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Bragantia

Print version ISSN 0006-8705On-line version ISSN 1678-4499

Bragantia vol.67 no.4 Campinas Oct./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0006-87052008000400022 

SOLOS E NUTRIÇÃO DE PLANTAS
NOTA

 

Disponibilidade de boro em substrato para produção de porta-enxertos de citros em fase de sementeira

 

Boron availability in the growth media for production of citrus rootstock seedlings

 

 

Dirceu Mattos JuniorI ,IV, *; Rodrigo Marcelli BoarettoI; Emanuel Roberto de Lima CorrrêaII; Mônica Ferreira de AbreuIII; Sergio Alves de CarvalhoI, IV

ICentro de Citricultura Sylvio Moreira, Instituto Agronômico, Rod. Anhanguera, km 158, 13490-970 Cordeirópolis (SP). E- mail: ddm@centrodecitricultura.br; sergio@centrodecitricultura.br; boaretto@iac.sp.gov.br
IIEngenheiro Agrônomo, ex-bolsista IAC PIBIC/CBPq
IIICentro de Solos e Recursos Ambientais, Instituto Agronômico, Caixa Postal 28, 13012-970 Campinas (SP), E-mail: monica@iac.sp.gov.br
IVBolsista do CNPq

 

 


RESUMO

A produção de mudas cítricas em ambiente protegido, associada ao uso de substratos, requer estratégias adequadas de manejo no viveiro. Problemas de falta e/ou excesso de nutrientes freqüentemente causam prejuízos ao setor. Em citros ocorrem diferentes respostas à disponibilidade de boro (B) para a planta e são comuns danos causados pela toxidez desse nutriente. Este trabalho teve como objetivo avaliar os efeitos da adição de B no substrato sobre a absorção e o crescimento de duas variedades de porta-enxertos de citros em fase de sementeira. O experimento foi desenvolvido em esquema fatorial, com limão 'Cravo' e citrumelo 'Swingle' e quatro doses de B misturadas ao substrato na forma de H3BO3 (0, 3, 6, e 12 g m-3 de B), em três repetições. Avaliaram-se os teores de B no substrato no início do experimento, aos 55 e 110 dias de sementeira, e o crescimento dos seedlings e a absorção de B pelas plantas nos mesmos intervalos. Os teores de B no substrato variaram entre 0,1 e 4,7 mg L-1. Aos 55 e 110 dias, houve decréscimo nos teores do nutriente nas plantas provavelmente devido às perdas do nutriente do substrato por lixiviação. Observaram-se sintomas visuais de fitotoxicidade de B nos porta-enxertos cultivados no substrato tratado com 3 g m-3 de B, quando o teor na planta foi >100 mg kg-1. O excesso de B causou redução no crescimento dos porta-enxertos. O maior crescimento e acúmulo de B na massa seca de plantas de citrumelo 'Swingle', comparado ao 'Cravo, indicam maior tolerância do primeiro à fitotoxicidade de B.

Palavras-chave: nutrição, micronutriente, viveiro, análise química, toxicidade de boro.


ABSTRACT

The production of citrus nursery trees under protected environment using growth media requires healthy management practices. Problems associated with deficiency and/or nutrient excess have frequently caused economic losses in the nursery. Citrus grow differently depending on boron (B) availability in the growth media, even tough B toxicity commonly cause damage to plants. This research aimed to evaluate the effects of B supply in the growth media on nutrient uptake and seedling growth of two rootstock citrus varieties. A factorial design was set up with two factors: two rootstocks (Rangpur lime and Swingle citrumelo) and four B levels added to the substrate (0, 3, 6, e 12 g m-3 B) as boric acid, with 3 replications. Boron availability in the substrate was evaluated at beginning the experiment, 55 and 110 days after rootstock seeding, as well as seedling growth and B uptake by seedlings in the same time intervals. Boron concentration in the treated substrate varied from 0.1 to 4.7 mg L-1, whereas B concentration in the whole plant tissue decreased in both evaluation periods probably because of nutrient leaching losses from substrate. Visual symptoms of B toxicity were observed for seedlings grown in substrate with B added at 3 g m-3, which were associated with B concentration in the plant tissue >100 mg kg-1. Excess B caused reduced growth of seedlings. The greater growth and B content in the dry mass of 'Swingle' compared to 'Cravo' rootstock plants denoted greater tolerance of the former to B toxicity.

Key words: nutrition, micronutrient, nursery, chemical analysis, boron toxicity.


