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Revista do Instituto de Estudos Brasileiros

Print version ISSN 0020-3874On-line version ISSN 2316-901X

Rev. Inst. Estud. Bras.  no.73 São Paulo May/Aug. 2019  Epub Aug 26, 2019

http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901x.v0i73p285-289 

Resenhas

O espírito do lugar na subjetividade de Drummond

The spirit of place in Drummond’s subjectivity

1Universidade de São Paulo (USP, São Paulo, SP, Brasil).

WISNIK, José Miguel. Maquinação do mundo: Drummond e a mineração. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


RESUMO

Este breve ar t igo destaca e argumenta como esse ensaio sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade se estruturou tendo como uma de suas bases o que o antropólogo Edward Hall (2005) denominava a “dimensão oculta”. Na verdade, ele se referia ao espaço, aquela materialidade de nossas vidas, nem sempre considerada, mas de relevância notória. Uma relevância para além da funcionalidade óbvia, pois capaz de participar como elemento ativo não só da vida social, mas também da formação da subjetividade dos indivíduos e, nesse caso, do poeta.

PALAVRAS-CHAVE Dimensão o culta; espaço; lugar;; espírito do lugar

ABSTRACT

This brief article highlights and argues how this essay on Carlos Drummond de Andrade’s work was structured around one of its foundations what anthropologist Edward Hall (2005) called the “hidden dimension”. In fact, he referred to space, that materiality of our lives, not always considered, but of notorious relevance. A relevance beyond obvious functionality, as capable of participating as an active element not only of social life, but also of the formation of the subjectivity of individuals, and in this case of the poet.

KEYWORDS Hidden dimension; space; place; spirit of place

Quando terminei de ler Maquinação do mundo: Drummond e a mineração, de José Miguel Wisnik, tive a certeza de que havia percorrido uma obra de grande valor. Para além da qualidade da escrita, do conhecimento profundo e profissional da obra do poeta e da sensibilidade interpretativa do autor, há algo a mais que impressiona nesse livro. Trata-se de uma ampliação incomum e criativa do contexto de referência empregado nas interpretações. O autor foi impelido a considerar de forma aprofundada várias dimensões contextuais da vida e obra de Drummond, anteriormente um pouco negligenciadas. Com esse novo quadro referencial Wisnik escreveu um livro de crítica literária que move céus e terras (e subsolos), para transcender o lugar-comum e enveredar pelo ensaio que rompe fronteiras disciplinares, com cerimônia cuidadosa, é certo, mas que não tem medo de transitar.

Sem mais delongas, queria destacar que o contexto de referência utilizado inclui uma dimensão costumeiramente obscurecida, no caso o meio geográfico que envolve inevitavelmente a poesia de Drummond. Essa obra está indissoluvelmente integrada à mineração, uma mineração que tem lugar, logo tem um espaço e, mesmo como concretude dura, participa da composição do espírito do lugar, que por sua vez está implicada na formação subjetiva do poeta.

Conforme o estereótipo da geografia, que de forma interessante aparece tanto no texto do autor, como nos versos de Drummond, a geografia se reduziria a um fluxo de informações que organiza um mundo, uma lógica distributiva de lugares, de países, de cidades e assim por diante. Se assim for, como julgar esta breve citação que farei aqui, de um eminente geógrafo, Augustin Berque?

[...] aquilo que a paisagem nos dá, no final das contas, não são verdadeiramente as aparências, nem verdadeiramente a natureza das coisas e sim um meio-termo: formas pregnantes, que estão em nós tanto quanto elas estão no mundo. São elas que fazem que nós estejamos no mundo, como o mundo está em nós. (BERQUE, 2000, p. 113 - tradução nossa).

É quase Drummond, não é? Até as ressonâncias da palavra mundo nos remetem ao poeta. No entanto, é simplesmente uma face do que se pratica atualmente na geografia. Trata-se de uma reflexão sobre a natureza geográfica da existência e da experiência dos seres humanos. Do que Eric Dardel chamava de “geograficidade”2 do ser, do homem em relação ao mundo, a significação dos lugares na produção dos homens. Desse tipo de reflexão originaram-se vários termos que são tributários de sua contribuição: espaço vivido (espaço subjetivo), imaginário geográfico, lugar, espírito do lugar, topofilia e outros que pertencem à chamada geografia cultural, numa área do conhecimento muito chacoalhada nos últimos anos por vários impulsos renovadores, que respondem, até tardiamente, a questões que as realidades sociais colocavam. Alguns desses termos circulam bem no livro, em especial espírito do lugar, que dá título a um capítulo de destaque.

