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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol.62 no.2 Campinas  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87052003000200011 

FITOSSANIDADE
NOTA

 

Plantas cultivadas e invasoras como habitat para predadores do gênero Orius(Wolff) (Heteroptera: anthocoridae)

 

Crops and weeds as host plants Orius species (Heteroptera: anthocoridae)

 

 

Luís Cláudio Paterno SilveiraI; Vanda Helena Paes BuenoII,III; Leonardo Santa Rosa PierreII; Simome Martins MendesII

IPólo Regional de Desenvolvimento Tecnológico dos Agronegócios do Centro Norte -APTA. E-mail lcsilveira@zup.com.br
IIDepartamento de Entomologia, Universidade Federal de Lavras, Caixa Postal 37, 37200-000 Lavras (MG). E-mail: vhpbueno@ufla.br
IIICom bolsa de produtividade científica do CNPq

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi registrar as espécies de Orius associadas a plantas cultivadas e invasoras presentes em uma localidade de Minas Gerais e três de São Paulo, nos anos de 1999 e 2000. As coletas foram realizadas através de batidas das plantas no interior de sacos plásticos para desalojar os insetos. Posteriormente, as espécies foram separadas em laboratório. O predador Orius insidiosus (Say) foi coletado nas culturas de milho (Zea mays L.), milheto (Pennisetum glaucum (L.) R.Br.), sorgo (Sorghum spp.), feijão (Phaseolus vulgaris L.), girassol (Helianthus annuus L.), alfafa (Medicago sativa L.), soja [Glycine max (L.) Merr.], crisântemo (Chrysanthemum spp.), tango (Solidago canadensis L.) e cartamus (Carthamus tinctorius L.) e nas plantas invasoras picão-preto (Bidens pilosa L.), caruru (Amaranthus sp.), losna-branca (Parthenium hysterophorus L.) e apaga-fogo (Alternanthera ficoidea L.). Orius thyestes Herring foi encontrado nas plantas invasoras picão-preto, caruru e apaga-fogo. Orius perpunctatus (Reuter) e Orius sp. foram coletados principalmente nas plantas invasoras picão-preto, caruru e apaga-fogo e no milho. Constatou-se que muitas dessas plantas são reservatórios naturais para esses predadores, em termos de habitat, abrigo, presas e pólen.

Palavras-chave: Orius insidiosus, Orius thyestes, Orius perpunctatus, controle biológico, conservação.


ABSTRACT

The aim of this research was to record the Orius species present on some crops and weeds in areas located in the southeast region in Brazil, during 1999 and 2000. The insect collections were made through the tapping method to dislodge the insects from the plant into a plastic bag. The identifications of the specimens was done in the laboratory. Orius insidiosus (Say) was collected on the following crops: corn (Zea mays L.), pearl millet (Pennisetum glaucum (L.) R.Br.), sorghum (Sorghum spp.), bean (Phaseolus vulgaris L.), sunflower (Helianthus annuus L.), alfalfa (Medicago sativa L.), soybean (Glycine max (L.) Merr.), chrysanthemum (Chrysanthemum spp.), tango (Solidago canadensis L.) and carthamus (Carthamus tinctorius L.). On weeds, O. insidiosus was found on farmer's friend (Bidens pilosa L.), amaranth (Amaranthus sp.), parthenium weed (Parthenium hysterophorus L.) and Joseph's coat (Alternanthera ficoidea L.). Orius thyestes Herring was found on weed plants farmer's friend, amaranth and Joseph's coat. Orius perpunctatus (Reuter) and Orius sp. were collected mainly on weed plants (farmer's friend, amaranth and Joseph's coat) and corn. Many of these plants are natural hosts for these predators, providing refuge, prey and pollen.

Key words: Orius insidiosus, Orius thyestes, Orius perpunctatus, biological control, conservation.


 

 

Introdução

Os antocorídeos são importantes componentes da fauna predatória, encontrados em uma grande variedade de camadas ou extratos nos ecossistemas naturais. Orius spp. ocorre principalmente no extrato denominado "forb" (Lattin, 2000), composto por plantas sem vasos lenhosos e de estrutura simples, no qual se enquadra a maioria das plantas cultivadas. Segundo Lattin (2000), pouco é conhecido quanto à fauna regional de espécies presentes em plantas cultivadas ou invasoras, especialmente na África, América Central e do Sul; além disso, poucas espécies de antocorídeos, sobretudo as da região Paleártica, têm recebido tratamento intensivo na literatura.

