SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.41 número1Sociologia e Ecologia: Um Diálogo Reconstruído índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Dados

versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v. 41 n. 1 Rio de Janeiro  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52581998000100006 

Marx, Religião e Política: O Protestantismo Conservador Norte-Americano como Ópio do Povo*

H. B. Cavalcanti

 

 

A questão da baixa taxa de participação eleitoral nas eleições norte-americanas durante este século tem sido motivo de perplexidade e interesse para cientistas políticos e sociólogos. A alienação política, sob a forma de baixa taxa de votos, tem crescido de forma constante nos Estados Unidos nesse período (Abramson e Aldrich, 1982; Burnham, 1982; Cassel e Hill, 1981; Cavanagh, 1981; Gans, 1978; Piven e Cloward, 1988; Shaffer, 1981; Teixeira, 1987). As presentes taxas de participação eleitoral no país são as mais baixas desde 1924 (Berke, 1988), levando-se em conta que a persistência de taxas baixas ocorreu durante todo o século, apesar de os movimentos sociais e políticos terem transformado o sistema eleitoral americano, ampliando a franquia do voto para um segmento maior da população.

A literatura atual sobre alienação política nos Estados Unidos explica essa abstenção de duas maneiras: a) ou referindo-se a fatores de ordem demográfica, como idade do eleitor (eleitores mais idosos votam com mais freqüência, por exemplo), sexo, raça, local de residência, nível financeiro, nível educacional, classe social, profissão etc. (Abramson e Claggett, 1984; Bennett, 1986; Checkoway e Van Til, 1978; Conway, 1985; Schwartz, 1973; Wolfinger e Rosenstone, 1980); b) ou culpando o governo por mudanças eleitorais ocorridas sob a influência do movimento político progressista do século passado, que teria criado maior burocracia para os eleitores em potencial (Piven e Cloward, 1988; Teixeira, 1987). De uma maneira ou de outra, as explicações terminam por culpar o indivíduo ou o Estado pelo não votar.

Meu argumento é o de que culpar o indivíduo ou o Estado é esquecer da importante função mediadora de outras instituições sociais no processo político — grupos e associações que influenciam tanto os indivíduos como o Estado. Culpar o indivíduo ou o Estado sem levar em conta essas instituições, limita o poder das interpretações existentes. Por exemplo, explicar o não votar referindo-se a fatores demográficos não é explicar, é simplesmente compor um perfil dos indivíduos não votantes. A explicação carece de um argumento teórico que não reduza a alienação política a traços pessoais aleatórios. Dessa forma, mesmo que se saiba que indivíduos da classe baixa norte-americana votam menos que indivíduos das classes alta ou média, isto não explica por que esse fenômeno acontece nos Estados Unidos e não em outros países desenvolvidos — na Europa as classes baixas têm um índice de participação eleitoral semelhante ao das outras classes (Piven e Cloward, 1988).

Da mesma maneira, culpar as reformas progressistas do século XIX pelas baixas taxas de participação eleitoral nos EUA é problemático, porque isto significa assumir que o sistema eleitoral e o governo norte-americanos atuam como um conjunto burocrático monolítico, servindo aos interesses dos donos do poder e mantendo o possível eleitor virtualmente impotente em face das demandas burocráticas que antecederiam o voto.

Na realidade, o sistema eleitoral americano é incrivelmente diversificado e regionalizado, estruturando-se em jurisdições auto-suplementares nos planos nacional, estadual e local, de forma a não deixar o governo agir como um bloco autônomo no papel de big brother. A estrutura federativa norte-americana, por natureza, encontra-se marcada pelas idiossincrasias regionais que a compõem. Sendo assim, a culpa do não votar não pode ser simplesmente atribuída a uma burocracia estatal que estaria mantendo os menos afortunados distantes das urnas.

O sucesso parcial dos argumentos que enfatizam o papel do indivíduo ou do Estado na explicação da abstenção nas urnas leva-me a crer que, talvez, uma alternativa mais plausível (e mais bem-sucedida) seja examinar a influência de instituições mediadoras entre o cidadão e o Estado. Entendo que o impacto eleitoral desses organismos pode identificá-los como promotores ou desencorajadores do voto (Bellah et alii, 1985).

Como em toda sociedade de cunho democrático, é de se esperar que o comportamento eleitoral norte-americano seja influenciado por instituições sociais que organizam os indivíduos em blocos ou grupos de interesse similar. Segundo Tocqueville (1956), o exercício da democracia nos Estados Unidos sempre sofreu influência de instituições como a família, a religião ou as associações cívicas e privadas. Esta pesquisa segue a sugestão de Tocqueville quando busca reconstituir as conexões entre filiação religiosa e alienação política norte-americana nesta segunda metade do século.

O estudo do nexo entre religião e alienação política voltou a interessar cientistas políticos e sociólogos na segunda metade deste século, mas em pesquisas realizadas fora dos Estados Unidos. Análises da religião como fator de alienação política foram implementadas na América Latina, na África e na Ásia, e em alguns casos com um enfoque marxista (Abrahamian, 1989; Alves, 1979; Antoine, 1971; Ayubi, 1983; Blancarte, 1990; Bouillier e Toffin, 1989; Houtart, 1980; Liebman e Don-Yehiva, 1983; Maduro, 1982; O’Shaughnessy e Serra, 1986; Williams, 1989; Zwerling e Martin, 1985).

As pesquisas no hemisfério sul contribuíram muito para a compreensão da dinâmica entre religião e instituições, e as práticas políticas existentes em diversas sociedades. Suas conclusões, quando analisadas no contexto em que os estudos foram feitos, tendem a confirmar a hipótese de Marx de que as Igrejas que se dedicam às classes baixas têm um papel central na estabilidade política dos países estudados. Nos países onde a religião dos pobres promove passividade e resignação, os regimes políticos tendem a exercer maior controle social sobre as massas e a permanecer mais tempo no poder. Nos países onde a religião da classe baixa promove ideologias de cunho reformista ou revolucionário, os regimes políticos têm menos controle e são mais instáveis.

A evidência empírica do hemisfério sul sugere que talvez a religião da classe baixa nas sociedades pós-industriais do hemisfério norte também tenha função política idêntica — até aqui, pouco se pesquisou nos Estados Unidos sobre isso (Billings, 1990; Corbin, 1981; Harding, 1984). A sociologia norte-americana tem-se voltado, primordialmente, para o estudo do impacto da modernização social sobre a prática religiosa, em detrimento do estudo da religião no processo político. Além disso, os sociólogos da religião nos Estados Unidos tendem a não usar a teoria marxista em suas pesquisas; já os analistas marxistas na América, dado os seus interesses seculares, não consideram a religião como um tópico importante de pesquisa. O resultado é que a questão da religião como ópio do povo permanece não examinada a fundo naquela sociedade pós-industrial.

Meu argumento é o de que a natureza e o conteúdo de uma religião majoritária como o cristianismo nos Estados Unidos influenciam a maneira como seus fiéis apreendem a realidade, e conseqüentemente podem também afetar seu comportamento político. Neste ponto, a literatura disponível comprova meu argumento, mostrando que o cristianismo norte-americano exerce um importante papel ideológico na maneira como seus fiéis percebem a sociedade e participam de suas principais instituições ¾ na política, no trabalho, na educação e na vida familiar (Bahr e Chadwick, 1985; Beatty e Walter, 1984; Bellah, 1978; Brady e Tedin, 1976; Davidson et alii, 1983; Hart, 1987; Hertel e Hughes, 1987; Houghland e Christenson, 1983; Lopatto, 1985; Rothenberg e Newport, 1984). O que a literatura não discute é se a religião é fator alienante no comportamento político dos fiéis.

Em termos teóricos, também, com base no que se sabe, é possível acreditar que se as idéias de Marx foram úteis em outros campos da sociologia norte-americana, talvez sua tese sobre religião possa ser importante para o estudo do fenômeno religioso nos Estados Unidos. Pouco se sabe, no momento, sobre o papel político da religião de classe baixa em uma sociedade pós-industrial onde a modernidade tenha atingido o seu apogeu. Por isso, o estudo do nexo entre a religião e a alienação política nos Estados Unidos é necessário, sobretudo em um período em que as igrejas norte-americanas de classe baixa alcançaram um crescimento fenomenal.

A atual transformação no panorama religioso norte-americano — o declínio das religiões de classe média e alta e o conseqüente crescimento das religiões de classe baixa (Roof e McKinney, 1987) — proporciona o momento certo para o estudo da religião de classe baixa e sua relação com a política. Talvez o declínio da filiação religiosa e política nos Estados Unidos sirva como um sólido ponto de partida para uma análise crítica da função do cristianismo norte-americano de classe baixa no campo político1.