 

 

Introdução

O bom desenvolvimento da citricultura depende do uso de material genético superior e de mudas de alta qualidade sanitária, que somente podem ser produzidas em ambientes protegidos, isolados de vetores de doenças como clorose variegada dos citros (CVC), cancro cítrico e huanglongbing (HLB), e em substratos livres de patógenos (i.e.: Phythophtora e nematóides), respeitando-se exigências de normas específicas (CARVALHO, 2003). Neste sistema de produção de mudas de citros, a adoção de estratégias de manejo adequadas para otimização da produção é importante visto a necessidade do setor para a manutenção da competividade e qualidade superior do produto.

Em condições de cultivo protegido, o período de formação da muda citrica pode ser reduzido para 8 a 16 meses, enquanto em viveiros de campo eram necessários até 20 meses (CASTLE e ROUSE, 1990; TEÓFILO SOBRINHO, 1991). Esse período ocorre principalmente em função de temperaturas mais altas no interior dos telados e disponibilidade de água otimizada para o crescimento vegetal. Além destes fatores, o manejo nutricional das mudas cítricas em ambientes telados com o uso de recipientes difere do antigo sistema convencional em campo, pois os substratos, possuem características físicas e químicas distintas do solo nos viveiros abertos.

Os substratos são de composição variável, com misturas de turfa, cascas e palhas vegetais, vermiculita e outros componentes (KÄMPF, 2002; ZANETTI et al., 2003). A composição química do substrato é determinante para o desenvolvimento adequado dos porta-enxertos (SCHÄFER et al., 2006), influenciando diferentemente condições de desenvolvimento da copa sobre os mesmos porta-enxertos (MOURÃO FILHO, 1989). Fertilizantes minerais podem ser adicionados aos substratos, no entanto, existem dúvidas sobre doses adequadas para a produção de mudas cítricas em substrato, o que tem determinado muitas vezes desbalanços nutricionais, prejudicando o crescimento das plantas, em função da falta ou excesso de determinado elemento.

Vários autores (BERNARDI et al., 2000; CARVALHO et al., 2000; MATTOS JUNIOR et al., 2001; BOAVENTURA et al., 2004) estudaram a adubação com macronutrientes na produção de mudas em substrato. Por outro lado, problemas envolvendo micronutrientes não têm tido a mesma abordagem.

A toxidez de boro (B) em seedlings de porta-enxertos foi identificada em viveiros (MATTOS JÚNIOR et al., 1995) e associada a teores de B >5 mg kg-1 no substrato (extraído em água quente; ABREU et al., 1994). Ainda, no referido trabalho, o teor total de B no substrato revelou baixa correlação com o B acumulado na planta.

Em viveiros, o desbalanço de B constitui um problema para algumas variedades de porta-enxertos, em decorrência da resposta característica dos citros, pois o sintoma visual da toxidez ocorre a níveis distintos de concentrações foliares do nutriente conforme a variedade (CHAPMAN, 1958). Os prejuízos devido à toxidez de B são relacionados ao menor crescimento do material vegetativo, com conseqüente atraso no período de formação da muda e perda da qualidade desejada.

Desta forma, estabeleceu-se um estudo com o objetivo de avaliar o desenvolvimento de dois porta-enxertos de citros produzidos em fase de sementeira em condições de ambiente protegido e identificar os níveis críticos de B no substrato para a produção adequada.

 

Material e Métodos

O projeto foi desenvolvido em telado localizado no Centro de Citricultura Sylvio Moreira (IAC), em Cordeirópolis, na fase de crescimento dos seedlings de citros, compreendida entre a germinação e o transplantio para recipientes plásticos rígidos, sob ambiente protegido com tela, conforme requerido pelas normas vigentes da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (CARVALHO, 2003). Foram avaliados dois porta-enxertos: limão 'Cravo' (Citrus limonia Osbeck) e citrumelo 'Swingle' [Poncirus trifoliata (L.) Raf. x C. paradisi Macf.]. As sementes utilizadas foram coletadas no banco de sementes do Centro de Citricultura Sylvio Moreira - IAC, tratadas com fungicidas e armazenadas em câmara fria até sua utilização.

As sementes foram pré-germinadas, sem o tegumento, em bandejas plásticas perfuradas e preenchidas com substrato (Tabela 1). Nesse substrato, correspondente ao lote que não recebeu a aplicação de B, o teor inicial de B foi de 0,1 mg L-1. Os teores médios de nutrientes em extrato saturado 1:1,5 (SONNEVELD e VAN ELDEREN, 1994), em mg L-1, observados no substrato antes da adição do B, foram: N-(NH4+NO3) = 6,3, P = 2,5, K = 135, Ca = 133, Mg = 28, S = 255 e micronutrientes (Cu, Fe, Mn e Zn) < 0,1.

