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versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v. 41 n. 1 Rio de Janeiro  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52581998000100005 

Sociologia e Ecologia: Um Diálogo Reconstruído*

Gian Mario Giuliani

 

 

Esta reflexão parte da premissa de que duas das crises, atualmente muito discutidas, estão intimamente associadas: de um lado, a crise dos paradigmas das ciências, em particular das ciências humanas, decorrente de processos de mudanças profundas e rápidas na atual sociedade industrial-capitalista; de outro, a crise nas relações entre as formas de organização social da produção e do consumo e os ambientes físico-naturais da vida societária ou, dito de maneira mais geral, a crise nas relações homem-natureza. Tais crises são indissociáveis, porque o relacionamento do homem com a natureza é, ao mesmo tempo, o relacionamento entre os homens, é o próprio modo de viver e pensar dos homens. Assim, ao se tornarem mais agudas e imbricadas, parecem indicar como caminho capaz de nos conduzir a soluções eficazes, simplesmente uma maior integração entre sociologia e ecologia. Afinal, nada mais justo, já que as duas ciências, mesmo mantendo seus próprios campos científicos e seus próprios objetos, apresentam afinidades surpreendentes. A desejada integração, no entanto, não parece factível a curto prazo, persistindo impasses que não a tornam simples. É necessário construir um diálogo entre as duas ciências, um diálogo que, às vezes, pode se tornar contraditório, obrigando que se estabeleçam compromissos nos quais cada uma é chamada a fazer concessões à outra.

Para melhor compreender suas afinidades e para melhor refletir sobre os impasses que dificultam uma integração frutífera, é útil resgatar o surgimento e a consolidação dessas duas ciências, já que sociologia e ecologia nasceram no mesmo período e adotaram conceitos fundamentais semelhantes, como, por exemplo, comunidade, associação, evolução. Ambas, também, são filhas das mesmas revoluções, no pensamento e na organização social, e ambas estão, mais que as outras ciências, expostas e muito ligadas às dimensões culturais, às avaliações subjetivas e a julgamentos de valor na própria construção de seus objetos de estudo.

 

O PONTO DE VISTA DA SOCIOLOGIA

A sociologia funda sua convicção de que é possível estudar cientificamente a sociedade no pressuposto de que esta só pode resultar das ações dos indivíduos, ao mesmo tempo que tais ações são orientadas por estruturas, ou por valores, que se apresentam mais estáveis e duradouros que os próprios atores. A sociologia busca identificar as alterações que ocorrem na sociedade e definir a ordem que regula as ações dos homens e dá forma às suas relações. Pode ser a ordem dos positivistas, imposta pelas estruturas, ou a ordem kantiana, reconstruída pelos instrumentos analíticos de quem a estuda, ou até a finalista ordem da história, porém sempre uma ordem que permita estabelecer as leis de funcionamento da sociedade e as leis de sua mudança. Podemos dizer que Marx, Durkheim e Weber, considerados os fundadores da sociologia, por vias diferentes, têm perseguido esse mesmo objetivo.

Dois aspectos importantes devem ser ressaltados: os três autores formulam suas propostas científicas a partir da (e para a) sociedade industrial e capitalista; os três, e seus seguidores, buscam explicar os fenômenos sociais recorrendo exclusivamente à sociedade, isto é, partindo do pressuposto de que as causas dos fenômenos sociais devem ser buscadas exclusivamente nas relações entre fenômenos sociais.

Nesse sentido, estão definitivamente superadas as proposições de Montesquieu, considerado o precursor da sociologia, uma vez que ele foi o primeiro a procurar a conexão entre os fatores internos (as instituições e os valores) de uma determinada sociedade e os fatores externos (as condições climáticas e geográficas) da vida social (Montesquieu, 1973). O autor parte do pressuposto de que sob a diversidade caprichosa dos eventos, a história tem uma ordem que se manifesta em leis constantes. No substrato da história encontra-se a natureza humana, que consiste na tendência à autoconservação, à paz, à reprodução e à sociabilidade. Considera as leis como uma necessidade que deriva da natureza das coisas, e se todas as coisas têm leis, os homens também têm as suas. As leis às quais os homens obedecem, porém, não são condições necessárias. Diferentemente do "ser físico", governado por leis imutáveis, o homem, como ser inteligente, viola continuamente as leis de Deus e as que ele próprio estabelece. Assim, as leis da convivência humana não podem ser entendidas como fatos naturais, mas a partir das condições em que se realiza a convivência. O "espírito das leis", entendido como uma espécie de caráter de um povo, não se determina segundo um ideal, mas de acordo com uma série de fatores dos quais há que tomar nota sem preconceito, configurando-se como o resultado do equilíbrio entre os fatores internos e externos. Coerente com seus princípios, Montesquieu encontra razões objetivas ¾ um espírito das leis ¾ também para o despotismo que ele abomina. Esse sistema resulta da combinação de uma série de fatores internos e externos à sociedade: a grande extensão do reino, um clima malsão, o terreno árido, o caráter servil do povo e a falta de tradições capazes de limitar a vontade do senhor. No entanto, mesmo que se leve em conta as influências do clima sobre o temperamento, os costumes, a vida política e as leis dos povos, Montesquieu não acredita que os homens permaneçam passivos diante desse quadro. Quanto mais o clima afasta os homens do trabalho e da moral, tanto mais a religião e as leis os trazem para estes deveres. Para o autor, a compreensão científica é a compreensão da heterogeneidade das sociedades, é a compreensão das diversas possibilidades de ordenamentos sociais que não nascem nem da mera vontade dos homens, nem de alguma natureza dada a priori. Montesquieu é considerado o precursor da sociologia seja porque alertou acerca dos perigos de se confiar cegamente em princípios universais, à custa da realidade com suas especificidades, seja porque talvez tenha sido o primeiro a argumentar "cientificamente" que os povos primitivos também têm sua ordem e que esta deve ser compreendida por ela mesma (Abbagnano, 1992; Jonas, 1975).

Os fundadores da sociologia consideram os aspectos físicos do ambiente como elementos relacionados às características da sociedade, porém de sociedades anteriores à sociedade moderna, industrial e capitalista. Durkheim refere-se a fatos sociais da ordem anatômica ou morfológica, tais como a distribuição da população no território, o número e a natureza das vias de comunicação, a forma das habitações. Estes fatos sociais devem ser vistos como "modo de ser" das sociedades, porém não podem ser relacionados às maneiras de agir, sentir ou pensar, aos fatos sociais da ordem fisiológica, os quais representam, estes sim, o objeto da sociologia (Durkheim, 1978).

