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versão impressa ISSN 0011-5258versão On-line ISSN 1678-4588

Dados v. 41 n. 2 Rio de Janeiro  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52581998000200004 

A Teoria e a Tipologia de Classe Neomarxista de Erik Olin Wright*

José Alcides Figueiredo Santos

 

 

Na sociologia brasileira não existe uma tradição de estudos voltados para a construção de "mapas de classe". Essa lacuna analítica e empírica se torna ainda mais explícita caso se leve em conta o refinamento teórico, a dimensão comparativa internacional e a sofisticação técnica que as tipologias de classe assumiram em outros países, particularmente da década de 80 em diante1. Dedicando-se à explicação de padrões sociais manifestos no plano individual, as tipologias de classe de Erik Olin Wright e de John Goldthorpe representam os esquemas de classe, aplicáveis à pesquisa empírica e à análise multivariável, mais consagrados na sociologia contemporânea (Crompton, 1994; Edgell, 1995; Breen e Rottman, 1995). Desenvolve-se neste artigo um quadro abrangente da teoria e da tipologia de classe neomarxista de Erik O. Wright, enumerando certas ponderações e contrapontos críticos que recaem sobre suas formulações teóricas e estratégias de abordagem da realidade empírica ¾ questões muito específicas sobre problemas e soluções operacionais não serão aprofundadas aqui. Considera-se de grande relevância o conhecimento e o debate desse empreendimento renovador dentro da tradição marxista, que tem servido, inclusive, de ponto de agregação de um esforço coletivo de pesquisa de âmbito internacional2.

Erik O. Wright vem empreendendo um esforço contínuo para desenvolver um esquema de classes capaz de mapear as variações nas estruturas de classe das sociedades capitalistas. A formação do pensamento do autor deu-se em contraponto às insuficiências do pensamento marxista contemporâneo para interpretar, notadamente, a emergência de posições referidas como de "classe média" dentro da estrutura de classes. A biografia do conceito-chave de "localizações contraditórias de classe" vinculou-se, igualmente, ao esforço empreendido de construção de uma tipologia de classe aplicável à pesquisa empírica (Wright, 1985:19-63).

 

A POLÊMICA SOBRE A "CLASSE MÉDIA" E O PRIMEIRO MAPA DE CLASSES DE WRIGHT

Quatro estratégias analíticas gerais foram desenvolvidas no âmbito do marxismo até o fim da década de 70, enfocando a problemática das situações de "classe média" na estrutura de classes. Uma primeira estratégia colocava quase todas essas posições na classe trabalhadora; a segunda alternativa optava por agrupar várias categorias de assalariados não-proletários sob a denominação de nova pequena burguesia; outra opção fixava os segmentos de assalariados situados fora da classe trabalhadora em uma nova classe denominada "classe profissional e gerencial"; a quarta estratégia interpretava essas posições não polares como representativas de "localizações contraditórias dentro das relações de classe" (Wright, 1980a). Wright fez a defesa de uma versão estrutural desta última, procedendo a uma análise de três dimensões inter-relacionadas da dominação e subordinação dentro da produção, envolvendo o capital monetário, considerado em termos do fluxo de investimentos dentro da produção e da direção do processo de acumulação no seu conjunto; o capital físico, ou seja, os meios de produção efetivos dentro do processo de produção; e o trabalho, envolvendo as atividades transformativas dos produtores diretos dentro da produção. A relação de classe fundamental entre trabalho e capital foi pensada como polarizada e antagônica ao longo dessas três dimensões. A não-correspondência entre as três dimensões gera, justamente, as "localizações contraditórias dentro das relações de classe": gerentes e supervisores ocupam localização contraditória entre a classe trabalhadora e a classe capitalista; pequenos empregadores entre a pequena burguesia e a classe capitalista propriamente dita; e empregados semi-autônomos entre a pequena burguesia e a classe trabalhadora. Trata-se de localizações contraditórias porque elas compartilham, simultaneamente, características relacionais de duas classes distintas (Wright, 1980a:328-333; Wright, 1981:57-81). Utilizando esse esquema teórico, Wright encabeçou a primeira investigação sistemática da estrutura de classes norte-americana baseada em dados colhidos de uma perspectiva explicitamente marxista (Wright et alii, 1982).

As concepções utilizadas no primeiro mapa de classes de Wright, que valorizavam as noções de controle e exploração dentro das relações sociais de produção, foram posteriormente reformuladas. Em uma inflexão autocrítica, sob a inspiração da obra de Roemer, Wright colocou as relações de exploração, em vez das de dominação, no cerne do seu novo mapa de classes (Crompton, 1994:69-72).

 

A OBRA DE JOHN ROEMER

Roemer considera que a teoria econômica marxista pregressa fracassou em estabelecer com precisão as causas da exploração no capitalismo3. Ele contesta a definição da exploração em termos de expropriação do trabalho excedente e a colocação do processo de trabalho no centro da análise da exploração e das classes. A exploração do trabalho nem causa nem explica os lucros e a rentabilidade do capitalismo. A teoria da exploração do trabalho é considerada incorreta, pois a força de trabalho não é a única mercadoria capaz de produzir mais valor do que incorpora. Roemer contrapõe a essa idéia o teorema da exploração generalizada da mercadoria4 (Roemer, 1989a:35-41; 1989b:118-119).

O conceito de exploração surge no enfoque de Roemer" puramente definido em termos de relações de propriedade" (Roemer, 1989a:9). Seu objetivo é formular uma teoria que seja operativa inclusive na ausência de propriedade privada dos meios de produção. Almeja-se a construção de uma metateoria da exploração aplicável a qualquer modo de produção. Ela é melhor caracterizada em termos da propriedade de recursos produtivos e a sua condição necessária e suficiente é a distribuição desigual desses fatores. A propriedade diferencial dos meios de produção é destacada como a causa principal da exploração capitalista. Uma pessoa ou grupo são explorados se não têm acesso a uma participação justa (eqüitativa) nos ativos produtivos alienáveis da sociedade. A teoria da exploração é também uma teoria da justiça baseada na igualdade de recursos (Roemer, 1989a:104, 113 e 123).

Roemer introduz adicionalmente o enfoque da "teoria dos jogos" para comparar diferentes sistemas de exploração. Sugere que um grupo deva ser visto como explorado caso tenha "alguma opção condicionalmente factível de acordo com a qual seus membros estariam melhor" (Roemer, 1989b:121) ¾ recorre-se a um "jogo de retirada" para definir a exploração. Seus diferentes tipos são definidos através das regras de retirada que fariam com que os membros de uma coalizão de atores estivessem melhor como resultado da sua retirada da economia. A regra que especifica a exploração feudal é o afastamento vantajoso do jogo com seus ativos pessoais de capacidade de trabalho; a exploração capitalista com a sua parte per capita de ativos físicos; e a exploração socialista com a sua porção de ativos inalienáveis de qualificação (Wright et alii, 1989:10-12). Para o autor a introdução da noção de "retirada condicional" realçaria os "imperativos éticos" da teoria marxista (Przeworski, 1989:265).

Roemer procura demonstrar dois teoremas básicos5. O teorema da Correspondência entre Riqueza e Classe vai relacionar a posição de classe de um produtor com a sua riqueza ¾ a ordenação das pessoas em classes identifica-se com a sua ordenação em termos de magnitudes de dotações de riqueza. Entretanto, "a relação entre riqueza e classe ¾ que os ricos contratam trabalho e os pobres vendem-no ¾ nem sempre se cumpre" (Roemer, 1989a:73). O segundo teorema, da Correspondência entre Exploração e Classe, aparece, então, como fundamental para relacionar as dimensões de exploração e classe. Ele estabelece que é um explorador o membro de uma classe que aluga trabalho e é um explorado o integrante de uma classe que vende trabalho. Este teorema proporciona os microfundamentos analíticos" para a afirmação de que os capitalistas (os que contratam trabalho) exploram os proletários (os que vendem trabalho)" (idem:78-79).

Amparado em seu esquema analítico, Roemer estabelece uma taxionomia histórica da exploração: a exploração feudal surge da distribuição desigual dos direitos de propriedade sobre o trabalho dos outros; a exploração capitalista vincula-se à distribuição desigual dos ativos de propriedade produtiva alienável; enquanto o socialismo, ainda que anule as formas pretéritas de exploração, convive com uma forma de exploração calcada na distribuição das dotações pessoais inalienáveis ¾ as habilidades (idem:104-107).