 

LIDANDO COM UM CRISTIANISMO DE CLASSE BAIXA EM UMA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Ao contrário das religiões de classe baixa em países do hemisfério sul, o cristianismo norte-americano de classe baixa nunca desempenhou um papel político fundamental ou militante em relação à sociedade civil, pelo menos nesta segunda metade do século2. Uma explicação para essa ausência de influência pode ser a condição social dessas igrejas e a separação entre o sistema político e a arena religiosa em sociedades pós-industriais como a americana ¾ existe menos espaço para o comportamento religioso na esfera política na América. Como um Estado moderno, com uma longa tradição democrática, os EUA mantêm práticas políticas separadas da arena religiosa, em um âmbito bastante secular. O que não é sempre o caso em outras partes do mundo.

Outra razão para a falta de influência da religião norte-americana de classe baixa pode ser o extremo secularismo da sociedade civil americana. É difícil para o cristianismo conservador norte-americano propagar seu estilo de vida e fé em uma sociedade altamente secular. Nessas sociedades, a modernidade e o secularismo atenuam o impacto do fenômeno religioso (Berger et alii, 1973; Berger, 1980; Hammond, 1985b; Haring, 1973; Hunter, 1983). Em comparação com países como Brasil, Irã, Sri Lanka ou Burma, a esfera pública nos Estados Unidos é relativamente desprovida de símbolos ou práticas religiosas. Constitucionalmente, as barreiras ao exercício religioso na arena pública são formidáveis — o princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado inibe, proíbe mesmo, o desenvolvimento de práticas religiosas no campo político. Nesse aspecto, a religião, em países como os Estados Unidos, é realmente uma instituição de âmbito particular ou privado (McGuire, 1987; Roof e McKinney, 1987).

Outro aspecto que limita a influência do cristianismo norte-americano de classe baixa é o fato de que essa forma de religião não é monolítica, como a Igreja Católica no continente latino-americano. A religião da classe baixa norte-americana é superfragmentada, sendo composta de várias Igrejas ou denominações distintas. Não se pode falar tecnicamente de uma "igreja dos pobres" na América do Norte como se faz na América Latina. O que há são várias igrejas que se caracterizam por terem uma maioria de membros oriundos da classe baixa. Em conjunto, essas igrejas formam o ramo mais conservador ou tradicional do protestantismo norte-americano; todas apresentam uma visão menos sofisticada e mais conservadora do cristianismo, criada em um meio cultural de classe baixa, no qual a orientação espiritual tende a ser dogmática e a sugerir aos seus fiéis a separação do "mundo pecaminoso" de atividades relacionadas com os "não salvos".

Se não presente em larga escala na esfera pública norte-americana, esse tipo de religião de classe baixa exerce uma certa influência sobre um segmento pequeno, porém significativo, da população. Membros dessas igrejas têm um estilo de vida e comportamento dentro de suas comunidades que os distinguem de outros norte-americanos. Estudiosos do fenômeno religioso já documentaram essa influência da religião de classe baixa; o que não foi registrado é se tal influência afeta o comportamento eleitoral dessa população. Estudos sobre participação nas eleições, simplesmente, não incluem filiação a igrejas de classe baixa como uma das variáveis explicativas da ausência nas urnas. Alguns trabalhos observam os efeitos da filiação partidária ou filiação a associações cívicas, mas não o efeito das igrejas (Checkoway e Van Til, 1978; Jensen, 1981; Milbrath e Goel, 1977; Norpoth e Rusk, 1982; Southwell, 1986; Verba e Nie, 1972). No entanto, uma análise da influência política das igrejas de classe baixa se faz necessária, especialmente em função da importância que estas estão assumindo no panorama religioso norte-americano nesta segunda metade de século.

Uma característica interessante da religião de classe baixa nos Estados Unidos é que ela não sofreu grandes alterações teológicas ou doutrinárias durante o período. Pode-se dizer com certeza que, doutrinariamente o protestantismo conservador, a não ser por seu crescimento numérico, em nada mudou durante este século. O que mudou foi o seu status e o seu prestígio dentro do campo religioso (Roof, 1982; Roof e McKinney, 1987). Enquanto as transformações nas igrejas de classe baixa no hemisfério sul foram de natureza substantiva, qualitativa, ideológica e programática (a "opção pelos pobres" na Nicarágua, por exemplo), as inovações nas igrejas de classe baixa norte-americanas foram basicamente quantitativas — o número de fiéis convertidos aumentou e, conseqüentemente, aumentaram também os recursos financeiros. No caso norte-americano, as reformas são todas resultado de um fator intrínseco a essas igrejas, o seu fervor missionário.

O efeito do crescimento dessas igrejas foi que a religião de classe baixa na América do Norte, que historicamente sempre compôs a periferia do campo religioso, hoje ocupa uma posição muito mais central em termos numéricos, financeiros, de status e presença. A transformação foi tão drástica nos últimos vinte anos, que levou o estudo do cristianismo de classe baixa nos Estados Unidos a se tornar um campo essencial para o estudo da religião no país. Igrejas que anteriormente pareciam um punhado de congregações esparsas, com pouco potencial de presença na sociedade civil, são hoje verdadeiros impérios religiosos. A Convenção Batista do Sul, a Igreja de Cristo ou as Assembléias de Deus atingiram um nível de riqueza e opulência difícil de se prever com base nas suas origens humildes e no desenvolvimento histórico encontrado durante a primeira metade do século. Hoje elas ocupam uma posição importante na arena religiosa norte-americana, com vastas organizações, um amplo número de fiéis e meios sofisticados de disseminação das suas doutrinas e práticas em larga escala.

 

USANDO MARX PARA ESTUDAR A RELIGIÃO NORTE-AMERICANA

Examinar empiricamente se a religião funciona como ópio do povo é algo difícil. Não só porque o conceito marxista pode ser interpretado de formas diversas, mas também pelo fato de a natureza e a função da religião variarem no tempo e no espaço, e as condições políticas se alterarem em cada conjuntura específica. Para complicar, há também a questão da bagagem teórica que informa a pesquisa e o pesquisador interessado no assunto. Em conseqüência, quando o tema é investigado, ele reflete o papel que a religião tem em uma sociedade em particular e, em um outro plano, a agenda ideológica ou teórica do autor. Dessa forma, a pergunta é sempre feita dentro de certos parâmetros — por exemplo, foi a religião o ópio do povo durante o período clássico da civilização grega? Ou, quem sabe, durante a Idade Média? Ou mesmo no período das monarquias absolutistas que antecederam o Estado moderno? Afinal, o autor está interessado em provar o que neste trabalho?

A contribuição original de Marx não foi a sua tese de que a religião seria o ópio do povo. É óbvia, neste caso, a influência exercida por outros pensadores/filósofos alemães (Hegel e Feuerbach, por exemplo). Marx não foi o primeiro intelectual a tentar elucidar os efeitos temporais e sociais do fenômeno religioso. O que faz da tese marxista uma contribuição original para as ciências sociais é a maneira como seu autor discute especificamente que tipo de religião é, por natureza, mais alienante e qual o papel político e social que esse tipo de religião ocupa na ordem temporal.

Quando me proponho a usar o paradigma marxista no estudo do papel político da religião norte-americana, faço-o por duas razões. Primeiro, porque a questão da função alienante da religião de classe baixa nos Estados Unidos ainda não foi estudada empiricamente na nossa época, pelo menos não em termos de processos eleitorais. Segundo, porque a religião de classe baixa na América do Norte mudou de importância tão drasticamente nessa segunda metade de século, que há de se questionar se o seu crescimento não estaria afetando as dimensões social e política da nação. Compreender o papel político dessa forma de religião é necessário porque ele pode explicar, em boa parte, o não votar verificado no processo eleitoral norte-americano. Se isso é verdade, que contribuição traria o paradigma marxista?

Marx lança mão do conceito de "alienação" para descrever um processo econômico e um processo cultural. No processo econômico, o operário alienar-se-ia dentro do sistema capitalista quando despojado, através do processo produtivo, dos produtos e serviços por ele criados. A alienação teria efeito quando o processo produtivo capitalista negasse ao trabalhador a retribuição que lhe é de direito e a posse legítima dos frutos do seu labor (Fromm, 1966)3. No entanto, esse conceito de alienação não é o único usado por Marx. Ao discutir o papel da religião em uma sociedade capitalista, Marx também utiliza o termo "alienação" para descrever um processo de espoliação cultural vivido pela classe baixa4.

Para Marx a alienação acontece em dois momentos distintos: na área econômica, quando os trabalhadores são alienados do fruto de seu trabalho pela posse privada da produção (no âmbito da infra-estrutura), e em outras áreas da sociedade, incluindo a política, quando eles não tomam consciência dos seus interesses como classe (no plano da superestrutura). A alienação política acontece quando a alienação econômica da classe trabalhadora é justificada ideologicamente por meio de leis, discursos, práticas, rituais e símbolos. A cultura, mediante suas instituições sociais legítimas, justifica a natureza e a forma do sistema capitalista de produção, mantendo os operários alienados politicamente, incapazes de tomar o poder. Como instituição social, a religião também participa nesse processo de alienação das massas, pregando a passividade e a resignação (Marx, 1977; 1981; 1986; Marx e Engels, 1978).

