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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros

Print version ISSN 0020-3874On-line version ISSN 2316-901X

Rev. Inst. Estud. Bras.  no.67 São Paulo May/Aug. 2017

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901x.v0i67p243-248 

Documentação

“eu estou cada vez menos sabendo o que é o Brasil”

“I know less and less what Brazil is”

Leandro Garcia Rodrigues1 

1Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil).

Carta a Augusto Frederico Schmidt

A relação entre Mário de Andrade e Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) pode ser caracterizada pela tensão e pelo desencontro, especialmente por conta das ideologias díspares e dos projetos literários que cada um realizava: Mário na revisão da tradição e numa constante evolução estilística e formal, enquanto Schmidt insistia em manter (e até ressuscitar) fórmulas antigas da expressão poética, principalmente o seu declarado apreço pela forma parnasiana e pela temática simbolista. Ideologicamente, uma outra tensão: o conservadorismo político e religioso de Schmidt versus o ceticismo de Mário em relação não apenas à religião (católica) institucionalizada, mas também aos rumos políticos do Brasil na década de 1930. Vale lembrar que Schmidt foi um fervoroso defensor do Estado Novo varguista, enquanto Mário foi uma vítima deste.

Ora, toda essa confusão foi motivada pelo lançamento de Pássaro cego (1930), quarto livro de Schmidt, precedido por Canto do brasileiro (1928), Canto do liberto (1929) e Navio perdido (1929). Talvez pela insistência do autor no termo “canto” para os títulos dos seus livros, Mário e Bandeira o intitulam - pejorativamente - de o “Novo canto do Brasileiro”2.

Augusto Frederico Schmidt, embora tenha conhecido e convivido com os modernistas de 22, já que morou certo tempo na capital paulista, na década de 1920, nunca escondeu certo distanciamento pela ideia de vanguarda poética, pelos radicalismos e experimentalismos tão próprios daquele grupo. Ao retornar ao Rio de Janeiro, no começo de 1928, Schmidt tornou-se sócio do Centro Dom Vital e ficou amigo de Jackson de Figueiredo, escritor católico conservador, que tinha o intuito de (re)organizar a intelectualidade brasileira em torno de um projeto reacionário de catolicismo, cujo “diário oficial” era a revista A Ordem, importante periódico de circulação nacional, porta de entrada para diversos jovens escritores daquele momento, inclusive o próprio Schmidt, que nela publicou diversos textos críticos e literários. Por isso, a expectativa do próprio Mário de Andrade: “Queria que você penetrasse bem no meu íntimo pra saber o jeito com que, recebendo a Ordem, larguei do que estava fazendo e me refestelei numa poltrona boa pra gozar mesmo o que imaginava estupendo”.

Nessa carta de Mário a Schmidt fica explícita a aspereza do autor de Macunaíma em relação não apenas ao livro em questão, então publicado por Schmidt, mas à obra deste como um todo. Certamente, eram projetos paradoxais de nação que atingiam a produção artística de cada um, conforme o próprio Mário de Andrade ironizou na tentativa de Schmidt - “num momento de gênio” - de colaborar nesse apostolado nacionalista.

Em nome do que “a lealdade mandava dizer, em resposta à carta sua”, Mário não poupou o seu correspondente de certa acidez. Todavia, esse tom árido, porém sincero, era comum na epistolografia mariodeandradiana, na qual a correspondência também exerce a função de um espaço privilegiado para debates e construção de conhecimentos. E, pelo que se percebe, Schmidt pediu uma resposta a Mário... Afinal de contas, “Se você [Schmidt] não tivesse me escrito guardava tudo pra mim, ou quando muito comentava sem impiedade com os amigos do peito”. Ou seja, carta pede resposta, leva à interlocução, facilita o retorno e mantém o diálogo entre os interlocutores, ainda que este se dê pelos desencontros ideológicos e artísticos, como é o caso de Mário e Schmidt.

