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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.78 no.4 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572002000400013 

Ferro, cobre e zinco em adolescentes no estirão pubertário

Iron, copper and zinc in adolescents during pubertal growth spurt

Marcia R.D. Urbano1, Maria S.S. Vitalle2, Yara Juliano3, Olga M.S. Amancio4

 

 

RESUMO

ABSTRACT

Objetivo: verificar o estado nutricional relativo ao ferro, cobre e zinco e a correlação entre índice de massa corporal, níveis séricos e dietéticos desses elementos, em adolescentes durante o estirão pubertário.

Métodos: estudo descritivo, do tipo corte transversal, envolvendo uma amostra de 47 adolescentes atendidos em ambulatório de adolescência clínica, durante o período de março a dezembro de 1999, que se apresentavam no estirão pubertário, do total de 360 que freqüentaram o ambulatório no período, sendo 19 rapazes na faixa etária de 12,3 a 16 anos, e 28 moças na faixa etária de 11,1 a 13,6 anos. Variáveis analisadas: dietética (recordatório de 24 horas, freqüência e registro alimentar) para determinar a ingestão de ferro, cobre e zinco; antropométrica (peso e altura) para aferição do índice de massa corporal; bioquímica (dosagem sérica de ferro pelo kit in vitro Diagnóstica, ferritina pelo kit Immulite, cobre e zinco por espectrofotometria de absorção atômica). Utilizou-se o coeficiente de Spearman para análise estatistíca.

Resultados: dos 47 adolescentes em estirão pubertário, apresentaram ingestão adequada de: ferro (95% e 36%), cobre (53% e 57%) e zinco (21% e 21%) nos sexos masculino e feminino, respectivamente. A maioria dos adolescentes era eutrófica segundo os percentis do IMC. Bioquimicamente, os rapazes apresentaram valores normais para ferro e zinco em toda a amostra; para cobre em 95% e para ferritina em 84%. As moças também apresentaram valores normais de ferro e zinco; para cobre em 96,4% e para ferritina em 96%. Não houve correlação estatisticamente significante entre IMC e concentração sérica de ferro, ferritina, cobre e zinco, e entre concentração sérica e ingestão dietética dos minerais estudados, nem tampouco para a relação ferro sérico e ferritina.

Conclusões: não se sabe, até o momento, se os níveis séricos de zinco e cobre flutuam durante o crescimento, ou se cada indivíduo tem um nível estável destes minerais durante o estirão. Os níveis séricos normais de ferro, cobre e zinco na maioria dos adolescentes avaliados podem estar refletindo a habilidade do organismo em fazer ajustes homeostáticos.

ferro, cobre, zinco, adolescente, estirão pubertário.

Objective: to examine iron, copper and zinc nutritional status and their correlation with Body Mass Index (BMI), serum and dietetic levels in adolescents during the pubertal growth spurt.

Methods: a descriptive cross-sectional study involving a sample of 47 adolescents out of 360 patients (19 boys, whose ages ranged from 12.3 to 16 years and 28 girls, whose ages ranged from 11.1 to 13.6 years), who were seen at a clinic for adolescents from March to December 1999. The variables analyzed were: Diet (24 hours Dietary Recall, Food Frequency Intake Questionnaire and Food Register Methods) to determine iron, copper and zinc intake; anthropometry (weight and height) to check BMI; biochemistry (measure of serum iron level through a Diagnóstica kit in vitro; ferritin through Immulite kit, and atomic absorption spectrophotometry for biochemical evaluation of serum iron, ferritin, copper and zinc. Spearman coefficient correlation was used for statistical analysis.

Results: forty seven adolescents during pubertal growth spurt showed adequate ingestion: iron (95% and 36%), copper (53% and 57%) and zinc (21% and 21%) in males and females, respectively. Most of them were eutrophic according to the BMI percentiles. Biochemically, boys presented normal values for serum iron and zinc in the whole sample, 95% for copper and 84% for ferritin. Girls also presented normal values for iron and zinc values in the whole sample, 96.4% for copper and 96% for ferritin. There were no statistically significant correlation between BMI and serum Fe, ferritin, Cu and Zn concentrations and between serum concentration and dietetic ingestion of the studied minerals, neither between serum iron and ferritin.

