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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros

Print version ISSN 0020-3874On-line version ISSN 2316-901X

Rev. Inst. Estud. Bras.  no.63 São Paulo Jan./Apr. 2016

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i631p10-15 

Editorial

Editorial

Jaime Tadeu Oliva1 

Marcos Antonio de Moraes1 

Stelio Marras1 

1Docentes e pesquisadores do Instituto de Estudos Brasileiros - USP.

Ao publicar e comentar a produção intelectual reunida neste número, queríamos, antes, apresentar um breve histórico da relação da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros com os sistemas de informação científica eletrônica que hoje catalogam e divulgam os periódicos científicos, constituindo-se, na verdade, em bibliotecas científicas online. Além de disponível no Portal de Revistas da USP (www.revistas.usp.br) - biblioteca digital das revistas publicadas por unidades de ensino e pesquisa, programas de pós-graduação e núcleos de pesquisas de docentes e alunos da Universidade de São Paulo -, a Revista do Instituto de Estudos Brasileiros vincula-se à SciELO (Scientific Electronic Library Online) desde 2007, período no qual foram publicadas nove edições. Além dessas duas plataformas digitais, informamos aos leitores que no dia 8 de janeiro de 2016 oficializou-se a indicação da RIEB para outro importante sistema científico de informação, a Red de Revistas Científicas de América Latina y El Caribe, Espanã y Portugal, conhecida como Redalyc.org. Essa indicação, feita por unanimidade pelo Comité Científico Asesor, muito nos honra, pois assevera que a Revista preenche os critérios de qualidade editorial exigidos pela Redalyc.org. Desse modo, nossos leitores já podem acessar essa plataforma e consultar muitos dos nossos números anteriores.

Vincular a Revista a esses sistemas científicos é aderir a uma necessidade inescapável. O que eles proporcionam em termos de multiplicação quantitativa de novos leitores não pode ser desprezado. Deve-se, de fato, admitir que esses sistemas introduzem um novo paradigma, difícil de ser imaginado antes, na circulação da informação científica. Jamais a informação científica circulou tanto e de forma tão democrática como atualmente. Porém, não é só o aspecto quantitativo que deve ser ressaltado. Essas bibliotecas digitais são zelosas quanto à qualidade das revistas que cadastram, divulgam e a que dão acesso. Mas não se trata de um zelo passivo, de avaliar a qualidade de um periódico científico em si, e sim de um zelo ativo, pois as plataformas, com metodologias diversas, estabelecem condições e estimulam diversos ajustes nas publicações que acolhem, como, por exemplo, padrões de periodicidade, critérios antiendogenia e, ao mesmo tempo, parâmetros para promover avaliação rigorosa de aprovação dos artigos, número ideal de textos etc. A princípio, tudo isso pode acrescentar qualidade e credibilidade aos periódicos, mas há o risco de os sistemas imporem certa despersonalização ao campo da produção científica, que é necessariamente múltiplo, pois se compõe de diversos procedimentos de pesquisa, de diversificados tempos de maturação e de várias formas de exposição dos resultados. Zelar pela qualidade das revistas obriga cuidar para que esse avanço do sistema sobre o mundo da produção científica (como diria o filósofo Jürgen Habermas) seja contido dentro de limites aceitáveis, e que num contexto assim a originalidade e a criatividade não sejam constrangidas. É isso que esperamos e que tentamos obter desse novo paradigma de circulação do conhecimento científico. Ao mesmo tempo, em outra seara, colocam-se na ordem do dia importantes debates sobre publicações científicas, no que tange aos "direitos autorais e licenças de uso para revistas científicas", como ocorreu, em 11 de abril deste ano, na Universidade de São Paulo, iniciativa do Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi-USP).

É com redobrada satisfação que, sabendo do contexto informacional de largo espectro em que estamos inseridos, trazemos a público o número 63 de nossa RIEB. Como sempre, a publicação prima pela multidisciplinaridade, que já se dá na origem dos artigos recepcionados, visto que a Revista é bastante conhecida e procurada por pesquisadores de diversas áreas das humanidades. Cumpre à Comissão Editorial, diante desses múltiplos interesses, tentar criar nexos e estimular possíveis trânsitos de conhecimentos entre essas áreas. Isso pode ser feito, por exemplo, organizando-se dossiês temáticos, selecionando-se artigos que conversam mais facilmente entre si ou criando-se lógicas de ordenação, como foi feito neste número.

Esta edição se abre com o artigo do professor Luca Bacchini (Universidade de Bolonha, Itália), explorando os vínculos entre Budapeste, de Chico Buarque, e Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, produzindo uma notável reflexão sobre a ideia de "plágio" como algo inserido na imprevisibilidade e na potência da intertextualidade em literatura. Em seguida, os leitores terão acesso a outra reflexão fascinante, feita pelo diplomata brasileiro André Ricardo Heráclio do Rêgo, sobre a "geografia imaginária" dos sertões no Brasil e na África, imaginação essa que impregnava a cartografia que imperava antes do século XVIII e que era, ao mesmo tempo, vazia de informações empíricas, mas plena de criação mitológica.

