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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.77 no.1 Porto Alegre Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572001000100003 

O crescimento de crianças indígenas

The growth of native Brazilian Indian children

Dioclécio Campos Júnior1

J Pediatr (Rio J) 2000;77(1):4-6

A promoção da saúde das crianças indígenas é um objetivo cuja prioridade parece alcançar adesão consensual na atualidade brasileira.

Trata-se de um compromisso que decorre do conhecimento crescente das condições sofríveis em que nascem, vivem e morrem os povos nativos do país, sobreviventes de quinhentos anos de penosa resistência ao processo colonizador que lhes roubou territórios, dizimou populações,violentou costumes, corrompeu culturas e devastou valores. Dos 5 milhões que aqui viviam, restam apenas 300.000 como testemunhas do processo de extermínio que consumiu seus ancestrais (4).

Vistos, durante a maior parte da nossa história, como obstáculos à expansão territorial e ao desenvolvimento econômico de índole predatória, inerente a todo modelo colonizador, os povos indígenas nunca mereceram uma política de respeito e proteção que lhes assegurasse direitos elementares, tais como a saúde e a educação, preservados os valores culturais com que estão organizadas as suas sociedades. Por essa razão, são escassos os estudos referentes às variáveis epidemiológicas, nosológicas, nutricionais e sociológicas que regem o processo de crescimento e desenvolvimento das crianças indígenas, o que dificulta o conhecimento objetivo de uma realidade sanitária sobre a qual se deve eventualmente intervir no intuito de garantir a sobrevivência dessas populações.

A Sociedade Brasileira de Pediatria, ao encampar a iniciativa do I Fórum Brasileiro sobre a Saúde da Criança Indígena, organizado em Brasília pela Sociedade de Pediatria do DF, assume posição de vanguarda nessa questão, garantindo a realização anual de um evento que viabiliza o intercâmbio de experiências no atendimento às crianças indígenas, a divulgação da produção científica pertinente e a formulação de propostas a serem defendidas junto às instâncias governamentais competentes.

O Jornal de Pediatria publica, neste número, um trabalho interessante, de autoria de Gugelmin AS, Santos RV e Leite MS, que teve por objetivo estudar as características do crescimento físico de crianças xavantes na faixa etária de cinco a dez anos. Uma das dificuldades enfrentadas pelos autores foi a pobreza da literatura médica sobre o tema, reveladora do desinteresse relativo aos índios, conforme se pode depreender do fato de que nenhum dos três grandes inquéritos de abrangência nacional sobre o estado nutricional da população brasileira incluiu povos indígenas.

Não obstante a limitação quantitativa da amostra estudada, que não diminui o mérito do trabalho, as avaliações procedidas permitiram evidenciar uma prevalência de 9% de crianças com estatura/idade inferior a –2 escores Z. Estudo semelhante realizado por Fagundes Neto U, Morais MB e Alves GM, em crianças com menos de 10 anos de idade, da etnia terena, já revelara prevalência de 14% de déficit no parâmetro estatura/idade (3).

A ocorrência de déficit estatural nessas crianças deve ser apreciada à luz de conceitos de natureza genética, nutricional e infecciosa que ensejem melhor compreensão da sua gênese, antes que possa ser considerada como perfil de crescimento próprio das respectivas etnias.

Com efeito, a utilização das curvas norte-americanas do NCHS como instrumental antropométrico de referência, suscita algumas especulações. Deixando de lado as diferenças étnicas, que parecem ter pequeno impacto no resultado final do crescimento de populações diferentes, não se deve esquecer que as curvas norte-americanas foram construídas sobre grupos de crianças submetidas a alimentação artificial desde os primeiros anos de vida, contrariamente ao que ainda ocorre com a maioria das crianças indígenas, que são aleitadas ao seio materno. Como se sabe, os indicadores de peso e altura para crianças em alimentação artificial costumam ser superiores quando comparados aos das crianças amamentadas. Logo, as curvas do NCHS não seriam o referencial mais apropriado para a definição de déficit nutricional das crianças indígenas.

Por outro lado, a prevalência aumentada de agravos infecciosos nos primeiros anos de vida repercute sobre o crescimento das crianças, mantendo em níveis desfavoráveis a sua progressão pôndero-estatural.

As poucas informações disponíveis apontam para elevados índices de mortalidade infantil que, entre os yanomamis, por exemplo, situam-se em torno de 140/1000, tendo como causas mais freqüentes as diarréias e as pneumonias (4). Também entre os xavantes, os índices registrados pelos autores assinalam uma mortalidade infantil de 87,1/1000, atribuída, na maioria dos casos, a infecções respiratórias e gastrintestinais.