De acordo com Marx, a relação entre religião e política na civilização ocidental segue sempre um padrão previsível, baseado na desigualdade de classes — a religião da classe baixa contribui ideologicamente para a alienação política dos pobres por intermédio de suas doutrinas e práticas, que justificam sua exploração econômica5. Igrejas cristãs de classe baixa — com sua orientação conservadora e suas promessas de vida eterna— garantiriam a apatia ou passividade política de seus fiéis, seu desinteresse pelo jogo político, sustentando-os com uma mensagem de submissão à vontade de Deus que se traduziria na aceitação do status quo. Suas doutrinas e práticas tornam-se paliativos, explicando a necessidade de sofrer neste mundo para se ter felicidade no próximo. Em face desse estímulo à resignação e passividade, o cristianismo de classe baixa tornar-se-ia uma religião ideal para os donos do poder. Como trabalhadores, os fiéis de classe baixa seriam leais aos seus patrões, e como cidadãos se absteriam das urnas (Marx e Engels, 1964; 1978).

 

O PAPEL POLÍTICO DA RELIGIÃO DE CLASSE BAIXA NORTE-AMERICANA

Já se sabe, através de pesquisa prévia, que a participação no mundo do cristianismo norte-americano de classe baixa influencia a maneira como os fiéis se comportam na sociedade (Batson et alii, 1986; Beatty e Walter, 1984; Black, 1985; Brady e Tedin, 1976; Darville et alii, 1982; Hammond, 1979; Hart, 1987; Herek, 1987; Hertel e Hughes, 1987; Hunter, 1983; Jelen, 1987; Lipset e Raab, 1981; Lorentzen, 1980; Martin, 1985; McIntosh et alii, 1979; Morgan e Scanzoni, 1987; Shaiko, 1987; Tedin, 1978). Seria o caso, também, de esse mundo no qual eles estariam imersos os alienar politicamente?

É importante, ao se testar a hipótese levantada por Marx, mostrar que, de fato, são os efeitos da imersão no mundo do cristianismo de classe baixa que afetam o nível de alienação política dos fiéis e não outras variáveis ou fatores de ordem secular. Daí a necessidade de se operacionalizar a influência desse mundo através da filiação religiosa. Membros de igrejas de classe baixa, tipicamente, passam por um processo de doutrinamento a partir do qual se envolvem de forma integral na cosmologia dessas igrejas. Testar os efeitos da filiação religiosa mostraria de forma definitiva que não são só variáveis seculares como idade, profissão ou capacidade financeira que afetam o não votar. Minha hipótese é a de que os membros das igrejas de classe baixa nos Estados Unidos seriam alienados politicamente em função de seu envolvimento no milieu cristão daquelas igrejas, e não só por serem pobres, ou terem um nível educacional mais baixo, ou um padrão financeiro mais limitado. É na aceitação do mundo do cristianismo conservador norte-americano que estaria o locus da alienação desses indivíduos (Cox, 1984).

Uma vez que as pesquisas sobre abstenção eleitoral se preocupam mais com variáveis demográficas (nível educacional, nível financeiro, status, local de residência etc.) como causas da alienação política, é natural que os seus resultados apontem americanos de classe baixa não como uma classe ou grupo de fiéis, mas como indivíduos isolados. A discussão desconsidera o efeito que a participação em grupos e em outras instituições teria no comportamento político desses indivíduos (a exceção à regra seria a filiação partidária, é claro). Pesquisas que culpam o Estado pela alienação política dos pobres também ignoram a influência ideológica e comunitária do grupo sobre seus membros. O resultado em ambos os casos é que a filiação a qualquer grupo é ignorada como possível explicação para a ausência das urnas.

Na verdade, o efeito da filiação religiosa pode operar de forma independente do efeito das variáveis demográficas ou das estruturas eleitorais do Estado. É importante verificar se o nível educacional ou financeiro de um indivíduo leva-o ou não a votar, ou se a burocracia estatal facilita-lhe ou não o voto, mas a relevância da pressão ideológica de um grupo social como a Igreja pode ampliar nosso conhecimento sobre fatores influentes na alienação política. Esse tipo de pressão afeta o processo político de forma mais intencional pelo poder mediador do grupo. A dificuldade de se estabelecer a importância política da religião, nesse caso, vem do fato de que pouco se estudou empiricamente sobre o assunto. Como não há muitos modelos de pesquisa empírica, não existem fórmulas já testadas para a operacionalização de variáveis estatísticas. E os poucos resultados obtidos nessa área não podem ser generalizados para outras situações semelhantes.

A indicação que temos de estudos de caso é a de que adultos norte-americanos membros de seitas ou grupos hostis à cultura dominante, grupos que proíbem uma maior participação no intercâmbio normal da sociedade civil, normalmente têm taxas mais elevadas de alienação política. Ao contrário dos indivíduos que são alienados em virtude de individualização experimentada em função dos tempos modernos, esses indivíduos são alienados por participarem de grupos que demandam absoluta lealdade e uma distância maior do mundo que os cerca. Grupos religiosos fervorosos, dogmáticos, com uma dinâmica interna exclusivista, tendem a minimizar a participação de seus membros em outras áreas da sociedade civil.

É claro que nem todos os grupos que servem de ligação entre o indivíduo e o Estado têm essa natureza alienante. Associações voluntárias, sindicatos, associações de moradores etc. promovem a participação política de seus membros e filiados (Baxter e Lansing, 1983; Davidson et alii, 1983; Freeman, 1975; Piven e Cloward, 1977). Porém, grupos que se caracterizam por uma hostilidade maior à cultura dominante, que mantêm uma ideologia religiosa voltada para o mundo do além, e que possuem uma liderança carismática, têm constantemente levado seus filiados a se alienarem culturalmente dos padrões e valores de vida da população norte-americana.

No caso da religião de classe baixa, essa tendência ao isolamento é reforçada pelo fato de que são os indivíduos com menos recursos financeiros, educacionais e culturais que se sentem mais atraídos por essas instituições. O impacto da modernização sobre os pobres em sociedades pós-industriais leva-os a se sentirem excluídos, isolados e carentes de uma estrutura de apoio — sintomas de uma alienação cultural maior. As práticas e doutrinas de uma igreja de classe baixa tendem a legitimar não só a necessidade que tais indivíduos têm de uma comunidade coesa, mas também a visão que eles possuem de um mundo moderno que lhes é hostil. Pessoas que antes se sentiam isoladas e rejeitadas pelo mundo por serem "menosprezadas" como indivíduos, agora se unem em uma comunidade solidária e aceitam a rejeição do mundo como um sinal de eleição divina, um sinal de que elas estariam sendo fiéis e obedientes aos mandados do divino, e por isso sofrendo perseguição pela sua fidelidade. O que era estigma, vira salvação!

Em virtude dessas características, a religião de classe baixa dá condições a indivíduos de classe baixa que vivem um processo de alienação cultural maior, de achar a sua identidade como membros integrados de uma comunidade estável. Os laços comunitários que eles descobrem são muito semelhantes àqueles encontrados em uma comunidade (gemeinschaft) européia da idade pré-moderna. A Igreja oferece proteção contra os perigos e as dificuldades do exercício de autonomia pessoal no mundo moderno; proteção contra a responsabilidade pessoal de construir os seus estilos de vida em um mundo que lhes parece atomizado e hostil. A imersão nas práticas da religião de classe baixa os manteria alienados da sociedade em geral, uma vez que a tradição doutrinária conservadora da fé e a catarse emocional dos serviços religiosos tornam-se meios pelos quais os fiéis enfrentam o desafio do moderno sem ter que optar por uma resposta secular (Schwartz, 1973; Weber, 1978).

De todos os grupos do espectro religioso norte-americano, o protestantismo conservador é, sem dúvida, aquele que mais poderia exercer tal função alienadora sobre seus fiéis. Historicamente, suas práticas e doutrinas sempre sugeriram a condição periférica dessas igrejas e sua rejeição pelo estilo de vida secular da cultura norte-americana. A ênfase ética e doutrinária do grupo tem por base um modelo de organização eclesiástica pré-moderna, anti-secular e em alguns casos antiintelectual. Os fiéis são aconselhados a viverem separados do "mundo" e de atividades" mundanas" (pecaminosas), uma delas a política. A conseqüência é a criação de comunidades de fé altamente exclusivistas que exigem dedicação integral a um estilo de vida peculiar (Coser, 1974; Cox, 1984; Hammond, 1985a; 1985b; Himmelstein, 1983; Hunter, 1983; Kelley, 1972; Roof e McKinney, 1987; Welch, 1981).