Ao colocar o conceito de exploração no centro da análise de classe, Wright acolherá a idéia de Roemer de que a exploração material é determinada pelas desigualdades na distribuição dos ativos produtivos. As classes aparecem como posições derivadas das relações de exploração. Entretanto, diferenciando-se de Roemer, Wright pensa em termos de transferências de trabalho excedente que são explicadas pelas desigualdades de ativos (Wright et alii, 1989:199). Além disso, a formulação inicial de Roemer incorporava à análise apenas os ativos físicos (alienáveis) e os ativos de qualificação (inalienáveis). Wright considera, adicionalmente, os ativos de força de trabalho e os ativos organizacionais. No capitalismo, regra geral, cada um possui uma unidade do ativo força de trabalho, o que não ocorre no escravismo e no feudalismo. O ativo organizacional decorre do fato de a organização ¾ um ativo freqüentemente controlado através de uma hierarquia de autoridade ¾ ser um recurso produtivo específico.

 

O CONCEITO DE CLASSE

Na tradição marxista, o conceito de classe apresenta certas propriedades essenciais. Trata-se de um conceito relacional, pois as classes são sempre definidas no âmbito das relações sociais, em particular nas relações das classes entre si; e também são antagonísticas, já que geram intrinsecamente interesses opostos. As relações de exploração, ou seja, o vínculo causal entre o bem-estar de uma classe e a privação de outra, dão um caráter "objetivo" a esse antagonismo. A base fundamental da exploração, por sua vez, encontra-se nas relações sociais de produção. O conceito de classe deve abarcar apenas a exploração enraizada nas relações de produção e não todas as relações sociais possíveis nas quais ocorre exploração. A exploração baseada na produção deve ser considerada uma categoria distinta da não produtiva, por causa do tipo específico de interdependência que se cria entre explorado e explorador. Outros mecanismos são essencialmente redistributivos do excedente criado dentro de determinadas relações de propriedade (Wright, 1985:97-98).

Classes dizem respeito a localizações estáveis e estruturalmente determinadas na esfera das relações sociais de produção; definem-se em termos de relações de propriedade, ou seja, dos ativos produtivos controlados, e formam categorias de atores sociais caracterizados pelas relações de propriedade que geram exploração. De modo geral, pode-se especificar uma série de tipos de relações de classe levando-se em conta os recursos produtivos que fornecem a base para a exploração. Classes definem-se em termos de um mapa estrutural de interesses materiais comuns baseados na exploração. Devido aos tipos específicos de ativos que controlam, as pessoas de uma determinada classe "enfrentam objetivamente as mesmas amplas estruturas de escolhas e tarefas estratégicas quando procuram melhorar seu bem-estar econômico" (Wright et alii, 1989:282). Interesses de classe comuns significa compartilhar das mesmas estratégias otimizadoras materiais (Wright, 1985:91).

Wright vem reconsiderando mais recentemente o papel da dominação na constituição das relações de classe. No seu livro Classes, em que desenvolveu o conceito de classe baseado na conexão ativo-exploração, nem por isso deixou de sustentar a idéia de que "dominação sem apropriação e apropriação sem dominação não constituem relações de classe" (idem:300). Segundo ele, classe é um conceito intrinsecamente político, já que requer relações de dominação. Direitos de propriedade devem implicar dominação sobre a atividade dos trabalhadores diretamente dentro da própria organização social da produção. Dominação sem apropriação e apropriação sem dominação são estruturas não reprodutivas das relações sociais de produção. As relações de classe são a unidade das relações de apropriação e dominação (Wright, 1994:52-68).

Na visão de Wright, classe não representa a causa" mais importante" de qualquer fenômeno social. Em uma demonstração disto, vale citar que estudos comparativos internacionais sobre as diferenças de gênero em termos de autoridade no local de trabalho e de divisão do trabalho no lar levaram o autor a reconhecer a tese feminista de que as relações de gênero são bastante autônomas das relações de classe (Wright, 1997:541-545).

 

A NOÇÃO DE EXPLORAÇÃO

Em contraponto a Roemer, Wright estabelece uma distinção entre opressão econômica e exploração. Na opressão econômica, o bem-estar da classe opressora decorre apenas da privação material do oprimido e, ligado a isso, da sua capacidade de proteger seus próprios direitos de propriedade. No caso da exploração, o bem-estar material e o poder econômico do explorador dependem causalmente da sua capacidade de apropriar-se dos frutos do trabalho do explorado, o que equivale a uma transferência de excedente de uma classe para outra6. O explorador depende, desse modo, não meramente da privação do explorado, mas ele tem também interesse na atividade produtiva e no esforço do explorado. Essa combinação peculiar de antagonismo de interesses e interdependência dá à exploração o seu caráter distintivo (Wright, 1985:74-75; 1994:40). A exploração define um conjunto de mecanismos que ajuda a explicar tanto a distribuição do bem-estar econômico quanto a distribuição do poder econômico.

O nexo ativo/exploração depende em cada caso da capacidade de o controlador do ativo privar os outros do acesso a este. As bases materiais da exploração são as desigualdades na distribuição dos ativos produtivos, ou o que é usualmente referido como relações de propriedade. As desigualdades de ativos são suficientes para dar conta das transferências de trabalho excedente. As formas variáveis de desigualdade de ativos especificam diferentes sistemas de exploração. Nesse sentido, a exploração radica no controle ou propriedade de elementos das forças produtivas, isto é, de vários tipos de fatores (inputs) usados na produção (Wright, 1985:96). Ativos produtivos são fatores ou recursos produtivos geradores de renda (Wright et alii, 1989:nota 12). A exploração, conceito gerador de interesses, define a relação social dentro da qual um grupo se beneficia materialmente a expensas de outro. A exploração é explicativa não apenas porque redunda em desigualdades, mas também por causa dos modos através dos quais intenta mapear interdependências de interesses antagônicos. 

Wright aponta as vantagens do conceito de classe centrado na exploração. A abordagem do problema dos interesses objetivos de classe fica mais clara, pois essa noção adquire um conteúdo mais materialista e histórico ao vincular-se à propriedade efetiva de elementos das forças produtivas, cujo desenvolvimento imprime aos sistemas de classe a sua trajetória histórica. As diferenças qualitativas entre os tipos de estruturas de classe ficam melhor demarcadas. As classes médias são caracterizadas pelos mesmos critérios de base que definem as classes fundamentais (idem:163-164). A exploração, por fim, representa um dos mecanismos centrais por meio dos quais a estrutura de classes explica o conflito de classes.

Ainda que as diversas dimensões da desigualdade social não possam ser reduzidas à desigualdade de classe, a premissa subjacente à análise marxista é a de que as relações de classe jogam um papel decisivo na moldagem das outras formas de desigualdade. De modo específico, as relações de classe organizam a estrutura da desigualdade de renda no sentido de que as posições de classe moldam os modos como outras causas influenciam a renda. Uma investigação empírica do autor sobre a realidade norte-americana demonstra que, no tocante às diferenças raciais no processo de determinação da renda, as relações de classe não podem ser excluídas da análise, sob pena de ocorrerem graves distorções nos resultados (Wright, 1978). Da mesma forma, a posição de classe afeta o modo e a extensão em que as características de background, como a educação, são transformadas em renda (Wright e Perrone, 1977).

A sociedade capitalista atual contém, além da exploração capitalista, formas não capitalistas de exploração, estruturalmente subordinadas ao capitalismo, que fornecem as bases materiais para formas secundárias de relações de classe. A noção de múltiplas explorações permite pensar a existência de localizações contraditórias de classe, dentro das relações de exploração, que podem ser simultaneamente exploradoras e exploradas em dimensões diferentes (Wright et alii, 1989:24 e 306). Por outro lado, há localizações de classe que não são nem exploradoras nem exploradas, isto é, gente que tem precisamente o nível per capita do ativo pertinente (Wright, 1985:86).

Em seu livro Classes, Wright considerou a existência de ativos organizacionais, já que a organização — entendida como" as condições de cooperação coordenada entre produtores em uma complexa divisão do trabalho" — representa um recurso produtivo específico, além de um ativo controlado dentro de uma hierarquia de autoridade (idem:79). A divisão técnica de trabalho entre produtores é, por si mesma, uma fonte de produtividade. O modo como o processo produtivo é organizado é um recurso produtivo em seus próprios termos. A noção de ativos organizacionais tem uma relação próxima com o problema de autoridade e hierarquia. Autoridade, contudo, não é o próprio ativo, ele é a organização, ou seja, a tomada de decisão coordenadora sobre uma complexa divisão técnica do trabalho. Não resta dúvida, no entanto, que a organização é um ativo que é controlado através de uma hierarquia de autoridade. O mecanismo gerador da exploração organizacional corresponde ao poder que os gerentes têm dentro da produção em virtude das suas responsabilidades organizacionais associadas à autonomia e ao poder real na organização social da produção. Esse controle econômico efetivo sobre o uso dos ativos organizacionais garante-lhes a percepção de "rendas de lealdade" (Wright et alii, 1989:200-201).