Para Weber, os determinantes sociais são tão numerosos e complexos que se torna impossível para o sociólogo não só pensar em explicá-los na sua totalidade, mas também supor que possa haver algum determinante universal. Os fenômenos sociais resultam de uma combinação de fatores cuja ordem e importância não estão associadas a leis previamente estabelecidas. Quanto aos fatores ambientais, o autor mostra em História Agrária Romana, em Sociologia Comparada das Religiões e em História Econômica Geral como tais fatores não são determinantes universais, mesmo que possam assumir relevância causal em conjunturas específicas.

Marx também se refere a elementos geoecológicos quando trata das formações sociais pré-capitalistas e relaciona, de forma bastante similar a Montesquieu, uma conformação geográfica específica ao sistema social despótico das formações sociais asiáticas (Marx, 1975). Em uma carta escrita a Engels, em 1853, assim se expressa:

"A ausência da propriedade privada é a chave para entender todo o Oriente [...]. Mas por quais motivos os orientais não chegaram a ter uma propriedade fundiária, nem mesmo feudal? Acredito que as razões residam sobretudo no clima, somado às más condições do solo, especialmente das grandes zonas desérticas que estendem-se desde o Sahara, passando pela Ásia, Pérsia, Índia, até os mais altos altiplanos da Ásia" (Soffri, 1977:27).

Em um artigo para o New York Daily Tribune (1853), intitulado" O Domínio Britânico na Índia", Marx continua empregando os termos" acredito", "me parece". Para ele, o que caracterizava o centralismo despótico oriental era a disposição físico-geográfica de pequenas aldeias auto-suficientes que o Estado indiano governava com três ministros: das Finanças (saque interno), da Guerra (saque externo) e das Obras Públicas (sobretudo de irrigação). Quando os ingleses ocuparam a região, regularam o primeiro e o segundo, mas ignoraram o terceiro e inundaram o país de manufaturados. Essa política levou à ruína a agricultura indiana e o sistema de aldeia que integrava a produção agrícola e a produção de tecidos. Marx, segundo Soffri, teria manifestado uma certa pena dos indianos, mas não muita, já que considerava o sistema de aldeia a verdadeira base de sustentação do sistema despótico. Somente depois de 1860, quando estudou os etnólogos e a Rússia, Marx convenceu-se de que a comunidade agrícola havia sido a forma primitiva da sociedade (Soffri, 1977). O que resulta bastante claro é que também em Marx prevalece a convicção de que a natureza condiciona o homem somente até o capitalismo.

Assim, como se pode verificar, os fundadores da sociologia não ignoram os fenômenos ambientais e a questão dos recursos naturais (ver Buttel, 1992). Entretanto, para a sociologia enquanto ciência nascida da sociedade industrial, moderna, ou capitalista, e que faz desta sociedade seu objeto privilegiado de estudo, a relação do homem com a natureza permanece um pressuposto da explicação, porém não tem valor analítico e muito menos valor explicativo dos fenômenos. A esse respeito, o pensamento de Marx demonstra uma maior riqueza e, por isso, merece que nos detenhamos um pouco nele.

O autor destaca a relação homem-natureza em momentos fundamentais de sua construção teórica: quando se refere, em obras diferentes1, ao "trabalho" como sendo a prática que distingue o homem dos outros seres vivos e que se fundamenta na atividade de troca entre o homem e a natureza; e quando se refere, nos Manuscritos de Paris (Marx, 1968), à própria "natureza humana". Em sua teorização a respeito da natureza humana, Marx descarta, ao mesmo tempo, duas visões: a mais atual, iluminista, segundo a qual o homem seria naturalmente egoísta (na versão inglesa de Hobbes ou da economia política), ou naturalmente bom (na versão francesa inspirada em Rousseau). Para ele, ambas são falácias ideológicas, sobretudo a do egoísmo natural e da conseqüente naturalidade das lutas entre os homens. Para Marx, se o homem é egoísta, ele o é de fato nesta sociedade, na sociedade capitalista. A segunda visão, ligada à teologia e ao idealismo, à visão espiritualista, postula que a natureza humana se realiza na abstração espiritual, isto é, no respeito a Deus, entidade à qual o homem deve a sua existência. Nesta visão, como o homem, de fato, não pode se separar da natureza, esta se torna o principal obstáculo à sua própria realização. A natureza é aqui entendida como "animalidade", donde conclui-se que: a liberdade humana encontra-se na dissociação do homem com a natureza; a dignidade humana exprime-se na capacidade do homem de controlar a natureza; a natureza humana realiza-se na espiritualidade.

Marx refuta ambas as visões, porque considera uma ilusão se preocupar com o "homem em geral", com a idéia abstrata de homem; seus interesses são pelo "homem real" que, para ele, não é nem bom nem mau, nem egoísta nem altruísta, nem espiritual nem bestial. O homem é um ser que é "parte da natureza", porém é também um "ser genérico" e, por isso, tem características que correspondem à sua espécie. O que, para Marx, é específico do homem enquanto ser que é "parte da natureza"? Ele é, em primeiro lugar, um" ser natural": tem corpo, é limitado, tem força viva, é ativo, tem capacidade de interagir. Ser um ser natural que é parte da natureza significa: que existe uma natureza fora de si mesmo; que qualquer ser natural é objeto para outro ser natural; e que, portanto, é parte de um conjunto. Tais características próprias do "ser natural" não são exclusivas do homem: toda espécie de seres naturais, sejam animais ou vegetais, as possuem. Como o homem, além de "natural", é também um" ser genérico", o autor atribui ao "ser natural" a determinação de" humano". Assim, o homem visto como "ser natural humano" significa: que tem uma "natureza genérica" fora de si mesmo; que é objeto para outro ser natural humano; e que faz parte de um conjunto que pode se fazer por si mesmo a cada momento. Faz parte de sua natureza humana a tendência à associação consciente, e a sociedade ¾ a formação social ¾ é a segunda natureza do homem. Nesse sentido, nada do que é propriamente humano (idéias, paixões, respostas aos instintos) é imposto ao homem pela natureza; nada disso é universal ou natural; tudo é conquista do homem. Assim, para Marx, a sociedade é a unidade essencial do homem com a natureza e, por isso, fala em "naturalização do homem" e "humanização da natureza" (idem).

Sendo o tema central marxiano o da "liberdade dos homens", o autor busca a dimensão onde esse valor possa ser encontrado e procura compreender quais seriam os obstáculos para alcançá-lo. Conclui que a liberdade se encontra na sociedade e os homens são conduzidos a ela pelas suas necessidades (condições) e pelas suas capacidades (ações, práxis), ambas em contínua mudança, em evolução, ambas históricas e não naturais. E o que se interpõe como obstáculo à liberdade dos homens? Os próprios homens, e, por isso, as lutas entre eles também são históricas e não naturais. Se tudo em Marx volta de novo para a sociedade, se a natureza que vale é a humanizada e se a natureza é vista como um "limite" à expansão das potencialidades do homem, mais do que o reino da realização de sua própria natureza2, por outro lado, é presente para ele um projeto de sociedade capaz de romper com a concepção da natureza como exclusivo campo de aproveitamento utilitário. Nas partes em que se refere à futura sociedade comunista3, a sociedade sem classe é também a sociedade da reconciliação do homem com a natureza.