Um dos problemas do uso da teoria marxista no estudo científico da religião é que os conceitos criados por Marx são difíceis de operacionalizar em termos estatísticos. Dado seu cunho filosófico, são complexos, sofisticados, cheios de nuanças técnicas que podem ser perdidas no processo de simplificação estatística. E como os conceitos não existem em um vácuo, uma vez que eles são parte de uma teoria geral do conhecimento, isso os torna ainda mais difíceis de serem manipulados em um modelo matemático que tenta criar um modelo explicativo do comportamento humano. Mas rejeitar o uso de conceitos marxistas pela sua dificuldade de operacionalização é incorrer em uma perda irreparável de ricos recursos teóricos para o estudo da religião. Se há o risco da simplificação no uso estatístico de conceitos marxistas, existe, por outro lado, a oportunidade de enriquecimento do modelo matemático pelo aprofundamento teórico que Marx proporciona.

Por isso é que tento traduzir o conceito de "ópio do povo" como "alienação política", e defino alienação política como um processo de comportamento que demonstra ausência das urnas. Dentro das limitações da nossa base de dados, alienação política é, então, equacionada com o não votar. Quando definimos alienação política desta maneira, não estamos criando um modelo estatístico novo. Cientistas políticos norte-americanos durante todo este século sempre usaram a abstenção como padrão-mor, medida mais direta, de alienação política (Abramson e Aldrich, 1982; Brody, 1978; Gans, 1978; Piven e Cloward, 1988; Schwartz, 1973; Southwell, 1986; Teixeira, 1987). Dessa forma, definimos a alienação política criada pela religião como o não votar. E definimos a filiação religiosa, o pertencer a certas Igrejas de classe baixa, como a variável que estimularia o fiel a se ausentar do mundo em geral e da política em particular.

Definidas as variáveis principais do nosso modelo estatístico — a filiação religiosa e a alienação política —, que resultados são obtidos quando comparamos membros de outros grupos religiosos com membros do protestantismo conservador americano em termos de ausência das urnas? Até que ponto o comportamento político desses fiéis é diferente do comportamento político de membros de outros grupos religiosos? Utilizando uma base de dados com cobertura nacional, quando cruzamos a filiação religiosa das pessoas pesquisadas pelo American National Elections Studies6 com as suas taxas de participação eleitoral, a resposta é claríssima. Protestantes conservadores obtêm o índice mais alto de alienação política na base de dados. Como grupo religioso, os protestantes conservadores são os que menos participam eleitoralmente nos Estados Unidos. Isto, levando em conta que os resultados são semelhantes em todas as eleições estudadas!

Para os fins da nossa análise agrupamos os entrevistados de acordo com suas respectivas filiações religiosas, e estas de acordo com suas orientações doutrinárias. Isto produz quatro grupos — três de protestantes (liberais, moderados e conservadores) e um de católicos. A Tabela 1 mostra a composição de cada grupo, bem como o número de membros das denominações em particular. Os grupos foram organizados seguindo o princípio de classificação das denominações consagrado por Roof e McKinney (1987).

TABELA 1

Denominações Incluídas no Modelo e seus Respectivos Grupos

Denominações

Nº de Membros Entrevistados

%

Protestantes Liberais

Igreja Congregacional

338

1,7

Igreja Episcopal

619

3,1

Igreja Presbiteriana

1.109

5,7

Igreja Unida de Cristo

168

0,8

Protestantes Moderados

Igreja Metodista Americana (AME Zion)

37

0,2

Discípulos de Cristo

488

2,5

Igreja Luterana

1.697

8,7

Igreja Metodista

3.010

15,4

Convenção Batista do Norte

3.324

17,0

Igreja Reformada

99

0,5

Protestantes Conservadores

Igreja Adventista

91

0,5

Irmandade Cristã (Brethren)

58

0,3

Igreja de Cristo

484

2,5

Igreja de Deus em Cristo

37

0,2

Igreja Fundamentalista

173

0,9

Convenção Batista do Evangelho

353

1,8

Igreja Luterana Missouri

43

0,2

Igreja do Nazareno

116

0,6

Igreja Pentecostal

367

1,9

Convenção Batista do Sul

1.581

8,0

Católicos

5.384

27,5

Total

19.576

100,0

Fonte: American National Elections Studies, Cumulative Data File (1952-1986).

 

A Tabela 2 indica as porcentagens dos não votantes por ordem dos grupos, além de uma quinta categoria que aglutina os participantes dos quatro grupos em um só. A tabela mostra, ainda, a taxa de não-participação dos entrevistados em todas as eleições presidenciais norte-americanas entre 1964 e 1984 (um período de crescimento fenomenal do protestantismo conservador). Os cristãos são subdivididos em protestantes e católicos; os protestantes em conservadores, moderados e liberais. Para melhor inferência, os não votantes de cada grupo são subdivididos de acordo com a sua classe social. Infelizmente, como a classe social é determinada pelo entrevistado, só temos as categorias de "classe baixa" e "classe média" na base de dados. De qualquer maneira, é possível constatar não só a divisão dos grupos em termos de doutrina, mas também em termos de composição social. Cada grupo tem suas porcentagens apresentadas em termos de fiéis de classe baixa e fiéis de classe média, com o total agregado também incluso.

TABELA 2

Porcentagem de Não Votantes Agrupados por Religião e Classe Social*
1964-1984

Religião

1964

1968

1972

1976

1980

1984

Média

Protestantes
Conservadores

Classe Baixa

38%

47%

37%

35%

35%

38%

38%

(91)**

(75)

(241)

(194)

(127)

(182)

(152)

Classe Média

24%

34%

34%

26%

30%

26%

29%

(25)

(35)

(121)

(95)

(73)

(132)

(80)

Total

35%

43%

36%

32%

33%

33%

35%

(116)

(110)

(362)

(289)

(200)

(314)

(232)

Moderados

Classe Baixa

30%

29%

33%

31%

32%

36%

32%

(571)

(440)

(412)

(297)

(195)

(308)

(370)

Classe Média

15%

19%

26%

19%

22%

23%

21%

(266)

(250)

(314)

(269)

(178)

(208)

(248)

Total

26%

(837)

25%

(690)

30%

(726)

25%

(566)

27%

(373)

31%

(516)

27%

(618)

Liberais

Classe Baixa

22%

16%

26%

29%

19%

20%

22%

(51)

(50)

(90)

(56)

(37)

(71)

(59)

Classe Média

12%

7%

13%

8%

13%

9%

10%

(105)

(88)

(157)

(113)

(84)

(105)

(109)

Total

15%

(156)

10%

(138)

18%

(247)

15%

(169)

15%

(121)

13%

(176)

14%

(168)

Católicos

Classe Baixa

17%

26%

24%

28%

33%

24%

25%

(182)

(158)

(276)

(234)

(143)

(256)

(208)

Classe Média

16%

15%

17%

22%

23%

18%

18%

(135)

(146)

(244)

(208)

(157)

(236)

(188)

Total

16%

21%

21%

25%

28%

21%

22%

(317)

(304)

(520)

(442)

(300)

(492)

(396)

Total dos 4 Grupos

Classe Baixa

28%

29%

31%

31%

32%

31%

30%

(895)

(723)

(1019)

(781)

(502)

(817)

(790)

Classe Média

15%

17%

22%

19%

22%

20%

19%

(531)

(519)

(836)

(685)

(492)

(681)

(624)

Total

23%

21%

27%

25%

27%

26%

25%

(1426)

(1242)

(1855)

(1466)

(994)

(1498)

(1414)

Fonte: American National Elections Studies, Cumulative Data File (1952-1986).
Obs.: * Classe social indicada pelo entrevistado; ** Número de entrevistados entre parênteses.

 

Uma das primeiras coisas que se nota na Tabela 2 é que a composição dos grupos religiosos nos Estados Unidos é consistente em termos de classe. Protestantes conservadores atraem um número maior de fiéis da classe baixa, protestantes moderados e católicos têm um número de fiéis oriundos igualmente das duas classes, e protestantes liberais tendem a atrair um número maior de membros de classe média. Em média, 66% dos protestantes conservadores em cada eleição pertencem à classe baixa, comparados com 60% de protestantes moderados e 58% dos católicos. Protestantes liberais, por outro lado, atraem apenas 35% da classe baixa. O que isto indica é que os quatro grupos continuam a atrair em tempos recentes a mesma composição social que sempre atraíram em outros períodos da história americana (Reichley, 1985).

A segunda coisa a ser notada é que os protestantes conservadores são, consistentemente, os mais alienados em termos de votação. E isso em todas as eleições estudadas. Protestantes conservadores de classe baixa têm, em média, uma taxa de ausência das urnas que atinge 38% por eleição, comparada com 32% para protestantes moderados, 22% para protestantes liberais e 25% para católicos. Protestantes conservadores de classe média votam mais do que os de classe baixa, mas mesmo assim muito menos do que outros cristãos de classe média dos outros grupos — conservadores têm uma taxa de ausência de 29% por eleição comparada com 21% para moderados, 10% para liberais e 18% para católicos.

No agregado, protestantes conservadores também têm a mais alta taxa de alienação por eleição. Eles tem 52% mais não votantes do que a média do agregado dos quatro grupos em 1964; 104% mais em 1968; 33% mais em 1972; 28% mais em 1976; 22% mais em 1980; e 27% mais em 1984. Os resultados são semelhantes, respectivamente, para a classe baixa e a classe média. Em todas as seis eleições, protestantes conservadores de classe baixa e de classe média têm as mais altas taxas de não votantes dos quatro grupos estudados.

