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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.77 no.1 Porto Alegre Feb. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572001000100005 

Síndrome da morte súbita do lactente

Sudden infant death syndrome

José Maria de Andrade Lopes1

J Pediatr (Rio J) 2000;77(1):9

A Síndrome da Morte Súbita (SMS) é definida como a ocorrência de óbito inesperado em lactente previamente saudável, onde um exame cuidadoso de necropsia não esclarece a causa da morte. Até a década de 80 era a principal causa de óbito, nos EUA, antes de um ano de vida, ocorrendo em cerca de 3-5/1.000 nascidos vivos. Sua incidência é maior nos meses frios do ano e entre os 2 e 4 meses de idade, com poucos casos relatados no primeiro mês de vida ou após os seis meses de idade (1).

Apesar de enormes avanços na medicina nos últimos anos, não sabemos exatamente a causa da SMS. As evidências de necropsia mostram sinais indiretos de hipoxia ou asfixia antes da morte, sugerindo uma causa respiratória decorrente de uma falha no controle da respiração. A maioria dos estudos no passado tentava investigar anormalidades no controle da respiração em irmãos ou pais de lactentes falecidos com a SMS, explorando a sensibilidade ao CO2 ou hipóxia. Inúmeros estudos tentaram também identificar anormalidades em lactentes trazidos aos serviços de saúde após serem ressuscitados em casa em decorrência da apnéia ou episódios de bradicardia e cianose. Apesar de intensa investigação não se conseguiu formular uma hipótese consistente para os eventos causais.

A partir de meados da década de 80, estudos da cena do óbito evidenciaram que a grande maioria dos lactentes estava em decúbito ventral no momento do óbito. A partir destes estudos, Academias de Pediatria de diversos países do mundo iniciaram campanhas para que se adotasse o decúbito dorsal até pelo menos os seis meses de vida, como possível forma de se prevenir a ocorrência da SMS. O resultado foi impressionante, com redução importante da incidência da Síndrome em muitos países do mundo. Nos EUA, por exemplo, dados recentes mostram que a incidência da SMS caiu de 3/1.000 em 1985 para 0,87/1.000 em 1995. Na Noruega, a queda foi ainda mais dramática, de 3,5/1.000 em 1985 a 0,3/1.000 em 1995 (2).

No Brasil, não temos informação sobre a incidência da SMS a não ser o relato isolado de alguns casos de forma anedótica . Além disso na maioria dos Estados a mortalidade no primeiro ano de vida ainda é elevada, por causas infecciosas, fazendo com a ocorrência de 2 a 3 casos em cada 1.000 nascimentos não chame a atenção.

Neste número do Jornal de Pediatria temos provavelmente a primeira publicação no País sobre a SMS, num estudo realizado no Rio Grande do Sul. Os autores investigaram 335 óbitos de lactentes com revisão de laudos de necropsia e questionários com as famílias nos anos de 1997 e 1998, tendo identificado 21 casos compatíveis com o diagnóstico de SMS. O primeiro dado importante deste trabalho é o fato que nenhum dos 21 óbitos tinha registrado no laudo da necropsia a “causa” morte súbita. O segundo fato é que a SMS existe em nosso meio e as evidências que cercaram o óbito são bastante semelhantes as condições observadas em outros países onde esta síndrome está bem estudada. A incidência da doença é baixa se comparada a dados da literatura, mas pode estar subestimada pela busca somente dos óbitos domiciliares (3).

A pergunta se a SMS ocorre em nosso País foi respondida pelos autores de uma forma definitiva. Estas observações precisam, agora, ser reproduzidas em outras regiões do País. A SMS tem que ser considerada em exames pos-mortem como “causa” pelos patologistas, que por sua vez devem estar atentos a sua ocorrência.

Na linha da prevenção é importante a conscientização dos profissionais de saúde, médicos, enfermeiras, auxiliares, todos aqueles envolvidos no cuidado de recém-nascidos, que têm oportunidade de orientar os pais sobre o decúbito ideal (decúbito dorsal- barriga para cima) para o bebê nos primeiros meses de vida. Embora errado, ainda é consenso em muitos lugares que o melhor decúbito é o ventral.

É fundamental implementarmos campanhas para o público leigo. Pais, avós, parentes e amigos exercem enorme influência sobre os cuidados do bebê, baseados em suas experiências prévias. Os meios de comunicação são extremamente eficazes para a divulgação de temas, orientações e conselhos às famílias e devemos tentar utilizá-los. As Sociedades Médicas, como a Sociedade Brasileira de Pediatria, devem se envolver ativamente na implementação da adoção dessa medida extremamente simples e altamente eficaz.

Sobe

Referências bibliográficas

1. Dwyer T, Ponsonby AL. SIDS epidemiology and incidence. Pediatr Ann 1995: 24:350-2.         [ Links ]

2. Skadberg BT, Morild I,Markestad T. Abandoning prone sleeping: effect on the risk of sudden infant death syndrome. J Pediatr 1998;132:340.         [ Links ]

3. Síndrome da morte súbita do lactente: aspectos clínicos de uma doença subdiagnosticada. J Pediatr (Rio J) 2001; 77:29-34.         [ Links ]

Sobe

1José Maria de Andrade Lopes - Chefe do Departamento de Neonatologia do Instituto Fernandes Figueira. Membro do Comitê de Perinatologia da SBP.