A sociologia nasceu, portanto, com a marca de um pensamento que tornou independente a sociedade da natureza, ou no qual a natureza era simplesmente um derivado da sociedade. É importante ressaltar que esta concepção foi uma conquista da modernidade, já que a grande revolução no pensamento, da qual a sociologia foi partícipe, consistiu justamente em eliminar qualquer influência de forças externas sobre a sociedade (tanto a "vontade divina", como as leis da natureza), capazes de determinar a ordem e as leis de funcionamento da própria sociedade. Com a sociologia os homens se tornavam, finalmente, responsáveis por seus atos e eram livres para construir sua sociedade, conservando, ao mesmo tempo, o antigo sentimento de serem os dominadores da natureza.

 

O PONTO DE VISTA DA ECOLOGIA

Se esse é o ponto de vista da sociologia, vejamos agora o da ecologia, entendida como ciência que estuda a relação entre os seres vivos e seu ambiente e que tem como seu objeto fundamental o ecossistema.

A ecologia também surgiu na segunda metade do século XIX. Com relação à maioria das outras ciências naturais, a ecologia nasceu tarde e este atraso se deveu substantivamente a duas razões: no plano do pensamento havia a necessidade de uma verdadeira revolução nos paradigmas das ciências naturais e, em particular, das ciências da vida; no plano histórico-social, que ocorresse o desenvolvimento da sociedade industrial, com os entusiasmos e a euforia de domínio sobre a natureza, e também com os conseqüentes problemas causados pela expansão das indústrias. Vejamos primeiro a questão dos paradigmas das ciências.

As grandes filosofias sempre tiveram princípios de interpretação da natureza, e desde os gregos e os romanos são escritas as histórias dos animais e das plantas. Tais histórias permaneceram até o século XVII como visões objetivadas da natureza, fundadas em cosmologias religiosas. Na Idade Média, conhecer a natureza significava, no fundo, conhecer Deus, que a havia criado. Nos séculos XVI e XVII os homens estavam em luta permanente com a natureza ¾ as montanhas, as florestas, a natureza selvagem provocavam imagens pavorosas; seus habitantes eram vistos como perigosos e bárbaros; faziam-se leis para combater os pássaros predadores, os lobos e todos os animais que competiam com os homens pelos recursos da terra. Até o século XVIII o campo era sinônimo de ignorância e rusticidade, enquanto a cidade era o lugar das boas maneiras e da civilização, embora fosse também o lugar da libertinagem e da corrupção. Terras não cultivadas significava desperdício e a presença de homens incultos; as ervas não cultivadas eram daninhas, as flores silvestres contaminavam os jardins. Uma paisagem habitada, cultivada, domesticada, ao contrário, era tida como bonita. As áreas de cultivo possuíam formas regulares e geométricas, seja para aproveitar o espaço, seja para mostrar o controle do homem sobre a natureza. Nesta ordem estava a essência da beleza e essa foi a maneira de indicar a separação entre cultura e natureza (ver Thomas, 1988).

A comparação entre homens e animais, feita em busca do que constitui a natureza do homem, não tinha como objetivo principal definir as diferenças entre ambos, mas visava, sobretudo, propor um ideal de comportamento para os homens, impor uma moral. Pouco importava se o homem diferia do animal por ter consciência e instinto religioso, ou por ser racional e ter capacidade de aprender. O mais importante é que a linha que os separava era vista como eterna e imutável e que tudo que era reprovável era considerado animalesco: a ferocidade, a gula, a sexualidade, a falta de higiene. As características que distinguiam os homens dos animais serviam mais para distinguir os homens dos semi-homens, ou dos semi-animais, que rapidamente se tornavam identificáveis: em primeiro lugar os povos primitivos, mais próximos dos animais por não terem tecnologia, linguagem compreensível e religião cristã; em seguida vinham as crianças e os jovens que tinham de ser amansados como os cavalos; depois as mulheres, dominadas pelas paixões e os instintos; finalmente, os analfabetos, os pobres, os loucos, os mendigos, os escravos (idem).

Dentre os fatores que contribuíram para subverter essas visões da natureza, grande influência teve a descoberta do Novo Mundo e o crescente conhecimento e interesse dirigidos a ele, até que o Século das Luzes explicitou de forma clara a ambivalência do interesse científico combinado com a utilização prática do conhecimento. As primeiras obras de história natural apareceram na segunda metade do século XVIII ¾ antes delas só havia história de elementos singulares da natureza ¾ e dentre as mais importantes estão as obras de Linné (Linneo) (1735), publicadas na Holanda, e de Buffon (1749), na França. Nas obras de Linneo e de Buffon os seres vivos são percebidos em suas especificidades e em suas relações recíprocas, mesmo que ainda estejam organizados em uma hierarquia imutável que, para os autores, era a característica fundamental do grande sistema da natureza. Minerais, plantas, animais e homens existiam e viviam em equilíbrio como queria o Criador; equilíbrio que era imutável e se mantinha auto-regulado graças ao princípio da proporção entre os herbívoros, os carnívoros, os pássaros, os peixes, os insetos, as plantas etc. O homem era colocado como dono da natureza, mesmo sem ter a certeza de poder dominar a sua própria natureza animal; a civilização era o que permitia o domínio do homem sobre a natureza e sobre si mesmo, era a humanização da natureza (Deleage, 1991).

No século XIX, ainda predominava a idéia de que o homem não podia renunciar a exercer seu domínio sobre o mundo natural, porém esse objetivo já começava a ser contestado. Não somente os estudos mais cuidadosos de história natural minavam seriamente o antropocentrismo, mas a própria cultura mudava seus valores com relação à natureza e aos ambientes mais próximos dela. O campo começava a ser visto como mais bonito que a cidade, a qual se mostrava insalubre e poluída pelas indústrias e pelos sistemas de aquecimento das residências. Os habitantes do campo eram considerados mais saudáveis e também moralmente mais dignos. A vida no campo aparecia idílica, porque estava em contato com a natureza e afastada das tensões sociais. Surge, então, a questão de como conciliar as vantagens sociais e econômicas da cidade com o ambiente físico mais humano e agradável do campo. Muitos consideravam que a natureza devia ser domesticada, porém não dominada, nem muito menos suprimida. Assim, no final do século, a natureza selvagem e as montanhas passaram a funcionar como lugares de regeneração espiritual dos habitantes da cidade, como verdadeiras catedrais do mundo moderno. Segundo Thomas (1988), à medida que diminuía a ameaça de animais selvagens, questionava-se cada vez mais o direito do homem de eliminá-los. Em 1831, em uma das pontes de Londres, ficavam expostos animais que, naturalmente em luta, eram mostrados convivendo "reconciliados" na mesma jaula ¾ gatos e ratos, falcões e passarinhos. Era o mito do Éden, possibilitado pela ação do homem civilizador. Chegou-se até mesmo a questionar a natureza carnívora do homem e seu direito de matar animais para comer, questionando, no fundo, a autoridade humana sobre a natureza. É interessante ressaltar que essas duas dimensões, a capacidade do homem de dominar a natureza e as restrições éticas postas a tal comportamento, estiveram presentes já a partir do século XVIII, e ainda hoje permanecem no cerne da questão ecológica.