O que fica demonstrado pela análise das porcentagens é que existe uma relação, além de estreita, consistente, entre filiação religiosa e alienação política nos Estados Unidos durante todo o período estudado. O que falta esclarecer, no entanto, é se esse efeito alienante, essa alienação, é criada simplesmente pela filiação religiosa ou se é estabelecida por outros fatores que sabemos afetar a presença nas eleições. Para responder a esta pergunta, lançamos mão de um outro processo estatístico — um modelo de regressão multivariada (logistic regression)— que controla os efeitos criados por outros fatores que influenciam a alienação política nos Estados Unidos.

A literatura sobre alienação política norte-americana identifica pelo menos treze variáveis ou fatores que estão associados à abstenção eleitoral naquele país. Esses fatores podem ser agrupados em três categorias: variáveis socioeconômicas, variáveis políticas e variáveis demográficas7, as quais estão incluídas na equação do modelo estatístico por mim utilizado. Este modelo também controla o efeito dos anos eleitorais, uma vez que cada eleição tem impacto único sobre o comportamento eleitoral dos fiéis. O ano de 1968, por exemplo, foi um ano muito atribulado no universo político americano, com demonstrações, assassinatos políticos e muita desordem social. No referido modelo assumo que as condições políticas existentes em cada eleição podem ou não motivar um número maior de pessoas a se abster do voto. Com pelo menos duas eleições por década, há uma grande variação nas condições eleitorais de cada uma delas. E o uso de coeficientes de correlação de ordem zero mostra que estou certo — as variáveis citadas na literatura e incluídas na equação têm importância estatística, bem como o efeito dos anos eleitorais. Todos esses fatores são capazes, potencialmente, de afetar a relação entre filiação religiosa e o não votar.

O modelo final de regressão multivariada (logistic regression) é apresentado na Tabela 3 em cinco estágios. Em cada um deles um grupo de variáveis é adicionado à equação para facilitar uma melhor compreensão do seu impacto no relacionamento entre filiação religiosa e alienação política. No primeiro estágio da equação só a filiação religiosa e o não votar são incluídos; no segundo, os anos eleitorais são adicionados; no seguinte incluem-se as variáveis socioeconômicas; no quarto estágio as variáveis políticas; finalmente, no último, as variáveis demográficas são aditadas. Naturalmente, à proporção que cada grupo de variáveis é somado ao modelo, as mudanças no relacionamento entre filiação religiosa e alienação política são cuidadosamente examinadas.

TABELA 3

Regressão Logística de Não Votar e Filiação Religiosa, Anos Eleitorais, Variáveis Socioeconômicas, Variáveis Políticas e Variáveis Demográficas

Variáveis

Coeficientes

Filiação Religiosa

Protestantes Conservadores

0,573*

0,566*

0,274*

0,267*

0,133*

Protestantes Moderados

0,392*

0,400*

0,199*

0,165*

0,096

Católicos

0,251*

0,250*

0,104*

0,083

0,004

Anos Eleitorais

1964

 

-0,052

-0,230*

-0,138*

-0,168*

1968

 

-0,017

-0,168*

-0,137*

-0,148*

1972

 

0,051

-0,054

-0,114*

-0,132*

1976

 

0,008

-0,046

-0,032

-0,023

1980

 

0,047

0,013

-0,036

-0,021

Variáveis Socioeconômicas

Ocupação - Trabalho braçal

   

0,142*

0,156*

0,137*

Estado civil - casada

   

0,177*

0,151*

0,179*

Nível financeiro

   

-0,133*

-0,108*

-0,129*

Nível educacional

   

-0,099*

-0,044*

-0,113*

Classe social (a)

   

0,080*

0,024

-0,020

Variáveis Políticas
Filiação partidária      

-0,344*

-0,299*

Senso de ineficácia política      

0,238*

0,261*

Participação em campanha      

-0,231*

-0,193*

Variáveis Demográficas (b)
Idade        

-0,015*

Sexo        

-0,011

Raça        

-0,105*

Residência no sul        

0,199*

Estado civil        

0,160*

Constante

4,112

4,102

4,878

5,623

6,406

Qui-Quadrado (c)

8904,0

8900,9

7807,1

6627,2

6588,3

DF [Grau de Liberdade]

8900

8895

7799

6663

6614

Fonte: American National Elections Studies, Cumulative Data File (1952-1986).
*p < 0,05
Obs.: a) Classe Média = 0, Classe Baixa =1; b) Sexo: masculino = 0, feminino = 1; Raça: brancos = 0, outros = 1; Estado Civil: casado = 0, não = 1; c) Grau de ajuste do qui-quadrado.

 

Conforme se pode verificar pela Tabela 3, no primeiro estágio, a filiação nos três grupos — protestantes conservadores, protestantes moderados e católicos — é estatisticamente relacionada com o não votar (usando os protestantes liberais como ponto de referência). O que significa que em comparação com os protestantes liberais é de se esperar que os membros dos outros três grupos votem menos em todas as seis eleições estudadas. O que os diferencia é a magnitude do efeito da filiação religiosa. Católicos têm o menor coeficiente na regressão, seguidos de protestantes moderados, enquanto protestantes conservadores, mais uma vez, são o grupo com o maior coeficiente de abstenção.

No segundo estágio, quando anos eleitorais são adicionados, o efeito alienante dos três grupos permanece quase intacto. Se alguns desses anos nos parecem mais importantes em termos percentuais, no modelo multivariado essa relevância desaparece. A inclusão de variáveis socioeconômicas no terceiro estágio muda drasticamente a cena, gerando uma reação vigorosa na relação entre filiação religiosa e alienação política. Muito do que poderia ser atribuído ao impacto alienante da religião, aqui se mostra função de outros fatores. Quando ocupação, nível educacional, nível financeiro e classe social são levados em consideração, por exemplo, os coeficientes dos três grupos sofrem uma redução drástica. Quase metade do efeito alienante que poderia ser atribuído ao catolicismo ou ao protestantismo conservador é, na realidade, explicado pelo impacto das condições socioeconômicas dos fiéis e não pela filiação deles às suas respectivas Igrejas. No caso dos protestantes moderados o efeito é literalmente reduzido à metade ¾ o que poderia ser atribuído à influência do mundo religioso é conseqüência de fatores de ordem secular.

No quarto estágio, a inclusão das variáveis políticas reduz ainda mais a magnitude do impacto alienante da religião. Quando as variáveis políticas são levadas em consideração, o efeito alienante do catolicismo desaparece por completo, e os efeitos do protestantismo moderado (0,034 pontos) e do protestantismo conservador (0,007 pontos) são reduzidos mais uma vez. A diferença aqui, de novo, é de magnitude. O que se constata é que as variáveis políticas parecem ter maior capacidade para explicar a alienação eleitoral dos grupos compostos igualmente por membros de classe média e classe baixa — os católicos e os protestantes moderados.

Finalmente, quando as variáveis demográficas são incluídas no quinto estágio, só um grupo continua a exercer impacto alienante sobre o comportamento político dos seus fiéis — o do protestantismo conservador. Quando o modelo é concluído com a inclusão de fatores demográficos é possível verificar que o efeito alienante que poderia ser atribuído à filiação à Igreja Católica ou às Igrejas Protestantes moderadas é totalmente explicado por variáveis estritamente seculares— o tipo de trabalho da pessoa, o nível educacional do não votante, sua filiação partidária etc. Não existe nenhuma relação estatisticamente significativa entre a filiação religiosa a esses grupos e o não votar. Isto me permite concluir que na sociedade norte-americana, uma sociedade pós-industrial, só um tipo de religião tem efeito alienante no comportamento político de seus fiéis — a religião dos pobres, o protestantismo conservador. Quando todos os fatores seculares são levados em consideração, quando o modelo controla os efeitos de todas as outras variáveis usadas para explicar o não votar, só o efeito alienante do protestantismo conservador permanece. Existe uma dimensão do não votar desses fiéis que não é explicável de outra maneira a não ser por intermédio da filiação deles à sua Igreja.

 

CONCLUSÕES

Este estudo representa uma tentativa de análise da função alienante da religião em uma sociedade pós-industrial. Utilizando o conceito marxista de religião como ópio do povo, é possível mostrar que, na realidade religiosa norte-americana, a função alienante da religião continua a existir — nesse caso, a função alienante do protestantismo conservador ou das Igrejas de classe baixa. Parafraseando Marx, Igrejas que servem a populações de classe baixa influenciam o comportamento eleitoral de seus fiéis de maneira ímpar e exclusiva. Isso leva ao argumento de que a função política da religião do povo tem que ser reexaminada no hemisfério norte por esse prisma — a modernidade, o pós-industrial, isolam a religião. Tal isolamento, por sua vez, gera a alienação dos fiéis com relação ao mundo que os cerca, especialmente o mundo da política.

