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A música em cena na Belle Époque paulistana

Stage music during the São Paulo Belle Époque

Resumos

No período entre os últimos anos do século XIX até as duas primeiras décadas do século XX, tiveram lugar na cena musical paulistana gêneros teatrais cujo objetivo central era divertir o grande público acima de qualquer outra pretensão. Apesar de cada um deles ter suas próprias convenções e dinâmica de funcionamento, todos tinham na música elemento essencial ao espetáculo. A designação "teatro de revista" tornou-se referência e serviu para nomear um conjunto bem maior de modalidades, que inclui operetas, burletas, mágicas, vaudeviles, zarzuelas, fantasias, entre outras. Elemento importante na produção e divulgação da música no espaço urbano antes do aparecimento e consolidação dos meios de comunicação eletrônicos, o estudo do teatro musicado nos seus diversos e complexos aspectos pode ser fundamental para a compreensão do panorama da música e da cultura popular na cidade de São Paulo.

Música popular; teatro musicado; São Paulo


In the period covering the last years of the nineteenth century to the first two decades of the twentieth century, São Paulo had the music scene as one of its main theatrical genres aimed at a wider audience, which the central objective was to divert him above any other purpose. Although each one of them have their own conventions and working dinamics, in all of them music was an essencial element in the show. The designation "teatro de revista" has become a reference and has served to name a much greater set of modalities including operetta, burleta, magic, vaudeville, zarzuela, fantasy, among others. As an important element in the production and dissemination of music in urban space befor the emergence and consolidation of the eletronic media, the study of musical theather in its various and complex aspects can be essencial to understand the music scene and popular culture in São Paulo city.