Foi no século XIX que, associada a diversos fatores, se produziu uma ruptura fundamental: 1) no plano social deu-se uma revolução no espaço geopolítico, tendo em vista o desenvolvimento das vias de comunicação, do comércio e a expansão colonial; 2) no plano científico, intensificaram-se as relações entre a física e a química, de um lado, e as ciências da vida do outro, a biologia, a botânica e a zoologia; 3) no plano filosófico-epistemológico, mudou radicalmente a concepção de tempo. Para esta mudança e a aproximação das ciências físico-químicas e as ciências da vida, a contribuição de Charles Darwin foi determinante (Deleage, 1991). Vejamos, então, alguns aspectos desta contribuição.

A questão da evolução das espécies ocupava um lugar central desde o início do século. Antes de Darwin já se reconhecia a luta pela existência e o controle natural como sendo os mecanismos de funcionamento do grande sistema da natureza, porém de uma maneira muito diferente da perspectiva baseada nas teorias do autor. Um dos elementos fundamentais dessa diferença está, justamente, na concepção de tempo. Antes de Darwin, predominava uma "concepção dual" de tempo: de um lado, havia o tempo" histórico", que sempre corria para a frente e no qual o homem evoluía e progredia ininterruptamente; nesse tempo, a luta pela existência era o mecanismo que levava ao progresso contínuo; do outro, havia o tempo "da terra", que era cíclico e repetitivo, em que todas as coisas passavam e voltavam para si mesmas; nesse tempo, a luta pela vida era um mecanismo de equilíbrio dinâmico e o instrumento de controle e de governo da natureza, da sua auto-regulação. O tempo histórico opunha-se ao tempo cíclico da terra, porque a natureza permanecia o que era, enquanto o homem progredia. Nessa visão dualista do tempo, a natureza e o homem acabavam se distanciando sempre mais.

Darwin (e os cientistas depois dele) rompeu com essa concepção e estabeleceu a unicidade do tempo, tornando-o um fluxo contínuo que estava sempre correndo para a frente. Tudo estava submetido à historicidade e o mundo era um emergir contínuo de novidades, não só para os homens, mas também para a natureza. Com Darwin a natureza passava a ter uma verdadeira história e, talvez, este tenha sido um dos elementos mais criativos da sua teoria. Dessa concepção foi possível deduzir que não havia um governo natural preordenado e que, nas lutas na natureza, os seres vivos apareciam e desapareciam, se expandiam e contraíam, à custa uns dos outros. Assim, o tempo não era mais a dimensão da auto-regulação, mas mostrava-se como um grande rio que arrastava consigo tudo que estava nele. Ao distinguir a concepção da teoria da evolução como uma "teoria do progresso", desaparecia o caráter predeterminado da vida humana: o homem se tornava igual aos outros seres naturais, filho do acaso, e sua evolução não estava mais ligada a nenhum plano racional (Eiseley, 1961).

No plano da cultura, antes de Darwin, havia-se estabelecido uma forte ligação entre a filosofia evolucionista setecentista (a do tempo dual e a da auto-regulação) e a antropologia, que naquela época pretendia afirmar-se como ciência. Em suas analogias biológicas, a antropologia reafirmava a hierarquia das diversas civilizações e culturas e uma escala evolutiva (dos animais, aos meio-homens primitivos, aos homens civilizados), cujo topo estava reservado ao homem ocidental. Com Darwin não há mais nenhuma escala evolutiva, mas somente "caminhos evolutivos" independentes e isso passou a valer também para as sociedades. Cada civilização passava a ter a sua história e todas elas não nasciam necessariamente da mesma fonte, nem acabavam fatalmente no mesmo mar. Assim, o principal legado deixado por Darwin é o de que a vida não tem nenhuma direção predeterminada, mas é infinitamente criativa; a vida sempre insere alguma indeterminação na matéria e o homem é o maior reservatório de indeterminação (idem). Estes princípios guiaram, e guiam ainda hoje, as modernas reflexões sobre a natureza.

Mesmo que entre os seguidores da teoria darwiniana a maioria tenha se concentrado quase que exclusivamente na dimensão da luta entre as partes, alguns não esqueceram os aspectos da associação e da cooperação entre os elementos da natureza. Neste caso, deve-se citar o biólogo alemão, republicano e ateu convicto, Ernst Heackel, que em sua obra Morfologia Geral dos Organismos, publicada em 1866, criou ao mesmo tempo o termo "ecologia" e a própria disciplina. Heackel, que foi titular da cátedra de zoologia na Universidade de Jena, entre 1862 e 1908, e um apaixonado divulgador das teorias de Darwin, propôs a definição de ecologia, como sendo a ciência que estuda os seres vivos em seu meio ambiente, em uma época na qual a fé no progresso havia ganho uma força extraordinária. Há bastante tempo prevalecia a convicção de que o caráter especulativo da ciência não era separável de seu interesse prático, ou até utilitário, e os conhecimentos científicos apareciam como os instrumentos mais apropriados para regular positivamente as contradições consideradas passageiras. Também Karl Möbius compartilhava essas convicções; criador do conceito de "biocenose"4, em sua obra As Ostras e sua Economia (1877), insistia na proposta de elaboração de um programa governamental de pesquisa sobre a pesca, com o objetivo, então bastante ambicioso, de manter inalterada e constante a produtividade do oceano (Deleage, 1991).

Entretanto, foram os botânicos que começaram a se referir à ecologia e foi o Novo Mundo americano que, no final do século XIX, se tornou o lugar mais propício ao desenvolvimento de uma ecologia dinâmica baseada no estudo das "sucessões vegetais"5. Com efeito, o habitat primitivo podia servir como um grande laboratório de tamanho natural para o estudo do desenvolvimento a longo prazo das vegetações. "Comunidade"," sucessão", "comunidade clímax", são conceitos essencialmente botânicos6. A visão ecológica desses cientistas ensinava como as plantas e as comunidades vegetais regulavam suas formas e seus comportamentos na base dos fatores água, luz, temperatura e solo. Nesse sentido, talvez, não seja uma mera casualidade o fato de as condições de conservação e reprodução de tais fatores serem hoje apontadas como as mais preocupantes da crise ecológica no plano global: a exaustão das águas subterrâneas e o enxugamento dos grandes lagos, a desertificação e salinização dos terrenos, o efeito estufa, o buraco na camada de ozônio.