O cristianismo não tem mais a presença pública em sociedades pós-industriais que tinha até meados do século. A modernidade trouxe consigo a possibilidade de um estilo de vida secular, com instituições sociais alternativas à Igreja ou à religião. O ser religioso não é mais necessário para a integração social dos indivíduos, uma vez que existem outras formas de encontrar sentido e direção na vida. Se esse é o caso, e se a religião não tem mais o papel integrador que tinha em outras eras, como se define a presença do espírito religioso na sociedade atual? Este estudo mostra que no caso norte-americano à medida que as Igrejas de classe média e alta se tornam parte da esfera privada da vida dos indivíduos, aquelas de classe baixa tendem a aumentar em número e influência. O crescimento desses grupos traz consigo, sem dúvida, o efeito alienante de suas cosmologias.

É esse status ascendente do protestantismo conservador na segunda metade do nosso século que dá aos sociólogos a oportunidade de estudar a influência da religião de forma ímpar. Primeiro, porque traz de volta ao centro das discussões a validade do conceito marxista de religião como ópio do povo, o que, por sua vez, nos permite verificar se a religião da classe baixa é realmente alienante em uma sociedade pós-industrial. Segundo, porque esse status ascendente permite verificar se a função alienante muda à proporção que a religião da classe baixa cresce em importância e presença no quadro religioso norte-americano.

Procuro mostrar, de forma clara, que a filiação ao protestantismo conservador traz conseqüências alienantes para os fiéis — protestantes conservadores possuem a mais alta taxa de ausência das urnas de todos os grupos estudados, em todas as eleições examinadas. No caso do protestantismo conservador esse efeito alienante não pode ser explicado por nenhuma outra variável de natureza secular— fatores de ordem socioeconômica, política ou demográfica não são suficientes para mostrar por que os seus fiéis não votam. A influência da Igreja é o resíduo no modelo estatístico por mim utilizado.

Busco também demonstrar que o efeito alienante do protestantismo conservador não mudou à medida que o grupo cresceu em importância. Se as nossas porcentagens estão corretas, nos vintes anos em que o grupo experimentou um crescimento fenomenal (1964 a 1984), o efeito alienante não se modificou. A alta taxa de alienação eleitoral permaneceu no mesmo patamar em todas as eleições do período. Se as taxas baixaram um pouco durante o período Reagan, isto não impediu o protestantismo conservador de continuar a ser o grupo mais alienado na época. Aparentemente, o crescimento da religião da classe baixa não transformou o comportamento político dos fiéis. Nossa explicação é que o protestantismo conservador cresceu em números, mas não mudou doutrinariamente. Em conseqüência, a cosmologia conservadora continuou a exercer seu impacto alienante no mundo dos fiéis. Pode-se dizer, então, que a religião dos pobres na sociedade norte-americana continua a preencher a função prevista por Marx, continua a agir como ópio do povo. Só os que seguem essa forma de religião nos Estados Unidos têm na fé um ponto de alienação política.

(Recebido para publicação em agosto de 1997)

 

NOTAS:

1. Diversos autores mostram que os norte-americanos, cada vez menos, se reconhecem como membros de um partido político ou de uma igreja protestante (Burnham, 1982; Hout e Greeley, 1987; Jensen, 1981; Loewenthal, 1986; Miller, 1980; Norpoth e Rusk, 1982; Teixeira, 1987); outros estudiosos apresentam evidências do declínio da participação na política e na religião (Bennett, 1986; Cassel e Hill, 1981; Hout e Greeley, 1987; Roof e McKinney, 1987; Southwell, 1986; Teixeira, 1987).

2. Para os propósitos deste estudo, incluí como cristianismo de classe baixa todos os principais grupos conservadores presentes no cenário religioso norte-americano, isto é, os grupos que historicamente são identificados como provenientes da classe baixa em termos de composição demográfica, organização e doutrina. Neste ponto segui a orientação dos autores Roof e McKinney (1987:85-96, 253-256), que criaram o sistema de classificação das denominações cristãs na América.

3. "Não se pode compreender completamente a noção de homem produtivo, ativo, que apreende e abarca o mundo objetivo, sem o conceito da negação da produtividade: alienação. Para Marx, a história da humanidade é a história da crescente evolução do homem e, simultaneamente, de sua crescente alienação. Seu conceito do socialismo é o da emancipação da alienação, o retorno do homem a si mesmo, à sua autoconsciência. Alienação (‘separação de si mesmo’ [‘estrangement’]) significa, para Marx, que o homem não se sente um agente ativo em sua apreensão do significado do mundo, mas que o mundo (natureza, os outros e ele mesmo) lhe permanece alheio. Esses aspectos do mundo se situam acima e em oposição a ele como objetos, ainda que sejam objetos de sua própria criação. Alienação é experimentar essencialmente o mundo e ele próprio de modo passivo, receptivo, como sujeito separado do objeto" (Fromm, 1966:43-44, ênfases minhas).

4. "Da mesma maneira, a apropriação do objeto aparece como alienação, isto é, quanto mais objetos o trabalhador produz menos é capaz de possuir e mais sucumbe à dominação do seu produto, o capital. Tudo isso é conseqüência do fato de o trabalhador se relacionar com o produto do seu trabalho como a um objeto alienado. Está claro nesse pressuposto que quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho, mais poderoso diante deles se torna o mundo dos objetos que ele cria, mais pobre se torna sua vida interior, e menos o homem pertence a si mesmo. O trabalhador põe sua vida no objeto e sua vida, então, não lhe pertence mais, e sim ao objeto. Quanto maior é sua atividade, menos ele possui. O que está contido no produto do seu trabalho não é mais dele. Portanto, quanto maior é esse produto, mais o homem diminui. A alienação do trabalhador em seu produto significa não só que seu trabalho se torna um objeto, assume uma existência externa, mas que tem uma existência independente, fora dele e alheia a ele, em oposição a ele, como um poder autônomo. A vida que o homem doou ao objeto se coloca contra ele como uma força alheia e hostil" (Marx, 1966:95-96).

5. "[A religião] é uma concepção fantástica do ser humano na medida em que o ser humano não possui nenhuma realidade verdadeira. Por conseguinte, a luta contra a religião é indiretamente uma luta contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. O sofrimento religioso é ao mesmo tempo uma expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o gemido da criatura oprimida, o modo de sentir de um mundo sem coração e a alma de circunstâncias destituídas de alma. É o ópio do povo. A abolição da religião como felicidade ilusória dos homens é uma exigência para sua verdadeira felicidade. A chamada para o abandono de uma situação que demanda ilusões. Portanto, a crítica da religião é o embrião da crítica desse vale de lágrimas do qual a religião constitui o halo. A crítica arrancou dos grilhões as flores da imaginação, não para que o homem suporte os grilhões sem fantasia ou consolo, mas para que pense, aja e modele sua realidade como um homem que perdeu suas ilusões e reconquistou sua razão, a fim de que se mova em torno de si mesmo como seu verdadeiro sol. A religião é o único sol ilusório em volta do qual o homem gira enquanto não gira em torno de si mesmo. Por conseguinte, uma vez dissipado o mundo sobrenatural da verdade, a tarefa da história é a de fundar a verdade deste mundo. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana em sua forma secular agora que ela foi desmascarada em sua forma sagrada. Assim, a crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da religião se torna a crítica da lei, e a crítica da teologia, a crítica da política" (Marx, 1978:54).

6. Os dados utilizados nesta análise estatística provêm de uma pesquisa nacional que vem sendo realizada desde 1952, por ocasião das eleições presidenciais norte-americanas. O grupo pesquisado representa o universo de eleitores adultos norte-americanos residentes nos 48 estados contíguos. A pesquisa é de responsabilidade do Survey Research Center e do Center for Political Studies do Institute for Social Research, da Universidade de Michigan. A base de dados, American National Election Studies Cumulative Data File, 1952-1986, reúne as dezoito coletas bianuais feitas pelo instituto, com um total de 31.517 entrevistas. O tamanho da amostra para cada ano utilizado neste artigo (1964-1984) varia entre 1.291 e 2.257 entrevistas (Miller e The National Elections Studies, 1988:II-III).

7. Variáveis socioeconômicas: nível educacional (Bennett, 1986; Conway, 1985; Schwartz, 1973; Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980); nível financeiro (Conway, 1985; Schwartz, 1973; Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980); ocupação (Conway, 1985; Schwartz, 1973; Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980); e classe social (Schwartz, 1973; Teixeira, 1987).

Variáveis políticas: filiação partidária (Abramson e Aldrich, 1982; Bennett, 1986; Brody, 1978; Cassel e Hill, 1981; Converse, 1976; Milbrath e Goel, 1977; Nie et alii, 1976; Norpoth e Rusk, 1982; Shaffer, 1981; Teixeira, 1987; Verba e Nie, 1972; Wolfinger e Rosenstone, 1980); senso de ineficácia política (Abramson e Aldrich, 1982; Bennett, 1986; Nie et alii, 1976; Shaffer, 1981; Teixeira, 1987; Verba e Nie, 1972; Wright, 1976); e envolvimento através da mídia em campanhas eleitorais (Miller, 1980; Prisuta, 1973; Reiter, 1979; Shaffer, 1981; Teixeira, 1987).  