Posteriormente, seedlings com cerca de dois pares de folhas formadas, foram transplantados para os recipientes plásticos cônicos (tubetes) com capacidade para 0,05 dm3, preenchidos com substrato à base de composto de casca de pínus e de vermiculita (Rendimax® Eucatex, Paulínia, SP), sem a adição de micronutrientes, previamente preparado e homogeneizado com 0, 3, 6, e 12 g m-3 de B. A fonte de B adicionada ao substrato, foi o H3BO3, dissolvido em água conforme a dosagem e aspergido uniformemente ao substrato, o qual foi incubado à temperatura ambiente por 10 dias antes do transplante dos seedlings. Os tubetes foram acondicionados em bandejas com 98 células cada uma, mantidas em ambiente com cobertura de tela aluminizada e transparência de 50%. A irrigação foi feita por aspersão, duas vezes por semana, utilizando sistema automático de irrigação, na taxa de 25 mL tubete-1. Foi aplicada, em dois intervalos alternados à irrigação, o total de 50 mL tubete-1 da solução nutritiva contendo, em mg L-1, N-NO3 (202), N-NH4 (15), P(16), K (185), Ca (150), Mg (30), S (20), Fe (1,8), Mn (0,21) e Zn (0,21).

O experimento foi estabelecido em delineamento inteiramente casualizado em esquema fatorial 2 x 4 com os porta-enxertos limão 'Cravo' e citrumelo 'Swingle' e as doses de B: a em três repetições. As parcelas experimentais foram compostas por 40 plantas úteis.

Após transferência dos seedlings para os tubetes, os porta-enxertos foram cultivados por 110 dias. Amostras com 20 plantas foram colhidas aos 55 e 110 dias para avaliação da produção de massa seca de raízes e parte aérea. Após a secagem do material vegetal em estufa de circulação forçada de ar a 65 °C, foram determinados os teores de nutrientes na planta toda, conforme método descrito por BATAGLIA et al. (1983). Separaram-se 10 amostras de plantas para a determinação da densidade de comprimento de raízes (Lv; cm cm-3) e área foliar (AF; cm2), com a aquisição de imagens digitais analisadas através do aplicativo SIARCS® 3.0 (s.d.), e obteve-se as estimativas de funções lineares para Lv e AF, com base na massa seca de cada componente. Determinaram-se os teores de B disponível em amostras compostas dos substratos preparados no início do experimento, aos 55 e 110 dias, pelo método do extrato saturado 1:1,5 (SONNEVELD e VAN ELDEREN, 1994).

Procedeu-se a análise de variância dos dados para verificação de efeitos de tratamentos, estimativa de modelos polinomiais e cálculo de diferenças mínimas significativas (LSD; P = 0,05) para comparação de médias.

 

Resultados e Discussões

Os substratos proporcionaram níveis crescentes de B disponível (0,1; 1,0; 2,2 e 4,7 mg L-1, no extrato de saturação), na mesma proporção do ácido bórico aplicado (Tabela 1), decorrente da alta solubilidade da fonte fertilizante. O valor inicial de pH do substrato indicou reação ligeiramente ácida, se comparado com a faixa de interpretação de resultados de análises proposta pelo Comitê Europeu de Padronização, entre pH 5,5-6,5 (BAUNGARTEN, 2002). Contudo, mesmo com a adição do ácido bórico, não houve variações significativas nos valores de pH 4,7-4,9. A condutividade elétrica (CE) foi relativamente elevada (1,9 dS m-1), provavelmente, em vista da adubação de base utilizada durante a produção na indústria. Valores de CE variando entre 0,1-2,3 dS m-1 foram observados em diferentes substratos (SONNEVELD e VAN ELDEREN, 1994).

A determinação da condutividade elétrica (CE) de amostras compostas coletadas aos 55 e 110 dias demonstrou redução significativa na concentração dos nutrientes no substrato, avaliada (CE < 0,1 dS m-1). A CE está diretamente relacionada à quantidade de íons presente no substrato, e sua redução ocorreu em função, principalmente, de perdas por lixiviação e da absorção desses íons pelas plantas. BOAVENTURA et al. (2004) demonstraram correlação entre os valores da CE e o somatório de íons na solução lixiviada através dos recipientes, a qual pode ser usada para estimar as perdas de nutrientes diretamente no viveiro, com apenas um condutivímetro. No referido trabalho, uma unidade de CE (dS m-1) correspondeu ao somatório total de íons em solução de 10 mmolc L-1. Os teores de B foram bastante baixos aos 55 dias (~0,1 mg L-1), havendo discreto aumento aos 110 dias (~0,5 mg L-1), possivelmente devido à mineralização da fração orgânica do substrato, o que coincide com a variaçào de pH observada entre o início e o fim do período considerado.