É de se esperar que populações infantis expostas à prevalência elevada dessas agressões infecciosas tenham perfis de crescimento precocemente comprometidos. Pode-se especular, com base em tais constatações, que os achados descritos pelos autores sejam a manifestação, nos pré-escolares e escolares por eles estudados, do impacto negativo sofrido por estas crianças nos primeiros anos de vida, como conseqüência das precárias condições ambientais e dos agravos infecciosos a que se submeteram desde o nascimento. A propósito, vale citar trabalho realizado por Fagundes Neto U, Alves G e Corral J, que mostra uma prevalência de 75% de parasitoses intestinais em crianças índias de etnia terena vivendo em aldeias do Mato Grosso do Sul (1). Nesta mesma população infantil, Fagundes Neto U, Morais MB e Alves GM, utilizando o teste do hidrogênio inspirado após ingestão da lactulose, identificaram uma prevalência de 11,5% de sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado(2). Mencione-se, ademais, o estudo efetuado por Figueira Peçanha LM, Robalinho Lima ML e Campos Júnior D, referente a uma série de 70 crianças indígenas internadas no Hospital Universitário de Brasília. A maioria era representada pela etnia xavante, oriunda dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A pneumonia foi a patologia prevalente no grupo (63%), seguida pela diarréia (11%), anotando-se contato com tuberculose em 51% das crianças. A cobertura vacinal estava incompleta ou ausente em 66% delas, e 84% dos seus domicílios eram desprovidos de infraestrutura sanitária mínima. O estado nutricional estava afetado em 60% dos pacientes, com predomínio de desnutrição evolutiva (5).

Esses trabalhos demonstram que o crescimento das crianças indígenas nos primeiros anos de vida se faz em meio a condições ambientais sofríveis, com alta prevalência de episódios infecciosos e parasitários, que impedem a realização adequada de um potencial genético provavelmente semelhante ao das populações não índias. As discrepâncias observadas quanto ao padrão de crescimento de crianças xavantes poderiam ser explicadas, em grande parte, pela intervenção desses fatores ambientais desfavoráveis. Essa intervenção, entretanto, não está bem dimensionada em virtude da falta de melhores informações. Note-se, contudo, que, embora o padrão de crescimento das crianças xavantes seja inferior ao das populações norte-americana e brasileira, é superior ao de outras etnias indígenas do país.

A realização de estudos do perfil de crescimento das populações infantis das etnias indígenas brasileiras é uma iniciativa a ser intensificada, a fim de que se possa construir a fundamentação científica indispensável ao embasamento das ações educativas preventivas e curativas que assegurem a elevação das condições de saúde dos “curumins”. O Jornal de Pediatria tem, seguramente, grande contribuição a dar nesse assunto como periódico qualificado de divulgação da produção científica da pediatria brasileira, e começa a fazê-lo neste número.

Sobe

Referências bibliográficas

1. Fagundes Neto U, Alves G, Corral J. Parasitoses intestinais em crianças índias terenas das aldeias de Limão Verde e Córrego Seco, Aquidauana MS. I Fórum Brasileiro sobre Saúde da Criança Indígena – Brasília, abril de 2000.         [ Links ]

2. Fagundes Neto U, Morais MB, Alves GM. Avaliação do sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado pelo teste do hidrogênio expirado após ingestão da lactulose em crianças índias terenas do Mato Grosso do Sul. I Fórum Brasileiro sobre Saúde da Criança Indígena, Brasília, abril de 2000.         [ Links ]

3. Fagundes Neto U, Morais MB, Alves GM. Avaliação do estado nutricional de crianças terenas no Mato Grosso do Sul. I Fórum Brasileiro sobre Saúde da Criança Indígena. Brasília, abril de 2000.         [ Links ]

4. Francisco DA, Oliveira CE. Assistência à Saúde Yanomami. Ministério da Saúde, FUNASA-DEOPE, julho de 1999.         [ Links ]

5. Figueira Peçanha LM, Robalinho Lima ML, Campos Júnior D. Estudo das patologias prevalentes numa série de 70 crianças indígenas internadas no Hospital Universitário de Brasília. I Fórum Brasileiro sobre Saúde da Criança Indígena, Brasília, abril de 2000.         [ Links ]

Sobe

1Dioclécio Campos Júnior - Professor Titular de Pediatria da Fac. de Medicina da Univ. de Brasília.