Variáveis demográficas: idade (Conway, 1985; Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980); sexo (Baxter e Lansing, 1983; Bennett, 1986; Conway, 1985; Jennings, 1983; Sapiro, 1983; Wolfinger e Rosenstone, 1980); raça (Abramson e Claggett, 1984; Conway, 1985; Miller, 1980; Piven e Cloward, 1988; Wolfinger e Rosenstone, 1980); residência no sul do país (Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980); e estado civil (Conway, 1985; Teixeira, 1987; Wolfinger e Rosenstone, 1980).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAHAMIAN, Ervand. (1989), The Iranian Mojahedin. New Haven: Yale University Press.         [ Links ]

ABRAMSON, Paul e ALDRICH, John. (1982), "The Decline of Electoral Participation in America". American Political Science Review, nº 76, pp. 502-521.         [ Links ]

ABRAMSON, Paul e CLAGGETT, William. (1984), "Race-Related Differences in Self-Reported and Validated Turnout". Journal of Politics, nº 46, pp. 719-738.         [ Links ]

ALVES, Márcio Moreira. (1979), A Igreja e a Política no Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense.         [ Links ]

ANTOINE, Charles. (1971), L'Église et le Pouvoir au Brésil. Paris: Desclée de Brouwer.         [ Links ]

AYUBI, Nazih. (1983), "The Politics of Militant Islamic Movements in the Middle East". Journal of International Affairs, nº 36, pp. 271-283.         [ Links ]

BAHR, Howard e CHADWICK, Bruce. (1985), "Religion and Family in Middletown, USA". Journal of Marriage and the Family, nº 47, pp. 407-414.         [ Links ]

BATSON, C. et alii. (1986), "Religious Orientation and Overt Versus Covert Racial Prejudice". Journal of Personality and Social Psychology, nº 50, pp. 175-181.         [ Links ]

BAXTER, Sandra e LANSING, Marjorie. (1983), Women and Politics. Ann Arbor: University of Michigan Press.         [ Links ]

BEATTY, Kathleen e WALTER, Oliver. (1984), "Religious Preference and Practice: Reevaluating their Impact on Political Tolerance". The Public Opinion Quarterly, nº 48, pp. 318-329.         [ Links ]

BELLAH, Robert. (1978), "Religion and Legitimation in the American Republic". Society, nº 15, pp. 16-23.         [ Links ]

___ et alii. (1985), Habits of the Heart. New York: Harper & Row.

BENNETT, Stephen. (1986), Apathy in America, 1960-1984. New York: Transnational Publishers.         [ Links ]

BERGER, Peter. (1980), The Heretical Imperative. Garden City, New York: Doubleday.         [ Links ]

___ et alii. (1973), The Homeless Mind. New York: Random House.         [ Links ]

BERKE, Richard L. (1988), "Voter Turnout Hit its Lowest Rate Since 24". The Tennessean, 13 de novembro, pp. 1A, 3A.         [ Links ]

BILLINGS, Dwight. (1990), "Religion as Opposition". American Journal of Sociology, vol. 96, nº 1, pp. 1-31.         [ Links ]

BLACK, Alan. (1985), "The Impact of Theological Orientation and of Breadth of Perspective on Church Members' Attitudes and Behaviors". Journal for the Scientific Study of Religion, nº 24, pp. 87-100.         [ Links ]

BLANCARTE, R. (1990), Iglesia y Estado en México. México: Instituto Mexicano de Doctrina Cristiana.         [ Links ]

BOUILLIER, Veronique e TOFFIN, Gerard (eds.). (1989), Pretrise, Pouvoir, et Authorité en Himalaya. Paris: Ed. de l’E.H.E.S.S.         [ Links ]

BRADY, David e TEDIN, Kent. (1976), "Ladies in Pink: Religion and Political Ideology in the Anti-ERA Movement". Social Science Quarterly, nº 56, pp. 564-575.         [ Links ]

BRODY, Richard. (1978), "The Puzzle of Political Participation in America", in A. King (ed.), The New American Political System. Washington, D.C.: American Enterprise Institute, pp. 287-324.         [ Links ]

BURNHAM, Walter D. (1982), The Current Crisis in American Politics. New York: Oxford University Press.         [ Links ]

CASSEL, Carol e HILL, David. (1981), "Explanations of Turnout Decline: A Multivariate Test". American Politics Quarterly, nº 9, pp. 181-195.         [ Links ]

CAVANAGH, Thomas. (1981), "Changes in American Voter Turnout, 1964-1976". Political Science Quarterly, nº 96, pp. 53-65.         [ Links ]

CHECKOWAY, Barry e VAN TIL, Jon. (1978), "What Do We Know about Citizen Participation?", in S. Langston (ed.), Citizen Participation in America. Massachusetts: Lexington Books, pp. 25-42.         [ Links ]

CONVERSE, Phillip. (1976), Dynamics of Party Identification. Beverly Hills: Sage.         [ Links ]

CONWAY, M. (1985), Political Participation in the United States. Washington, D.C.: Congressional Quarterly.         [ Links ]

CORBIN, David. (1981), Life, Work, and Rebellion in the Coal Fields. Illinois: University of Illinois Press.         [ Links ]

COSER, Lewis. (1974), Greedy Institutions: Patterns of Undivided Commitment. New York: Free Press.         [ Links ]

COX, Harvey. (1984). Religion in the Secular City. New York: Simon & Schuster.

DARVILLE, Ray et alii. (1982), "The Effects of Religion on Class Consciousness: Theoretical Perspectives and Applications". Quarterly Journal of Ideology, nº 6, pp. 13-20.         [ Links ]

DAVIDSON, James et alii. (1983), "Involvement in Family, Religion, Education, Work, and Politics". Sociological Focus, vol. 16, nº 1, pp. 13-36.         [ Links ]

FREEMAN, Jo. (1975), The Politics of Women’s Liberation. New York/London: Longman.         [ Links ]

FROMM, Erich. (1966), Marx's Concept of Man. New York: Ungar.         [ Links ]

GANS, Curtis. (1978), "The Empty Ballot Box: Reflections on Nonvoters in America". Public Opinion, nº 1, pp. 54-57.         [ Links ]

HAMMOND, John. (1979), The Politics of Benevolence: Revival Religion and American Voting Behavior. New Jersey: Ablex.         [ Links ]

HAMMOND, Phillip E. (1985a), "The Curious Path of Conservative Protestantism". Annals of the American Academy of Political and Social Science, nº 480, pp. 53-62.         [ Links ]

___ (ed.). (1985b), The Sacred in a Secular Age. California: University of California Press.         [ Links ]

HARDING, Vincent. (1984), "Out of the Cauldron of Struggle: Black Religion and the Search for a New America", in P. H. McNamara (ed.), Religion: North American Style. California: Wadsworth, pp. 256-264.         [ Links ]

HARING, Bernhard. (1973), Faith and Morality in the Secular Age. New York: Doubleday.         [ Links ]

HART, S. (1987), "Christian Faith and Nuclear Weapons". Journal for the Scientific Study of Religion, nº 26, pp. 38-62.         [ Links ]

HEREK, Gregory. (1987), "Religious Orientation and Prejudice: A Comparison of Racial and Sexual Attitudes". Personality and Social Psychology Bulletin, nº 13, pp. 34-44.         [ Links ]

HERTEL, Bradley e HUGHES, Michael. (1987), "Religious Affiliation, Attendance, and Support for Pro-Family Issues in the United States". Social Forces, nº 65, pp. 858-882.         [ Links ]

HIMMELSTEIN, Jerome. (1983), "The New Right", in R. C. Liebman e R. Wuthnow (eds.), The New Christian Right. New York: Aldine, pp. 13-30.         [ Links ]

HOUGHLAND, James e CHRISTENSON, James. (1983), "Religion and Politics: The Relationship of Religious Participation to Political Efficacy and Involvement". Sociology and Social Research, nº 67, pp. 405-420.         [ Links ]

HOUT, Michael e GREELEY, Andrew. (1987), "The Center Doesn't Hold: Church Attendance in the United States, 1940-1984". American Sociological Review, nº 52, pp. 325-345.         [ Links ]

HOUTART, François. (1980), Religion and Ideology in Sri Lanka. New York: Orbis.         [ Links ]

HUNTER, James. (1983), American Evangelicalism. New Jersey: Rutgers University Press.         [ Links ]

JELEN, Ted. (1987), "The Effects of Religious Separatism on White Protestants in the 1984 Presidential Election". Sociological Analysis, nº 48, pp. 30-45.         [ Links ]

JENNINGS, M. (1983), "Gender Roles and Inequalities in Political Participation: Results from an Eight-Nation Study". Western Political Quarterly, nº 36, pp. 364-385.         [ Links ]

JENSEN, Richard. (1981), "The Last Party System: Decay of Consensus, 1932-1980", in P. Kleppner et alii (eds.), The Evolution of American Electoral Systems. Connecticut: Greenwood Press.         [ Links ]

KELLEY, Dean. (1972), Why Conservative Churches Are Growing. New York: Harper & Row.