Também na origem da ecologia estava a vontade de descobrir a" razão" da natureza e de afirmar uma ordem lógica do mundo, as leis que o ordenam. Esta ciência nasceu do projeto de inventariar o mundo natural e a distribuição dos diferentes habitats do globo, nos quais, deve-se sublinhar, o homem sempre esteve incluído. Por isso, a ecologia tornou-se uma ciência com uma identidade própria e a consciência de conseguir responder às demandas dos homens já no fim do século passado, quando se manifestavam muitas inquietações sobre os efeitos perversos e destruidores da industrialização7. É importante observar que se é verdade que a revolução industrial fez do homem o predador mais eficiente de todos os predadores, também deve-se entender que, do ponto de vista da ecologia, nenhuma civilização foi inocente, nem mesmo aquelas que tinham na natureza a fonte principal de sua cosmologia religiosa. O homem, como outros animais, sempre se comportou como predador e entre os ecossistemas que sofreram as maiores agressões por parte das civilizações pré-industriais estão, sem dúvida, as florestas8. Há, porém, a esse respeito, uma profunda diferença qualitativa que deve ser registrada: as antigas civilizações extinguiam-se, ou transformavam-se, sem que a espécie fosse ameaçada, enquanto a nossa geração é a primeira que vive sob a ameaça da catástrofe nuclear e da catástrofe ecológica global. Diante desses perigos, os apelos à ecologia tornam-se sempre mais difusos e insistentes, tanto pelos diferentes setores sociais como pelas diversas disciplinas científicas. O que estaria justificando o fato de a ecologia se tornar uma espécie de centro das atenções e das esperanças, é seu caráter de disciplina que sempre se manteve aberta, tanto às ciências naturais, como às sociedades humanas, e nunca, em sua história, pôde ser reduzida a um simples ramo da botânica ou da biologia. (É bastante curioso observar que no começo do século XX, por exemplo, a ecologia se apresentava como uma "sociologia das plantas" ou como uma "economia da natureza" (Deleage, 1991).) Não só está aberta às sociedades humanas, mas tem fortes "afinidades" com a sociologia, e tal como esta faz com as sociedades, a ecologia estuda os elementos que permanecem e os que mudam na natureza; estuda as formas associativas e as condições de existência e reprodução das espécies, os ecossistemas; e também, assim como a sociologia, parte do princípio de que todas as formas de vida modificam seu próprio ambiente. Lançando mão de uma visão sistêmica e de instrumentos científicos mais modernos, os ecólogos têm denunciado a presença de fenômenos desequilibradores muito importantes, tais como: rupturas de processos bioquímicos e ecológicos antigos, causadas pela agricultura e a indústria; grandes perturbações climáticas, desequilíbrios produzidos pelo ritmo do incremento demográfico, sobretudo, têm demonstrado que as crises causadas por esses fenômenos são "crises ecológicas cumulativas" e exponencialmente progressivas.

 

A ECOLOGIA E A QUESTÃO DOS VALORES

A ecologia na sua abertura para as ciências humanas nos dá a consciência dos perigos da destruição e, ao mesmo tempo, a esperança de que as soluções para resolvê-los são possíveis. Por outro lado, assim como a maioria das outras ciências, está exposta a duas condições que produzem tensões inter e intradisciplinares: a primeira, e mais geral, é a necessidade de ter que confrontar, de forma similar à sociologia, a questão da relação de seus conhecimentos com os valores morais e as culturas; a segunda, refere-se às tensões entre a globalização e a especialização, ou regionalização, do conhecimento.

No que diz respeito à sua relação com os valores, já observamos como a dominação dos homens sobre as plantas e os animais, desde sempre, tem-se estendido à dominação sobre os próprios homens: dos civilizados sobre os primitivos, dos homens sobre as mulheres, dos donos sobre os não donos. Desde sempre, também, os homens se relacionam com a natureza, e em particular com seus ecossistemas, com base em suas culturas e crenças religiosas. Mesmo na era da ciência, ainda é possível remeter certas teorias ditas da "ecologia global" a mitos de cosmologias religiosas antigas9. Na história da ecologia, portanto, não é fácil separar a ciência da ideologia. Mesmo em suas representações científicas mais elaboradas, os ecólogos acabam influenciados, em suas descrições da natureza, por analogias com a organização da sua própria sociedade. Assim, tais cientistas poderiam reproduzir a tendência, sempre presente em todas as sociedades, de se servir de uma concepção "natural-sociológica", na qual uma determinada ordem natural legitima a ordem social, ou, ao contrário, de uma concepção" socionaturalista", na qual uma determinada ordem social inspira o modelo de ordem na natureza. As lutas sociais, políticas e científicas travadas pelas forças do capitalismo moderno contra as forças da sociedade feudal talvez representem na história social os acontecimentos mais claros e explícitos desse perverso processo de humanização da natureza.

Quanto à segunda condição, reconhecemos que a ecologia tem no holismo dialético seu paradigma fundamental e se utiliza da abordagem sistêmica porque é orientada a produzir uma visão global dos fenômenos que estuda, visão que é indispensável à compreensão do conjunto e que, no fundo, constitui a sua própria prerrogativa. Entretanto, ela não pode evitar o caminho da especialização que a leva a aprofundar os conhecimentos específicos e regionais da realidade. Nesse sentido, talvez, a ecologia esteja vivendo um impasse: quanto mais gerais (globais) são suas teorias, tanto mais estas aparecem como sendo influenciadas pelas cosmologias religiosas; quanto mais suas teorias permanecem específicas, maior será sua necessidade de diálogo (no sentido de confronto e de defesa dos respectivos objetos) com outras ciências para enfrentar os problemas teóricos e práticos globais da sociedade atual. Mas, será que é possível para a ecologia eliminar o julgamento de valor sobre o objeto estudado e, portanto, a subjetividade do observador? Parece muito difícil. Os processos da biosfera e os da sociedade se entrelaçam e contradizem e o mundo da natureza nunca esteve separado do mundo da política. A ecologia convive com as idiossincrasias contraditórias decorrentes do fato de ser não somente ciência "da natureza na natureza", mas também, e ao mesmo tempo, ciência "do homem na natureza", ciência "do homem contra a natureza", ciência "do homem para a natureza" e ciência" da natureza para o homem"10.