Eis aí apenas uma carta daquela que foi, certamente, uma bela e intensa correspondência. Sabe-se que as cartas de Schmidt a Mário estão salvaguardadas no acervo deste, no IEB/USP. Infelizmente, a outra parcela da correspondência se encontra perdida, já que Schmidt era conhecido pelo não arquivamento de documentos, especialmente cartas, que certamente eram descartadas após a devida leitura. Exceto essa, que apresentamos e comentamos, salva por um golpe de sorte. Na verdade, em 2012, o meu grande amigo Luiz Paulo Horta era presidente do Centro Dom Vital (CDV), entidade cultural ligada à Arquidiocese do Rio de Janeiro. O CDV, fundado em 1922, teve um importante papel na vida intelectual do país nas décadas de 20 a 50 do século passado, atraindo políticos, artistas e escritores, dentre os quais, Augusto Frederico Schmidt. Não se sabe como essa carta de Schmidt a Mário foi parar lá, mas talvez isso tenha intrigado Luiz Paulo Horta, que me chamou certa tarde daquele ano e entregou-me a mesma, dizendo confiar no destino que eu daria a ela. Considero que o IEB seja o melhor espaço de sua preservação, tendo uma função pública para consulta, pesquisa e publicação, como ora se faz.

O conteúdo dessa carta ilustra bem o que deve ter sido a troca missivista não apenas entre esses dois poetas mas, principalmente, entre esses dois grandes pensadores e correspondentes que criavam e pensavam - cada um numa direção diferente - os rumos do nosso primeiro modernismo e a revolução cultural e estética por este trazida.

São Paulo, 17 de novembro de 1930.

Seu Schmidt.

