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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol.67 no.2 Campinas  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87052008000200016 

FITOSSANIDADE

 

Índice de infestação e diversidade de moscas-das-frutas em hospedeiros exóticos e nativos no pólo de fruticultura de Anagé, BA

 

Index of infestation and diversity of fruit-flies in exotic hosts native to the fruitculture area in Anagé, Bahia, Brazil

 

 

Ricardo Falcão de SáI, *; Maria Aparecida CastellaniII; Antonio Souza do NascimentoIII; Maria Heloisa da Silva Teixeira BrandãoI; Aline Novais da SilvaIV; Raquel Pérez-MalufII

IAgência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia - ADAB, Rua Teodoro Sampaio, 423, 45010-140 Vitória da Conquista (BA). E-mail: ricardofs@adab.ba.gov.br
IIDepartamento de Fitotecnia e Zootecnia, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, Estrada do Bem-Querer, km 04, 45083-920 Vitória da Conquista (BA). E-mail: castellani@uesb.br
IIIEmbrapa Fruticultura – CNPMF, Rua da Embrapa, s/n.°, Cruz das Almas (BA). E-mail: nascimento@moscamed.org.br
IVDiscente do Curso de Agronomia da Universidade Estadual de Sudoeste da Bahia - UESB

 

 


RESUMO

As moscas-das-frutas (Diptera: Tephritidae) são os principais entraves às exportações de manga nos pólos de fruticultura da Região Sudoeste da Bahia. O presente trabalho teve como objetivo estudar índices de infestação e a diversidade de moscas-das-frutas no pólo de fruticultura de Anagé, BA, visando obter subsídios para o manejo integrado dessas pragas na mangueira, na região. Os estudos foram realizados em 2004 e 2005, nos municípios de Anagé, Belo Campo e Caraíbas, BA, procedendo-se à coleta de frutos de 21 espécies vegetais, nativas e exóticas, e identificação das espécies de moscas associadas. Estimaram-se os índices de infestação em pupários/kg de fruto e pupários/fruto. Os maiores índices de infestação, em pupários/kg de fruto, ocorreram em serigüela (Spondias purpurea L.) com 61,3, juá (Ziziphus joazeiro L.), 38,3 e umbu (Spondias tuberosa L.), 33,1, considerados hospedeiros primários de Anastrepha fraterculus (Wiedemann) e A. obliqua (Macquart). As maiores infestações em pupários/fruto ocorreram em serigüela (0,9); umbu (0,7) e cajarana (Spondias sp.) (0,2). Com base no monitoramento larval, registra-se, para as condições do pólo de fruticultura de Anagé, a ocorrência das espécies Anastrepha fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis, A. amita, A. distincta, A. sororcula, A. zenildae e Ceratitis capitata. Registram-se, pela primeira vez, as seguintes associações bitróficas: juá com A. fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis e A. distincta; e umbu com A. amita e A. sororcula.

Palavras-chave: Insecta, Anastrepha, Ceratitis capitata, Mangifera indica


ABSTRACT

Fruit-flies (Diptera: Tephritidae) are the main hindrance for mango exportation in the fruitculture areas of the Southwestern Region of Bahia. The purpose of the present work was to study the indexes of infestation and diversity of fruit-flies in the fruitculture area of Anagé, BA, in order to obtain subsidies to the integrated management of these pests in mango, in this region. Studies were carried out in 2004 and 2005 in the municipalities of Anagé, Belo Campo and Caraíbas, BA. Fruit sampling from 21 native and exotic vegetable species, were analyzed for identification of species of associated fly species. Infestation indexes in fruit weight (kg) and number of puparia were estimated. The obtained results demonstrated that the highest infestation indexes, in puparia/fruit kg, occurred in Spanish prune (Spondias purpurea L.) with 61,3, juá (Ziziphus joazeiro L.) 38,3 and umbu (Spondias tuberosa L.) , 33,1, which were considered primary hosts of the Anastrepha fraterculus and A. obliqua. On the other hand, infestation, in puparia/kg of sampled fruit, occurred in Spanish prune, 0,9 puparia/kg; umbu, with 0,7 and cajarana (Spondias sp.) with 0,2. Based on larval monitoring and under the conditions of the fruiticulture area in Anagé, the occurrence of the following species have been recorded Anastrepha fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis, A. amita, A. distincta, A. sororcula, A. zenildae and Ceratitis capitata has been recorded. For the first time, the following bitrophic associations: juá with A. fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis and A. distincta; and umbu with A. amita and A. sororcula.