Popular music; musical theater; São Paulo


  • 2 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e circos", 23 ago. 1897.
  • 4 Neyde Veneziano é considerada pioneira no estudo acadêmico do tema. Sua obra ajuda a lançar luz e sugerir caminhos para a pesquisa do assunto. Ver VENEZIANO, Neyde. De pernas para o ar û Teatro de revista em São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
  • No universo acadêmico, outros pesquisadores também estudaram o tema, como ARAÚJO, Vitor Gabriel de. Zarzuela: o teatro musical espanhol em São Paulo. Tese (Doutorado em História) û Faculdade de Ciências e Letras-Unesp, Assis, 2000;
  • MELO, Cássio Santos. Caipiras no palco: teatro na São Paulo da Primeira República. Dissertação (Mestrado em História) û Faculdade de Ciências e Letras de Assis-Unesp, 2007;
  • LEANDRO, Marcelo Tupinambá. A criação musical e o sentido da obra de Marcello Tupynambá na música brasileira (1910-1930). Dissertação (Mestrado em Música) û ECA-USP, 2005;
  • OLIVEIRA, Aline Mendes de. O Theatro Polytheama em São Paulo: uma visão múltipla do teatro, do circo e do cinema em São Paulo do século XIX. Dissertação (Mestrado em Artes) û ECA-USP, 2005;
  • MARIANO, Maira. Um resgate do teatro nacional: O teatro brasileiro nas revistas de São Paulo. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) û FFLCH-USP, 2008;
  • BESSA, Virginia de Almeida. A cena musical paulistana: teatro musicado e canção popular na cidade de São Paulo (1914-1934). Tese (Doutorado em História Social) û FFLCH-USP, 2012.
  • 5 BLOCH, Marc. Uma introdução à história São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 65-6.
  • 6 ASSIS, Machado de. 11 de novembro de 1987. In:____. Melhores crônicas de Machado de Assis Seleção e prefácio Salete A. Cara. São Paulo: Global, 2005. p. 394. Coleção Melhores crônicas
  • 7 Em funcionamento desde o final do século XVIII e demolida em 1870, era a principal casa de eventos musicais do período. Ver MORAES, José Geraldo Vinci de. Arranjos e timbres da música em São Paulo,
  • e AZEVEDO, Elizabeth R. O teatro em São Paulo. In: PORTA, Paula (org.). História da cidade de São Paulo: a cidade colonial 1554-1822. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
  • 14 Aliás, a tradicional aristocracia rural cafeeira não só se adapta, como determina os rumos da nova e moderna vida cultural urbana. É curioso, por exemplo, observar como ela foi também muito atuante nos destinos da vida esportiva paulistana, inclusive na implantação dos clubes e equipes de futebol. Veja, sobre o assunto, GAMBETA, Wilson Roberto. Templo do esporte O Velódromo Paulista nas origens do futebol (1895-1915). Tese (Doutorado em História Social) û FFLCH-USP, 2012.
  • 16 ANDRADE, Mário de. Evolução social da música no Brasil. In:____. Aspectos da música brasileira 2. ed. Brasília/São Paulo: MEC/Martins, 1975. p. 17-18.
  • 17 Como, por exemplo, no salão Celso Garcia, pertencente às classes Laboriosas, e na Sociedade de Beneficência Guglielmo Oberdan, que mantinham pequenos palcos, rasos e sem profundidade. A música nestes espaços tinha caráter secundário e servia de atrativo para a militância e o proselitismo anarquista. Ver LIMA, Mariangela Alves Lima; VARGAS, Maria Thereza. Teatro operário em São Paulo. In: PRADO, Antonio Arnoni (org.). Libertários no Brasil São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 171-72.
  • Ver, também, MORAES, José Geraldo Vinci de. Sonoridades paulistanas Rio de Janeiro: Funarte, 1999.
  • 18 Ver, por exemplo, CHARLOT Monica; MARX, Roland (orgs.). Londres, 1851-1901. A era vitoriana ou o triunfo das desigualdades. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993;
  • WEBER, Eugen. França fin du siècle. São Paulo: Companhia das Letras/Círculo do Livro, 1988 (Coleção a Vida Cotidiana);
  • SEIGEL, Jerrod. Paris boêmia Cultura, política e os limites da vida burguesa (1830-1930). Porto Alegre: L&PM, 1992;
  • RICHARD, Lionel. A República de Weimar (1919-1933). São Paulo: Companhia das Letras/Círculo do Livro, 1988 (Coleção a Vida Cotidiana).
  • 19 José Gabriel de Toledo Piza: advogado, contista, colaborou na imprensa periódica de São Paulo e do Rio de Janeiro; teatrólogo, foi parceiro de Artur Azevedo em O mambembe (1904). Ver AGUIAR, Flávio. A aventura realista e o teatro musicado São Paulo: Ed. Senac, 1997. p. 267.
  • 21 O Estado de S. Paulo, anúncio de 27 jan. 1911.
  • 22 Ver ANTUNES, Gilson Uehara. Américo Jacomino "Canhoto" e o desenvolvimento da arte solística do violão em São Paulo. Dissertação (Mestrado em Música) û ECA-USP, 2002;
  • ESTEPHAN, Sérgio. Viola, minha viola: A obra violonística de Américo Jacomino, o Canhoto (1889 -1928). Tese (Doutorado em História Social) û PUC-SP, 2007.
  • 23 O Estado de S. Paulo, 24 abr. 1914.
  • 25 Ver LEANDRO, Marcelo Tupinambá. op. cit.; e ALMEIDA, Benedito Pires de. Marcelo Tupinambá û Obra musical de Fernando Lobo. Ed. do Autor, 1993.
  • 26 ANDRADE, Mário de. Marcelo Tupinambá. In:____. Música doce música 3. ed. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 2006.
  • 27 MORAES, José Geraldo Vinci de. Metrópole em sinfonia. História, cultura e música popular em São Paulo (Anos 30). São Paulo: Estação Liberdade/Fapesp, 2000.
  • 29