Os efeitos dos tratamentos sobre o desenvolvimento das plantas foram observados visualmente já aos 30 dias após o início do experimento. Nas menores doses de B, as folhas dos porta-enxertos apresentaram aparência normal. Contudo, nas doses intermediárias observaram-se sintomas de clorose desenvolvida da borda para o centro do limbo foliar, numa faixa estreita. Na maior dose testada, observaram-se os sintomas caracteristicos da toxidez de B em plantas citrícas, descritos por MATTOS JUNIOR et al. (2005), provocados pelo excesso do nutriente, caracterizados por intensa clorose e necrose do tecido, nas margens das folhas, além do retardamento no desenvolvimento dos seedlings.

Em trabalhos na literatura constam haver variações na concentração de B nas folhas das plantas cítricas, de acordo com a variedade do porta-enxerto (BOARETTO, 2008; PAPADAKIS et al., 2004; TAYLOR e DIMSEY, 1993; MOURÃO FILHO, 1989; WUTSCHER, 1989; LIMA et al. 1980; COOPER et al., 1952; EATON e BLAIR, 1935). Entretanto, essas avaliações não foram realizadas com seedlings em condições de ambiete protegido. Na maior dose de B do experimento, observou-se no citrumelo 'Swingle' folhas com clorose, porém sem sofrer necrose da borda, o que sugere haver uma resposta diferenciada entre as variedades estudadas. WUTSCHER (1989) classificou a tangerina 'Cleópatra', a lima da 'Pérsia', o 'Trifoliata' e o pomelo como variedades que induzem a altas concentrações de B nas folhas de plantas neles enxertadas, enquanto a Severinia buxifolia, o 'Alemow', a laranja 'Azeda' e o citrange 'Carrizo' como porta-enxertos que induzem respectivamente a baixos teores. Como o citrumelo 'Swingle' é originado de um cruzamento entre pomelo 'Duncan' e trifoliata (POMPEU JUNIOR., 2005), é provável que este porta-enxerto tolere maiores concentrações de B nas folhas, sem expressar sintomas de toxidez.

O desenvolvimento das plantas no telado foi satisfatório, atingindo altura superior a 10 cm aos 110 dias após o transplante. DECARLOS NETO et al. (2002), em estudo com diversos porta-enxertos, verificaram que os limoeiros 'Cravo' e 'Volkameriano' foram os porta-enxertos com o maior crescimento, atingindo altura média de 11 cm aos 120 dias após a semeadura.

As doses de B adicionadas ao substrato promoveram efeitos negativos sobre o acúmulo da massa seca dos porta-enxertos aos 55 e 110 dias (Figura 1A e 1B). No primeiro período, a toxidez de B foi mais pronunciada se comparado à última avaliação (110 dias), o que se correlaciona com os níveis do nutriente extraídos do substrato amostrado nos mesmos intervalos, e que demonstraram o baixo efeito residual do ácido bórico. Aos 55 dias, verificou-se que a redução da produção de massa seca do porta-enxeto de 'Swingle' foi de 27 % com o aumento das doses de B no substrato de 0 para 12 g m-3. Da mesma forma, a redução da produção de massa seca do limão 'Cravo' foi de 44% (Figura 1A). BOARETTO (2006) verificou que laranjeiras 'Valência' enxertadas em citrumelo 'Swingle' acumularam em média 10 mg kg-1 de B a mais que as plantas enxertadas em limoeiro 'Cravo'.

 


 

A avaliação realizada aos 110 dias demonstrou maior crescimento do limão 'Cravo' no substrato que não recebeu a aplicação do B, contudo, não houve diferenças entre os porta-enxertos e os tratamentos com 3, 6 e 12 g m-3 de B (Figura 1B), constatando-se que o prejuízo inicial causado às plantas proporcionou reflexos negativos até o fim do ciclo de desenvolvimento na sementeira, com um decréscimo médio de aproximadamente 25% da produção de massa seca para ambas as variedades.