Na corporação moderna, na prática, o exercício efetivo de controle sobre os ativos organizacionais — sobre a coordenação e integração da divisão do trabalho — está nas mãos dos gerentes. Em termos do nexo exploração/classe, esse controle constitui a base para uma estrutura particular de relações de classe entre gerentes e trabalhadores (Wright, 1985:80 e 94). Entretanto, em um ensaio publicado na obra coletiva The Debate on Classes (Wright et alii, 1989), o autor inicia uma reaproximação, nesse ponto, a idéias subjacentes ao seu primeiro mapa de classes. Nos últimos tempos, inclina-se a tratar explicitamente a autoridade como uma dimensão das relações de classe entre os empregados. Gerentes e supervisores exercem um poder delegado da classe capitalista na medida em que se engajam em práticas de dominação dentro da produção. Essa posição estratégica, particularmente dos gerentes, na organização da produção enseja a exigência de uma porção do excedente social sob a forma de rendimentos relativamente elevados. Entretanto, a posição dos gerentes não decorre apenas das relações de dominação, mas também da ocupação de uma localização privilegiada de apropriação (privileged appropriation location) dentro das relações de exploração. A solução parece nova e não apenas um retorno a idéias presentes no primeiro mapa de classes, sugerindo que os gerentes estariam em uma espécie de posição de confluência das relações de dominação e exploração (Wright, 1997:20-23).

A propriedade de qualificações escassas forma uma outra conexão ativo/exploração. Qualificação e perícia designam um ativo incorporado na força de trabalho que aumenta o seu poder nos mercados e processos de trabalho. Essa força de trabalho "incrementada" é muitas vezes atestada sob a forma de credenciais, mas em algumas circunstâncias qualificação e perícia podem funcionar sem essa certificação (idem:23). A exploração baseada em ativos de qualificação pressupõe a restrição da sua oferta, permitindo a transformação da escassez relativa em rendas elevadas que suplantam o custo de produção da força de trabalho qualificada (Wright et alii, 1989:21). Os talentos naturais representam um segundo mecanismo por meio do qual o preço da força de trabalho qualificada pode exceder seu custo de produção. Os diferenciais de capacidade permitem que as pessoas talentosas se apropriem de uma renda extra ao adquirirem habilidades, com menor esforço e custo. Talentos e credenciais podem ser simplesmente tratados como um tipo específico de mecanismo para criar a escassez estável de uma determinada qualificação e apropriação exploradora. A ênfase em credenciais deve-se ao seu status relativamente claro de "direito de propriedade". Entretanto, uma credencial formal torna-se a base para uma relação de exploração apenas quando está combinada com um emprego que a requer (Wright, 1985:152). A exploração, baseada na propriedade de ativos de qualificação, mostra-se comumente mediada por trocas mercantis e mercados de trabalho internos. Wright pondera que não é certo que qualificações e credenciais sejam realmente a base para uma relação típica de classe ¾ em que as classes se definem nas relações entre si ¾ , dado o tipo de relação difusa de dependência existente entre especialistas e não-especialistas (idem:85 e 95).

 

A ESTRUTURA DE CLASSES

A estrutura de classes refere-se à estrutura de relações sociais que define um conjunto de posições ocupadas por indivíduos ou famílias e que determina seus interesses de classe. Ela corresponde a uma estrutura de" lugares vazios" gerados pelas relações sociais de produção, que existe independentemente de pessoas específicas que ocupam posições determinadas. Trata-se, então, de "um conjunto de posições de classe que existem independentemente das pessoas que o ocupam, mas que, todavia, determina os interesses de classe dos seus ocupantes" (Mayer, 1994:132). Pesquisa empírica confirma que a estrutura de classes deve ser pensada como "totalidade" que não é redutível à "soma das suas partes" (dimensões primárias de propriedade, habilidade e autoridade), pois há efeitos distintos do conjunto enquanto tal (Western e Wright, 1994:624-625). No que diz respeito à estrutura de classes, pode-se falar de posições vazias, população excedente absoluta e ocupantes de posições de classe (Wright, 1985:10). As estruturas de classes concretas são vistas como consistindo de diferentes combinações das relações de classe definidas dentro dos conceitos abstratos da estrutura de classes e designam mecanismos reais, ou seja, processos geradores de efeitos (Wright et alii, 1989:278).

Classes não podem ser definidas como agrupamentos (clusters) de ocupações, já que os dois fenômenos possuem diferentes dimensões na teoria marxista. Enquanto ocupações representam posições definidas no âmbito das relações técnicas de produção, classes caracterizam-se pela sua localização dentro das relações sociais de produção. As firmas capitalistas são os sítios privilegiados das relações sociais de produção, mas as formações de classe incorporam e transcendem o espaço da firma. Considerando, conjuntamente, as dimensões estruturais e processuais, as classes perpassam as organizações ao incorporarem o "interno" e o" externo" (Wright, 1980b:177-178 e 190-191).

Em geral, os tratamentos marxistas da estrutura de classes enfatizam um (ou mais de um) de três tipos de efeitos: interesses materiais, experiências de vida e capacidades para ação coletiva. Wright considera que os conceitos concretos da estrutura de classes podem ser melhor construídos em torno da noção de exploração e interesses materiais. Este seria o único modo coerente, no entendimento do autor, de gerar sistematicamente conceitos concretos de estrutura de classes derivados do conceito abstrato de modo de produção (Wright et alii, 1989:278-299). A estrutura de classes corresponde a um tipo particular de rede complexa de relações sociais que determina o acesso aos recursos produtivos básicos e molda os interesses materiais. Pode ser representada, adequadamente, como uma matriz multidimensional de localizações determinadas pela distribuição dos ativos geradores de exploração (idem:59). Essa estrutura de relações sociais gera uma matriz de interesses baseada na exploração. A sociedade capitalista contemporânea assistiu ao desenvolvimento de múltiplas explorações, isto é, diferentes formas de combinação de distintos mecanismos de exploração.

Apesar de elaborar um esquema de classes de inclinação mais "estruturalista", Wright reconhece os problemas inerentes a uma visão estritamente posicional da estrutura de classes e declara sua preferência por uma abordagem de trajetória. As visões posicionais de estrutura de classes giram em torno de caracterizações essencialmente estáticas da localização das pessoas nas relações de classe. A localização de classe é um determinante básico da matriz de possibilidades objetivas enfrentadas pelos indivíduos, seja no horizonte das alternativas reais que as pessoas consideram ao tomar decisões sobre o que fazer e como fazer, seja no âmbito da trajetória global das possibilidades encaradas durante o ciclo de vida (Wright, 1985:144). O caráter de uma determinada posição deve ser visto em termos probabilísticos. As propriedades relacionais de uma posição de classe determinam as conseqüências de classe apenas como tendências. O mesmo ocorre com a localização relacional dos ocupantes no decorrer do tempo. Uma explicação plena da estrutura de classes tem que incluir algum tipo de reconhecimento dessas trajetórias probabilísticas. O próprio conceito de interesse, central na interpretação de Wright, implica um horizonte ou dimensão temporal da parte dos atores que partilham esses interesses (idem:185-186).

Em período mais recente, Wright tem problematizado a sua noção de localização de classe. O sentido de ocupar uma localização de classe, no fundo, restringe-se a empregos (jobs) e tem uma conotação estática. É preciso conectar a dimensão da estrutura de classes (empregos) a microconceitos que captem o modo de os indivíduos viverem. Wright desenvolveu as noções de localizações de classe mediatas e temporais (Wright et alii, 1989:323-331). A primeira procura captar as demais relações sociais, além do emprego, que ligam os indivíduos à estrutura de classes. Relações com outros membros da família e relações com o Estado criam vínculos indiretos entre o indivíduo e os recursos produtivos. As relações de gênero perpassam a família e formam a base para a definição da localização de classe mediata, o que permite, inclusive, dissolver o dualismo classe/gênero (Wright, 1989a:41 e 62). A referência a localizações de classe temporais reflete o fato de determinados empregos estarem associados a trajetórias de carreira que alteram o vínculo de classe através do tempo. A localização de classe de profissionais, especialistas e outras categorias portadoras de qualificações credencializadas, envolve um movimento no interior das hierarquias gerenciais, a capacidade de capitalizar renda e opções viáveis de auto-emprego secundário ou de tempo integral. Em um plano concreto de análise, a estrutura de classes envolve a totalidade das relações de classe diretas, mediatas e temporais.