Assim, se de fato podemos considerar a ecologia como a ciência mais humana das ciências naturais, não podemos esquecer que para ela o homem permanece o fator mais traumático da biosfera. É nesse aspecto que as relações dessa ciência com a sociologia se tornam problemáticas. É possível ter uma idéia mais clara da influência dos valores, da cultura e da política sobre essas relações, projetando dois cenários estilizados e extremos.

(1) Quando prevalece a perspectiva "humanista", a ecologia pode se tornar uma simples (no sentido de simplificada e pobre) "gerência ecológica da natureza". Baseada na doutrina utilitarista, tal perspectiva indica quais os elementos da natureza devem ser preservados por terem uma utilidade e um valor, seja este um valor estético-recreativo, um valor pela raridade, um valor para a pesquisa científica, ou até valores potenciais ainda não desenvolvidos (ver Ehrenfeld, 1992)11. Esta visão apresenta sérios problemas. Em primeiro lugar, ao estabelecer valores para características naturais na sociedade capitalista, onde todo valor acaba monetarizado e disputado, poder-se-iam produzir efeitos perversos que acelerariam a destruição daquilo que se quer conservar. Em segundo lugar, pensar na possibilidade de regular o uso econômico da natureza sem transformar substantivamente as relações produtivas e políticas entre os homens, corre-se o sério risco de que nada acabe sendo mudado de fato. Sem modificar tais relações entre os países, as próprias soluções aparentemente técnicas tornam-se campos de disputa muitas vezes inconciliáveis12. Finalmente, a ecologia entendida como simples gerência ecológica da natureza, acaba reduzindo seu campo de conhecimento extremamente rico, proveitoso e necessário a uma esterilizante busca de uma espécie de mágica: aumentar a eficiência do trabalho, preservando os recursos naturais. Tal perspectiva é decididamente frustrante, porque a natureza observada simplesmente sob a ótica de sua capacidade produtiva empobrece, entristece e achata o ambiente humano, tornando-o mais parecido a uma fábrica do que com um lugar para viver (idem).

(2) No segundo cenário, quando prevalece a perspectiva" naturalista" da ecologia, o homem passaria a ser tão-somente uma das partes que compõem e participam do mundo natural e todas as suas atividades seriam avaliadas a partir dos efeitos e das influências sobre a estabilidade dos ecossistemas. Nesse caso, uma racionalidade ecológica, tentando determinar as decisões políticas e o cálculo econômico, pode-se tornar o "álibi científico" (Deleage, 1991) de novos centros de poder mundiais, subtraídos de qualquer controle democrático, assim como pode levar a propostas de controle de problemas ambientais altamente discriminadoras e injustas. Por exemplo, já foi alertado de como uma política que pretenda proteger a biodiversidade através da instituição de "reservas naturais" ¾  como ambientes mantidos em estado selvagem ¾ poderia causar, porque a justificaria, a destruição total de outras regiões.

Assim, se uma perspectiva predominantemente humanista tornaria a ecologia uma mera especialização técnica a serviço da sociologia, da economia e da ciência política, por outro lado, uma perspectiva rigidamente naturalista da ecologia poderia levar com facilidade a uma organização autoritária da sociedade (idem; Ceri, 1989; Herculano, 1992; Viola, 1992).

 

O DIÁLOGO ENTRE ECOLOGIA E SOCIOLOGIA

Entre as décadas de 60 e 70 emergiu a "ciência do ambiente", uma disciplina científica que buscava uma síntese interdisciplinar das ciências que, de alguma maneira, poderiam contribuir para a compreensão e a solução dos problemas ambientais. Entretanto, a integração das ciências naturais com as ciências sociais demonstrou ser muito mais difícil do que se pensava. Os textos mais importantes da moderna cultura ecológico-ambiental estão, hoje, muito distantes da tradição sociológica13. Trata-se, em grande parte, de textos de biólogos, demógrafos, geólogos, geógrafos, filósofos, jornalistas e de alguns economistas "heréticos", como Nicolas Georgescu-Roegen e Herman Daly, expoentes da chamada "economia ecológica", uma disciplina contestada pelos economistas de qualquer corrente mais canônica (Daly, 1989). Sobre a economia ecológica, é preciso observar que se trata de uma disciplina não tão nova como parece. Na obra de Deleage fala-se do socialista e populista ucraniano Sergej Podolinskij que, em 1882, escrevia para Marx e Engels a respeito de um curto trabalho que ele próprio havia publicado (Podolinskij, 1880). Nesse artigo, o autor preocupava-se com o equilíbrio entre a acumulação e a dispersão de energia solar: em face do crescimento populacional, considerava necessário melhorar a agricultura e a produtividade biológica da natureza. Foi ele quem elaborou o primeiro balanço energético da história, partindo da idéia de que no mundo se contrapõem dois processos energéticos: o dos vegetais que acumulam energia solar e dos animais que a consomem. Ao prevalecer o primeiro, teremos uma reserva de energia; prevalecendo o segundo, teremos penúria. Podolinskij estava convencido de que o trabalho útil do homem e dos animais poderia deslocar esse equilíbrio a favor dos consumidores, aumentando a energia solar fixada nas plantas e atrasando sua dispersão. Deleage reproduz uma frase fulminante de Engels, extraída da correspondência deste com Marx (19 e 22 de dezembro de 1882), a qual dispensa qualquer comentário: "Podolinskij acabou saindo do caminho, porque quis encontrar uma confirmação científica da justeza do socialismo e tem misturado, assim, a física com a economia" (Deleage, 1991:67)14.

Com a ciência do ambiente surgiram estudos de problemas ambientais ligados à definição e ao uso dos bosques, dos parques recreativos e dos desertos, e também acerca da distinção entre uso destrutivo e não destrutivo dos recursos naturais, dando forma a uma "sociologia ambiental"15. A evolução do interesse nos problemas do meio ambiente levou à identificação de dois conhecidos paradigmas formulados por Catton e Dunlap (1983): o da "excepcionalidade humana" e o "paradigma ecológico"16, cuja adesão por parte dos sociólogos, mesmo parecendo alternativa e sem possibilidade de conciliação, indicava o surgimento de uma sociologia do meio ambiente.

