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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.77 no.5 Porto Alegre Sep./Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572001000500003 

EDITORIAIS

 

Exposição pré-natal à cocaína

 

Fetal cocaine exposure

 

 

Ana Guardiola

Professora Adjunta de Neurologia da FFFCMPA. Doutora/ Livre-Docente em Neurologia Infantil

 

 

Os efeitos sobre o feto e o recém-nascido (RN) pelo uso de cocaína na gestante constituem um importante tópico de saúde pública, devido à incidência relativamente alta do uso dessa droga no mundo1.

A cocaína é a benzoimetilecgonina, um derivado das folhas das plantas do gênero eritroxilon, que atravessa a barreira hematoencefálica, assim como a placentária, atingindo concentrações cerebrais até quatro vezes as plasmáticas2. Tem sérios efeitos sobre o sistema nervoso central (SNC) e periférico do adulto e do feto, podendo causar alterações estruturais do SNC, cognitivas e comportamentais3-6.

São bem conhecidos os efeitos teratogênicos causados pela cocaína no cérebro em desenvolvimento, afetando a formação e a anatomia, atuando sobre os neurotransmissores, simulando ser um neurotransmissor ou modificando a atividade destes, ocasionando alterações no crescimento cerebral e na sua arquitetura1-3.

Podem ocorrer lesões destrutivas no SNC, infartos cerebrais, principalmente no território da artéria cerebral média em épocas diferentes do período pré-natal. O mecanismo das lesões destrutivas é multifatorial: hipoxemia, vasoespasmo, alterações nos canais de sódio e o efeito direto da cocaína no SNC, levando à morte celular1,7.

Dixon e Bejar8 relataram anormalidades na ultra-sonografia craniana em 41% dos recém-nascidos expostos à cocaína no período pré-natal, encontrando infartos cerebrais, lesões cavitárias, dilatações ventriculares, hemorragias subaracnóideas, hemorragias subependimárias e intraventriculares. Por outro lado, King et al.9 não encontraram diferenças na prevalência ou na gravidade de hemorragias intraventriculares e de anormalidades na ultra-sonografia entre recém-nascidos expostos à cocaína e os controles.

As alterações neurológicas mais comumente observadas na exposição intra-uterina à cocaína são microcefalia, agenesia de corpo caloso, agenesia de septo pelúcido, displasia de septo óptico, esquizencefalia, lisencefalia, paquigiria, heterotipias neuronais, mielomeningocele e onfalocele. Até o momento, não se sabe exatamente os mecanismos básicos destes efeitos teratogênicos, mas pensa-se que a hipoxemia, as alterações na síntese do ácido desoxirribonucléico e as alterações das monoaminas centrais devam estar envolvidas1,7.

Pode-se observar hipertensão, taquicardia e hipertermia materna e fetal, podendo ocorrer, por esses fatores ou pela ação direta da droga, diminuição do fluxo sangüíneo uterino, hipoxemia fetal, abortamento, malformações, prematuridade, descolamento prematuro de placenta, retardo de crescimento, alterações eletrocardiográficas do RN, risco para enterocolite necrotizante e síndrome de morte súbita do lactente.

O artigo Prevalência da exposição pré-natal à cocaína em uma amostra de recém-nascidos de um hospital geral universitário, publicado neste número do Jornal de Pediatria, constitui importante contribuição para a medicina materno-infantil. Quando os autores avaliaram a prevalência da exposição pré-natal à cocaína somente através da entrevista com 739 mães, foram diagnosticados 16 (2,4%) RNs expostos à cocaína. Quando foi feita a pesquisa somente através da análise de 738 mecônios, encontraram 25 RNs expostos, elevando a taxa para 3,4%. Quando os métodos para detecção foram considerados de forma complementar, entrevista e testagem meconial, esta taxa aumentou para 34 casos, com uma prevalência de 4,6%.

Com estes dados fica claro, sem dúvida alguma, que uma política de saúde pública de combate às drogas e de cuidados materno-infantis deve ser estabelecida, pois os efeitos deletérios nas crianças são assustadores, comprometendo a saúde da população infantil e, portanto, o futuro de uma nação.

É importante salientar que o uso de drogas geralmente não ocorre de forma isolada, estando associado a outros fatores como baixas condições socioeconômicas, falta de perspectiva, taxa elevada de desemprego, além do elevado risco de doenças sexualmente transmitidas, especialmente a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, as quais acarretam importantes conseqüências para a mãe e para o feto, constituindo um importante desafio da medicina materno-infantil10.

 

Referências bibliográficas

1. Volpe JJ. Teratogenic effects of drugs and passive addiction. In: Volpe JJ. Neurology of the Newborn. 4ª ed. Philadelphia: Saunders; 2001. p.859-95.

2. Mayes LC. Neurobiology of prenatal cocaine exposure. Effect on development of monoamine systems. Infant Mental Health Journal 1994;15:121-33.

3. Ferraro F, Ferraro R, Massard A. Consequences of cocaine addiction during pregnancy on the development in the child. Arch Pediatr 1997;4:677-82.

4. Chiriboga CA, Brust JC, Bateman D, Hauser WA. Dose-response effect of fetal cocaine exposure on newborn neurologic function. Pediatrics 1999;103:79-85.

5. Potter SM, Zelazo PR, Stack DM, Papageorgiou AN. Adverse effects of fetal cocaine exposure on neonatal auditory information processing. Pediatrics 2000;105:E40.

6. Singer LT, Arendt R, Minnes S, Salvator A, Siegel AC, Lewis BA. Developing language skills of cocaine-exposed infants. Pediatrics 2001;107:1057-64.

7. Volpe JJ. Effect of cocaine use on the fetus. N Engl J Med 1992;327:399-407.

8. Dixon SD, Bejar R. Echoencephalographic findings in neonates associated with maternal cocaine and methamphetamine use: incidence and clinical correlates. J Pediatr 1989;115:771-8.

9. King TA, Perlman JM, Laptook, AR, Rollins N, Jackson G, Little B. Neurologic manifestations of in utero cocaine exposure in near-term and term infants. Pediatrics 1995;96:259-64.

10. Woods JR Jr. Adverse consequences of prenatal illicit drug exposure. Curr Opin Obstet Gynecol 1996;8:403-11.