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Dados

Print version ISSN 0011-5258On-line version ISSN 1678-4588

Dados vol.60 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/001152582017139 

ARTIGOS ORIGINAIS

Judiciário e Política no Brasil Contemporâneo: Um Retrato do Supremo Tribunal Federal a partir da Cobertura do Jornal Folha de S. Paulo*

Politics and the Judiciary in Contemporary Brazil: A Portrait of the Supreme Federal Court Based on its Representation in Folha de São Paulo Newspaper

La Justice et la Politique dans le Brésil Contemporain: Un Portrait de la Cour Suprême Fédérale à partir de la Couverture qu’en Fait le Quotidien Folha de S. Paulo

El poder Judicial y la Política en el Brasil Contemporáneo: Un Retrato del Supremo Tribunal Federal a partir de la Cobertura Realizada por el Periódico Folha de S. Paulo

Fabiana Luci de Oliveira1 

1Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil. E-mail: fabianaluci@ufscar.br


RESUMO

O objetivo do artigo é discutir a visibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF), qualificando-a a partir da cobertura da grande imprensa. Buscamos descrever como o jornal Folha de S. Paulo (FSP) retratou a atuação do Supremo no período de 1999-2014, enfocando o tipo de cobertura predominante (política ou jurídica), os temas de maior recorrência no enquadramento da instituição, e os fatores que determinam a cobertura. Verificamos em que medida essa cobertura acompanha as ações efetivas do tribunal, examinando quais decisões viraram notícia. Para isso, trabalhamos com a análise de conteúdo de 6.271 notícias. A partir desses dados problematizamos a construção da imagem pública do tribunal e a forma pela qual a mídia vem posicionando a instituição no sistema político brasileiro. Concluímos que a FSP construiu uma imagem eminentemente política do STF, com sua cobertura exacerbando a personalização da instituição, o perfil individual dos seus ministros, e enfatizando excessivamente os casos de judicialização anticorrupção.

Palavras-Chave: Supremo Tribunal Federal; mídia; enquadramento político; enquadramento jurídico; judicialização anticorrupção

ABSTRACT

The aim of this article is to discuss the visibility of Brazil’s Supreme Federal Court (STF) based on its representation in the mass media. To do so, we describe how Folha de São Paulo (FSP) newspaper depicted the court’s activities in the period from 1999 to 2014, focusing on the predominant type of coverage (whether political or legal), the subjects most frequently framed in terms of the institution, and the factors determining the representation. We discuss the extent to which the coverage traces the court’s activities, examining which rulings were deemed newsworthy by analyzing the contents of 6,271 news items, using the data to problematize the shaping of the public image of the court and the way in which the media come to position the institution in the Brazilian political system. We conclude that the FSP shaped a predominantly political image of the STF, with this representation exacerbating the institution’s personalization, the individual profiles of its ministers, and promoting an excessive emphasis on cases of anti-corruption judicialization.

Key words: Brazilian Supreme Federal Court; media; political framework; legal framework; anti-corruption judicialization

RÉSUMÉ

Le but de cet article est de débattre de la visibilité de la Cour Suprême Fédérale du Brésil (STF) dans les principaux médias brésiliens. Nous chercherons à décrire de quelle manière le quotidien Folha de S. Paulo (FSP) a rendu compte des actions de cette Cour suprême entre 1999 et 2014. Nous nous intéresserons à cette fin au type de couverture prédominant (politique ou juridique), aux thèmes les plus récurrents liés à l’institution et aux facteurs déterminant cette couverture médiatique. Il s’agit de vérifier dans quelle mesure elle s’intéresse aux actions effectives du tribunal grâce à l’analyse des décisions qui ont eu la faveur du journal, ce pour quoi 6 271 articles ont été passées en revue. Ces données ont permis de mettre en perspective la construction de l’image publique de ce tribunal et la manière dont les médias situent l’institution au sein du système politique brésilien. On en a conclu que le quotidien FSP a modelé une image éminemment politique du STF en exacerbant la personnalisation de l’institution et le profil individuel de ses magistrats, sans compter l’accent mis à outrance sur la judiciarisation anti-corruption.