Para Strassoldo (1992), esta sociologia, como todas as ciências jovens, se caracterizava pela grandiosidade de suas aspirações e programas e pelas suas pesquisas empíricas bastante triviais, já que reivindicava uma mudança de paradigma, ao mesmo tempo que lançava mão de análises, temas, instrumentos teóricos e técnicos tradicionais. Ele aponta para duas tendências: uma, mais ambiciosa, representada por Catton, busca uma espécie de síntese interdisciplinar, na qual dados e conceitos alertam para a gravidade das relações entre sociedade e natureza. Outra, mais modesta, usa o instrumental dos sociólogos para o diagnóstico e a solução dos problemas ambientais específicos. Nesse sentido, suas áreas de estudo mais importantes voltam-se para temas muito diferentes, dificilmente reduzíveis a uma especialização sociológica17. O principal elemento unificador da sociologia do meio ambiente não é tanto a adesão a um paradigma teórico, mas a adesão aos valores de uma nova cultura ambientalista e o desejo de contribuir para a solução dos problemas ecológicos, assim como de facilitar uma melhor relação entre sociedade e phisis, entre homem e natureza. Assim, a importância atribuída aos fatores ambientais pode corresponder a passos concretos que levem à superação do tabu dos fundadores da sociologia, para quem homem e sociedade já estariam desvinculados do condicionamento das forças naturais e físicas.

Com certeza o tema mais amplo e complexo, sobre o qual ecólogos e cientistas sociais estão buscando construir o diálogo, é o clássico tema da sociologia, o tema do "desenvolvimento" humano e da sociedade, que, nos tempos atuais, tende a ser definido como "desenvolvimento sustentável". Este conceito, proposto sobretudo para os países em desenvolvimento é, na verdade, o resultado de um compromisso político entre os países ricos e os pobres. Como todos os compromissos políticos, expressa uma série de princípios orientadores baseados em uma plataforma consensual de intenções, mas apresenta sérios problemas de definição teórica e operacional.

O termo tem um entendimento geral no sentido de indicar um processo de desenvolvimento concebido como melhorias qualitativas que não comportam necessariamente crescimentos quantitativos. Tal processo deveria poder se sustentar por um tempo muito longo devido à sua capacidade de conservar os elementos naturais não renováveis e renovar os que fossem gastos na produção e consumidos pela população, cujo crescimento deveria permanecer sob constante observação e controle. Entretanto, de fato, não há mais do que isso em comum entre os vários conteúdos que a esse termo são atribuídos, dependendo das diversas concepções de sociedade e do que se entende por desenvolvimento. Mesmo assim, é possível indicar algumas dimensões gerais que o caracterizam e outras que decididamente não lhes são próprias.

Para o desenvolvimento sustentável são importantes a análise racional, o pensamento sistêmico, a acumulação e a elaboração de dados, já que resulta das relações entre o sistema socioeconômico geral e seus subsistemas locais. Porém, tudo isso não é suficiente, porque uma de suas prerrogativas fundamentais é a necessidade de compatibilizar dimensões potencialmente antinômicas. Vejamos algumas: a) o desenvolvimento sustentável deve ser ao mesmo tempo dinâmico e conservador, já que tem de desenvolver a sociedade e conservar os recursos naturais; b) não pode ser implementado por um simples conjunto de reformas técnicas e econômicas, mas comporta quase uma "revolução", que se fundamenta não somente em iniciativas políticas, mas, e sobretudo, em novas regras de convivência, novas normas e novos valores. Entretanto é uma "revolução longa", mais próxima de um processo evolutivo, já que normas e valores novos devem ser internalizados pelos atores; c) nesse processo de internalização da nova moral, os atores têm de aprender a pensar no global e agir no local e, por isso, necessitam de conhecimentos sobre a cultura de sua sociedade e de noções científicas sobre a natureza; d) é um projeto que requer muita criatividade, porém se alimenta de conhecimentos reais, científicos, e não da fantasmagoria dos desejos. Em suma, o desenvolvimento sustentável impõe escolhas sobre o que tem de mudar e o que deve ser mantido e, por isso, não pode ser o resultado de fórmulas predeterminadas, não pode ser decretado. Só pode provir da mobilização e da participação e os movimentos sociais têm um papel importante tanto no processo que pensa tal forma de desenvolvimento, como no que o realiza. Esse é o plano sobre o qual sociologia e ecologia podem e devem reconstruir seu diálogo.

Este diálogo, para ser frutífero, tem de se apoiar necessariamente em alguns pressupostos iniciais que, mesmo permanecendo em um plano geral, devem ser consensuais. Em primeiro lugar, no reconhecimento de que estamos necessitando urgentemente de novas relações entre homem e natureza e, portanto, de novas relações entre os homens. Também é necessário que a ecologia volte a ter como foco de seu interesse as necessidades dos homens, de "todos os homens", em seus respectivos países, com suas especificidades históricas e culturais, com suas visões das gerações futuras, reconhecendo, portanto, na "sociodiversidade" um valor tão elevado quanto é atribuído à biodiversidade. Finalmente, que a sociologia, mesmo que não aceite o ponto de vista da ecologia, esteja aberta às suas mensagens fundamentais que, talvez, possam ser assim sintetizadas: o questionamento do gigantismo e da uniformização, a afirmação da diversidade e do pluralismo, a modéstia de uma consciência de que os homens" estão" na natureza e de que os conhecimentos dela ainda são muito limitados.

(Recebido para publicação em novembro de 1996)

 

NOTAS:

1. Mais especificamente em Manuscritos: Economía y Filosofía; Ideologia Alemã; O Capital; Crítica ao Programa de Gotha.

2. Esta perspectiva está bastante clara em O Capital, vol. I, cap. XIII. Ao tratar do "segredo" da revolução industrial, o autor mostra como a invenção da máquina-ferramenta permite superar todas as limitações físico-biológicas dos trabalhadores e abrir para a sociedade uma perspectiva de desenvolvimento das forças produtivas praticamente ilimitada. Portanto, o conceito de limite em Marx é algo cuja superação representa uma conquista, um progresso, a possibilidade da liberdade, e não uma barreira que ao ser transposta coloca a possibilidade da catástrofe geral. Esta segunda concepção de limite está mais implicitamente presente na idéia de Engels (1976) acerca da possibilidade de a natureza "se vingar" das agressões sofridas pelos homens.

3. Na Ideologia Alemã, na Crítica ao Programa de Gotha, em Manuscritos: Economía y Filosofía.

4. De bios, vida, e koinoein, ter algo em comum; indica uma comunidade de seres vivos em seu meio ambiente.

5. Por "sucessão" os ecólogos entendem o processo de substituição de uma comunidade por outra, em conseqüência da modificação do ambiente e do desequilíbrio que pode ocorrer, uma vez alcançado o nível de saturação, isto é, quando a comunidade atinge o estágio em que se esgotam os recursos para sua sobrevivência (ver Forattini, 1992).

6. Por" comunidade" os ecólogos entendem um conjunto de populações que, adquirindo certa unidade e características, vivem em uma determinada área ou localidade. Por" comunidade clímax" entendem uma comunidade no seu ponto máximo de equilíbrio e estabilidade (Forattini, 1992).

7. A primeira sociedade de ecologia foi a British Ecological Society, fundada em 1913, em Londres, por cerca de cinqüenta naturalistas, na sua maioria britânicos (Deleage, 1991).