Questões relacionadas à expressão musical popular e folclórica comparecem nos dois artigos seguintes. No primeiro há uma fina análise de Alejandra Josiowicz (pós-doutoranda na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz) sobre a sonoridade de origem popular nos escritos do poeta porto-riquenho Luis Palés Matos, análise importante como acréscimo de repertório para os estudos culturais sobre a herança africana e mestiça, que também é o caso brasileiro. O professor e antropólogo Antonio Maurício Dias da Costa (Universidade Federal do Pará) retoma, de modo produtivo, a reflexão sobre os sentidos de "popular" na atividade musical de artistas paraenses do século XX.

Na sequência dos artigos, dois deles transitam num mesmo espaço, dialogando com o dossiê divulgado no número anterior da RIEB, que focaliza questões da identidade e cultura negra no Brasil e na África. Inicialmente, no artigo produzido a quatro mãos pela professora Maria Cecilia C. C. de Souza (FEUSP) e pela doutoranda Viviane Fernandes (doutoranda na FEUSP), a identidade negra no Brasil é objeto de reflexão, a partir dos marcadores que a oprimem e das ações que podem libertá-la, reflexão, nem seria preciso notar, cuja importância extrapola o mundo acadêmico. Na sequência, o professor Rogério de Almeida (também da FEUSP) em parceria com o mestre Júlio César Nogueira Boaro apresentam uma instigante análise sobre um dos representantes das culturas tradicionais da costa oeste africana, os Fons do Benin, abordando a arte e o mito vinculados à educação, em torno da estátua de Gu, figura expressiva da cultura desse povo.

Outra janela que exemplifica a multiplicidade de interesses que nossa revista expressa se abre com os dois artigos seguintes, que tratam de duas questões bastante concretas na realidade urbana brasileira, não o fazendo, no entanto, do ponto de vista técnico, mas sim preocupados com questões políticas e psicossociais. O primeiro, da professora Cezarina M. N. Souza (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará), lida com a difícil questão da aplicação condizente da prevista participação legal dos cidadãos na definição das políticas de implementação de infraestruturas (no caso, o saneamento básico) e as dificuldades que a realidade apresenta. Em seguida, o professor Leandro R. Neves (UFRR) e a professora Ianni Regia Scarcelli (Instituto de Psicologia da USP) investem em uma fecunda análise dos impactos psicossociais sobre uma sociedade urbana e seu espaço citadino após uma inundação que afetou seu espaço físico, como também o patrimônio cultural que lhe dá identidade cultural. O tema do sertão retorna na sequência deste número, agora explorando as concepções de território na pesquisa histórica, tarefa empreendida por Amália Cristovão dos Santos (FAU-USP). A análise parte do entendimento de que território é uma realidade que resulta da transformação do espaço, e suas concepções variam segundo as lógicas específicas dessa transformação.

Para fechar a edição, dois artigos que exercem a crítica do pensamento e da produção artística. Inicialmente, uma bem-vinda discussão sobre o pensamento do filósofo brasileiro Roberto Mangabeira Unger. Pensador de relevância e prestígio internacional, de pensamento original, é de certo modo negligenciado pela crítica e filosofia brasileira. William Melo (Unicamp) e Fabiana Malha Rodrigues (UFMG), respectivamente cientista político e historiadora, enfrentam o salutar desafio de criticar elegantemente o pensamento de Mangabeira. E, por fim, um artigo de Renata Gomes Cardoso (MAC-USP), que recupera a pioneira produção de vanguarda da pintora Anita Malfatti a partir das considerações críticas de seu contemporâneo Sérgio Milliet, atuante no tempo modernista e na fixação da memória do movimento.

A Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, além dos seus artigos, sempre publica materiais de outros gêneros em suas seções. Nesse caso fizemos coincidir com o artigo sobre Anita Malfatti, citado anteriormente, a publicação na seção de documentação de desenhos presentes nos cadernos de trabalho de Anita Malfatti, com a apresentação de Roberta Paredes Valin. O texto retoma abordagens presentes em sua dissertação de mestrado Cadernos-diários de Anita Malfatti - uma trajetória desenhada em Paris, defendida em 2015 no Programa de Pós-graduação Culturas e Identidades Brasileiras, no IEB-USP, sob orientação da professora Ana Paula C. Simioni.

Na seção Resenhas, prosseguindo numa linha de valorização do debate sobre produção da cultura do nosso tempo, publicamos um texto elucidador de Se liga no som: as transformações do rap no Brasil (Companhia das Letras, 2015), de Ricardo Teperman. O autor da resenha, Bráulio Roberto de Castro Loureiro, defendeu, em 2015, na Unicamp, a importante tese Autoeducação e formação política no ativismo de rappers brasileiros. Institui, assim, um produtivo diálogo com Ricardo Teperman em seu desafiador empreendimento de cumprir uma síntese crítica de aspectos da história do rap no Brasil, em ressonância globalizada.

Os editores agradecem a todos os que favoreceram a produção deste número, ao quadro técnico, administrativo e estagiários da Divisão Científico-Cultural do IEB, à Família Anita Malfatti, lembrando a efetiva colaboração dos professores Walter Garcia, Flávia Toni e Ana Paula C. Simioni e da responsável pela Coleção de Artes Visuais do IEB-USP, Bianca A. Dettino.

Jaime Tadeu Oliva, Marcos Antonio de Moraes e Stelio Marras
Editores

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