A ocorrência de predadores da família Anthocoridae associados às culturas ou plantas invasoras está relacionada, além da presença de presas, também aos recursos alimentares alternativos (Stoner, 1970). Além disso, a complexidade do habitat e a arquitetura das plantas, em muitos tipos de sistemas ecológicos, afetam a diversidade de espécies (Lawton, 1983).

Salas-Aguilar e Ehler (1977), Kiman e Yeargan (1985), Richards e Schmidt (1996), Naranjo e Gibson (1996) e Thompson (1999) verificaram a característica onívora do gênero Orius e observaram que são capazes também de se alimentar de pólen de diferentes plantas e de atuar ocasionalmente como sugadores.

Uma prova ocasional com o rostro não é prejudicial às plantas, e tal comportamento do predador provavelmente serve para obtenção de água, já que não são capazes de sobreviver somente do tecido da planta (Loomans et al., 1995). Assim, a característica onívora é considerada uma estratégia adaptativa para a manutenção das populações dos predadores no campo, quando a população de presas é escassa (Cocuza et al., 1997; Eubanks e Denno, 1999), permitindo que se estabeleçam no cultivo antes das pragas (Albajes e Alomar, 1999).

Como o pólen e o néctar são fontes de aminoácidos e açúcares, muitas vezes dieta básica e essencial para a maturação de ovos (Garcia, 1991), torna os predadores onívoros mais capazes de explorar o ecossistema e sobreviver naturalmente quando os recursos alimentares se tornam escassos.

O conhecimento das plantas que podem servir de habitat e/ou abrigo para espécies de Orius pode fornecer elementos para seu manejo espacial no ambiente, de modo a conservar as populações desses insetos no campo e em casas-de-vegetação. Com esse objetivo, neste estudo registraram-se as espécies de Orius que ocorrem em diversas plantas cultivadas, tanto em condições de ambientes protegidos como de campo, e em plantas invasoras.

As coletas de predadores do gênero Orius foram realizadas, respectivamente, em locais, condições e plantas a seguir: a) Lavras (MG), no campo - em milho (Zea mays L.), sorgo (Sorghum spp.), feijão (Phaseolus vulgaris L.), girassol (Helianthus annuus L.), alfafa (Medicago sativa L.), picão-preto (Bidens pilosa L.), caruru (Amaranthus sp.) e apaga-fogo (Alternanthera ficoidea L.), e em cultivo protegido hidropônico - em alface (Lactuca sativa, L); b) Holambra (SP), em cultivo protegido - em crisântemo (Chrysanthemum spp.), tango (Solidago canadensis L.) e cartamus (Carthamus tinctorius L.), e no campo - picão-preto (Bidens pilosa L.), caruru (Amaranthus sp.), losna-branca (Parthenium hysterophorus L.) e apaga-fogo (Alternanthera ficoidea L.); c) Campinas (SP), no campo - em milho, girassol, picão-preto e caruru, e em cultivo protegido hidropônico - alface, tomate (Lycopersicum esculentum Mill.), pimentão (Capsicum annuum L.), pepino (Cucumis sativa L.) e melão (Cucumis melo L.); d) Pindorama (SP), no campo - em milho, milheto, soja, picão-preto e caruru.

Nas coletas utilizaram-se sacos plásticos transparentes, colocados sobre as plantas ou em partes delas a serem amostradas. Essas coletas foram direcionadas para as regiões floridas das plantas, onde se concentra a maior parte de Orius spp., segundo Bueno (2000) e Lattin (2000).

Após o ensacamento da planta, sacudiu-se vigorosamente para que os insetos presentes fossem coletados e transportados para o laboratório. A triagem do material foi feita em bandejas brancas, separando-se os insetos com o auxílio de um pincel e acondicionando-os em frascos com álcool 70% para conservação. As espécies presentes nas plantas amostradas foram Orius insidiosius (Say), O. thyestes (Herring), O. perpunctatus (Reuter) e uma espécie indeterminada (Orius sp.) (Quadro 1).