8. Hoje ganha terreno a ecohistória, isto é, a história que estuda as correlações entre os condicionantes ecológicos e os destinos das civilizações e, também, busca identificar as principais perturbações que enfraquecem a estabilidade dos ecossistemas. É a única capaz de articular temporalidade social e temporalidade ecológica. Nessa perspectiva, pode-se chegar a hipóteses, bastante surpreendentes, como, por exemplo, a que sustenta que a mais importante revolução energética, a substituição dos combustíveis vegetais pelos fósseis, teria acontecido na Inglaterra, porque as florestas acabaram naquele país antes que em outro lugar (Deleage, 1991).

9. Sem necessidade de nos referirmos às várias filosofias naturalistas de origem oriental, citamos a bastante discutida hipótese de Gaia, formulada no início dos anos 70 por James Lovelock. Gaia é um conceito mais amplo que o de "biosfera" e liga-se a um dos mitos mais antigos da humanidade, o da mãe-terra. Nesta hipótese a evolução da vida se deve à combinação de fenômenos físico-químicos com as atividades dos seres vivos. Tal combinação faz da Terra um sistema que tem a faculdade de manter a superfície terrestre como um espaço favorável à vida. Assim, a Terra é vista como um organismo vivo em homeostase, no qual a vida contribui para a manutenção das condições necessárias à própria vida (Lovelock, 1991).

10. Interessante observar que seria possível estabelecer uma perfeita correspondência com a sociologia se nessas proposições, em lugar da natureza e do homem, colocássemos a sociedade e o indivíduo.

11. O autor aponta outros valores que a perspectiva humanista poderia considerar para justificar a conservação dos elementos da natureza: valor para a estabilização do ecossistema, valor como exemplo de sobrevivência, valor para a "monitoração" do equilíbrio ambiental, valor para a pesquisa científica, valor para a reconstrução do habitat e um valor puramente conservador, daquilo que evita mudanças irreversíveis.

12. Por exemplo, as propostas dos norte-americanos para reduzir o efeito estufa global vão no sentido de que todos os países deveriam reduzir uma dada porcentagem de sua emissão total de carbono; já as propostas dos indianos, como interpretando os países não-desenvolvidos, vão no sentido de que cada habitante do planeta seria responsável por uma quota média, por ano, de emissão de carbono; os países que a ultrapassassem, pagariam os danos provocados (Deleage, 1991). É evidente que as duas propostas expressam, sobretudo, interesses diferentes associados às diversas condições de inserção nos mercados produtivo e de consumo. Também explicitam o fato de que importantes questões políticas e éticas estão envolvidas na problemática ecológica.

13. Não estamos aqui considerando a chamada Escola Ecológica de Chicago, fundada por Robert E. Park e Ernest W. Burguess nos anos 20, cujas grandes monografias urbanas são verdadeiros estudos socioantropológicos que recorrem ao termo "ecológico" porque consideram a cidade, ou seus bairros, como "ambiente" dos grupos sociais estudados.

14. Para um aprofundamento do trabalho de Podolinskij ver, também, os capítulos II e III de Alier e Schlupmann (1991).

15. Dentre os cientistas sociais "convertidos" à ecologia são lembrados, nos EUA, os politólogos L. Caldwell e S. Klausner e o sociólogo L. Milbrath (ver Strassoldo, 1992). Na Europa, o caso mais famoso é o de Edgar Morin que, desde 1969, se dedicou a um programa de reconstrução das ciências do homem nos fundamentos das ciências naturais, em parte tratada na sua complexa e interessantíssima obra O Método.

16. Os autores entendem como próprios do "excepcionalist paradigm" os seguintes pressupostos: que o homem, por ter uma cultura, é diferente de todos os outros seres vivos; que essa cultura é a principal causa dos fenômenos sociais e que o ambiente físico é irrelevante; que a cultura e o progresso tecnológico podem continuar sem limites, tornando resolvíveis todos os problemas. Por outro lado, são do "ecological paradigm" os pressupostos: que os homens, mesmo com características especiais, são só uma das espécies vivas; que as ações dos homens têm conseqüências imprevisíveis sobre a natureza; que o ambiente biofísico do qual depende a vida dos homens é finito; que a cultura e a tecnologia não podem resolver todos os problemas.

17. Tais temas são, grosso modo, os seguintes: a natureza e a difusão dos valores, atitudes e comportamentos com relação ao meio ambiente; a organização dos movimentos ambientalistas e partidos verdes; o impacto social das transformações no meio ambiente; o perigo nuclear; o consenso e o conflito social nos processos de planejamento e organização do território; o ecodesenvolvimento, como atitudes e comportamentos com relação ao problema energético; os riscos de desastres naturais e tecnológicos. A bibliografia nesse campo é enorme, mas cabe destacar os trabalhos pioneiros de Alain Touraine e colaboradores sobre o movimento antinuclear, assim como o trabalho de Inglehart (1981).

 

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ABSTRACT
Sociology and Ecology: Re-opening a Dialogue

Sociology and ecology are often turned to in the current search for answers to two dilemmas: the crisis of paradigms within the human sciences (a product of processes of rapid yet profound changes in our present industrial society) and crises between social organizations and their surrounding physical-natural environment. The expectation that these fields will provide the answer may feed the notion that greater integration between disciplines will suffice to generate efficacious solutions to the problems underpinning these crises. On the one hand, it may seem a simple task to achieve the integration of two sciences displaying such surprising affinities. On the other, this integration can not be attained instantaneously but requires an open dialogue, where both fields are forced to make commitments and compromises and to exchange experiences.
Keywords: ecology; environmental sociology; interdisciplinary integration.

 

 

RÉSUMÉ
Sociologie et Écologie: Un Dialogue Rétabli

La sociologie et l’écologie sont des disciplines auxquelles on fait souvent appel pour fournir des réponses non seulement à la crise des paradigmes dans les sciences humaines née surtout des processus de changement profonds et rapides de la société industrielle actuelle, mais aussi aux crises entre ses organisations sociales et les milieux physico-naturels où elle existe. Dans cet article on voit comment cette demande suggère qu’une plus grande intégration disciplinaire suffirait pour aboutir à des solutions efficaces aux problèmes créés par de telles crises. D’une part, cette intégration semble assez simple, car les deux disciplines présentent des points communs saisissants; de l’autre, elle ne peut se faire dans l’immédiat, avant qu’un dialogue ne soit établi à partir de certains engagements, de concessions réciproques et d’un échange d’expériences.
Mots-clé: écologie; sociologie de l’environnement; interdisciplinarité.

 

* Trabalho apresentado no XVIII Encontro Nacional da Associação de Projetos Interdisciplinares de Pesquisas Sociais em Agricultura – APIPSA, realizado na UFPb, Campina Grande, de 26 a 29 de novembro de 1996.

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