Key words: Cour Suprême Fédérale du Brésil; médias; couverture politique; couverture juridique; judiciarisation anti-corruption

RESUMEN

El objetivo del artículo es discutir la visibilidad del Supremo Tribunal Federal de Brasil (STF), examinándola a partir de la cobertura realizada por los grandes medios de comunicación. Buscamos describir la forma en que el periódico Folha de S. Paulo (FSP) retrató la actuación del Supremo durante el período de 1999-2014, enfocando el tipo de cobertura predominante (política o jurídica), los temas más recurrentes en el marco de la institución y los factores que determinan la cobertura. Estudiamos hasta qué punto dicha cobertura acompañaba las acciones que llevaba a cabo el tribunal, examinando cuáles fueron las decisiones que se convirtieron en noticias. Para ello, analizamos el contenido de 6271 noticias y, a partir de estos datos, cuestionamos la construcción de la imagen pública del tribunal y la posición en la que el medio de prensa colocó a la institución en el sistema político brasileño. Concluimos que FSP ha construido una imagen eminentemente política del STF a través de una cobertura que exacerbaba la personalización de la institución y el perfil individual de sus jueces, y enfatizando excesivamente los casos de judicialización anticorrupción.

Palabras-clave: Supremo Tribunal Federal de Brasil; medios de comunicación; marco político; marco jurídico; judicialización anticorrupción

APRESENTAÇÃO

Tornou-se quase lugar-comum afirmar o protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) no cenário político brasileiro contemporâneo, sobretudo via utilização dos conceitos de judicialização da política e de ativismo judicial1.

Esse debate, em grande parte, é travado com base nas decisões do STF envolvendo a regulação da vida política, econômica, social e moral do país, e da constatação do aumento da cobertura midiática da instituição e dos seus ministros, especialmente a partir de 2005, quando a mídia passou a dar grande atenção às decisões da justiça em episódios de punição à corrupção política, primeiro com o caso do Mensalão e depois com a operação Lava-Jato.

Mais recentemente, o processo de impeachment de Dilma Rousseff e o afastamento de Eduardo Cunha do mandato e da presidência da Câmara dos Deputados dirigiram os holofotes da mídia com maior intensidade ao STF. Nesse contexto, a instituição e seus ministros ganham cada vez mais visibilidade.

O objetivo deste artigo é tratar dessa visibilidade, qualificando-a a partir da cobertura da grande imprensa. Buscamos, mais especificamente, descrever como o jornal Folha de S. Paulo (FSP) retratou a atuação do STF e de seus ministros entre os anos de 1999 e 2014, enfocando o tipo de cobertura predominante (política ou jurídica) e os temas de maior recorrência no enquadramento da instituição. Buscamos verificar, também, em que medida essa cobertura acompanha as ações efetivas do tribunal em controle concentrado de constitucionalidade, examinando quais decisões viraram notícia e com que frequência.

Partindo desses dados descritivos, problematizamos a imagem pública que vem sendo construída do STF e dos seus ministros ao longo do tempo e a forma pela qual a mídia vem posicionando a instituição no sistema político do país, no sentido de melhor compreender a percepção da presença do STF no cenário público brasileiro.

ESTUDOS SOBRE JUDICIÁRIO E MÍDIA

A mídia desempenha papel vital na legitimação do Judiciário nas democracias ocidentais, sobretudo das Supremas Cortes (Gibson, Caldeira, Baird, 1998; Miljan, 2014), contribuindo tanto para reforçar a simbologia da imparcialidade judicial, quanto para traduzir as decisões dos tribunais, explicando ao grande público o sentido das decisões e os termos técnicos típicos da linguagem jurídica.

Os estudos sobre as relações da Suprema Corte norte-americana com a mídia, em obras como as de Slotnick (1992), Caldeira e Gibson (1992) e Gibson, Caldeira e Baird (1998), apontam que a cobertura dos meios de comunicação de massa é fundamental para a compreensão que os cidadãos têm do tribunal. Slotnick (1992), por exemplo, afirma que a mídia é o principal elo entre a população e a Suprema Corte, na medida em que informa os cidadãos sobre as atividades, os defeitos e as qualidades do tribunal, assim como das demais instâncias de poder.

No entanto, diferente dos demais poderes, a Suprema Corte é mais dependente da mídia para manter sua legitimidade e garantir que suas decisões sejam respeitadas e seguidas. Isso porque os Justices (juízes da Suprema Corte norte-americana) não são eleitos pelo voto popular e frequentemente são chamados a decidir questões polêmicas, muitas vezes contrariando a opinião pública; assim, precisam do apoio da mídia para gerar conscientização e confiança (Caldeira, Gibson, 1992). Entre as estratégias de legitimidade estaria o reforço dos símbolos que distanciam a corte dos demais poderes políticos (como os ideais de objetividade judicial e imparcialidade), estabelecendo uma imagem de instituição apolítica.