Em Maquinação do mundo o autor se viu instado a interpretar, a argumentar, a reconstruir relações do poeta com o mundo, mundo que é imediatamente geográfico, melhor dizendo espacial. Ilustro com uma passagem da página 188: “O retorno ao texto [ao poema “A máquina do mundo”], aqui, se faz no sentido de destacar e perseguir aspectos e dimensões que decorrem do partido assumido por este livro: o de que a presença semioculta da mineração na obra de Drummond deixa nele marcas e cifras [...]” que não foram alvo da atenção devida, segundo o autor. Imediatamente, lembrei-me de um livro importante do antropólogo norte americano, Edward Hall (2005), denominado A dimensão oculta. Haveria uma dimensão integrante da vida social, que participa, que opera no conjunto da dinâmica social, inclusive nas obras literárias, mas que está oculta, pouco percebida, que é o espaço. Em especial o espaço produzido pelo humano... que não precisa ser uma obra física, pois há um momento produtivo e decisivo, por exemplo, para o Pico do Cauê (uma personagem trágica do livro), quando ele deixa de ser expressão geomorfológica na paisagem e passa a ser visto como uma jazida de hematita. Ora, no livro Maquinação do mundo esses objetos geográficos que em associação conformam a espacialidade de vida de Drummond são quase que ativos na sua poesia. Assim como são ativos na constituição social e econômica da sociedade em geral.

Uma interrupção útil: mesmo na geografia, mesmo no campo da renovação, resiste-se fortemente a essa suposta atividades dos não humanos, mesmo que esses sejam evidentemente obras humanas, ou projeções humanas, com suas dinâmicas impregnadas da intencionalidade social, dos interesses econômicos e políticos, por exemplo. O pavor é o determinismo geográfico, que se expressa, se não exagero, no livro quando Wisnik se refere a certo preconceito de incluir na interpretação da obra literária, não só a biografia - uma história menor -, mas a geografia. O determinismo geográfico é um poderoso dislogismo epistemológico, que é um tipo de pecha que interrompe todas as discussões.

Pois bem, há muito para além dessa pecha, o que a grande tese do livro Maquinação do mundo demonstra de forma convincente e até contundente. Nesse sentido, como o livro explora de forma sensível, detalhada, e não abandona nunca a dimensão espacial como uma das chaves interpretativas da poesia de Drummond, ele é também um livro de geografia e, claro, para mim isso é um elogio, e me deixa feliz perceber o quanto a inteligibilidade dos objetos de estudo pode ganhar em avaliar essa dimensão oculta (o espaço). Se isso se mostrou evidente numa obra literária, que não é exatamente o mundo das explicações diretas, mais visível ainda será nos outros campos de atividades sociais.

Por fim, queria indicar algumas abordagens e raciocínios dignos da geografia contemporânea que percorrem o livro e iluminaram a obra poética de Drummond.

  • As relações multiescalares que envolvem o lugarejo (Itabira do Mato Dentro), que será peça importante na modernização brasileira, na geopolítica e na economia mundial, impregnando a subjetividade do poeta por conta dessa condição (Itabira era conectada misteriosamente com o mundo). Isso era um prenúncio do que hoje chamamos de hiperespacialidade, nova condição das relações entre os lugares, os grupos sociais e os indivíduos.

  • A importância das fases do desenvolvimento tecnológico, fazendo de Itabira uma tecnosfera fáustica ou faustiana (palavra cara à geografia, que aparece algumas vezes no livro), que caracteriza não somente as formas predadoras de produção, mas também as mais sofisticadas. Aliás, a linha de ataque do grande geógrafo brasileiro Milton Santos (1994), que investiu muito na interpretação dos períodos técnicos, na circulação das técnicas como elementos constitutivos do mundo, do mundo do Drummond.

  • A questão ambiental, mas não a questão apenas da degradação, mas também o quanto é deprimente essa economia predatória do extrativismo que não cria, da modernização que não moderniza.

  • A força da presença das paisagens (uma emanação visual do espaço) no imaginário social. A subtração da paisagem em Itabira, que agora é só ausência, cujos impactos permeiam o texto, produzindo a atmosfera que impregnou o poeta.

Há ainda muitos elementos de (e no) relevo que não vou mencionar aqui e outros que ainda não percebi, mas que estão lá, pois o autor encontrou na sua interpretação uma jazida onde há muito o que explorar, se vocês me perdoam a metáfora mineral, muito óbvia nessa ocasião, mas irresistível para reagir a esse grande livro.

2Eric Dardel tornou-se célebre na geografia acadêmica a partir da publicação de seu livro L’homme e la terre, em 1952. De fato, não é a geografia como disciplina que lhe interessa, mais a “geograficidade”, que é como ele denomina a relação do homem com o mundo, pois isso na verdade é que define a natureza da realidade geográfica.

REFERÊNCIAS

BERQUE, A. Médiance: de milieux en paysages. Paris: Éditions Belin, 2000. [ Links ]

DARDEL, Éric. L’homme et la terre. Nature de la réalité géographique. Éditions du CTHS, 1990. (Coll. «CTHS-Format», n. 6). [ Links ]

HALL, Edward T. A dimensão oculta. São Paulo: Martins Fontes, 2005. [ Links ]

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo: Nobel, 1994. [ Links ]

Recebido: 20 de Maio de 2019; Aceito: 01 de Agosto de 2019

JAIME TADEU OLIVA é professor da área temática de Geografia do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP). E-mail: jtoliva@usp.br https://orcid.org/0000-0002-5540-629X

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