Esses predadores foram coletados em famílias de plantas como Amaranthaceae, Compositae, Gramineae e Leguminosae que, aparentemente, não apresentam semelhanças quanto à arquitetura, tipos de inflorescência e/ou outras características que pudessem justificar a atração dos predadores em função das próprias plantas.

No entanto, segundo a teoria de Lawton (1983), todas as plantas amostradas neste levantamento são agrupadas em uma mesma categoria de complexidade estrutural, o extrato denominado "forb". Esse é de baixa complexidade estrutural, em que estão as plantas de floração anual e que não possuem vasos lenhosos, ou seja, a grande maioria das plantas cultivadas e invasoras. Bueno (2000) menciona que predadores do gênero Orius são relatados tendo como habitat principalmente as partes floridas das plantas, e os resultados das coletas aqui obtidos (Quadro 1) concordam com esse autor.

O fato de terem sido encontradas diferentes espécies do gênero Orius em plantas floridas de diferentes famílias indica que a presença de pólen nas flores, além de características como abrigo e alimento alternativo, podem ter sido fatores que influenciaram a ocorrência desses predadores.

A presença de várias espécies do gênero Orius em pendões de milho (Quadro 1) concorda com as observações de Dicke e Jarvis (1972) e Isenhour e Yeargan (1981), os quais verificaram que a ocorrência desses predadores aumenta no período da emissão do pendão. Os cultivos de soja (Quadro 1) foram hospedeiros de O. insidiosus, concordando com Isenhour e Yeargan (1981), que encontraram grandes quantidades do predador na época da emissão do botão floral. Tanto no caso do milho como no da soja, os autores concluíram que a abundância dos predadores deve-se à presença de pólen e de tripes nas estruturas florais de ambas as plantas.

A ocorrência de O. insidiosus na cultura de sorgo (Quadro 1) concorda com as observações de Fye e Carranza (1972) e Prasifka et al. (1999), que citam ser essa uma cultura atrativa para predadores do gênero Orius.

No crisântemo em cultivo protegido, amostrado na região de Holambra (Quadro 1), observou-se que a ocorrência de O. insidiosus esteve relacionada com as medidas culturais realizadas, pois o predador esteve presente apenas em cultivos onde não foram realizados tratamentos com produtos fitossanitários (sobretudo pulverizações com inseticidas).

Observações nessa cultura têm demonstrado que em casas-de-vegetação, sem o emprego de inseticidas durante todo o ciclo do crisântemo, verifica-se a colonização natural de predadores do gênero Orius (Bueno)(1).

Nas plantas cultivadas em ambientes protegidos em sistema hidropônico não foram coletadas espécies de Orius associadas aos cultivos de tomate, pimentão, pepino, alface e melão (Quadro 1). Tal fato parece estar também associado ao uso de produtos químicos, pois nesses cultivos amostrados foram utilizados produtos não seletivos aos inimigos naturais (Silveira)(2).

Pelos resultados deste trabalho, infere-se que várias plantas cultivadas, no campo e em casas-de-vegetação, de importante expressão econômica como milho, sorgo, soja, milheto, alfafa e crisântemo, são hospedeiras de predadores do gênero Orius. Igualmente, as plantas invasoras picão-preto, caruru, losna-branca e apaga-fogo podem fornecer pólen, abrigo e também presas alternativas (tripes não-pragas, por exemplo) para a manutenção e sobrevivência desses predadores.

Assim, manejando-se adequadamente o ambiente agrícola, plantas cultivadas e invasoras podem promover a conservação de várias espécies de Orius.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Dr. Antonio Lucio Melo Martins e Dr. Pedro Roberto Furlani (Instituto Agronômico, Campinas) pela colaboração nas coletas; a Dr.a Maria G. Tommasinni (Centrale Ortofrutticola, Itália) e Dr.a Luciana Tavella (Universitá di Torino, Itália) e Dr. Diego Carpintero (Museo de La Plata, Argentina), pelas identificações das espécies de Orius. Ao CNPq, pelas bolsas de estudo concedidas aos primeiros autores, bem como pelo financiamento deste projeto (Processo número 470705/01-9).

 

Referências Bibliográficas

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Recebido para publicação em 23 de agosto de 2002 e aceito em 18 de março de 2003

 

 

1 Vanda H. P. Bueno, informação pessoal, 1999 e 2000.
2 Luís C. P. Silveira, observação pessoal, 1999 a 2002.

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