A Suprema Corte norte-americana mantém fechadas e distante dos olhos do público as sessões em que os ministros debatem e deliberam sobre os casos, e seus ministros raramente falam com os jornalistas ou dão entrevistas. Já no Brasil as sessões colegiadas do STF são abertas e transmitidas ao vivo pela TV Justiça, que existe desde 2002, e os ministros frequentemente falam com os jornalistas e dão entrevistas. Mas mesmo com essa diferença nos níveis de publicidade da sua atuação, em ambos os países os níveis de conhecimento exibidos pela população sobre o que a Corte faz e como suas decisões afetam a vida cotidiana dos cidadãos são baixos e dependentes quase que exclusivamente do que a mídia reporta (Johnson, Socker, 2012; Falcão, Oliveira, 2013)2.

Nossa pesquisa não tem intenção comparada, mas se baseia nas metodologias utilizadas nos estudos sobre a Suprema Corte norte-americana,3 assumindo que a mídia é peça-chave na construção e preservação da legitimidade pública do Supremo Tribunal Federal. Argumentamos que a representação dos meios de comunicação sobre o STF influencia diretamente o nível de confiança da população na instituição e suas percepções acerca da eficácia e da legitimidade decisória dessa corte. Isso porque a grande maioria dos brasileiros não tem contato direto com o tribunal, dependendo da mídia para saber o que é o STF, qual é o seu papel no sistema político brasileiro e como ele tem se saído no desempenho desse papel. Mas o que exatamente a mídia tem dito sobre o STF e como tem retratado a performance do tribunal? Essas são as questões descritivas centrais que visamos responder neste artigo.

Os estudos sobre a Suprema Corte norte-americana utilizam, principalmente, a análise de conteúdo de notícias sobre o tribunal ao longo do tempo, aplicando a análise eletrônica de corpus linguístico para verificar, nessas notícias, o padrão de uso de palavras e frases que remetem a um enquadramento mais político ou mais apolítico da corte. Os resultados têm mostrado como a cobertura da imprensa tende a politizar a Suprema Corte, fornecendo informações sobre a natureza política das decisões, em vez de reforçar a ideia de neutralidade, caracterizando os juízes como atores ideológicos e descrevendo as decisões do tribunal como inerentemente políticas, impulsionadas mais por preferências pessoais do que por aspectos técnicos, doutrina constitucional e precedentes legais (Spill e Oxley, 2003; Johnson e Socker, 2012; Jones, 2014).

Nos termos de Spill e Oxley (2003), a mídia tem retratado a Suprema Corte mais como instituição política, semelhante às outras instituições governamentais, do que como “oráculo apolítico”, que toma decisões de forma imparcial, interpretando tecnicamente o sentido da Constituição.

Nessa linha, nos baseamos em Johnson e Socker (2012), que classificam a cobertura jornalística sobre a Suprema Corte em jurídica e política (legal coverage and political coverage), argumentando que há três conjuntos de fatores que a impulsionam: ações, facções e interações.

Por ações, os autores entendem as decisões do tribunal. E como a maioria da população não tem contato pessoal com a corte e suas decisões, a mídia se torna um dos principais canais informativos das ações institucionais ao cidadão. E quanto mais a corte decide, quanto maior o volume de casos, mais material há disponível para ser reportado. Os autores argumentam que as ações que mudam o status quo são aquelas que atraem maior atenção da mídia.

Por facções, entendem o recorte ideológico (conservadores x liberais) e as divisões internas do tribunal nas decisões (quem vota com quem), afirmando que as decisões que dividem a corte são as que atraem maior atenção da mídia, construídas como casos polêmicos.

E, finalmente, por interações referem-se ao relacionamento do tribunal com os outros ramos mais conhecidos do governo, Executivo e Legislativo, cobrindo a posição do tribunal no sistema federal mais amplo.

