, sob irrigação suplementar, realizou-se o cultivo desses genótipos durante o outono-inverno, nos municípios de Campinas e Votuporanga (SP) e para comparação do efeito de época de semeadura, também na época convencional. Na colheita, avaliaram-se: altura das plantas, número de nós por planta, altura da inserção das primeiras vagens, número de sementes por planta, massa de mil sementes e produtividade. Determinaram-se, também, o potencial de germinação e a produtividade de sementes viáveis, após a colheita e na época da semeadura da safra seguinte (novembro). Concluiu-se que: (a) a semeadura de cultivares precoces de soja, no início do outono, é alternativa viável para a produção de sementes, especialmente em regiões como a de Votuporanga, onde a época convencional de semeação pode inviabilizar a obtenção de sementes que mantenham alta capacidade germinativa por um período satisfatório; (b) o retardamento da semeadura na produção de sementes de cultivares precoces de soja deve basear-se na análise tanto da produtividade total como na de sementes viáveis, considerando-se, principalmente, a viabilidade das sementes na época de semeação da safra seguinte.

Termos de indexação: Glycine max (L.) Merrill, época de semeadura, armazenamento, qualidade de sementes.

 

ABSTRACT

SEED PRODUCTION OF EARLY MATURING SOYBEAN CULTIVARS IN TWO DIFFERENT PERIODS AND LOCATIONS OF SÃO PAULO STATE, BRAZIL: I. YIELD

The main objective of this research work was to determine early-maturing soybean cultivar (IAC-100, IAC-16, IAC-Foscarin-31, BR-4 and IAS-5) seed production in the dry season, under irrigation. Field experiments were carried out in Campinas and Votuporanga, São Paulo State, Brazil, during the dry season (Autumn/Winter) as well as during the traditional growing season (late Spring/Summer) to compare sowing time effects on seed quality. Plant height, number of nodes per plant, first pod insertion height, number of seeds per plant, weight of 1,000 seeds and yield, were evaluated at harvest maturity (R8 development stage). Seed germination was evaluated right after harvesting and at the onset of the following sowing season. Viable seed yields were also estimated at those times. Results showed that early-maturing soybean cultivars can be sown in the dry season, mainly in regions where traditional sowing (wet season) does not result in proper seed quality, not allowing the maintenance of reasonable seed germination potential up to the following sowing season. The decision of delaying sowing time should be based on total and viable seed yields, taking into account the estimated seed viability at the following sowing season.

Index terms: Glycine max (L.) Merrill, planting date, storage, seed quality.

 

 

1. INTRODUÇÃO

A época de semeadura é a variável que produz maior impacto sobre a produção da cultura da soja (Hartwig, 1954; Bueno et al., 1975; Nakagawa et al., 1983; Board, 1987). De acordo com Nakagawa et al. (1983), nos Estados brasileiros onde a soja é cultivada tradicionalmente, a semeação em novembro, de modo geral, tem propiciado os melhores resultados de produtividade.

Devido à resposta fotoperiódica, o atraso em relação a essa época antecipa o florescimento, reduzindo o ciclo da cultura, principalmente para os cultivares precoces (Feaster, 1949; Hartwig, 1954; Athayde et al., 1984). Conseqüentemente, verifica-se a redução na altura final das plantas (Osler & Cartter, 1954; Graves et al., 1978; Tragnago & Bonetti, 1984), no número de nós na planta (Abel, 1961) e no número de vagens por planta (Tragnago & Bonetti, 1984), resultando em menor produtividade (Feaster, 1949; Nakagawa et al., 1983).

Segundo Whigham & Minor (1967), temperaturas inferiores a 25°C podem atrasar o início do florescimento, porém os dias curtos das semeaduras mais tardias apressam intensamente a maturidade, superando os efeitos retardadores das baixas temperaturas.

No Estado de São Paulo, semeaduras tardias podem, ainda, levar à ocorrência das fases de formação e desenvolvimento das sementes de soja em épocas secas. Para garantir a produção (tanto em número quanto em massa das sementes) nessas condições, torna-se indispensável a irrigação (Sionit & Kramer, 1977; Rassini & Lin, 1981).

Levando em conta todos esses aspectos, quando se raciocina em termos de produção de sementes, a produtividade da cultura da soja pode adquirir caráter secundário; neste caso, a obtenção de sementes de boa qualidade passa a ser o objetivo principal.

No Brasil, principalmente em regiões localizadas ao Norte do paralelo 24°S, quando se semeiam os cultivares precoces de soja em épocas propícias à máxima produtividade, eles são colhidos em fins de fevereiro e início de março, de forma que a maturação e a colheita freqüentemente ocorrem sob condições de temperatura e umidade relativa do ar elevadas (Pereira et al., 1979; Marcos Filho et al., 1985). Tais condições do ambiente são desfavoráveis à obtenção de sementes de alta qualidade fisiológica e sanitária e, sobretudo no caso da soja, geralmente não alcançam a época da semeadura seguinte com índices de germinação desejáveis.

O retardamento da semeação para dezembro e início de janeiro pode resultar em sementes de melhor qualidade fisiológica e sanitária (Pereira et al., 1979; Nakagawa et al., 1984, 1986; Paolinelli et al., 1984; Tragnago & Bonetti, 1984). Esse procedimento, no entanto, dificulta a utilização da terra quando se deseja implantar mais de uma cultura no mesmo ano agrícola, devido ao curto período para o preparo da gleba entre a colheita da safra anterior e a semeadura da soja.

O objetivo deste trabalho foi verificar a possibilidade de produção de sementes de boa qualidade de cultivares precoces de soja em duas regiões paulistas, na estação seca (semeadura em março/abril), sob irrigação suplementar.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

A presente pesquisa foi desenvolvida no período de novembro de 1989 a dezembro de 1990, em ensaios de campo instalados, simultaneamente, nas Estações Experimentais do Instituto Agronômico de Campinas (altitude 669 m, latitude 22°54' S e longitude 47°5' W) e Votuporanga (altitude 505 m, latitude 20°25' S e longitude 49°59' W).

Seus solos foram classificados como Latossolo Vermelho-Escuro (LE) textura argilosa, em Campinas, e Podzolizado Vermelho-Amarelo (PVA) textura média, em Votuporanga. Os dois ensaios foram adubados com fósforo e potássio, com base nas análises químicas e nas recomendações do Boletim 100 do Instituto Agronômico (Mascarenhas, 1985).

O delineamento experimental foi de blocos casualizados em esquema fatorial (dois locais x duas semeaduras), com cinco repetições para cada um dos seguintes cultivares: IAC-100, IAC-16, IAC-Foscarin-31, BR-4 e IAS-5. Cada ensaio constou de parcelas constituídas por cinco linhas de 6 m de comprimento, espaçadas de 0,5 m entre si. A área útil da parcela foi de 7,5 m2, consistindo na utilização das três linhas centrais, desprezando-se, como bordadura, 0,50 m das extremidades e as duas linhas laterais.

As semeaduras foram realizadas em duas épocas: 29/11/89 (S1) e 27/3/90 (S2), em Campinas, e 20/11/89 (S1) e 3/4/90 (S2), em Votuporanga. Sua densidade visou proporcionar mais de 20 plantas por metro linear, garantindo-se esse estande por meio de desbaste, efetuado após a emergência. A inoculação com Rhizobium foi feita no sulco no momento da semeadura.

Nas figuras 1 e 2, encontram-se os dados de precipitação pluvial e de temperaturas máximas e mínimas diárias, coletados nos Postos Meteorológicos das Estações Experimentais, durante os ensaios. Os estádios de desenvolvimento dos genótipos também foram levantados, conforme critérios propostos por Fehr & Caviness (1977).

 

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Figura 1. Campinas - ciclos culturais e estádios fenológicos dos genótipos de soja (S = semeadura; R1, R3, R5, R7 e R8 = estádios reprodutivos); dados diários de precipitação pluvial (histograma) e de temperaturas máxima (---) e mínima (—). A: cultivo realizado na época convencional (S1). B: cultivo realizado no outono-inverno (S2).

 

 

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Figura 2. Votuporanga - ciclos culturais e estádios fenológicos dos genótipos de soja (S = semeadura; R1, R3, R5, R7 e R8 = estádios reprodutivos); dados diários de precipitação pluvial (histograma) e de temperaturas máxima (---) e mínima (—). A: cultivo realizado na época convencional (S1). B: cultivo realizado no outono-inverno (S2).

 

Durante o desenvolvimento da cultura, até a fase de máximo acúmulo de matéria seca nas sementes (R7), a água foi suplementada por aspersão, de forma que nunca se passassem mais de cinco dias sem irrigação (chuva ou aspersão), tanto em S1 quanto em S2. Segundo Berlato & Bergamaschi (1978), quando não há restrição de água no solo, a evaporação média da cultura da soja é de 5,8 mm/dia. Assim, a quantidade de água fornecida foi calculada, multiplicando-se esse valor pelo número de dias sem irrigação (cinco), resultando em, aproximadamente, 30 mm de água por irrigação suplementada.

Efetuou-se o controle da quantidade de água aplicada por irrigação mediante leituras em pluviômetros instalados nos locais dos ensaios.

Controlaram-se as plantas daninhas por meio de capinas manuais e, o controle de percevejos (Nezara viridula, Euchistus heros e Piezodorus guildinii), de acordo com o preconizado por Gazzoni et al. (1981).

No estádio R8 (95% das vagens com a coloração padrão do cultivar), amostraram-se quinze plantas ao acaso, de cada uma das três linhas centrais da parcela, para a avaliação das seguintes variáveis: altura das plantas (distância em centímetros, compreendida entre a superfície do solo e a gema apical), número de nós por planta, altura da inserção da primeira vagem e número de sementes por planta.

Após a colheita e a debulha das sementes, realizadas manualmente, avaliou-se a produtividade, pesando as correspondentes a cada parcela e corrigindo-se a 12% o teor de água na sua massa. Determinou-se, também, a massa de mil sementes em grama, armazenando-as, a seguir, em sacos de algodão, sob condições normais de armazém, em Campinas.

Após a colheita, efetuaram-se testes de germinação E1 (em maio de 1990 para as semeaduras S1 e, em agosto, para S2) e na época de semeadura da safra seguinte, E2 (em novembro de 1990). Esses testes foram efetuados com duas amostras de 50 sementes por parcela, em papel-toalha Germitest, sob temperatura constante de 30°C. O volume de água empregado na embebição foi equivalente a duas vezes e meia a massa do substrato seco, sendo as porcentagens de plân-tulas normais computadas aos quatro e aos sete dias.

A produtividade de sementes viáveis também foi estimada, multiplicando-se os valores de produtividade (kg/ha) pelos de germinação (%) das sementes, obtidos tanto em E1 quanto em E2.

As análises da variância foram efetuadas separadamente, para cada cultivar e época de amostragem (E1 e E2). Apenas os dados de germinação foram transformados em arco seno raiz quadrada %/100, embora, para a confecção do quadro, tenham constado as médias originais que foram comparadas pelo teste de Tukey a 5%.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos quadros 1, 2 e 3 encontram-se os dados das plantas dos cinco cultivares. Os coeficientes de variação (não apresentados) se alteraram conforme o cultivar e o parâmetro avaliado, entre 3,4 e 19%, sendo, portanto, considerados baixos ou médios, de acordo com Pimentel Gomes (1985). Apenas os coeficientes de variação obtidos para a produtividade de sementes dos cultivares IAC-100, IAC-16 e IAC-Foscarin-31 revelaram valores altos, porém inferiores a 30%.

 

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Os dados climáticos e os relacionados ao ciclo da cultura encontram-se nas figuras 1 e 2: verifica-se que as condições do ambiente em Campinas, principalmente em S1, foram mais favoráveis ao desenvolvimento das plantas. As temperaturas mais elevadas, associadas à localização de Votuporanga em menor latitude, podem ter sido responsáveis pela antecipação do florescimento nesse local, resultando em plantas geralmente mais baixas (Quadro 1), tanto em S1 quanto em S2. O solo mais fértil, menos arenoso e com maior teor de matéria orgânica de Campinas também pode ter contribuído para esse resultado.

O melhor ambiente edafoclimático de Campinas, para a produtividade de sementes, relacionou-se também ao maior número de sementes produzido por planta em S2 (Quadro 2);em S1, porém, isso só ocorreu para o cultivar IAS-5. O mesmo foi observado para a produtividade de sementes, maior em Campinas em S2, porém significativamente maior nesse local do que em Votuporanga em S1, apenas para os cultivares IAC-100 e IAS-5.

Vale salientar que a produtividade de sementes em Campinas foi prejudicada em S1. Embora o desenvolvimento vegetativo das plantas fosse maior do que em Votuporanga nessa época, a ocorrência de murcha de plantas em reboleira (atingindo algumas parcelas do experimento com maior intensidade) resultou em secagem prematura de plantas que se encontravam no estádio R5. Nessas plantas, que foram arrancadas e eliminadas do ensaio, identificou-se a presença de fungos Fusarium spp., Rizoctonia solani e Verticillium spp., além de um nematóide do gênero Helichotylenchus. As plantas dos cultivares IAC-100 e IAS-5 foram menos afetadas. Em S2, embora o experimento tenha sido instalado em local adjacente, isso não se repetiu. A morte de plantas em reboleira pode explicar o coeficiente de variação mais alto, obtido nas análises estatísticas efetuadas para produtividade de sementes.

Comparando-se as épocas de semeadura em cada local, nota-se que, em Campinas (Figura 1), a semeadura tardia (S2) resultou na redução do ciclo da cultura em 12 a 18 dias, conforme o cultivar, devido, principalmente, à antecipação do florescimento em comparação à época tradicional (S1), confirmando os resultados de Feaster (1949), Hartwig (1954) e Athayde et al. (1984). O intervalo entre o início do florescimento (R1) e o da formação de vagens (R3) também foi de cinco a sete dias mais curto em S2. Em Votuporanga (Figura 2), ocorreu redução do ciclo da cultura em S2, de maneira ainda mais acentuada do que em Campinas (entre 13 e 31 dias, conforme o cultivar). Entretanto, a redução no ciclo do `IAC-16' e do `IAS-5' concentrou-se, praticamente, na fase reprodutiva, enquanto, para os demais, distribuiu-se entre a fase vegetativa e a reprodutiva.

Nos quadros 1 e 2, observa-se, como conse-qüência da redução do ciclo da cultura, o menor desenvolvimento das plantas dos cinco cultivares nos dois locais, quando a semeadura foi efetuada em março/abril (S2). Assim, S2 caracterizou-se pela obtenção de plantas mais baixas, com menor altura da inserção da primeira vagem e menor número de nós, resultando em menor número de sementes por planta e, em conseqüência, menor produtividade. Tais resultados confirmam os de Feaster (1949), Osler & Cartter (1954), Abel (1961), Graves et al. (1978), Nakagawa et al. (1983) e Tragnago & Bonetti (1984).

Quanto à massa de mil sementes (Quadro 2), constatou-se que, em Campinas, de modo geral, não houve diferenças significativas entre S1 e S2 para os cultivares, concordando com as informações de Payne et al. (1978); apenas o `IAC-16' apresentou sementes mais pesadas em S1. Nakagawa et al. (1983), no entanto, observaram que as sementes produzidas em condições de semeadura retardada apresentaram-se com maior massa, o que corrobora os resultados obtidos em Votuporanga para os cultivares IAC-100, IAC-Foscarin-31, BR-4 e IAS-5. Entretanto, em S1, esse local se caracterizou por temperaturas elevadas, de até 36°C, e freqüência de chuvas relativamente baixa (Figura 2), coincidindo com o período de acúmulo de matéria seca nas sementes (R5 a R7); tal fato, associado ao solo mais arenoso (drenagem rápida), pode ter provocado intensa evapotranspiração na cultura, resultando em menor disponibilidade hídrica, embora a irrigação também tenha sido efetuada nesse período. Segundo Wang & Wang (1978), as condições altamente favoráveis à transpiração, associadas à luminosidade elevada, causam fechamento dos estômatos, mesmo quando não falta água no solo; nesses casos, a absorção e condução de água tornam-se inferiores à perda pelas folhas, levando à deficiência hídrica interna, que induz murchamento transitório. De acordo com Sionit & Kramer (1977) e Rassini & Lin (1981), a conseqüência de estresse hídrico durante o desenvolvimento das sementes é a redução na produção, em vista da menor massa de cada semente.

Mesmo com a obtenção de sementes mais pesadas em S2, em Votuporanga, a produtividade foi menor, devido ao menor número de sementes por planta do que em S1. Assim, os resultados desta pesquisa confirmaram que a redução na produtividade de sementes, em conseqüência do atraso da época de semeadura, está mais associada ao menor número de sementes produzidas do que ao decréscimo no seu tamanho ou na sua massa (Nakagawa et al., 1983; Board, 1987).

As figuras 1 e 2 revelam que o período reprodutivo da cultura coincidiu com temperaturas elevadas e considerável freqüência de chuvas nos dois locais, quando a semeadura foi efetuada em S1. Diversos autores citaram que essas condições dificultam a obtenção de sementes com qualidade aceitável (Carter & Hartwig, 1962; Pereira et al., 1979; Marcos Filho et al., 1985; Keigley & Mullen, 1986). Na fase compreendida entre o desenvolvimento das sementes (R5) e a colheita (R8), a temperatura manteve-se mais elevada em Votuporanga, enquanto o volume de chuvas foi superior em Campinas, em S1.

As condições climáticas de Campinas, nesse período (R5 a R8), foram mais favoráveis à qualidade fisiológica das sementes produzidas. Assim, logo após a colheita (E1), a porcentagem de germinação das sementes dos cultivares IAC-100, IAC-16 e IAS-5 foi superior (Quadro 3); durante o armazenamento, as diferenças entre a qualidade fisiológica das sementes produzidas nos dois locais acentuaram-se, de forma que, na época de semeadura da safra seguinte (E2), as sementes de todos os cultivares produzidas em Campinas passaram a apresentar porcentagens de germinação superiores.

Vale salientar que, pelos padrões de sementes básicas e certificadas (Secretaria da Agricultura e Abastecimento, 1993), preconizando 85% como a germinação mínima exigida para a de soja, as sementes de todos os cultivares produzidas em Campinas seriam aprovadas se avaliadas em E1; em E2, apenas as do `IAS-5', em S1, seriam descartadas. Por outro lado, apenas as sementes dos cultivares IAC-Foscarin-31 e BR-4, em Votuporanga, seriam aceitas, quando analisadas em E1, e todas seriam descartadas pela avaliação em E2.

Em S2, o período que coincidiu com os estádios R5 a R8 foi seco e frio em comparação a S1, propiciando a obtenção de sementes com elevado potencial de germinação nos dois locais (Quadro 3). Verificou-se, ainda, que tais sementes se mantiveram assim até a época de semeadura da safra seguinte (E2), concordando com as informações obtidas por Pereira et al. (1979); Paolinelli et al. (1984); Tragnago & Bonetti (1984) e Nakagawa et al. (1984, 1986).

Comparando-se as sementes obtidas em S1 e S2, em Campinas, constatou-se que, apenas após o armazenamento (E2), o teste de germinação passou a demonstrar superioridade das sementes produzidas em S2 para os cultivares IAC-Foscarin-31, BR-4 e IAS-5 (Quadro 3). Quanto a Votuporanga, evidenciou-se a superioridade de capacidade germinativa das sementes produzidas em S2, desde a avaliação realizada após a colheita (E1), acentuando-se em E2, para os cinco cultivares.

Pelos resultados referentes à produtividade de sementes viáveis (Quadro 3), observa-se que, de modo geral, tanto em S1 quanto em S2 houve maior quantidade de sementes viáveis em Campinas. Este fato se acentuou quando a avaliação da germinação das sementes foi conduzida em E2. Apenas o `IAC-Foscarin-31' não apresentou diferenças significativas quanto à produção de sementes viáveis entre ambos os locais, nem em S1 nem em S2.

Comparando-se as épocas de semeadura quando a análise da germinação foi efetuada logo após a colheita (E1), a produtividade de sementes viáveis foi maior, geralmente, na época convencional (S1), com exceção apenas dos cultivares BR-4 em Campinas e IAS-5 em Votuporanga, os quais não apresentaram diferenças significativas quanto a esta variável entre S1 e S2.

Entretanto, o período de armazenamento das sementes até a época de semeadura da safra seguinte (E2) consistiu em oito meses para as sementes produzidas em S1 e de quatro meses para as produzidas em S2. O menor período de armazenamento a que foram submetidas as sementes produzidas nessa época, associado a sua melhor qualidade fisiológica inicial, resultou na redução das diferenças entre a quantidade de sementes viáveis produzidas em S1 e S2, tornando-as não significativas na maioria das situações. Apenas os cultivares IAC-100 (em Campinas e Votuporanga) e IAC-Foscarin-31 (em Votuporanga) mantiveram quantidade superior de sementes viáveis provenientes de S1, em E2.

Esses resultados mostraram que a vantagem de obtenção de maior produtividade de sementes dos cultivares precoces de soja (Quadro 1), quando se realizou a semeadura na época convencional, em comparação à de março-abril, reduziu-se, ou, até mesmo, anulou-se, quando se levou em consideração a produtividade de sementes viáveis (Quadro 3).

 

4. CONCLUSÕES

1. A semeadura de cultivares precoces de soja no final do verão-início do outono, associada ao cultivo sob irrigação suplementar, mostrou-se alternativa viável para a produção de sementes, sobretudo em regiões como Votuporanga, onde a época convencional de semeadura pode inviabilizar a obtenção de sementes que mantenham alta capacidade germinativa por um período satisfatório.

2. A adoção de retardamento da semeadura na produção de sementes de cultivares precoces de soja deve basear-se na análise tanto da produtividade total como na de sementes viáveis, considerando-se, principalmente, a viabilidade das sementes na época semeação da safra seguinte.

 

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(1) Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor. Trabalho apresentado no 9o Congresso Brasileiro de Sementes, Florianópolis (SC), 1995. Recebido para publicação em 2 de dezembro de 1996 e aceito em 17 de setembro de 1997.

(2) Seção de Sementes, Instituto Agronômico (IAC), Caixa Postal 28, 13001-970 Campinas (SP).

(3) Sistema de Produção de Sementes, IAC.

(4) Departamento de Agricultura, Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ/USP), Caixa Postal 9, 13418-900 Piracicaba (SP).

(5) Estação Experimental de Votuporanga, IAC.

(6) Com bolsa de produtividade científica do CNPq.

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