 

TIPOLOGIA DE CLASSE

Wright elabora uma tipologia básica de classe na sociedade capitalista em função da apropriação diferenciada de ativos em meios de produção, ativos de qualificação e relação com o exercício de dominação dentro da produção (caracterizados antes como ativos organizacionais). A parte crítica da tipologia de localizações de classe encontra-se nas diferenciações entre os não-proprietários dos meios de produção, ou seja, nas divisões internas entre assalariados, atribuídas à operação dos mecanismos de exploração não capitalistas e de dominação dentro da produção, estruturalmente subordinados à exploração baseada nos ativos de meios de produção (Wright, 1989b:8 e 191-192). A distribuição empírica das pessoas dentro das células da tipologia de classe depende dos padrões de distribuição e interdependência dos ativos de exploração e de exercício de dominação dentro da produção. Os conceitos marxistas tradicionais de estrutura de classes são muito abstratos e "macros" para abordar vários problemas empíricos e, inversamente, não dão conta da necessidade de ligar níveis concreto e micro de análise aos macroconceitos mais abstratos.

Wright faz opção por uma estratégia de análise mais refinada da estrutura de classes e um exame nuançado dos efeitos da localização de classe na consciência e ação individuais. A proliferação de localizações de classe na tipologia deve-se ao fato de o conceito de "localização de classe" ser de nível micro. Os indivíduos (e às vezes as famílias) ocupam as localizações. Ocupar uma localização significa ser afetado por um conjunto de mecanismos que determina as possibilidades e os limites encarados ao fazer escolhas e agir no mundo. As localizações de classe estão sempre estruturalmente interconectadas às relações de classe. Possibilidades e limites dependem, crucialmente, das propriedades emergentes da estrutura social como um todo que mediatizam os microprocessos. A noção de estrutura de classes designa a organização de conjunto de relações e localizações de classe (Wright, 1997:374-379 e 401-405). Wright destaca que o esquema de classe básico subjacente às suas investigações corresponde a um modelo que diferencia seis localizações nas relações de classe, o que não deve ser confundido com um modelo de seis classes (idem:23-25). As três dimensões da tipologia básica podem ser "tricotomizadas", por opções metodológicas, diferenciando-se as posições dominante, contraditória e subordinada, o que dá lugar a doze localizações de classe: três de possuidores de ativos de capital e nove de empregados (Wright et alii, 1989:34 e 306). Apresentam-se na Figura 1 a tipologia de classe básica e na Figura 2 a tipologia desenvolvida (Wright, 1997:24-25; 1985:88). 

 

Figura 1
Tipologia Básica de Classe na Sociedade Capitalista

Proprietário

Empregados

Contrata trabalho

Capitalista

Gerentes especialistas

Gerentes não- especialistas

Exerce autoridade


Relação com autoridade

Não contrata trabalho

Pequena burguesia

Especialistas

Trabalhadores

Não exerce autoridade

Possui qualificações escassas

Não-especialista

Relação com qualificações escassas

 

 

Figura 2
Tipologia de Classe na Sociedade Capitalista
Ativos em Meio de Produção

Proprietários dos meios de produção

Não-proprietários (trabalhadores assalariados)

 

 

 


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Possuem suficiente capital para empregar trabalhadores e não trabalhar

1
Burguesia

4
Gerentes especialistas

7
Gerentes qualificados

10
Gerentes não qualificados

 

+

Possuem suficiente capital para empregar trabalhadores, mas precisam trabalhar

2
Pequenos empregadores

5
Supervisores especialistas

8
Supervisores qualificados

11
Supervisores não qualificados

 

>0

Possuem suficiente capital para trabalhar para si mesmos mas não para empregar trabalhadores

3
Pequena burguesia

6
Não-gerentes especialistas

9
Trabalhadores qualificados

12
Trabalhadores não qualificados

 

-

+

>0

-

Relação com qualificações escassas

 

Entre os proprietários distinguem-se os capitalistas propriamente ditos, os pequenos empregadores, que empregam poucos empregados, e a pequena burguesia, composta pelas pessoas auto-empregadas sem empregados. As localizações de" classe média" são pensadas como localizações contraditórias e localizações privilegiadas de apropriação entre os empregados, e abrangem, na tipologia desenvolvida, todos os tipos de gerentes e especialistas mais os supervisores qualificados. A noção de qualificação (skill), presente na categoria intermediária de trabalhador qualificado (skilled), vincula-se à idéia mais geral de força de trabalho potencializada (enhanced) ou complexa. A classe trabalhadora "pura" consiste de empregados que, tendo posição subordinada nas dimensões de autoridade e de qualificação, são cumulativamente não-gerentes e não qualificados. Wright fala de uma classe trabalhadora "ampliada", abarcando os trabalhadores não qualificados, os trabalhadores qualificados e os supervisores não qualificados (Wright, 1997:23-24 e 447). Os objetivos específicos da investigação podem demandar a introdução de certas modificações apropriadas. Wright adota em diversos estudos uma tipologia restrita devido às limitações da dimensão da amostra, à natureza dos dados disponíveis e ao contexto analítico7.

Wright desenvolve uma estratégia sofisticada, particularmente para mensurar a dimensão de autoridade, denominada, antes, de ativos de controle organizacional. Os entrevistados são questionados minuciosamente sobre o seu envolvimento em tomadas de decisões, autoridade sobre os subordinados em termos de serviço e punições, e posição na hierarquia formal da empresa (Wright, 1985:303-313). Os gerentes correspondem a "posições que estão diretamente envolvidas em tomar decisões de política (policy decisions) no local de trabalho e que possuem autoridade efetiva sobre o subordinado". Já os supervisores representam" posições que possuem autoridade efetiva sobre subordinados, mas não estão envolvidas em tomadas de decisão na organização" (idem:151).

A alternativa de "tricotomizar" a mensuração das dimensões de diferenciação de classe merece uma consideração específica. Tal estratégia dá origem às nove posições de classe diferenciadas dentro do segmento de não-proprietários. Wright esclarece que o objetivo perseguido por essa solução foi o de construir uma tipologia em que as posições assimétricas (p. ex., gerente e trabalhador) fossem inequívocas. Na verdade, criou uma variável tricotômica para capturar e representar uma dicotomia teórica. A idéia foi concentrar nas categorias intermediárias e ambíguas os problemas e deficiências de mensuração. Assim fazendo, ao confrontar as posições assimétricas teria certeza de estar comparando grupos relativamente bem mensurados (Wright, 1993:34).

Wright reconhece que os atuais mapas descritivos de classes produzidos por estudiosos das tradições marxista e weberiana, podem não ser tão divergentes em termos práticos para a análise da sociedade capitalista. Ambas as tradições consideram a relação capital/trabalho como definidora do eixo principal das relações de classe no capitalismo. Da mesma forma, destacam a importância das categorias sociais de profissionais, gerentes e executivos, funcionários burocráticos, empregados altamente qualificados, que não se encaixam propriamente nas relações de classe polarizadas entre capitalistas e trabalhadores (Wright, 1994:92). Como as categorias empíricas de análise são muitas vezes subdeterminadas pelo modelo teórico de referência, em termos de conjunto prático de categorias operacionais a matriz de estrutura de classes de Wright não difere dramaticamente da tipologia de Goldthorpe (Wright, 1997:36).

 

GÊNERO, FAMÍLIA E CLASSE: A QUESTÃO DA UNIDADE DE ANÁLISE

A escolha da unidade de análise ¾ indivíduo ou família ¾ suscita questões fundamentais concernentes ao entendimento dos mecanismos através dos quais a variável classe é explicativa. A composição de classe da família torna-se um problema saliente na medida em que o poder explicativo de classe vincula-se aos modos como posições de classe moldam interesses materiais. Em uma visão centrada restritamente no emprego, dado que os empregos são ocupados pelos indivíduos, o problema da composição da família torna-se relativamente secundário. Wright acredita que o crescimento das famílias de composição de classe heterogênea no capitalismo contemporâneo exige um tratamento pelos esquemas analíticos. De modo particular, considera como aspecto crítico do fenômeno das famílias interclasses, a maior probabilidade de as mulheres da classe trabalhadora ¾ em comparação aos homens ¾ terem esposos em localizações exploradoras. As relações sociais dentro da família, ao viabilizarem acesso a recursos materiais controlados pela unidade familiar, com implicações em termos de bem-estar material, constituem uma fonte crucial de "relações de classe mediatas". Os vínculos de gênero entre maridos e esposas representam as bases reais condicionantes das suas respectivas localizações mediatas. Concebe-se que as pessoas se vinculam à estrutura de classes não apenas através da sua posição individual dentro da divisão do trabalho. Certo tipo de combinação ponderada de localizações diretas e mediatas definiria os "interesses de classe" de conjunto do indivíduo. Pode-se pensar na existência de combinações contraditórias de localizações diretas e mediatas. A localização de maridos e esposas deveria ser tratada como uma função da localização de classe direta e mediata de ambos. A problemática do papel da mulher na estrutura de classes diz respeito à identificação dos processos causais que moldam a saliência relativa das relações diretas e mediatas na determinação dos seus interesses de classe. A noção de relações de classe mediatas representa um passo adiante para dissolver o dualismo classe/gênero. Os vínculos de gênero no âmbito da família são constitutivos das relações de classe mediatas. A noção permite conceituar as articulações entre classe e gênero sem tratar as duas dimensões como estruturas inteiramente separadas ou dissolver a própria distinção (Wright, 1989a; 1997:249-280).