Com base nesses três fatores procuram explicar tanto o volume da cobertura midiática da Suprema Corte, quanto o enquadramento predominante (político x jurídico). Ou seja, o tipo de cobertura depende dos casos que a corte decide, de como se dá a dinâmica interna no processo decisório e de como a corte se insere no sistema político mais amplo, interagindo com os demais poderes.

Como o interesse dos autores está em identificar a incidência de notícias voltadas às questões legais e às implicações políticas das ações da Suprema Corte, utilizam a análise de conteúdo computadorizada da cobertura do tribunal pela Associated Press, entre 1979 e 2006, em busca da prevalência de palavras e frases específicas aos tipos de quadros (político ou jurídico), valendo-se de uma lista predefinida de termos que capturam o sentido jurídico-legal ou político do enquadramento4. E considerando que os quadros competem por espaço dentro das notícias, trabalham com a média de termos com sentido político em comparação com a média de termos com sentido jurídico ao longo do tempo.

Concluem que a atenção da mídia é maior quando há mais decisões em sentido liberal e quando a Suprema Corte derruba legislação, declarando a inconstitucionalidade de leis, e também quando há eventos atípicos, sobretudo aposentadorias e nomeações de novos juízes.

Outro a se basear na análise de conteúdo é Jones (2014), rastreando nas notícias do The New York Times que mencionam a Suprema Corte, entre 1950 e 2009, o uso de sinais linguísticos que são considerados como politização: caracterização do perfil ideológico dos Justices (liberais ou conservadores); vinculação ideológica do Justice ao Presidente que o nomeou, sugerindo submissão; cobertura das decisões que dividiram a corte (votação 5-4), em comparação ao peso que elas têm na totalidade de decisões do tribunal.

O autor observou um aumento significativo na incidência dos termos linguísticos associados à politização da instituição ao longo do tempo, sobretudo da menção ao termo “conservador”, vinculado tanto aos juízes quanto às decisões da corte.

Utilizamos metodologia semelhante para classificar a cobertura da FSP sobre o STF, observando o enquadramento feito pelo jornal ao longo de quatro governos diferentes: o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República (1999-2002); o primeiro e o segundo mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006 e 2007-2010) e o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014). Interessa-nos identificar qual o tipo de moldura que predominou no período, a partir do uso de determinadas palavras e frases que remetam a um sentido político ou jurídico, observando se houve variações significativas ao longo do tempo.

Nos baseamos, ainda, em estudo de O’Callaghan e Dukes (1992), que investigaram a seletividade da cobertura midiática, valendo-se das teorias de agenda-setting. Os autores observaram o ano (term) de 1986-1987, quando a Suprema Corte norte-americana decidiu 153 casos com opiniões escritas, e buscaram identificar, a partir da classificação dos temas decididos, a repercussão midiática que cada decisão teve, examinando em que medida essa cobertura espelhou ou não o volume de trabalho do tribunal.

Como fonte de dados da cobertura midiática, O’Callaghan e Dukes (1992) utilizaram dois repositórios de notícias escritas e televisivas (Vanderbilt Television News Abstracts e Reader’s Guide to Periodical Literature) e três jornais escritos (The New York Times, Los Angeles Times e Chicago Tribune), pesquisando, no total da cobertura da Suprema Corte, qual a quantidade de notícias dedicadas às questões decididas pelo tribunal entre 1986-1987. Observaram um descompasso entre as questões de interesse midiático e as temáticas sobre as quais a corte decidiu: decisões econômicas apareceram com menor frequência do que a sua proporção no volume de trabalho do tribunal; decisões relativas à Primeira Emenda receberam cobertura em excesso e casos de direitos civis também receberam cobertura superior a sua proporção no número total de casos decididos pelo tribunal (1992:197).

Buscamos no estudo da cobertura da FSP observar, também, a relação entre os temas decididos pelo STF em controle concentrado de constitucionalidade e sua presença na mídia, verificando se há discrepância ou concordância entre o que o tribunal decide e o que é noticiado: os temas mais relatados pela Folha de S. Paulo são os mais frequentes na pauta do Supremo?

ESTUDOS SOBRE A COBERTURA MIDIÁTICA DO STF

Como já pontuado, a atuação do STF no nosso cenário político recente, em casos como o Mensalão, a operação Lava-Jato e o impeachment de Dilma Rousseff, levou a mídia a dar grande visibilidade ao tribunal, noticiando-o cada vez mais. Falcão e Oliveira (2013), por exemplo, observaram a intensificação das relações do STF com a sociedade e a opinião pública, mostrando um crescimento significativo da presença do tribunal na mídia ao longo dos anos 2000, quando passou a decidir com maior frequência sobre temas de impacto no cotidiano dos cidadãos, e apontam que, com o julgamento da Ação Penal 470 (o Mensalão), em 2012, o STF tornou-se não apenas mais noticiado como também mais conhecido do grande público.