Recebi sua carta, poeta redivivo do Novo canto e sou obrigado a lhe escrever com toda a sinceridade mais desabrida que também os poetas excelentes fazem merdas integrais e tal é o caso do Novo canto do brasileiro Augusto Frederico Schmidt. Queria que você penetrasse bem no meu íntimo pra saber o jeito com que, recebendo a Ordem, larguei do que estava fazendo e me refestelei numa poltrona boa pra gozar mesmo o que imaginava estupendo. Imaginava por quê? Uns versos do Novo citados pelo Tristão, que de tão rúim crítico de poesia, imagina mesmo que foi você que repôs na poética brasileira os ritmos ímpares (é, tirando tudo o que desde 1922, Menotti, e depois Guilherme, até eu, e principalmente o Ascenso fizemos de ritmos ímpares, foi você sim): enfim os tais versos citados pelo Tristão como do Novo, me deram má impressão. Mas como falei pro Alcântara que os censurava pra mim, nada achando neles: uns versos apenas não podem dar a medida dum poema e das obras mais admiráveis, muitas vezes se pode tirar até bobagens completas. O fato é que estava pois só com bom-humor e saudade. Sentei na poltrona e fui lendo. Fui gozando, fui gostando, fui não gostando, fui detestando e acabei safado da vida. Então, Schmidt, você repõe dentro da poesia brasileira a sonoridade larga e ondulante, cheia de maciez do verso parnasiano, se conservando no verso-livre (invenção estupenda e essa bem de você porque eu que estava tentando fazer isso fiquei muito na rabeira desde logo) então você descobre pra poesia brasileira, e sem surrealismo, a intimidade lírica da vagueza de expressão (e como ninguém depois conseguiu), então você chega a escrever alguns poemas admiráveis em que com uma nitidez quase palpável paira o sentido terrível da morte pra depois vir desaguar no Novo canto! Fixe! Não valia a pena. Seu novo poema é apenas uma repetição e tem como principais razões de desvalor: o ensimesmamento petulante, a fraqueza das ideias e em principal o ter gorado. Vejamos a forma. É evidente que você copiou a forma dos meus “Poemas acreanos”. Chegou a dar pro primeiro dos dois até o mesmo título, só que você chamou de “Descoberta” o que eu chamei de “Descobrimento” (bem típica esta variação) porque o que me impulsionava liricamente era o ato de descobrir que eu fazia, ao passo que em você não era a ação de descobrir, mas a descoberta poética que você imaginava estar fazendo. Infelizmente você trocava a honestidade dum trabalho sincero, penoso e gradativo em favor de descobrir [ilegível]3 maneiras de ser do Brasil, por aquela vaidade até ignorante, desculpe, dos menottis e cassianos e mais rabulagens que reduziram a pó de traque o descobrimento expressivo interior e ambiente do Brasil a uma frase de dedão na cava do colete: - Eu é que sou brasileiro, gente! Eu é que descobri o Brasil! Porra! O Brasil é muito mais que isso e muitíssimo mais difícil de se saber o que é. E se você acredita que num momento de gênio, entre dois dias de trabalho livreiro, você realizou o Brasil um bocadinho mais que o grupo Verde, ou o grupo Verdamarelo, deixe que eu lhe diga com toda a franqueza que depois de trabalho intenso, gastos enormes, viagens penosas e um amor que não para nunca e jamais descamba pro diletantismo, eu estou cada vez menos sabendo o que é o Brasil. Por isso é que entre os desvalores que matam o Novo canto, eu falei que havia um ensimesmamento petulante. Você copiou uma forma construtiva alheia e uma ideia. Isso tudo é perfeitamente permissível desque se faça melhor. Mas a obrigação única, o dever, a salvação única é fazer melhor. Ora será que você tem a mínima ilusão sobre o Novo canto ser melhor aos “Poemas acreanos”? Mas não é possível Schmidt! Isentando completamente os “Poemas acreanos” da minha colaboração pessoal, aliás pequena neles, critique sem amor de si mesmo os dois poemas e você há-de concordar comigo. Dos seus como dos meus, o melhor é o primeiro poema. O meu se distingue pela maior humanidade da invenção, por um desejo cordial de humanidade que o seu não tem. Você se limita aliás em versos bons a descobrir o Brasil. Mas é isso que irrita mesmo. Afinal das contas você se reduz ao ato do Osvaldo de Andrade que, segundo a frase de Paulo Prado, foi descobrir o Brasil do umbigo da praça Clichy. Mais um que descobriu o Brasil, vamos a ver o que descobriu. E vem o segundo poema. Franqueza Schimdt será que você tem a mínima ilusão também sobre o que descobriu? Com toda a lealdade acho que o segundo poema não passa duma enumeração bastante balofa e incolor, que não é possível comparar como riqueza nem de anotações, nem de beleza de realização com as numerosíssimas que já se tem feito na poética moderna brasileira. Só tem uma coisa a mais: a insistência das notações religiosas que acabam redundando na pascacice do beatério. Acho sinceramente que muito mais descobridor de Brasis e muito mais intimamente brasileiro você tem sido especialmente no Canto (Velho) do brasileiro, e nos demais livros. O de agora não passa duma repetição de coisas mais bem-feitas e muito feitas. Será ainda a preocupação modernista de ser antimoderno que está levando você agora a andar cinco minutos só atrás dos outros? Enfim minha opinião que me esforço por fazer a mais livre e mais sincera possível, é que o Novo canto é uma coisa absolutamente gorada, que só retardatários, ou interessados, ou despeitados, ou ignorantes da vida poética brasileira, podem considerar como valendo alguma coisa mais que alguns bons versos e algumas anotações felizes.

Acredite que lamento muito desiludir tanto você pois pelo fraseio da sua carta derradeira, me parece que você alimenta sobre o Novo canto enormes e sagradas ilusões. Sagradas afinal nem tanto assim, porque derivam muito desse cultivo de vaidade que tanto vai prejudicando a obra de você. Cultive o orgulho, companheiro, aquele imenso orgulho pelo qual a gente joga a vida inteirinha com franqueza e paixão numa aventura, não poupando esforço nem temendo se reconhecer inferior, meu caro. Quero dizer não é que catolicamente me reconheça inferior a todos os poetas do mundo, não. Sou incapaz dessas sentimentalidades falsas. Sou incapaz de humildade falsa. Minha humildade consiste apenas em pedir diariamente pra Deus de-noite e de-dia que me fecunde as obras com a iluminação que só me pode vir Dele e não de mim. Isso faço com sinceridade e me basta. O que quero dizer é que tenho a coragem de reconhecer os meus defeitos, não temo voltar pra trás, me esforço, trabalho com volúpia pra me corrigir e pra ultrapassar Dante e Camões. Sei que não ultrapasso, mas cumpro com minha obrigação social de homem e de criatura que tudo pode alcançar do seu Criador. Aprendo com todos e de todos tiro um bocadinho até dos piores, sem vaidade nenhuma, apenas buscando me enriquecer. Muitas vezes também leio, visivelmente contra mim, frases de muita gente atacando os que se imaginam brasileiros por causa do emprego dum “pra”. É impossível que uma coisa dessas possa ferir de longe um espírito de formação seja mediana apenas. É incontestável que meu trabalho vai muito mais fundo e mais largo que isso, você sabe. Mas se vai, é mesmo por causa do meu orgulho que não se satisfaz absolutamente com suponhamos 33 invençõezinhas técnicas que já fiz nesta vida e umas mais outras menos sempre pegaram. Está claro, por outro lado que, apesar do Novo canto, você continua pra mim o admirável poeta que tantas vezes já provou ser admirável. Lamento é que você esteja custando a se definitivar, isso só devido à sistematização da incapacidade de trabalho que você fez e é o último resquício de primeira mocidade que resta pra você, péssimo resquício. Jogue fora a ingenuidade falsa com que você resguarda e desculpa as cabeçadas que anda fazendo e tenha a coragem duma ingenuidade mais legítima, aquela que chega ao “Errei”, arrepende com verdadeira correção e não esperando na perigosa facilidade dos perdões de confessionário. Na vida, não basta a intenção de se corrigir, carece corrigir mesmo. Falo isto imaginando no tal de artigo seu sobre o Legalismo também falso. Não li o artigo mas aqui causou uma irritação muito parecida com coisa mais feia em muitos. Eu sou dos menos dispostos a perdoar isso aliás porque de todos os católicos que em nome de não sei que ordem, se julgam com razões pra defender legalismos infames e infamantes, de todos os uoshintistas do mundo, incruentos e apaziguadores, só percebo uma coisa: falcatrua. Falcatrua moral, falcatrua de ideais, falcatrua sempre. Têm olhos e não veem? Crimes em nome da religião. Repito, não sei o que você falou no tal artigo nem quero saber porque não se trata de julgar você e de fato não julgo, digo apenas que a tristeza que recobriu você quando falou nisso e no afastamento que imagino momentâneo do Manuel, me deixa longínquo, muito frio, não posso dizer nada que te auxilie, insensível.

E, pois, Schmidt, eis uma carta que eu não queria que tivesse de dizer tudo o que disse. Disse, aliás, porque a lealdade mandava dizer, em resposta à carta sua. Se você não tivesse me escrito guardava tudo pra mim, ou quando muito comentava sem impiedade com os amigos do peito. Espero que você saiba não dar ao que aqui vai mais que uma importância minha aliás. Outros pensarão de outro jeito e é mesmo isso que nos salva a todos. Mas fiquei banal de repente e desculpe, coloco você acima dessas duas últimas frases. Corte elas. Mas não corte o abraço que aqui vai sincero.

Mário.

Carta datada: “S. Paulo, 17-XI-30”, datiloscrito fita preta; autógrafo a tinta preta; papel branco; 2 folhas; 32,5 x 22,0 cm; rasgamentos nas bordas; f.1: furo e marca de corrosão resultante de oxidação da tinta; procedimento de restauro do papel. Nota de terceiros.

RODRIGUES, Leandro Garcia. “eu estou cada vez menos sabendo o que é o Brasil”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 67, p. 243-248, ago. 2017.

2 Lembrando que em 1934 sairia, pela Editora Nacional, o seu livro Canto da noite.

3 Trecho rasgado em decorrência da oxidação da tinta no papel.

LEANDRO GARCIA RODRIGUES

é professor de Teoria Literária da UFMG e especialista em Epistolografia. É autor de Alceu & Drummond (Editora da UFMG, 2014), Cartas de esperança em tempos de ditadura (Vozes, 2015) e Correspondência Mário de Andrade & Alceu Amoroso Lima (Edusp/PUC-Rio, no prelo). E-mail: prof.leandrogarcia@hotmail.com

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