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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557On-line version ISSN 1678-4782

J. Pediatr. (Rio J.) vol.77 no.5 Porto Alegre Sep./Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572001000500001 

EDITORIAIS

 

Transplante de medula óssea em crianças: onde estamos nós?

 

Bone marrow transplant in children: where are we now?

 

 

Frederico Luiz Dulley

Professor Livre Docente FMUSP, Chefe de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

 

 

O transplante de medula óssea tem sido tema de inúmeras publicações ultimamente, mas em pediatria a literatura é bastante pobre e controversa. A publicação de Castro Jr., Gregianin e Brunetto traz importantes informações na área pediátrica, tanto nos aspectos teóricos como nos de cunho prático, de forma a facilitar o entendimento de sua abrangência, suas limitações e suas indicações.

O médico pediatra é o primeiro contato que o ser humano tem com a medicina e, às vezes, a doença grave faz com que esse contato seja difícil para ambos os lados, exigindo muito preparo, paciência e astúcia do médico para resolver problemas graves e amenizá-los ao máximo.

O artigo de revisão demonstra a capacidade de síntese dos autores, conhecimento do assunto e maturidade atingida no manejo destes pacientes, estando o serviço com uma boa casuística no transplante de medula óssea.

A literatura internacional sobre transplante de medula óssea em crianças é escassa, mas podemos citar alguns trabalhos de importância.

Com relação aos regimes de condicionamento, várias são as formas de combinações quimioterápicas associadas ou não à radioterapia corporal total.

Os resultados mostram que, cada vez mais, um número maior de crianças tem sobrevivido ao transplante de medula óssea, estando a maior parte delas curadas.

Contudo, a toxicidade dos regimes de condicionamento pode afetar o sistema neuroendócrino, comprometendo o crescimento e o desenvolvimento, ocorrendo especialmente em crianças com doenças malignas que receberam quimioterapia e/ou radioterapia antes do transplante e em crianças que são submetidas ao transplante antes da puberdade1,2.

Quando a radioterapia corporal total ou o agente alquilante como o bussulfano são utilizados, os pacientes apresentam um risco maior de desenvolverem anormalidades da função tireoideana3.

Alterações da função gonadal também ocorrem, podendo levar a um atraso no início da puberdade e infertilidade.

Se os pacientes forem submetidos ao transplante antes da puberdade, a chance de danos nas gônadas, levando à azoospermia e falência ovariana primária, é maior do que na fase pós-púbere.

Embora a disfunção gonadal ocorra em cerca de 90% dos casos, a possibilidade de recobrar a função gonadal existe e é maior para pacientes do sexo masculino4,5.

O grupo de Seattle descreve uma incidência de cerca de 5% de gestações em pacientes que foram submetidos ao transplante; nestas gestações, a incidência de anomalias congênitas foi de 3,8%6.

As crianças que foram submetidas ao transplante de medula óssea devem ser acompanhadas a longo prazo, com monitoramento das funções endócrinas, a fim de se iniciar precocemente a reposição hormonal, prevenindo-se efeitos tardios indesejáveis.

Congratulo os autores pela iniciativa, pelos conceitos emitidos e pelo poder de síntese na abordagem de um tema tão complexo, amplo e atual.

 

Referências bibliográficas

1. Sanders JE, Buckner CD, Sullivan KM, Doney K, Applebaum F, Witherspoon R, et al. Growth and development in children after bone marrow transplantation. Horm Res 1988;30:92-7.

2. Sanders JE, Buckner CD, Sullivan KM, Doney K, Applebaum F, Witherspoon R, et al. The impact of marrow transplant preparative regimens on subsequent growth and development. Sem Hem 1991,28:244-9.

3. Sanders JE, Pritchard S, Mahoney P, Amos D, Buckner CD, Deeg HJ, et al. Growth and development following marrow transplantation for leukemia. Blood 1986;68:1129-35.

4. Thibaud E, Rodrigues-Macias K, Trivin C, Espérou H, Michon J, Brauner R. Ovarian function after bone marrow transplantation during childhood. Bone Marrow Transpl 1998;21:287-90.

5. Mertens AC, Ramsay NKC, Kowis S, Naghia JP. Patterns of gonadal dysfunction following bone marrow transplantation. Bone Marrow Transpl 1988;22:345-50.

6. Sanders JE, Hawley J, Levy W, Gooley T, Buckner CD, Deeg JH, et al. Pregnancies following high dose cyclophosphamide with or without high dose busulfan or total-body irradiation and bone marrow transplantation. Blood 1996;87:3045-52.

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