 

A CONSCIÊNCIA DE CLASSE

Consciência de classe corresponde àqueles aspectos da consciência que possuem um conteúdo distintivo de classe que conforma as escolhas intencionais. As formas de consciência pertinentes à classe envolvem os processos subjetivos por meio dos quais os indivíduos passam a entender a determinação social das suas capacidades e opções (Wright, 1997:382-386; 1985:29). O modelo causal de formação da consciência advogado por Wright apóia-se em duas premissas.

Premissa 1: "Os interesses materiais enraizados nas relações de exploração e, por isso, vinculados à estrutura de classes, são reais, [de modo que] o vínculo entre classe e consciência [...] baseia-se nas propriedades objetivas da própria estrutura de classes".

Premissa 2: "A experiência de classe que molda a consciência está sempre organizada socialmente, [de forma que se deve analisar] a construção social das categorias ideológicas em função das quais as pessoas interpretam seu mundo" (Wright, 1985:251-252).

As localizações de classe estruturam objetivamente os interesses dos atores. Postula-se que as pessoas sejam suficientemente racionais para tomar consciência desses interesses.

O estudo da "consciência" abarca notadamente aqueles elementos da subjetividade da pessoa que são discursivamente acessíveis ao indivíduo. As crenças, idéias, observações, informações, teorias, preferências, mesmo não estando explicitamente na mente da pessoa, podem ser acessíveis à sua consciência. A consciência de classe compõe-se do conteúdo de três dimensões da subjetividade implicadas nas escolhas intencionais: percepção de alternativas, teorias de conseqüências e preferências. O conceito pretende denotar propriedades subjetivas que dão à atividade de escolha consciente um conteúdo de classe8.

Em trabalho posterior, Wright vai considerar que as compreensões subjetivas de identidades e interesses possuem diferentes estruturas temporais. A identidade estaria mais enraizada no passado biográfico, enquanto o interesse consciente na antecipação do próprio futuro. Os padrões de mobilidade social prediriam melhor as identidades de classe, ao passo que as localizações de classe seriam melhores preditoras dos interesses conscientes. A organização coletiva de classe dentro da produção e os contextos organizacionais prevalecentes nas empresas capitalistas, por sua vez, podem influenciar significativamente a direção e a extensão em que experiências e interesses de classe são transformados em identidades e crenças (Wright, 1997:492-516 e 536-40).

 

MODELO DE ESTRUTURA, FORMAÇÃO E LUTA DE CLASSES

A dimensão da estrutura revela-se conceitualmente essencial para clarificar a lógica de conjunto da análise de classes. Afinal, a estrutura de classes é o determinante central do poder social e constitui o mecanismo básico de distribuição de acesso aos recursos na sociedade e, portanto, de distribuição de capacidades de agir (Wright, 1985:28 e 32).

A formação de classes refere-se à constituição de coletividades organizadas dentro da estrutura de classes sobre a base de interesses moldados por esta. Tais coletividades podem ser organizadas, desorganizadas e reorganizadas (:10). As relações sociais dentro de cada classe determinam sua capacidade de perseguir seus interesses (Wright, 1994:52-53). A formação expressa e mede "a coerência combinada (corporate) de uma classe e sua capacidade organizacional de funcionar como um participante ativo na sociedade" (Mayer, 1994:133).

As práticas são concebidas como "atividades humanas vistas em termos de seus efeitos transformativos no mundo" (Wright, 1994:54). As práticas de classe são atividades em que os membros do agrupamento se engajam com a finalidade de realizar ao menos alguns do seus interesses de classe. Nesse sentido, a atividade é intencional e o objetivo é a realização de interesses baseados em classe. A subjetividade mediatiza os modos como as condições objetivas das localizações são traduzidas nas escolhas efetivas das ações de classe. A mediação subjetiva das escolhas ¾ o processo efetivo de escolher ¾ é igualmente uma parte essencial do processo. Formações coletivas, não-indivíduos atomizados, são os veículos característicos das lutas de classes, ou seja, das formas organizadas de práticas de classe antagonísticas (Wright, 1997:381-382; 1985:145).

O modelo analítico (que não pretende ser uma teoria geral) articula as dimensões de estrutura, formação e luta de classes. A estrutura de classes impõe limites à formação, ou seja, à organização coletiva das forças de classe, assim como às suas lutas. Três são os mecanismos básicos de imposição de limites: a moldagem dos interesses materiais dos indivíduos, os padrões de identidades emergentes das experiências de classe vividas e a determinação dos recursos materiais disponíveis. Já a formação de classe seleciona as lutas possíveis, que, por fim, retroagem e transformam tanto a estrutura quanto a formação de classe. As práticas de classe, em certa medida, transformam as estruturas que as limitam (Wright, 1997:394-400).

Wright defende a idéia da relativa indeterminação do relacionamento entre estrutura e formação de classe, do seu caráter complexo e contingente. A estrutura estabelece os limites de variação possível da formação, consciência e luta de classes e impõe obstáculos e oportunidades às tentativas de quaisquer atores políticos de organizar pessoas em formações coletivas. Porém, dentro desses limites, uma variedade de fatores políticos e históricos moldam os padrões presentes que emergem. Os interesses baseados na exploração, radicados na estrutura de classes, constituem as bases materiais para uma variedade de formações potenciais. A estrutura de classes pode definir o terreno dos interesses materiais em torno dos quais experiências de formação de classes ocorrem ou as probabilidades subjacentes de diferentes tipos de formação, mas os resultados dependem de uma série de fatores que são estruturalmente contingentes em relação à própria estrutura de classes. Formação de classe é o processo por meio do qual as condições individuais são organizacionalmente fundidas, com a finalidade de gerar uma capacidade coletiva de agir. Nesse terreno, deve-se considerar as dinâmicas organizacionais por meio das quais as condições individuais para agir, como determinadas pela localização de classe, se tornam mobilizadas em formas coletivas de práticas de classe. O processo de formação coletiva é decisivamente moldado por uma variedade de mecanismos institucionais que são" relativamente autônomos" e que determinam os modos como as estruturas se traduzem em atores coletivos com ideologias e estratégias específicas (Wright, 1985:14, 28-29 e 123-124).

Estudo comparativo sobre a questão da permeabilidade diferenciada das fronteiras de classe à mobilidade intergeracional entre homens nos Estados Unidos, Canadá, Noruega e Suécia mostra a interferência dos fatores político-institucionais na reprodução das classes. Emerge da pesquisa um claro padrão de variação entre as nações estudadas. A fronteira de propriedade é menos permeável nas sociedades em que as relações econômicas capitalistas são menos constrangidas pela intervenção estatal. Os recursos materiais vinculados às relações de propriedade capitalistas demonstram constituir uma barreira mais significativa à mobilidade nos EUA e Canadá, que os recursos culturais vinculados à perícia. Nos dois países escandinavos, especialmente na Suécia, as fronteiras de propriedade e perícia não diferem significativamente em seu grau de permeabilidade. A pesquisa sugere que quanto mais puramente capitalista é uma estrutura econômica, menos permeável será a fronteira de propriedade à mobilidade intergeracional. Os resultados são, em certa medida, consistentes com a visão de que os Estados de Bem-Estar social-democratas podem influenciar a operação dos mecanismos de classe capitalistas, no sentido de uma maior igualdade (Western e Wright, 1994)9.

Os "lugares vazios" da estrutura de produção social compreendem, simultaneamente, relações de classe e relações ocupacionais. As posições de classe e ocupacionais interagem de várias formas no processo de formação coletiva de classe. As posições ocupacionais formam bases potenciais para divisões dentro da classe trabalhadora, assim como podem reforçar outras fontes de divisões intraclasses, como raça e etnia, e concorrem com classe como bases de organização dos seus ocupantes em atores coletivos, ao ensejarem o surgimento de organizações coletivas de grupos ocupacionais. Entretanto, sob determinadas circunstâncias, grupos ocupacionais podem servir de veículo de formação de classe. As conexões entre classe e ocupação, assim como outros aspectos da estrutura social, produzem efeitos diferenciadores nas formas de luta e formação de classe (Wright, 1980b).

 

CLASSE E POLÍTICA

Em sua análise de como a classe molda a política, Wright recorre à tipologia tripartite de "níveis de poder" elaborada por Alford e Friedland. Existe o poder situacional que se refere às relações de poder de comando direto e obediência entre atores. A estrutura de classes distribui recursos úteis nas lutas políticas e, por isso, afeta as interações dos atores políticos. O poder institucional refere-se às características de diferentes cenários institucionais que moldam a agenda de tomada de decisão de maneira a servir aos interesses de grupos particulares. Determinadas propriedades institucionais do Estado incorporam um caráter específico de classe, a exemplo dos mecanismos negativos de filtragem. O poder sistêmico refere-se ao poder de concretizar interesses dada a estrutura global do sistema social. O padrão de organização social — relações de propriedade, orientação do sistema de produção e operações dos mercados — reforça os interesses dos capitalistas independentemente de maquinações políticas.

Os efeitos de classe na política estão sujeitos a variações. O poder situacional relativo de coletividades organizadas contendoras pode experimentar situações de "equilíbrio de forças". O poder incorporado nas propriedades institucionais do Estado manifesta diferenças históricas. Possibilidades de variação afetam, igualmente, o caráter de classe do poder sistêmico dentro das sociedades. Neste ponto, cabe citar os estudos de Esping-Andersen acerca da existência de diferenças nas formas de Estado de Bem-Estar (ver, p. ex., Esping-Andersen, 1990).

A relevância relativa dos diferentes fatores causais, assim como a sua articulação, devem ser consideradas. Classe não representa a causa" mais importante" de qualquer fenômeno político. Processos associados a fatores sistêmicos gerais implicam um papel explicativo mais importante de classe, mas objetos mais concretos e sutis tendem a ser relativamente mais contingentes em relação a esse fator. A importância causal explicativa de classe guarda relação com os aspectos mais diretamente implicados na reprodução da estrutura de classes e com os interesses fundamentais das classes dominantes (Wright, 1994:88-106).

 

CRÍTICAS À TIPOLOGIA DE ERIK OLIN WRIGHT

Levy e Joye advertem que o esquema de classes de Wright se articula em torno da idéia de múltiplas explorações, em que mecanismos baseados no controle de ativos organizacionais e de qualificação se associam, ainda que subordinadamente, à exploração propriamente capitalista. A importância atribuída à existência de hierarquias múltiplas de estratificação, segundo certas interpretações, faz com que o critério da propriedade dos meios de produção passe a ser de relevância parcial. Aponta-se um sério problema prático dessa abordagem: a necessidade de definir pontos de descontinuidade ou corte nas variáveis qualificação ou posição hierárquica, que não são intrinsecamente dicotômicas ou tricotômicas (Levy e Joye, 1994:315 e 318).

Sörensen considera que a abordagem de Wright em termos de ativos de qualificação e ativos organizacionais não seria adequada como uma teoria estrutural ou posicional de classe. Habilidades inatas, ainda que possam gerar uma renda diferencial, são atributos de pessoas e não de posições. De modo semelhante, habilidades adquiridas (skills) podem gerar "sobre-rendas", na medida em que as oportunidades de treinamento são fixas e a oferta limitada; no entanto, independente disso, não são propriedades de posições10. Já a posição de "autoridade" na hierarquia organizacional não pode ser considerada uma medida de valor do ativo, ou seja, da eficácia produtiva de um arranjo organizacional. Nessa situação, só o argumento de incentivo explicaria os altos salários dos detentores de autoridade. Certos autores apelam para a noção de sistemas de incentivos ou falam de sistemas de promoção em mercados de trabalho internos. Nenhuma das duas soluções, no entanto, atende à idéia de vantagens posicionais (Sörensen, 1994).

Edgell critica Wright por introduzir fortes elementos de graduação na tipologia de classe. Na interpretação do autor, não fica claro se a posse de ativos de qualificação ou credenciais conduz à exploração dos não-especialistas pelos especialistas ou, na verdade, apenas a variações de rendimentos. A diferenciação interna dos não proprietários, que dá origem a nove localizações de classe na tipologia, é realizada distinguindo-se graus de controle dos ativos organizacionais e de qualificação ou credenciais. Nesse sentido, a tipologia de classe não seria puramente marxista, nos termos defendidos pelo próprio Wright, pois contém tanto elementos relacionais quanto de graduação (Edgell, 1995:22-26)11.

A construção teórica do mapa de classes apóia-se na suposição, não muito plausível empiricamente, de que os diferentes mecanismos de exploração têm efeitos estritamente aditivos, os quais são tidos como mutuamente independentes. Consciente desse problema, Wright lembra que caso se considere que as formas de exploração se reforçam mutuamente, "a relação entre o mapa de localizações de classe definido com base nos ativos e interesses de classe objetivos torna-se muito mais problemática" (Wright, 1985:96). Na avaliação crítica de Mayer, a pressuposição de independência (não reforço mútuo) entre tipos de exploração, adotada por Wright por motivos de simplicidade, alimenta a impressão de a tipologia de classe representar uma classificação-cruzada artificial (mecanical cross-classification), impressão que é reforçada pela atribuição de três níveis a cada modo de exploração (Mayer, 1994:137).

Relatam-se problemas vinculados à aplicação do esquema de classes de Wright. A definição operacional de Wright de burguesia seria derivada de uma concepção de propriedade familiar. Nesse sentido, a noção de Goldthorpe de "classe de serviço", ainda que conceitualmente mais heterogênea, pois agrega empregadores e empregados, estaria mais próxima da realidade do poder corporativo na economia capitalista contemporânea. A dificuldade na mensuração dos ativos de qualificação daria lugar a soluções arbitrárias de decisões de codificação, de modo que pessoas desempenhando tarefas radicalmente diferentes aparecem na mesma categoria de "especialistas" ou "empregados não qualificados". Como a qualificação e perícia pressupõem a sua vinculação com empregos, recorre-se a estes na sua operacionalização. Wright seria prisioneiro da codificação ocupacional, mais que o próprio Goldthorpe, criticado por trabalhar explicitamente com categorias ocupacionais. A operacionalização deste ativo implica lançar mão de agregados ocupacionais (derivados da codificação oficial de ocupações), junto com a escolaridade e, para algumas situações, uma medida de autonomia de emprego. A localização de classe de trabalhadores qualificados faria uma miscelânea de critérios: alguns seriam incluídos tendo em vista as qualificações formais e outros com base somente na denominação ocupacional.

A aplicação prática dos critérios para definir a posição de classe na dimensão de autoridade não seria rigorosa. As regras e instruções (os algoritmos) de classificação de classe de Wright, na prática, conteriam critérios muito fracos para distinguir gerentes e supervisores de outros empregados. O indivíduo entrevistado é considerado gerente na medida em que participe de qualquer um dos oitos itens arrolados de tomadas de decisão, inclusive apenas formulação de parecer ou conselho (device). A categoria de gerentes inclui pessoas que não ocupam posições de gerente na hierarquia formal da empresa, mas são gerentes pelos critérios de Wright. A elaboração de critérios minuciosos, aplicados porém de forma frouxa, afetaria igualmente a constituição da categoria de supervisores, que abrange indivíduos que são supervisores puramente nominais na organização formal da empresa, mas que a própria pesquisa constatou não possuírem autoridade sobre tarefas e em matéria de punições sobre subordinados. Critica-se também o artificialismo de denominar supervisores àqueles que estão envolvidos na supervisão limitada de um único subordinado. Seriam assinaladas diferentes localizações de classe a indivíduos partilhando ocupações e situações similares de emprego, por causa de alegadas diferenças em termos de autonomia e participação em tomadas de decisão. As medidas de controle organizacional não levam em conta o contexto desse controle. A aplicação frouxa dos critérios de mensuração de posição hierárquica leva a inflar as categorias de gerentes e supervisores12. Marshall e outros demonstram grande ceticismo acerca da real homogeneidade de determinadas localizações contraditórias de Wright. Distorções acumuladas produzem grande número de proletários que não seriam realmente proletários, mesmo nos termos de Wright. A aplicação do seu esquema sugere que a estrutura de classes da Inglaterra estaria em um estado avançado de proletarização, o que é contestado pelos autores. Os resultados empíricos derivados da aplicação do esquema de Wright, particularmente em relação à Inglaterra, colocariam sérias dúvidas sobre a utilidade da sua abordagem (Marshall et alii, 1993:38, 59-60, 93-94 e 265).

Breen e Rottman consideram que um esquema de doze localizações de classe é mais plausível em termos do que Weber descreve como" classes econômicas", ou seja, um arranjo de situações econômico-sociais típico, em lugar de classes sociais propriamente, isto é, agrupamentos de situações de classe demograficamente definidos. Tais localizações de classe dão a impressão de representarem contextos fracos para processos de estruturação de coletividades sociais reais. No plano operacional, segundo os autores, o esquema requer detalhes empíricos consideráveis acerca das condições de emprego para mensurar o grau de posse de um ativo particular, tomando-se, inclusive, a distinção tripla que é feita para cada ativo no que se refere a posições de classe dominante, contraditória e subordinada (Breen e Rottman, 1995:65 e 69).

Savage et alii criticam o modelo analítico quantitativo dos "esquemas de classe" que trata as posições de classe como" variáveis independentes" utilizadas para inferir resultados apurados no plano das "variáveis dependentes", em que se busca mensurar o impacto dos fatores determinantes em termos de manifestações sociais padronizadas na esfera do indivíduo (desempenho educacional, atitudes, padrões de voto etc.). Essa abordagem seria incapaz de demonstrar os vínculos determinantes causais precisos entre classe social e outros fenômenos sociais. Os autores consideram, igualmente, as implicações negativas de se conceber a estrutura de classes como um conjunto de lugares vazios definidos em termos de posições econômicas, a que se agrega a investigação dos processos que vinculam as pessoas a lugares particulares. O fato de determinados lugares serem condicionados pelo gênero do seu ocupante, como alerta a crítica feminista, demonstra que os lugares de classe não podem ser especificados independentemente das pessoas que os ocupam. Savage et alii defendem um enfoque realista que concebe as classes como entidades com determinados poderes causais, revelados através dos seus efeitos. Estes dependem de uma variedade de condições contextuais contingentes e se manifestam notadamente nas situações históricas decisivas. Os autores privilegiam o estudo do modo como as classes sociais se constituem em coletividades sociais e, então, como podem influenciar os processos de mudança histórica. A estrutura das posições de classe não pode ser simplesmente considerada como dada; os processos que estruturam essas posições têm que ser objeto de investigação. O estudo de como as classes se formam como coletividades sociais pode implicar a investigação de como os próprios processos de formação de classe afetam a organização, desorganização e reorganização das posições de classe (Savage et alii, 1995:219-229).

As classes sociais são vistas em primeiro lugar, e sobretudo, como coletividades sociais estáveis formadas por pessoas com níveis semelhantes de renda e remuneração, estilos de vida, cultura e orientação política. A análise de classe deve lidar prioritariamente com a questão da formação de classe e não tanto com esquemas classificatórios. As classes sociais estão radicadas em processos de exploração. Diferentes tipos de exploração dão origem a distintos poderes causais de entidades sociais específicas. Entretanto, não basta analisar as propriedades causais de formas determinadas de exploração. O vínculo entre tipos de relações exploradoras e a formação de coletividades sociais particulares implica o exame das condições contingentes que viabilizam ou potencializam o exercício das propriedades causais (idem:1-18).

Crompton caracteriza os mapas de classe de Wright e de Goldthorpe, construídos a partir de levantamentos de dados apoiados centralmente na ocupação, como um enfoque de "agregados de empregos" à análise de classe. Essas tentativas são defeituosas já que não é possível empiricamente estudar as" classes" isoladas de outros fatores que estruturam a divisão do trabalho como um todo. Crompton analisa o uso problemático da variável ocupação como medida de classe. Posições ocupacionais não incorporam as diferentes dimensões da desigualdade nem capturam adequadamente a realidade das relações de classe. Além disso, classe tem sido pensada teoricamente como algo mais que simples agregados ocupacionais. Agregados de emprego não representam "entidades reais com interesses identificáveis e capacidades de agir" (Crompton, 1994:114).

O uso da estrutura de emprego, adverte Crompton, não permite chegar a uma medida "não contaminada" de classe social, pois outros fatores entram na própria estruturação das relações de emprego. Revela-se extremamente difícil separar o "econômico" do "social" ou" cultural" na análise de classes. As estruturas de emprego, não há como desconsiderar, são inevitavelmente condicionadas pelo gênero (Crompton e Sanderson, 1990:7 e 19). Cabe à posição dentro da divisão social do trabalho, em lugar das características individuais, o papel determinante da posição de classe. Entretanto, na medida em que as posições são, de fato, condicionadas por gênero ¾ no sentido, por exemplo, de ocupações "masculinas" ou "femininas" ¾ pode-se dizer, então, que o gênero "sobredetermina" a posição (Crompton e Mann, 1994:4). A estrutura de classes (empregos) é sobremaneira atravessada pelo fator gênero, de modo que é difícil desenredar os efeitos de" classe" e "gênero"13. A divisão do trabalho por gênero é uma realidade da vida social, proeminente tanto na esfera pública quanto na privada. A persistência da segregação ocupacional divide a estrutura ocupacional em ocupações "femininas" e "masculinas". O status e as recompensas de certas ocupações são determinadas historicamente pelo fato de serem ocupações "femininas". O "patriarcado", a dominação da mulher pelo homem, tem sido um sistema de moldagem da estrutura de emprego similar à classe, sendo que a mulher sofre uma dupla desvantagem, decorrente tanto do seu sexo quanto do seu emprego (Crompton, 1994:94 e 100-101). A segregação ocupacional de gênero está sendo reproduzida pelas práticas recorrentes, que são o produto de convenções passadas a respeito das relações "apropriadas" entre os sexos, das características particulares das economias nacionais etc., assim como estão sendo transformadas por práticas divergentes (Crompton e Sanderson, 1990:43). Com justa razão, os esquemas de classe baseados em emprego caem sob severo julgamento crítico, como ocorreu no debate em torno da "questão da mulher", devido à própria extensão das mudanças nas instituições de emprego e relacionadas ao emprego (Crompton, 1996:59).

Relações sociais subjacentes à condição de classe, assim como vínculos entre estrutura, consciência e ação, não podem ser adequadamente apreendidos por abordagens que "descansam, em última análise, sobre a agregação de atributos individuais" (Crompton, 1994:116). Entretanto, apesar dos problemas, que não podem ser obscurecidos, medidas baseadas em empregos conservam a sua utilidade enquanto indicadores de desigualdades de classe e de "chances de vida". Afinal, o trabalho permanece como "o mais significativo determinante do destino de vida da maioria dos indivíduos e famílias nas sociedades industriais avançadas" (idem:120). Crompton admite que o enfoque de "agregados de empregos" deve continuar a merecer a atenção da sociologia, dada a demonstração da persistência de padrões de desigualdade social e variações "atitudinais" associadas a empregos (Crompton, 1996:65).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Wright defende a existência de uma conexão entre propriedade de ativos produtivos, exploração, dominação na produção e diferenciação de classes. Caberia problematizar a possibilidade de geração plena de relações de classe na base da propriedade de ativos de qualificação. Wright não trata os especialistas, por esse e outros motivos, como uma classe enquanto tal. Prefere falar, no presente, que os especialistas ocupam uma localização privilegiada de apropriação nas relações de exploração decorrentes da sua posição estratégica na organização da produção (como controladores de conhecimento) e da sua localização estratégica na organização dos mercados de trabalho (como controladores de uma forma escassa de força de trabalho) (Wright, 1997:22). As relações de dominação na produção (autoridade) foram reintroduzidas no esquema de classes. Nessa nova reinterpretação o papel da autoridade aparece vinculado à idéia de posição privilegiada de apropriação nas relações de exploração. Essa reelaboração teórica da localização dos gerentes, que enfatiza o engajamento em práticas de dominação na produção e a posição estratégica na organização da produção, não há como negar, implica minimizar o estatuto de "ativo produtivo" do controle organizacional. Caracterizar a posição dos especialistas (e também dos gerentes), em termos de localização privilegiada de apropriação nas relações de exploração, representa, pelo menos, uma atenuação teórica da concepção plena de múltiplas explorações. Wright considera que os seus últimos estudos, tomados em conjunto, apesar das anomalias registradas, confirmariam a fecundidade do conceito de localizações contraditórias de classe. Entretanto, reconhece que a noção de localizações contraditórias perdeu o nível abrangente original de coerência teórica (idem:528). Esse reconhecimento implica também, em termos teóricos, um enfraquecimento da idéia de localizações contraditórias, no sentido de combinações assimétricas ou mutuamente neutralizadoras de diferentes formas de exploração. Wright retém a noção de localizações contraditórias no sentido de essas posições de classe média se ligarem de modos privilegiados aos processos de exploração e dominação. Os interesses de classe incorporados nos empregos de gerentes e especialistas combinam os interesses opostos de capital e trabalho (idem:20-23 e 523).

Cabe considerar, igualmente, os limites de uma abordagem à análise de classes que, em certa medida, se mostra "centrada em empregos". Importantes situações ou processos que não se manifestam adequadamente em termos da estrutura de emprego escapam à análise. Wright reconhece essa limitação metodológica da abordagem quantitativa das tipologias de classe. Os levantamentos de dados por amostragem (sample surveys) dificultam seriamente a exploração analítica dos extremos dentro da estrutura de classes: os grandes proprietários de capital e os segmentos mais marginalizados da população (Wright, 1997:xxx-xxxi).

As questões que recaem sob o crivo crítico, várias das quais apontadas e enfrentadas pelo próprio Wright, não devem obscurecer os méritos da sua obra. A análise de classe pode privilegiar analiticamente, como defende Wright, a concepção de plano micro de localizações de classe dentro de relações de classe macroestruturais. A noção de localização de classe traduz uma visão de condicionamentos operantes sobre os agentes ao fazerem escolhas e agirem no mundo. Seu esquema teórico revela-se capaz de expressar e orientar a abordagem do papel de posições intermediárias de classe na complexificação da estrutura social da sociedade capitalista contemporânea. Além disso, desenvolve uma noção de classe trabalhadora analiticamente mais sensível ao amplo reordenamento do universo da produção e do trabalho que se processa na atualidade. Em termos de tradição marxista, a reelaboração do conceito de classe preserva as noções de apropriação de ativos produtivos e de exploração, o que, no entanto, não impede Wright de incorporar o papel da dominação dentro da produção na geração de diferenciações nas localizações de classe. Além de desenvolver um agudo senso crítico e autocrítico, o autor constrói um instrumental analítico dirigido à pesquisa empírica sistemática, que realimenta o seu pensamento e chega mesmo a contribuir para que a sua obra se projete em reelaborações. Em um contexto de crise de paradigmas, a teoria e a tipologia de classes neomarxista de Wright inscrevem-se em uma obra aberta e em progresso.

(Recebido para publicação em outubro de 1997)

 

NOTAS:

1. Pode-se citar, como exceção à regra, a iniciativa do economista Paul Singer (1981).

2. Trata-se de "The Comparative Project on Class Structure and Class Consciousness: An Overview", elaborado e dinamizado por Erik O. Wright. Até o presente foram realizadas pesquisas vinculadas ao projeto nos EUA, Suécia, Grã-Bretanha, Canadá, Noruega, Austrália, Dinamarca, Japão, Nova Zelândia, Alemanha Ocidental, Rússia, Coréia do Sul, Espanha, Taiwan e Portugal. Ver Wright (1989b; 1997).

3. Conjugando a teoria marxista com a metodologia da economia neoclássica, o economista John Roemer baseia as suas refutações e proposições teóricas em um processo eminentemente hipotético-dedutivo, recorrendo a demonstrações lógico-matemáticas dos modelos e teoremas formulados.

4. A teoria marxista clássica considera que a taxa de lucro é positiva se, e apenas se, os trabalhadores são explorados. Roemer procura demonstrar que, partindo-se da necessidade ou suficiência da exploração do trabalho para os lucros, não se pode derivar o fato de que a exploração do trabalho cause ou explique os lucros. Segundo o teorema da exploração generalizada da mercadoria, em uma economia capaz de produzir excedente ou lucros positivos, qualquer bem possui a propriedade de gerar mais valor do que incorpora e de servir de valor numerário.

5. Roemer fala de teoremas pois comprova ou estabelece formulações através de demonstrações lógico-matemáticas.

6. Wright fala de apropriação dos frutos do trabalho, referindo-se apenas à apropriação de um "excedente" que o trabalho produz. A noção não pressupõe que o valor dos produtos é determinado exclusivamente pelo esforço de trabalho, nem que a métrica adequada do excedente é o tempo de trabalho (Wright, 1997:nota 11).

7. Em um estudo sobre a permeabilidade das fronteiras de classe à mobilidade social, por exemplo, adota-se uma tipologia de sete categorias: empregadores, pequena burguesia, gerentes e supervisores especialistas, gerentes e supervisores não-especialistas, profissionais, empregados qualificados e trabalhadores. As denominações de categorias ligadas à dimensão de qualificação foram mudadas, pois nas análises de permeabilidade das fronteiras de classe essa dimensão foi definida de modo mais restrito (Wright, 1997:152-155 e 169-202). No projeto de investigação sobre estrutura de posições de classe no Brasil, implementado por mim, deve-se recorrer a uma tipologia semelhante. As diferenças prendem-se à inclusão de uma categoria de "empregados domésticos" e à diferenciação dos empregadores, permitida pela PNAD, no número de empregados ocupados.

8. Wright reconhece que as noções de consciência e consciência de classe empregadas em seu trabalho escudam-se na teoria da "escolha racional" ou "ação estratégica" (Wright, 1985:244-252 e nota 280). Pode-se observar que essa análise da consciência de classe sofre das insuficiências próprias ao enfoque em que se baseia. Encontra-se em Elster (1994) um retrato dos limites da teoria da escolha racional.

9. Deve-se esclarecer que as diferenças constatadas nos países nórdicos representam antes a variação de um tema que padrões completamente diferentes. A permeabilidade das fronteiras de classe ¾ seja à mobilidade, ao casamento, às relações de amizade ¾ é moldada mais pelas propriedades da própria estrutura de classes que pelos processos culturais e políticos (Wright, 1997:233).

10. Wright fala explicitamente que qualificação e perícia designam um ativo incorporado (embodied) à força de trabalho, que aumenta o seu poder nos mercados e nos processos de trabalho (Wright, 1997:23). Cabe observar, no entanto, que os ativos de qualificação dizem respeito a habilidades associadas a posições na divisão do trabalho, já que, inclusive, habilidades dissociadas de posições não teriam eficácia como fatores geradores de exploração e renda. Além disso, ativos de qualificação possuem uma dimensão relacional ¾ expressam e implicam relações sociais ¾ , pois dependem dos ativos dos outros e de todos, não sendo, desse modo, atributos apenas de pessoas.

11. Deve-se ponderar, relembrando a estratégia metodológica de Wright, já exposta neste artigo, que se construíram variáveis "de graduação" tricotômicas objetivando capturar e representar dicotomias teóricas. As categorias intermediárias ou ambíguas — supervisores e qualificados — concentram as deficiências de mensuração. Com esse procedimento, ao confrontarem-se gerentes e trabalhadores ou especialistas e trabalhadores — contraposições de interesse teórico maior — ter-se-ia certeza de estar comparando grupos relativamente bem mensurados.

12. Wright alega que Marshall e outros não diferenciam os problemas de mérito relativo das escolhas operacionais dos problemas de conceitos subjacentes. A noção de autoridade gerencial, presente na sua obra, assemelha-se ao tratamento de Goldthorpe, que é defendido pelos autores. Wright, porém, adotou deliberadamente critérios operacionais "generosos" para definir as localizações gerenciais em função de seu objetivo analítico de criar uma categoria "pura" de classe trabalhadora (Wright, 1997:87).

13. A noção de relações de classe mediatas, desenvolvida por Wright, permitiria conceber as relações entre classe e gênero sem tratar as duas dimensões como estruturas inteiramente separadas ou dissolver a própria distinção. Ver o tópico sobre "gênero, família e classe" neste artigo.

 

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ABSTRACT
Erik Olin Wright's Neo-Marxist Class Theory and Typology

In a contribution to systematic empirical research, this discussion of Erik Wright's neo-Marxist class theory and typology constructs a class typology for contemporary capitalist society based on the appropriation of assets like means of production, skills or credentials, and domination within production. A micro-level conception of class locations is designed (seeking to capture the constraints acting on agents), where these locations are structurally interconnected within macrostructural class relations. Class typology addresses differentiations between the owners of capital and wage employees (middle-class positions) within contemporary capitalist society but displays methodological limitations when it comes to the analytical exploration of extremes in class structure (big capital and underclass). Brazilian sociology should become more familiar with this move towards renewal within Marxist tradition, discussing it and making it part of empirical research.
Keywords: class analysis; social classes; neo-Marxist theory; contemporary Marxism

 

RÉSUMÉ
La Théorie et la Typologie de Classe Néomarxiste d’Erik Olin Wright

L’article se propose d’examiner de façon critique la théorie et la typologie de classe néomarxiste d’Erik Wright. Cet auteur établit une carte de classes, à l’intention de la recherche empirique, prenant pour base l’existence de liens entre la propriété d’actifs productifs, les relations de domination dans la production ainsi que la constitution de localisations de classe différenciées. Grâce à ce cadre d’analyse, il est possible de situer le rôle des localisations de la classe moyenne (cadres et experts) par rapport à la plus grande complexité de la structure de la société capitaliste contemporaine, tout en révélant des limitations méthodologiques quant à l’examen des situations de classe dépendant de la structure de l’emploi. On considère que cette tipologie de classe correspond à une démarche nouvelle, ouverte, gagnant du terrain dans la tradition marxiste, et qui mérite d’être connue, débattue et assimilée à la recherche empirique en sociologique au Brésil.
Mots-clé: analyse de classe; classes sociales; théorie néomarxiste; marxisme contemporain

 

 

* Este artigo reflete o quadro teórico que serve de referência a um projeto de investigação empírica que objetiva construir um mapa de posições de classe, analisar os efeitos posicionais sobre a desigualdade social e os processos de reestruturação dessas posições de classe no Brasil, recorrendo à base de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Trata-se do projeto de tese de doutorado em sociologia, em curso no IUPERJ, sob a orientação do prof. Nelson do Valle Silva.

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