O protagonismo político do STF pode estar mais visível agora, mas seguramente não teve início com o Mensalão. Oliveira (2004) mostrou, a partir da análise de conteúdo da cobertura sobre o STF nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, em notícias publicadas entre 1979 e 1999, como a mídia foi um importante canal para a mudança da imagem pública dessa instituição no processo de transição democrática. A autora observou que esses jornais retrataram o STF como uma instituição alheia à situação econômica, política e social do país durante todo o regime militar, e que a partir da abertura política o tribunal iniciou um movimento de aproximação com os meios de comunicação no sentido de alterar essa imagem.

Esse movimento foi inaugurado pelo ministro Xavier de Albuquerque ao assumir a presidência do tribunal em 1981, quando organizou um encontro com jornalistas e proprietários de jornais no sentido de acabar com o distanciamento existente entre o STF e a opinião pública. Na ocasião, o ministro declarou que era necessário resgatar o tribunal “das páginas mais modestas da imprensa para as mais destacadas e condizentes com a sua importância institucional” (apudOliveira, 2004:105).

E a busca pela proximidade com a imprensa seguiu ao longo da década de 1980, com presença constante do STF nos jornais, até a Constituinte. Oliveira (2004) identificou uma série de declarações, entrevistas e mesmo artigos dos ministros nesses jornais, em defesa de garantias e ferramentas institucionais para manutenção e expansão dos poderes políticos da instituição, afirmando, no sentido proposto por Garapon (1999), o uso estratégico da mídia pelos juízes, seja para aproximar a justiça da população, seja para defender-se de críticas, ou ainda para fazer avançar uma agenda de interesses corporativos.

Com as garantias conquistadas na Constituição de 1988, o STF passou a ocupar um espaço maior no cenário político do país e, com isso, segundo Oliveira (2004), as clivagens ideológicas entre os ministros começaram a ser mais destacadas, com os jornais cobrindo com maior frequência o perfil de atuação dos ministros, classificando-os como técnicos ou políticos, com base em suas decisões.

Na década de 1990 ganhou proeminência o processo de nomeação de ministros ao STF, em especial pela indicação e posse dos ministros Carlos Mário da Silva Velloso, Marco Aurélio Mendes de Farias Mello e Ilmar Nascimento Galvão. Oliveira (2004) afirma que a cobertura nessa década delineou a imagem de um tribunal politicamente ativo. Entre diversos exemplos, traz falas dos próprios ministros publicadas nos jornais, como a afirmação de Sepúlveda Pertence de que “estamos cada vez mais longe da imagem de bons velhinhos do Supremo” (apudOliveira, 2004:110), e a declaração de Sydney Sanches de que “o STF não pode deixar de considerar o momento político e econômico por que passa o país na época de seus julgamentos” (idem).

Houve também, de acordo com a autora, uma intensificação na cobertura das tensões do tribunal com os poderes Executivo e Legislativo, sinalizando a disputa por espaço na tomada de decisão acerca dos rumos políticos do país. Entre os episódios de destaque na mídia nesse período estiveram a atuação do tribunal no processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello e as críticas do então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, ao então presidente do STF, ministro Carlos Velloso, em decorrência da atuação do tribunal nas diversas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) em andamento (dos bancos, do narcotráfico, do Judiciário).

Um dos aspectos de interesse de Oliveira (2004), que nos aproxima de sua pesquisa, era observar se as notícias sobre o STF privilegiavam a cobertura do papel político ou jurídico da instituição. Por papel político a autora classificou a cobertura que ou reivindicava ou afirmava explicitamente o desempenho de um papel político por parte do tribunal, e por papel jurídico, classificou a cobertura de sua atuação como última instância do Judiciário, e julgamentos de temáticas de direitos individuais, especialmente habeas corpus e pedidos de extradição. Oliveira encontrou em 38,4% das notícias publicadas no jornal FSP, no período de 1979-1988, referência ao papel político do STF, e em 19,2%, referência ao papel jurídico da instituição (Oliveira, 2004:109). Já no período de 1994-1999, 54% das notícias traziam referência ao papel político do STF e 17% ao papel jurídico (ibidem:115). Dessa forma, mostra como já na década de 1990 predominava na cobertura midiática o protagonismo político do STF.