    29 IKEDA, Alberto T. Música na cidade em tempo de transformação São Paulo: 1900-1930. Dissertação (Mestrado em Comunicação) û ECA-USP, São Paulo, 1986.
  • 30
    30 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 3 e 4 jan. 1918.
  • 31
    31 O Furão, n. 244, 17 jan. 1920.
  • 32
    32 ARAÚJO, Vicente. Salões, circos e cinemas de São Paulo São Paulo: Perspectiva, 1981. p. 320.
  • 33
    33 MORAES, J. G. V. Sonoridades paulistanas op. cit. p. 165-66; MARCONDES, Marco Antonio (org.). Dicionário da música brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo: Art Ed. Ltda., 1977. p. 360-362.
  • 34
    34 Como indica, por exemplo, José Ramos Tinhorão, em Música popular Teatro e cinema (Petrópolis: Vozes, 1972. p. 27).
  • 37 SILVA, Flávio (org). Francisco Mignone Catálogo de obras. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Música, 2007.
  • 38 A canção foi lançada nos teatros e editada em partitura, mas sem referência a seu nome, fato reclamado pelo músico. Ver BELARDI, Armando. Vocação e arte û memórias de uma vida para a música. São Paulo: Ed. Manon, 1986. p. 16.
  • 40 O Estado de S. Paulo, 22 jun. 1918.
  • 41 Ver GORE, Keith. Shftesbury Avenue, as luzes da ribalta. In: CHARLOT, M.; MARX, R. Londres, 1851-1901. A era vitoriana ou o triunfo das desigualdades. op. cit. p 108-109.
  • 42 GUINSBURG, Jacó; FARIA, João Roberto; LIMA, Mariangela (orgs.). Dicionário do teatro brasileiro: temas, formas e conceitos. São Paulo: Sesc-SP/Senac, 2006. p. 270-71;
  • e VENEZIANO, Neyde. O teatro de revista no Brasil: dramaturgia e convenções. Campinas/São Paulo: Pontes, Ed. da Unicamp, 1991.
  • 44 O período posterior é foco da pesquisa de BESSA, Virginia. A cena musical paulistana: canção popular e teatro musicado em São Paulo (1914-1934). Tese (Doutorado em História Social) û FFCLH-USP, 2012.
  • 45 RUIZ, Roberto. Teatro de revista no Brasil: do início à Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Inacen, 1988.
  • 48 Correio Paulistano, seção "Palcos e salões", 10 dez. 1889 a 31 dez. 1889.
  • 49 MAGALDI, Sábato. Cem anos de Teatro em São Paulo. São Paulo: Ed. Senac, 2001. p. 114.
  • 52 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 13 mai. 1899.
  • 55 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 4 dez. 1898.
  • 59 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 16 fev. 1918.
  • 60 Correio Paulistano, seção "Teatro São José", 7 abr. 1888. p. 2.
  • 61 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 14 jun. 1919.
  • 63 SALIBA, Elias T. Raízes do riso. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 124-32 e capítulo 3;
  • SEVCENKO, Nicolau. Orfeu extático na metrópole São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, cap. 4;
  • e LUCA, Tania Regina. A Revista do Brasil São Paulo: Ed. Unesp, 1999. p. 260-291.
  • 64 MORAES, J. G. V.; MACHADO, C. Música em conserva. Revista Auditório, Instituto Auditório Ibirapuera, São Paulo, p. 163-183, 2011.
  • 66 Embora se tenham tentado estabelecer esses limites, de qualquer modo esse é um quadro sempre muito instável. No caso de Tupinambá, essa condição se revela de diversos modos. Por exemplo, a sua composição "Maricota sai da chuva" parece ter sido baseada na melodia de um reisado nordestino "Borboleta" (consagrado mais recentemente em gravação de Marisa Monte em 1991), o que estaria de acordo com os ditames da "boa música popular" determinados por Mário de Andrade: o folclore influenciando positivamente a música urbana. Mas por que a situação não poderia ser inversa, ou seja, a composição de Tupinambá teria influenciado grupos folclóricos nordestinos? Essa situação, por exemplo, ocorreu nas gravações da Missão folclórica de 1938, em que foram registrados grupos de Boi de Belém cantando "Pelo telefone" e "Se você jurar", respectivamente de Donga e Ismael Silva, como melodias folclóricas, e sem que os membros da Missão reconhecessem tal fato (ver sobre o assunto MORAES, J. G. V. "E Se você jurar, Pelo telefone, que estou na Missão de Pesquisas Folclóricas?". Revista USP, Dossiê Música, São Paulo, n. 87, p. 172-183, setembro/novembro/2010).
  • 68 DANTAS Macedo, Cornélio Pires. Criação e riso São Paulo: Livraria Duas Cidades/Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia de São Paulo, 1978.
  • 69 MORAES, José Geraldo Vinci de. Metrópole em sinfonia op. cit. p. 234-248. Ver processo semelhante na Alemanha, In: RICHARD, Lionel. op. cit. p. 218.
  • 70 O Estado de S. Paulo, seção "Artes e artistas", 31 jan. 1915.
  • 72 Correio Paulistano, seção "Registro de Arte", 8 abr. 1915. José Ramos Tinhorão faz referência a essas conferências no Teatro Municipal, indicando apresentação de "loas de Natal e de Reis, Cateretê do norte e um lundu do sul", uma marujada e um Bumba-meu-boi. Ver TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular São Paulo: Círculo do Livro, 1974. p. 196.
  • 76 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 4 jan. 1919.
  • 77 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 2 jul. 1919.
  • 78 O Estado de S. Paulo, seção "Palcos e Circos", 25 jan. 1919.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Maio 2013
  • Data do Fascículo
    Mar 2012

Histórico

  • Recebido
    04 Nov 2011
  • Aceito
    08 Dez 2011
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