A razão entre a área foliar e o crescimento das raízes varia entre as diferentes espécies vegetais, principalmente, durante o desenvolvimento da planta e devido à influência de fatores ambientais. Entretanto, é possível traçar estreita correlação entre a produção de massa seca das raízes e das folhas (MARSCHNER, 1995). No desenvolvimento da parte aérea (área foliar = AF) dos porta-enxertos de citros estudados houve correlação significativa com o crescimento das raízes (densidade de comprimento = Lv) (0,60 < R2 < 0,99; Figura 2). A correlação entre as variáveis permitiu estimar que ocorreu aumento de AF de aproximadamente 4,5 cm2 para cada unidade de incremento da densidade de raízes. O crescimento das plantas foi proporcional ao índice de área foliar fotossinteticamente ativa. Assim, eventos que promovam prejuízos ao desenvolimento das raízes, limitará seriamente a produção do viveiro.

 

 

A absorção média de macronutrientes pelos dois porta-enxertos para os diferentes tratamentos aos 55 dias, foi, em mg planta-1: K=3,6; N=2,5; Ca=1,4; Mg =0,5; e P=0,4 e de micronutrientes, em ìg planta-1: Fe=48,2; B=12,4; Mn=7,7; Zn=8,4; e Cu=1,0. Estes valores não variaram significativamente entre os tratamentos testados. BOAVENTURA et al. (2004), em mudas de laranja 'Valência' sobre limão 'Cravo' e citrumelo 'Swingle' desenvolvidas em substrato composto de casca de pínus e vermiculita, observaram a mesma proporção na quantidade de nutriente absorvida, com exceção apenas para a quantidade de N que foi superior a de K (N>K>Ca>S, P, e Mg para os macro e Fe>>Mn, B, Zn e Cu para os micronutrientes). Substratos preparados com grande proporção de casca de pínus tendem a ter elevados teores de Fe total, o que explicaria as diferenças de valores estimados entre os micronutrientes. A menor absorção de N comparada ao K e o alto conteúdo de Fe pôde ter limitado o crescimento das plantas.

Houve aumento proporcional na concentração de B no tecido das plantas e no acúmulo do nutriente, de acordo com os teores iniciais verificados no extrato saturado dos substratos (Tabelas 1 e 2).

O teor de B na planta variou de 50 a 110 mg kg-1, não havendo diferenças significativas para os dois porta-enxertos estudados dentro de cada dose testada. A ocorrência de sintomas visuais de fitotoxidade do elemento nas plantas ocorreu com teor de B de cerca de 100 mg kg-1, relativamente inferiores aqueles reportados por MATTOS JÚNIOR et al. (1995) para folhas de porta-enxertos com dois a quatro meses de idade em citrovasos (300 mg kg-1). Esta diferença é explicada provavelmente pela idade das plantas nos dois estudos, entre as fases de sementeira e a formação no viveiro.

Embora não se tenham verificado diferenças nos teores de B na parte aérea das plantas para o citrumelo 'Swingle' e o limão 'Cravo', o acúmulo do B (aproximadamente 10 a 20 µg planta-1) diferiu entre as variedades (Tabela 2). Os dados constantes deste estudo sugerem, desta forma, que o citrumelo 'Swingle' é mais tolerante à fitotoxidade de B em sementeira, já que o crescimento (avaliado pela produçao de massa seca; Figura 1A) foi proporcional ao acúmulo de B na planta, que correspondeu a uma diferença de cerca de 45 % entre as variedades no tratamento que recebeu a dose 12 g m-3 de B (Tabela 2). Essa característica foi também descrita por PAPADAKIS et al. (2004), cujo trabalho demonstrou haver menor tolerância a toxidez de B em tangerina 'Clementina' quando enxertada em laranja 'Azeda' do que em citrumelo 'Swingle'.

 

4. Conclusões

1. Os sintomas visuais observados para a toxidez de B nas plantas foram caracterísiticos para os dois porta-enxertos e ocorreram quando a concentração do elemento na matéria seca foi maior que 100 mg kg-1.

2. A aplicação de 3 g m-3 de B ao substrato causou redução do crescimento dos porta-enxertos, sendo o mesmo acentuado com doses mais elevadas. O maior crescimento e acúmulo de B por porta-enxerto de 'Swingle' comparados ao de 'Cravo' demonstraram a maior tolerância do primeiro à fitotoxidade do nutriente durante o desenvolviemento na sementeira.

 

Referências

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Recebido para publicação em 17 de setembro de 2007 e aceito em 15 de setembro de 2008.

 

 

* Autor para correspondência

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