Conclusions: it is not clear if serum levels of Zn and Cu are floating during the growth process or if each adolescent has a stable level of these minerals during the pubertal growth spurt. Normal Fe, Cu and Zn serum levels in most adolescents evaluated may reflect the organism ability to accomplish homeostatic adjustments.

iron, copper, zinc, adolescent, puberty growth spurt.

 

 



Introdução

O processo de maturação sexual e a maior velocidade de crescimento na adolescência geralmente começam e terminam na segunda década da vida. A idade de desenvolvimento, tal como avaliado pelo estágio de maturação sexual e/ou idade óssea, constitui uma base mais precisa do que a idade cronológica para o estudo dos adolescentes(1). Dentro desta variabilidade normal na maturação sexual na fase da puberdade, adolescentes da mesma idade podem ser impúberes, púberes, ou apresentarem fenótipo adulto.

A velocidade máxima do crescimento muscular ocorre no pico do estirão no sexo masculino e após o estirão, juntamente com a menarca, no sexo feminino. A maturação e as fases de crescimento estão envolvidas no diagnóstico e prognóstico nutricional, e são determinantes das necessidades nutricionais a cada momento da adolescência(2). Portanto, a nutrição apropriada é uma das necessidades básicas de saúde para que os adolescentes possam expressar adequadamente o seu potencial genético, em termos de crescimento e desenvolvimento(3).

Devido ao surto de crescimento na adolescência, a necessidade de alguns minerais é de particular importância. O consumo de dietas inadequadas durante a adolescência podem retardar potencialmente o crescimento e a maturação sexual, e o consumo excessivo de alguns tipos de alimentos pode aumentar o risco de desenvolvimento de doenças crônicas na adolescência(3). O zinco, o cobre e o ferro são elementos-traço essenciais envolvidos no crescimento do adolescente(4).

O ferro é essencial para a expansão do volume sangüíneo e da massa muscular, exercendo funções metabólicas ou enzimáticas e de estoque na forma de ferritina e hemossiderina para manter a homeostase. Quando o ferro da dieta não está adequado, os estoques de ferro são mobilizados para manter a produção de hemoglobina e outros componentes que contêm ferro(5). Na puberdade, os valores de ferritina sérica aumentam no sexo masculino, ao passo que no sexo feminino esses valores continuam estáveis durante a adolescência e na vida adulta, alcançando os valores do sexo masculino somente após a menopausa. Déficits de atenção, desempenho ruim em testes de inteligência, mudanças de comportamento e de humor, lassitude e piora do rendimento escolar estão associados com deficiência de ferro também em adolescentes(6). Os jovens, assim como os lactentes, normalmente contêm muito mais cobre por unidade de peso corporal do que os adultos. Necessário ao crescimento e fator importante para muitos sistemas enzimáticos, o cobre também está envolvido na síntese da hemoglobina, oxidando o ferro ferroso para ferro férrico, e na formação da trasferrina, por meio da ceruloplasmina. O zinco, co-fator essencial para quase 200 enzimas, participa no crescimento celular especificamente como co-fator de enzimas necessárias para a síntese do ácido ribonucléico (RNA) e desoxirribonucléico (DNA), e controla o crescimento e o desenvolvimento gonadal, além de outras funções. Adolescentes têm necessidades maiores de zinco/kg de peso do que os adultos, devido ao papel essencial deste metal no crescimento e na maturação sexual(7). Pelo exposto, justifica-se averiguar o estado nutricional relativo ao ferro, ao cobre e ao zinco em adolescentes durante o estirão pubertário.