Key words: Insecta, Anastrepha, Ceratitis capitata, Mangifera indica.


 

 

1. INTRODUÇÃO

O Brasil é importante produtor de frutas no mundo, ocupando o terceiro lugar em produção em 2003. A Bahia figura como o primeiro produtor nacional de manga com produção de 293.417 ton em 2003 ocupando 18.138 ha (IBRAF, 2005). A região de Anagé, localizada no sudoeste do Estado da Bahia, vem se despontando como um novo pólo produtor de frutíferas, especialmente manga, apresentando grande potencial para gerar divisas para as economias regional e estadual. As moscas-das-frutas (Diptera: Tephritidae) constituem os principais problemas fitossanitários da cultura, principalmente quando o objetivo é o mercado externo.

O monitoramento populacional é o principal pré-requisito para o controle racional e eficiente das moscas-das-frutas, possibilitando caracterizar a população do ponto de vista qualitativo e quantitativo. O monitoramento permite conhecer as espécies de moscas mais freqüentes, as densidades e flutuações populacionais e níveis de controle, aspectos que servem de subsídios aos fruticultores para a adoção de medidas de controle. O monitoramento populacional, realizado na região desde 2002, tem fornecido conhecimentos consideráveis sobre índices populacionais de tefritídeos, expressos em mosca/armadilha/dia (MAD). Entretanto, informações a respeito dos índices de infestação são inexistentes. Considerando-se que as armadilhas com atrativo alimentar permitem uma coleta geral de tefritídeos e que as moscas-das-frutas podem utilizar determinada planta apenas como abrigo ou sítio de alimentação (URAMOTO et al. 2005), o monitoramento deve ser complementado com a amostragem de frutos, para avaliar o nível de infestação e identificar, com precisão, a associação de determinada espécie de mosca-das-frutas com o hospedeiro.

Dos hospedeiros de moscas-das-frutas, o umbu e o juá são nativos da região e encontram-se distribuídos na vegetação natural, até nos pomares comerciais de manga, onde os produtores preservam o umbu como fonte de lazer e renda. Encontram-se cajarana, serigüela, acerola e goiaba em pomares domésticos em diversos sítios na região, muitos deles próximos aos pomares comerciais de manga. A amendoeira é utilizada em sítios, nas zonas urbanas e nas propriedades agrícolas da região como árvores de sombra, principalmente em frente às construções.

Por meio da amostragem de frutos é possível detectar as larvas presentes, o grau de infestação do pomar e o dano direto causado pelas moscas. São coletados frutos maduros, tanto das plantas como do solo, de forma aleatória, visando à obtenção dos adultos das moscas (NASCIMENTO et al., 2000).

Diversos estudos revelam que os índices de infestação variam com a região de estudo, a disponibilidade de hospedeiros e fatores ambientais. Assim, ALUJA et al. (1996), estudando flutuação populacional do gênero Anastrepha, em pomares comerciais de manga no México, verificaram alta proporção de infestação por A. obliqua (Macquart). Essa espécie foi relatada por URAMOTO et al. (2004) como a de maior infestação nas plantas da família Anacardiaceae.

ARAÚJO (2002) constatou em Mossoró/Assu, RN, que as espécies de Anastrepha infestaram com maior intensidade juá, cajarana e goiaba, com índices médios de infestação de 67, 32,3 e 32,1 pupários/kg de fruto. Esse mesmo autor relata a ocorrência de maiores infestações de Ceratitis capitata (Wiedemann), em kunquat, carambola e serigüela com 159, 118 e 34 pupários/kg respectivamente.

Com relação às variedades de manga, CARVALHO et al. (1996) verificaram taxas de infestação diferentes. De 13 variedades, a de maior infestação foi a Brasil com 1,2 pupários/fruto, a Tommy Atkins com 0,046 pupários/fruto enquanto na Haden não houve infestação (CARVALHO et al., 1996). Há evidências de que as comuns como Rosinha, Coquinho e Espada não são infestadas por moscas-das-frutas, enquanto que Smith e Pope são mais suscetíveis em relação à Haden e São Quirino (ROSSETTO et al., 1989).

Assim, o objetivo deste trabalho foi estudar índices de infestação e diversidade das moscas-das-frutas no pólo de fruticultura de Anagé, BA, visando identificar hospedeiros secundários nas proximidades dos pomares comerciais de manga e respectivos índices de infestação a fim de subsidiar estratégias de manejo integrado de moscas-das-frutas nessa cultura na região em estudo.

 

2. MATERIAL E MÉTODOS

Os estudos foram desenvolvidos em pomares comerciais de manga e em suas proximidades, localizados em três municípios do sudoeste da Bahia: Anagé (14º36’S e 41º08’W), Belo Campo (15º02’S e 41º15’W) e Caraíbas (14º40’S e 41º14’W) e em laboratório, no período de fevereiro de 2004 a dezembro de 2005. O clima predominante na região é do tipo semi-árido e subúmido a seco, com regime pluviométrico na primavera e no verão (SEI, 2005).

Realizaram-se coletas de frutos de 21 espécies vegetais (Tabela 1), em função de sua disponibilidade, conforme período principal de frutificação, adotandose método descrito por NASCIMENTO et al. (2000). Na tabela 2 são apresentadas as coordenadas geográficas dos pontos de coleta, com respectivas codificações e hospedeiros amostrados.

 

 

Procedeu-se à coleta de frutos maduros na planta e no chão, acondicionamento em sacos de papel e transporte ao laboratório, onde os frutos foram contados, pesados e colocados em bandejas plásticas, contendo uma camada de vermiculita, previamente esterilizada. As bandejas foram etiquetadas com os dados de campo e colocadas em casa de vegetação de madeira com a frente telada. Decorrido um período de 12-13 dias, os frutos, já em estágio de apodrecimento, foram examinados a fim de localizar larvas tardias e, posteriormente, descartados. A vermiculita foi peneirada para obtenção de pupários, os quais foram transferidos para vidros, contendo uma fina camada de vermiculita, fechados com tecido voile, visando à emergência de adultos de moscas-das-frutas. Sobre o voile, colocou-se um chumaço de algodão embebido em mistura de mel e água, servindo de dieta para os adultos emergidos. As quantidades de frutos coletados, em massa e número, e espécies de plantas amostradas são apresentadas na tabela 3.

 

 

Efetuou-se a identificação de C. capitata com base nas descrições de ZUCCHI (2000a). Para a identificação das espécies de Anastrepha, foram utilizadas fêmeas emergidas em laboratório, proveniente de frutos de manga e das demais espécies vegetais amostradas. Decorridos três dias da emergência, tempo necessário para quitinizar a genitália, as fêmeas das moscas-das-frutas foram colocadas em vidros, contendo álcool 70%, e identificadas pelo ápice dos acúleos (para espécies de Anastrepha), preparados conforme método descrito por ZUCCHI (2000a). Para tanto, a fêmea, fixada em álcool 70%, foi colocada em posição ventral em uma lâmina sob microscópio estereoscópico (40x) e, com auxílio de dois estiletes, o acúleo foi extrovertido. Examinou-se o acúleo, em posição ventral, com uso de microscópio biológico (100x). A identificação das espécies foi realizada pela bióloga da Agência de Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB), Maria Consuelo Andrade Nunes, utilizando as chaves descritas em ZUCCHI (2000a) e URAMOTO (2002). As fêmeas foram transfixadas por alfinete e etiquetadas, com local e data de coleta, planta hospedeira, espécie e coletor e depositada na coleção entomológica da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

Com os dados obtidos, estimaram-se os índices de infestação em pupários/kg de fruto e pupários/ número de frutos. A viabilidade pupal foi calculada pela fórmula adaptada de NASCIMENTO (1984):

Viabilidade pupal (%) = nº de moscas emergidas x 100)/(total de pupas – nº de parasitóides emergidos)

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos 23 meses de coleta, foram obtidos 1.082 pupários de tefritídeos infestando 734,8 kg de frutos em nove das 21 espécies vegetais amostradas (Tabela 4). Em apenas umbu, cajarana, manga, serigüela, acerola, goiaba, juá e amêndoa observaram frutos infestados.

 

 

Não foi detectada a infestação de moscas-das-frutas em carambola, sendo reduzida em goiaba e amêndoa. No Norte de Minas Gerais, CANAL D. (1977) observou que, apesar de hospedeiros como carambola, laranja, manga, maracujá e diversas espécies de citros serem relatados como preferidos por moscas-das-frutas em várias regiões do Brasil, isso não aconteceu em seu estudo. Resultados diferentes foram observados em outros levantamentos (MALAVASI e MORGANTE, 1980; ARAÚJO, 2002; UCHÔA-FERNANDES et al., 2002).

O quiabento, largamente utilizado como cerca viva e tido como fonte de disseminação de moscas-das-frutas por alguns produtores da região, não se confirmou como hospedeiro de tefritídeos. Efetuaram-se 158 amostragens da cactácea em 18 pontos de coleta com 1.678 frutos amostrados sem infestação.

O umbu foi a espécie hospedeira em que houve maior coleta de pupários (742). A família Anacardiaceae foi a de maior número de adultos emergidos (225), representando 84% do total. A preferência dos tefritídeos do gênero Anastrepha pela família Anacardiaceae é citada em vários trabalhos (ARAÚJO, 2002; CANAL D., 1997; MENDES, 2001).

A família Rhamnaceae, representada pelo juá, foi a segunda em número de adultos emergidos, com 13,3% do total.

Identificaram-se oito espécies de moscas-das-frutas, sendo uma delas C. capitata e as demais pertencentes ao gênero Anastrepha, infestando sete espécies de hospedeiros (Tabela 5). Apenas um macho de Anastrepha foi observado em amêndoa.

 

 

A. fraterculus (Wiedemann) foi associada aos hospedeiros umbu, serigüela, cajarana, acerola, goiaba e juá. Com o mesmo número de fêmeas coletadas de A. fraterculus, A. obliqua foi detectada infestando umbu, serigüela cajarana, acerola, juá e manga, sendo a única espécie de Anastrepha detectada em manga.

As maiores infestações de A. fraterculus e A. obliqua ocorreram em plantas da família Anacardiaceae, com destaque para o umbu, com maior número de fêmeas obtidas. A. obliqua é relatada por outros autores como infestante de anacardiáceas (ARAÚJO, 2002; ZUCCHI, 2000b; CANAL D., 1997). Já A. fraterculus é associada a vários hospedeiros de diversas famílias (AGUIAR-MENEZES e MENEZES, 1996; BRESSAN e TELES, 1991). A. dissimilis (Stone) foi detectada infestando frutos de juá; A. amita (Zucchi) e A. sororcula (Zucchi), umbu; A. distincta (Greene), serigüela e juá; e A. zenildae (Zucchi), umbu e juá. A. zenildae é relacionada em outros estudos à goiaba e ao juá (ARAÚJO et al., 1996; BRESSAN e TELES, 1991; CANAL D., 1997). Pela primeira vez verifica-se a associação de umbu com A. amita e A. sororcula e de juá com A. fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis e A. distincta.

A espécie C. capitata foi detectada infestando apenas manga. Apesar disso, essa espécie é tida como a mais polífaga dos tefritídeos, infestando várias espécies de fruteiras (ARAÚJO, 2002; MENDES, 2001). Segundo MALAVASI et al. (2000), C. capitata é a única espécie de moscas-das-frutas que se distribui por todas as regiões biogeográficas do mundo. O fato de não terem sido detectados hospedeiros nativos de C. capitata dificulta a compreensão sobre os altos índices populacionais de adultos dessa espécie, capturados em armadilhas McPhail e Jackson de julho a dezembro de 2004 e 2005 (SÁ, 2006). Diante dos presentes resultados, pelo menos duas hipóteses podem ser levantadas. A primeira, de que o tamanho das amostras de frutos e a quantidade de hospedeiros estudados não tenham sido suficientes para detectar o fenômeno de sucessão hospedeira de C. capitata. A segunda hipótese estaria relacionada à presença de fontes de infestação temporárias de C. capitata, representadas pelos terreiros para secagem de café, existentes na região, geralmente no período de maio a agosto, principal período de produção de café na região do Planalto de Vitória da Conquista.

As hipóteses podem ser confirmadas pela continuidade do monitoramento larval de tefritídeos na região e por meio de estudos de dispersão do inseto, com a liberação em terreiros de café e avaliação da recaptura nos pomares monitorados. Resultados preliminares ainda não publicados sobre este tema indicaram a capacidade dispersiva de machos estéreis de C. capitata a distâncias aproximadas de 4,6 a 18,9 km do ponto de liberação, centro de um terreiro de café localizado em Anagé, BA (Aline Gomes Aguiar, informação pessoal).

Quanto aos índices de infestação em frutos (Tabela 6), constata-se que, dos 21 hospedeiros estudados, em apenas oito ocorreu infestação por tefritídeos: umbu, acerola, serigüela, cajarana, goiaba, juá, amêndoa e manga. Os tefritídeos infestaram com maior intensidade serigüela, juá e umbu. Com C. capitata, A. fraterculus, A. obliqua e A. zenildae infestando serigüela e A. zenildae infestando juá, essas duas espécies vegetais são relatadas por CANAL D. (1997) como importantes hospedeiras de moscas-das-frutas no norte de Minas Gerais. Em Piracicaba, MENDES (2001) obteve índice de infestação em serigüela de 343 pupários/kg de fruto.

 

 

ARAÚJO (2002), em Mossoró-Assu, detectou em juá índice de infestação de 67 pupários/kg de fruto, sendo considerado um dos hospedeiros de maior infestação por tefritídeos naquela região. Ainda no mesmo trabalho, em serigüela e umbu os índices de infestação foram relativamente baixos, 21,5 e 7,9 pupários/kg respectivamente. Juá e umbu são espécies nativas na região deste estudo e encontram-se amplamente distribuídas nas proximidades dos pomares de manga.

Em acerola e cajarana, observaram-se baixos índices de infestação – 0,9 e 3,5 – pupários/kg de fruto respectivamente (Figura 1). Resultados diferentes com acerola foram constatados por MENDES (2001), em São Paulo, com infestação de 8,05 pupários/kg.

 

 

Na goiaba, relatada como hospedeiro preferencial de tefritídeos (MALAVASI e MORGANTE, 1980; ARAÚJO, 2002; MENDES, 2001), observou-se baixa infestação, quando comparada a outros hospedeiros: 0,4 pupários/kg de fruto (Tabela 6). Fato semelhante ocorreu com a amêndoa.

A infestação em manga foi baixa quando comparada a outros hospedeiros: 0,1 para frutos maduros e 0,03 para frutos "de vez". MALAVASI e MORGANTE (1980) e MENDES (2001) detectaram índices maiores em seus estudos, 3,52 e 7,00 pupários/kg de fruto respectivamente. Não foi constatada infestação em frutos verdes de manga (Tabela 6).

Não houve infestação por tefritídeos em mamão, pinha, limão, palma, carambola, melão de São Caetano, jabuticaba, abacate, romã, tamarindo, mandacaru, figo e quiabento, provavelmente devido ao reduzido tamanho das amostras.

O limite mínimo de infestação por moscas-dasfrutas para um hospedeiro ser considerado primário é de 30 pupários/kg de fruto (ARAÚJO, 2002). De modo geral, serigüela, juá e umbu podem ser considerados hospedeiros primários de moscas-das-frutas na Região Sudoeste da Bahia, uma vez que os índices de infestação nesses hospedeiros ultrapassaram esse índice. Além de juá e serigüela, ARAÚJO (2002) identificou também cajarana e goiaba como hospedeiros primários de moscas-das-frutas para a região de Mossoró-Assu.

Considerando-se as duas formas de estimar a infestação, aquela baseada em pupários/fruto indicou resultados diferentes em relação aos hospedeiros estudados (Figura 2). Assim, as maiores infestações ocorreram em serigüela, umbu, cajarana e juá. Índices semelhantes foram detectados por COVA e BITTENCOURT (2003), na região de Irecê, BA, com 0,82 pupários/fruto em serigüela. No entanto, para as condições de São Paulo, MENDES (2001), obteve índice maior em serigüela (4 pupários/fruto).

 

 

Em umbu, COVA e BITTENCOURT (2003) observaram índices mais baixos, 0,02 pupário/fruto. ARAÚJO (2002) detectou índice de 0,30 pupário/fruto em Mossoró-Assu.

Para cajarana, ARAÚJO (2002) obteve 0,48 pupário/fruto, exatamente duas vezes maior que aquele estimado no presente estudo (0,24) (Tabela 6).

Na acerola, a infestação foi de 0,01 pupário/fruto (Tabela 6), valor inferior àqueles obtidos por MENDES (2001), em Piracicaba, SP, (0,04 pupário/fruto), PORTILLA (2002), no Recôncavo Baiano (0,11 pupário/ fruto) e COVA e BITTENCOURT (2003), em Irecê, BA, (0,80 pupário/ fruto). Da mesma forma, em goiaba, o índice obtido de pupários/fruto também foi baixo, se comparado a outros levantamentos (MALAVASI e MORGANTE, 1980; ARAÚJO, 2002; COVA e BITTENCOURT, 2003).

Em manga madura, o índice foi de 0,02 pupário/fruto e de 0,09 em manga "de vez" (Tabela 6). Índices mais altos, que atingiram 1,20 pupário/fruto, foram detectados em diversas variedades de manga por CARVALHO et al. (1996), incluindo Tommy Atkins (0,05), variedade amostrada no presente estudo. COVA e BITTENCOURT (2003) também obtiveram índices mais altos em manga na região de Irecê, BA: 0,24 pupário/fruto.

A viabilidade pupal nos hospedeiros: acerola, goiaba e manga "de vez" foi acima de 50% (Tabela 6), fato importante, pois permitindo bom desempenho larval, esses hospedeiros contribuem para a manutenção e aumento populacional das moscas-das-frutas na região.

Assim, no pólo de fruticultura de Anagé, os hospedeiros serigüela, juá e umbu merecem atenção especial, por tratar-se de hospedeiros primários de A. fraterculus e A. obliqua.

 

4. CONCLUSÕES

1. Registra-se, para as condições do pólo de fruticultura de Anagé, a ocorrência das seguintes espécies de moscas-das-frutas: C. capitata, A. fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis, A. amita, A. distincta, A. sororcula e A. zenildae;

2. Registram-se, pela primeira vez, as seguintes associações bitróficas: juá com A. fraterculus, A. obliqua, A. dissimilis e A. distincta; e umbu com A. amita e A. sororcula;

3. Serigüela, juá e umbu são hospedeiros primários de A. fraterculus e A. obliqua.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em 26 de setembro de 2006 e aceito em 12 de novembro de 2007.

 

 

* Autor correspondente.

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