LIEBMAN, C. e DON-YEHIVA, E. (1983), Civil Religion in Israel. California: University of California Press.         [ Links ]

LIPSET, Seymour e RAAB, Earl. (1981), "The Election and the Evangelicals". Commentary, nº 71, pp. 25-32.         [ Links ]

LOEWENTHAL, Kate. (1986), "Factors Affecting Religious Commitment". Journal of Social Psychology, nº 126, pp. 121-123.         [ Links ]

LOPATTO, Paul. (1985), Religion and the Presidential Election. New York: Praeger.         [ Links ]

LORENTZEN, Louise. (1980), "Evangelical Life Style Concerns Expressed in Political Action". Sociological Analysis, nº 41, pp. 144-154.         [ Links ]

MADURO, Otto. (1982), Religion and Social Conflicts. New York: Orbis.         [ Links ]

MARTIN, David. (1985), "Religion and Public Values: A Catholic-Protestant Contrast". Review of Religious Research, nº 26, pp. 313-331.         [ Links ]

MARX, Karl. (1966), "The Economic and Philosophical Manuscripts", in E. Fromm, Marx’s Concept of Man. New York: Ungar.         [ Links ]

___. (1977), Capital. New York: Vintage Books, vol. 1.         [ Links ]

___. (1978), "Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right: Introduction", in K. Marx e F. Engels, The Marx-Engels Reader. New York/London: W. W. Norton Co.         [ Links ]

___. (1981), Capital. New York: Vintage Books, vols. 2 e 3.         [ Links ]

___. (1986), The German Ideology. New York: International Publishers.         [ Links ]

___ e ENGELS, F. (1964), On Religion. New York: Schocken.         [ Links ]

___. (1978), The Marx-Engels Reader. New York/London: W.W. Norton Co.         [ Links ]

MCGUIRE, Meredith. (1987), Religion: The Social Context. California: Wadsworth.         [ Links ]

MCINTOSH, William et alii. (1979), "The Differential Impact of Religious Preference and Church Attendance on Attitudes Toward Abortion". Review of Religious Research, nº 20, pp. 195-213.         [ Links ]

MILBRATH, Lester e GOEL, M.L. (1977), Political Participation. Chicago: Rand McNally.         [ Links ]

MILLER, W. (1980), "Disinterest, Disaffection, and Participation in Presidential Politics". Political Behavior, nº 2, pp. 7-32.         [ Links ]

___ e THE NATIONAL ELECTIONS STUDIES. (1988), American National Elections Studies, Cumulative Data File, 1952-1986. Ann Arbor, Michigan: Inter-University Consortium for Political and Social Research.         [ Links ]

MORGAN, Mary e SCANZONI, John. (1987), "Religious Orientations and Women's Expected Continuity in the Labor Force". Journal of Marriage and the Family, nº 49, pp. 367-379.         [ Links ]

NIE, Norman et alii. (1976), The Changing American Voter. Massachusetts: Harvard University Press.         [ Links ]

NORPOTH, Helmut e RUSK, Jerrold. (1982), "Partisan Dealignment in the American Electorate". American Political Science Review, nº 76, pp. 522-537.         [ Links ]

O'SHAUGHNESSY, Laura e SERRA, Luis. (1986), The Church and Revolution in Nicaragua. Ohio: Ohio University Press.         [ Links ]

PIVEN, Frances Fox e CLOWARD, Richard A. (1977), Poor People’s Movements. New York: Vintage Books.         [ Links ]

___. (1988), Why Americans Don't Vote. New York: Pantheon Books.         [ Links ]

PRISUTA, R. (1973), "Mass Media Exposure and Political Behavior". Educational Broadcasting Review, nº 7, pp. 167-173.         [ Links ]

REICHLEY, James. (1985), Religion in American Public Life. Washington, D.C.: The Brookings Institution.         [ Links ]

REITER, Howard. (1979), "Why Is Turnout Down?". Public Opinion Quarterly, nº 43, pp. 297-311.         [ Links ]

ROOF, Wade. (1982), "America's Voluntary Establishment: Mainline Religion in Transition", in M. Douglas e S. Tipton (eds.), Religion and America: Spirituality in a Secular Age. Boston: Beacon, pp. 130-149.         [ Links ]

___ e MCKINNEY, William. (1987), American Mainline Religion. New Jersey: Rutgers University Press.         [ Links ]

ROTHENBERG, Stuart e NEWPORT, Frank. (1984), The Evangelical Voter. Washington, D.C.: The Institute for Government and Politics.         [ Links ]

SAPIRO, Virginia. (1983), The Political Integration of Women. Illinois: The University of Illinois Press.         [ Links ]

SCHWARTZ, David C. (1973), Political Alienation and Political Behavior. Chicago: Aldine Publishing Company.         [ Links ]

SHAFFER, Stephen. (1981), "A Multivariate Explanation of Decreasing Turnout in Presidential Elections, 1960-1976". American Journal of Political Science, nº 25, pp. 68-95.         [ Links ]

SHAIKO, Ronald. (1987), "Religion, Politics, and Environmental Concern". Social Science Quarterly, nº 68, pp. 244-262.         [ Links ]

SOUTHWELL, Priscilla. (1986), "Alienation and Nonvoting in the United States: Crucial Interactive Effects among Independent Variables". Journal of Political and Military Sociology, nº 14, pp. 249-261.         [ Links ]

TEDIN, Kent. (1978), "Religious Preference and Pro/Anti Activism on the Equal Rights Amendment Issue". Pacific Sociological Review, nº 21, pp. 55-66.         [ Links ]

TEIXEIRA, Ruy. (1987), Why Americans don't Vote. Connecticut: Greenwood Press.         [ Links ]

TOCQUEVILLE, Alexis. (1956), Democracy in America. New York: Mentor Books.         [ Links ]

VERBA, Sidney e NIE, Norman. (1972), Participation in America. New York: Harper and Row.         [ Links ]

WEBER, Max. (1978), Economy and Society. California: University of California Press.         [ Links ]

WELCH, Kevin. (1981), "An Interpersonal Influence Model of Traditional Religious Commitment". Sociological Quarterly, nº 22, pp. 81-92.         [ Links ]

WILLIAMS, Philip. (1989), The Catholic Church and Politics in Nicaragua and Costa Rica. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press.         [ Links ]

WOLFINGER, Raymond e ROSENSTONE, Steven J. (1980), Who Votes? New Haven: Yale University Press.         [ Links ]

WRIGHT, James. (1976), Dissent of the Governed. New York: Academic Press.         [ Links ]

ZWERLING, Philip e MARTIN, Connie. (1985), Nicaragua: A New Kind of Revolution. Westport, Co.: L. Hill.         [ Links ]

 

 

ABSTRACT
Marx, Religion, and Politics: The Role of American Conservative Protestantism as an Opium

Political scientists and sociologists alike have been intrigued by the phenomenon of low voter turnout in US elections during the second half of the 20th century. This paper explores the connection between religious affiliation and rising political alienation in America during this period. Recent studies on religion and politics in Latin American countries have identified lower-class religion, or the so-called church of the poor, as a catalyst that mobilizes the poor to engage in political action aimed at reforming or overthrowing political regimes. Using a Marxian framework and working with statistical analyses, this study shows that lower-class religion in America has the opposite effect. When all significant secular determinants of political alienation are controlled for, affiliation with conservative Protestant churches is shown to be significantly and positively related to nonvoting.
Keywords: Marx; religion and politics; US presidential elections; political alienation; conservative Protestantism.

 

 

RÉSUMÉ
Marx, Religion et Politique: Le Protestantisme Conservateur Nord-Américain comme Opium du Peuple

La question de la faible participation aux élections nord-américaines dans la seconde moitié du XXè. siècle, demeure un sujet de perplexité et d’intérêt pour les politologues et sociologues. L’aliénation politique, sous la forme de désertion aux urnes, ne cesse de grandir aux États-Unis. Dans cet article, on cherche à rendre compte du rapport entre l’affiliation religieuse et cette forme d’aliénation politique dans ces cinquante dernières années. À l’aide de l’analyse des voix dans des élections présidentielles nord-américaines, on perçoit comment la religion des classes moins favorisées aux États-Unis garde son rôle d’opium du peuple, dénoncé dans la thèse de Marx. Si l’on contrôle tous les autres facteurs ou variables expliquant le faible taux de votants, on peut montrer que l’affiliation aux églises protestantes conservatrices est statistiquement corrélée à la non-participation électorale aux États-Unis.
Mots-clé: Marx, religion et politique; élections présidentielles nord-américaines; aliénation politique; protestantisme conservateur.

 

* Agradeço aos professores Daniel Cornfield e Anthony Blasi pelos comentários e sugestões feitos a versões anteriores deste trabalho.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons