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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros

versão impressa ISSN 0020-3874versão On-line ISSN 2316-901X

Rev. Inst. Estud. Bras.  no.71 São Paulo set./dez. 2018

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901x.v0i71p14-17 

Editorial

As mulheres e seus arquivos

Alexandre de Freitas Barbosa1 

Fernando Paixão2 

Monica Duarte Dantas3 

1 Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil).

2 Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil).

3 Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil).

O número 71 da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (RIEB) conta com o dossiê Mulheres, Arquivos e Memórias, organizado pelas professoras Ana Paula Cavalcanti Simioni (Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP) e Maria de Lourdes Eleutério (Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP). Tal dossiê é resultado de um encontro realizado, em março de 2017, a partir de uma parceria entre o IEB e o CPF-Sesc, com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Os nove artigos que o compõem exploram as várias facetas relacionadas à preservação da memória das mulheres artistas e intelectuais em arquivos nacionais e internacionais. Na Apresentação, partindo de uma citação de Virginia Woolf, as responsáveis pelo dossiê se questionam sobre a ainda reduzida existência de acervos de mulheres no Brasil, problematizando a forma como elas estão neles representadas.

O presente número traz ainda quatro artigos, uma resenha e dois textos na seção Documentação. Conforme a ordem de publicação, o primeiro texto, “S. Bernardo (Graciliano Ramos, 1934) & S. Bernardo (Leon Hirszman, 1972)”, de Nelson Tomelin Jr., professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), realiza um cotejo entre a obra do escritor alagoano e a sua transcriação para o cinema em outro contexto histórico. Na análise da obra de Graciliano, o autor revela como o fenômeno histórico - o Nordeste rural dos anos 1920 e 1930 - aparece encarnado em pessoas e contextos reais. A memória do narrador, a partir da sua estrutura de sentimentos, permite acompanhar as contradições daquele contexto específico, ao conferir destaque à sua dimensão humana. Thompson, Raymond Willians e Antonio Candido fornecem a base teórica do artigo. O filme de Hirszman procura acoplar classe, sujeito e relações históricas, pondo em cena imagens visuais dos trabalhadores rurais durante o período de recrudescimento da ditadura militar, o que permite apontar semelhanças entre as várias condições de classe em momentos diversos, sem perder o eixo central da trama do romance.

O artigo “Moda e vestuário nos periódicos femininos brasileiros do século XIX”, de Beatriz Albarez de Assunção e Isabel Cristina Italiano, respectivamente mestranda e livre-docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP), aborda como a “cultura de moda e vestir” passa a ser veiculada nos periódicos do Brasil oitocentista, especialmente a partir dos anos 1820 e 1830. O artigo apresenta como se processava uma divisão do trabalho entre a cópia dos modelos (Brasil) e a sua invenção (França). Mas revela como as diferenças de clima, assim como a aceleração do ritmo de mudanças na moda, geravam adaptações locais em termos de materiais utilizados e também de modelagem. Destaca também como esses veículos de imprensa não ficavam circunscritos à moda, permitindo a interlocução entre redatoras mulheres e o público feminino em outros temas.

O terceiro artigo, “O samba é o dom: sobre as velhas guardas e a presença da dádiva nas relações de sociabilidade”, de Maria Alice Rezende Gonçalves, professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apresenta uma interpretação do samba enquanto manifestação cultural no seu sentido amplo, enfocando as suas extensas redes de solidariedade e reciprocidade que se constroem para além das agremiações existentes. Sob uma perspectiva maussiana, encara o papel das velhas guardas na manutenção dos laços sociais e na permanência das associações carnavalescas, fortalecendo assim a etnicidade afro-brasileira no âmbito da cultura nacional. A filiação voluntária confere o caráter de dádiva, que está presente nas ações das velhas guardas. A autora, que desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa, por meio de observação participante, a rotina da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba, no Rio de Janeiro. Nesse sentido, o artigo se insere na temática abordada pelo dossiê publicado na Revista de número 70 (RIEB, 2018).

“Por uma cartografia sentimental: do imaginário ficcional de Cidadilha à cidade-ilha de Vitória (ES)”, de Linda Kogure e Milton Esteves Junior - respectivamente pesquisadora pós-doutora e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) - não apenas dialoga com a obra ficcional de Luiz Guilherme Santos Neves, Cidadilha, mas também propõe uma cartografia sentimental da Vitória colonial do século XIX. Para tanto, os autores criam um viajante-cartógrafo que percorre a cidade num exercício de entrelaçamento textual com a obra do escritor capixaba, brindando-nos com a sua perspectiva antropofágica por meio da “visita” a 11 dos 30 referenciais urbanos contemplados no livro de Santos Neves.

O presente número nos brinda também com a resenha de Flavia Rejane Prando sobre o livro Madureira chorou... em Paris: a música brasileira na França do século XX, escrito por Anaïs Fléchet em francês, recentemente traduzido e publicado pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp). O livro é resultado da tese de doutorado em história da autora francesa e tem por objetivo abordar as transferências culturais entre Brasil e França, com foco específico na recepção da produção musical brasileira no país da Europa. Conforme a resenha nos informa, o trabalho de coleta de fontes produziu um material substancioso sem o qual a pesquisa não poderia mergulhar nessa verdadeira “história das apropriações”, circunscrita em três períodos (1905-1940, 1945-1959 e 1960-2000). Se o primeiro período é marcado pelo “primitivismo” e “exotismo” do maxixe e do samba, em seguida a bossa nova passa a despertar o gosto pelo “autêntico”. Os públicos atingidos pelo repertório brasileiro também se alteram, gerando inclusive um movimento de artistas franceses que atravessam o Atlântico. O livro de Fléchet, segundo a leitura de Prando, tem o mérito de produzir uma “história transcultural da música brasileira”, revelando ainda como a sua recepção no exterior contribui para a legitimação dos gêneros musicais no país.

Na seção Documentação, dois textos são apresentados. O primeiro, de autoria de Viviane Panelli Sarraf - pesquisadora colaboradora do IEB, em nível de pós-doutorado, e jovem pesquisadora pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) -, conta a história da contribuição da museóloga brasileira Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, cujo importante acervo se encontra no IEB. Utilizando materiais desse acervo, Sarraf resgata a trajetória intelectual de Waldisa Rússia, ressaltando a sua concepção original sobre a função social do museu e a sua relação complexa e específica com a realidade humana. Trazendo para o contexto brasileiro os conceitos de “museologia social”, “museologia popular” e “nova museologia”, Rússio não apenas esteve à frente de várias iniciativas do governo do estado de São Paulo nessa área, como foi responsável pela formação de novos museólogos/as no Brasil e no exterior. O segundo texto, de Roberta Valin, professora da Faculdade de Artes da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e Carlos Pires, pós-doutorando no IEB, se debruça sobre os cadernos de Anita Malfatti sob a guarda do IEB. No texto, os autores se detêm numa artista menos conhecida do público e da crítica. Várias figuras desses cadernos são expostas no artigo, com destaque para o caderno da década de 1910, recentemente incorporado ao IEB por meio do Fundo Emilie Chamie. Trata-se um registro escrito raro, em forma de diário, que antecede a primeira exposição individual de Anita Malfatti, em 1914. Por outro lado, figuras dos cadernos da década de 1920, do acervo da artista no IEB, permitem flagrar o seu processo criativo, inclusive justapondo desenhos e anotações de fases distintas, novamente à maneira de um diário, com o intuito de rememorar ideias e fatos.

Ao apresentarmos na seção Documentação dois importantes acervos do IEB de mulheres intelectuais e artistas, estamos seguindo à risca a preocupação norteadora do dossiê que compõe esta edição.

REFERÊNCIA

RIEB - Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Dossiê Samba: 1917-2017, n. 70, ago. 2018. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0020-387420180002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 5 nov. 2018. [ Links ]

ALEXANDRE DE FREITAS BARBOSA

é docente do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). E-mail: afbarbosa@usp.br

FERNANDO PAIXÃO

é docente do IEB/USP. E-mail: fernando.paixao@usp.br

MONICA DUARTE DANTAS

é docente do IEB/USP. E-mail: mddantas@usp.br

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