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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.77 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572001000600004 

EDITORIAL

 

Indução de empiema em ratos através da inoculação pleural de bactérias

 

Experimental empyema in rats through intrapleural injection of bacteria

 

 

Eduardo Henrique GenofreI; Francisco S. VargasII

IPós-graduando (Doutorado), Disciplina de Pneumologia da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo
IIProfessor Titular, Disciplina de Pneumologia da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo

 

 

O derrame pleural parapneumônico está presente em 40% dos casos de pneumonia; destes apenas uma pequena parcela complica ou evolui para empiema, necessitando drenagem1. O empiema não decorre, porém, exclusivamente de processo pneumônico, pode ser conseqüente a trauma torácico ou a procedimentos cirúrgicos. O tratamento local se fundamenta na drenagem da cavidade pleural através da colocação de dreno tubular em selo d'água. Outras condutas associadas incluem o uso de fibrinolíticos e procedimentos cirúrgicos, como a toracoscopia e a toracotomia para decorticação cirúrgica. Apesar de todos os avanços nos aspectos diagnósticos e terapêuticos, ainda é alta a morbimortalidade tanto em crianças quanto em adultos, justificando as pesquisas que, nesta área, visam a diminuir esses índices1.

Estudos prospectivos para avaliação do empiema pleural, investigando tanto a fisiopatologia quanto a terapêutica, são difíceis de realizar na população humana. Por essa razão, são utilizados modelos experimentais animais, que permitem avaliação homogênea e temporal dos fenômenos envolvidos, possibilitando, inclusive, testar novas propostas terapêuticas.

Os modelos experimentais em empiema são, em geral, caros e trabalhosos. O modelo que melhor mimetiza o empiema em humanos foi idealizado por Sasse e colaboradores2. Nesse modelo, localiza-se o espaço pleural do coelho através de um transdutor de pressão e se injeta Pasteurella multocida2-4. Como em geral esses animais desenvolvem sepse após a injeção dessa bactéria, recomenda-se o tratamento concomitante com penicilina por via intramuscular. Entretanto, esse modelo, apesar de reproduzir os resultados e permitir o estabelecimento de protocolos prospectivos, torna-se complexo, caro e trabalhoso para a nossa realidade3.

Outro modelo, idealizado por Tonietto e colaboladores5, utiliza a inoculação intrapleural de Staphylococcus aureus, entretanto a técnica por eles sugerida requer entubação traqueal, anestesia inalatória e toracotomia, aumentando a complexidade do procedimento e dificultando a reprodução dos experimentos.

O estudo atual de Fraga e colaboradores, publicado neste número do Jornal de Pediatria, baseado em outros modelos experimentais, tem como objetivo avaliar a indução experimental de empiema em ratos, de forma mais simples e econômica.

Os autores confirmaram a produção de empiema através da injeção intrapleural de Pasteurella multocida. Entretanto, mostraram a necessidade da administração sistêmica de doses controladas de antibiótico para evitar o aparecimento do quadro infeccioso sistêmico. Observaram que a oferta ad libitum do antibiótico não previne a disseminação da infecção, possivelmente por não serem atingidos níveis plasmáticos adequados. Interessante seria, em estudos futuros, determinar os níveis séricos dos antibióticos usados dessa forma.

É importante ressaltar que, além da simplificação metodológica proposta, o modelo de empiema de Fraga e colaboradores produz melhores resultados. A mortalidade foi drasticamente reduzida, e as evidências macroscópicas de empiema foram mais expressivas após a instilação intrapleural de Staphylococcus aureus.

Deve-se enfatizar a importância desse estudo. Em um país como o nosso, no qual a pesquisa ainda é pouco desenvolvida, onde em muitos centros há escassez de recursos, tanto materiais quanto humanos, é fundamental que se desenvolvam grupos empenhados em colaborar com o aprimoramento tecnológico e científico, de forma barata e tão eficaz quanto possível.

Nesse criativo estudo, é possível verificar que a técnica utilizada representa grande avanço na indução do empiema experimental, abrindo novos horizontes para pesquisas nesta área. Entretanto, a aplicabilidade para os seres humanos, dos dados encontrados no empiema em ratos ou coelhos, precisa ainda ser avaliada em novas pesquisas. A proposta de Fraga e colaboradores é certamente uma contribuição valiosa para estes estudos.

 

Referências bibliográficas

1. Light RW. Pleural Diseases. 3ª ed. Baltimore: Williams and Wilkins; 1995.

2. Sasse SA, Causing LA, Mulligan ME, et al. Serial pleural fluid in a new experimental model of Empyema. Chest 1996; 109:1043-8.

3. Teixeira LR, Sasse AS, Villarino MA, et al. Antibiotic levels in empyema pleural fluid. Chest 2000; 117:1734-9.

4. Sasse S, Nguyen TK, Mulligan M, et al. The effects of early chest tube placement on empyema resolution. Chest 1997; 111:1679-83.

5. Tonietto T, Pilla, ES, Madke GR, et al. Empiema pleural experimental em ratos: avaliação dos efeitos do uso intrapleural de Dextran-40 na fase fibrinopurulenta. J Pneumol 1999; 25:147-52.