Há uma série de evidências empíricas da intensificação das relações entre o STF e a opinião pública. Além do crescimento da cobertura midiática, pesquisas de opinião têm mostrado que o STF tornou-se mais conhecido do grande público e que os brasileiros estão acompanhando mais atentamente as decisões do tribunal5. A criação da TV Justiça, em 2002, com o televisionamento dos julgamentos, tornou também mais fácil e acessível cobrir a atuação do STF. Esse cenário levou analistas da conjuntura política a criticarem a politização excessiva e o ativismo judicial anticorrupção, falando-se mesmo do perigo de um governo de juízes6.

Embora careça de uma definição precisa, a expressão “governo de juízes” possui riqueza de significado, transmitindo a ideia do envolvimento do Judiciário nas decisões sobre políticas públicas e na disputa político-eleitoral, tendo a última palavra nesses âmbitos, implicando uma substituição ao Executivo e ao Legislativo (Davis, 1987).

Essa substituição pode ser lida em duas chaves. Uma abertamente negativa, indicando invasão ou usurpação de competências decisórias dos poderes políticos eleitos, criticando o STF por atuar como uma espécie de terceira casa legislativa, criando novas regras. Outra mais positiva, afirmando não haver invasão de competência, mas ocupação do espaço abandonado pelos políticos, com o STF fazendo valer dispositivos constitucionais não regulamentados ou mesmo preservando a Constituição frente a potenciais retrocessos legislativos.

Analisamos a cobertura do jornal FSP sobre o STF buscando rastrear evidências dessas duas chaves, observando em quais situações e contextos aparecem e qual o enquadramento predominante. Consideramos que parte dos questionamentos que analistas de conjuntura levantam quanto ao protagonismo do STF no cenário político atual nasceram com a aproximação do STF com a mídia, não sendo novidade. A novidade estaria na constatação de que se exacerbaram. Em nosso estudo investigamos evidências dessa exacerbação.

Outra pesquisa com a qual dialogamos é a de Biroli e Mantovani (2014), que trata de um caso específico, o julgamento do Mensalão, e não diretamente das relações do STF com a mídia. As autoras pesquisaram a cobertura do Mensalão pelo jornal Folha de S. Paulo em 236 notícias, publicadas entre agosto e novembro de 2012, analisando o enquadramento predominante na veiculação desse caso.

Diferenciando o tipo de texto jornalístico entre noticioso (reportagens e entrevistas) e opinativo (colunas, artigos e editoriais), as autoras concluem que há uma ênfase maior no aspecto técnico do julgamento nos textos noticiosos e um maior destaque para os aspectos políticos do julgamento nos textos opinativos, mas que, na média, os dois enquadramentos, político e técnico, têm a mesma incidência no jornal (41,1% cada).

Não nos interessa diferenciar o tipo de texto jornalístico, como fizeram as autoras, mas trabalhamos buscando, como elas, a incidência de categorias que indicam o tipo de enquadramento, como político ou técnico (jurídico), ao longo de dezesseis anos de cobertura da FSP sobre o STF. Empregamos a mesma concepção de enquadramento usada por Biroli e Mantovani, como narrativas ou “eixos de organização dos sentidos na cobertura jornalística, que compõem quadros interpretativos a partir de pressupostos que compartilham, potencialmente, com os leitores” (Biroli, Mantovani, 2014:213).

O SUPREMO NO JORNAL FOLHA DE S. PAULO

Enquadramento temático

Escolhemos analisar a cobertura do STF pela FSP por ser o jornal nacional de maior tiragem e circulação7. Adotamos aqui a posição de Miguel e Biroli (2011:81) de que, apesar da expansão da internet e das mídias sociais, os meios convencionais de mídia seguem como “os grandes centros produtores de informação”, mantendo-se na “posição central nas disputas pela construção simbólica do mundo social e pela definição das preferências” (Miguel, Birolli, 2011:82).

Selecionamos eletronicamente todas as notícias publicadas no jornal FSP entre 01/01/1999 e 31/12/20148 que retornaram para o termo de busca “S