Métodos

Estudo transversal realizado de 1º de março a 10 de dezembro de 1999, no ambulatório de adolescência clínica do Núcleo de Nutrição, Alimentação e Desenvolvimento Infantil – NUNADI, da Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo, no município de São Paulo (SP), que atende a população de adolescentes de baixo nível econômico. Avaliou-se amostra de 47 adolescentes no estirão pubertário, dos 360 que freqüentaram o ambulatório no período, sendo 19 do sexo masculino, com idade mediana de 13,9 anos (variação de 12,3 a 16 anos), dos quais 13 em estadio G3, e seis em G4. As 28 adolescentes do sexo feminino tinham idade mediana de 12,2 anos (variação de 11,1 a 13,6 anos), estando duas em M2 e 26 em M3(8). O critério de exclusão foi a presença de patologia aguda ou crônica clinicamente evidente no momento da consulta e o uso de suplementos nutricionais. O critério de inclusão foi estar no estirão pubertário. Do total de 50 pacientes no estirão pubertário, não foram inclusos três pacientes, pois não compareceram para a coleta de exames, constituindo-se a amostra final em 47 adolescentes. O exame clínico e a aferição do estadiamento puberal foram realizados por médico de adolescentes, treinado, participante do estudo, e os demais dados foram coletados pelo nutricionista responsável pelo trabalho.

A avaliação dietética foi feita pelos métodos recordatório de 24 horas, de freqüência alimentar, e o de registro alimentar(9) por quatro dias consecutivos, sendo um de final-de-semana. Para o cálculo das quantidades ingeridas de ferro, cobre e zinco, utilizou-se o programa validado e padronizado Virtual Nutri – USP(10). A ingestão dietética calculada foi comparada com o Recommended Dietary Allowances - RDA(11).

Para a tomada de peso corporal, foi utilizada balança plataforma da marca Filizola, com graduação de 100 em 100 gramas, tarada antes de cada pesagem; para a tomada da estatura, o estadiômetro da própria balança Filizola, e realizado o cálculo do índice de massa corporal – IMC (peso/estatura(2))(12). Os valores obtidos foram comparados aos valores de referência de Must(13), e classificados em magros, eutróficos, sobrepesos e obesos, conforme critérios de Himes & Dietz(14).

Avaliação bioquímica: amostras de sangue foram coletadas com os indivíduos em jejum, entre 8:00 e 9:00h. As amostras de soro foram estocadas a -18oC até o momento das dosagens. O soro foi diluído com água desionizada através do Sistema Milli-Q-Plus (Millipore Co.), na proporção de 1:5, e as concentrações de cobre e zinco foram determinadas por espectrofotometria de absorção atômica (Perkin-Elmer, mod. 5.100), nas seguintes condições: comprimento de onda 324,8nm (Cu) e 213,9nm (Zn); fenda 0,7nm; chama oxidante acetileno/ar; energia 71 (Cu) e 63 (Zn); leitura em duplicata com tempo de integração de 2 segundos.

Soluções-padrão de 100mg metal/l (Perkin Elmer, PEN 4300183 para Cu e PEN 9300178 para Zn) foram diluídas em glicerol a 10% (Cu) e glicerol a 5% (Zn), resultando em soluções-padrão de trabalho contendo 0,1; 0,2; 0,3; 0,5; 1,0 e 2,0mg de Cu ou Zn/l. A acurácia foi monitorada pela comparação com a solução comercial Quality Control Standard 21 (Perkin Elmer, PEN 9300281) para ambos os elementos. Todos os reagentes utilizados eram de grau analítico, e vidraria lavada com ácido foi usada em todo estudo.

Para a determinação do ferro sérico, foi utilizado o kit in vitro Diagnóstica CAT 015, que adota o método Goodwim modificado (Ferrozine), e para a ferritina, o kit Ferritin–Immulite, que utiliza ensaio imunométrico. Os resultados foram expressos em mg do elemento/dl, e os valores de referência adotados foram 45 a 50mg/dl para o ferro, 70 a 140mg/dl para o cobre, 50 a 120mg/dl(15) e acima de 12mg/l para a ferritina(16), para os dois sexos.

Para a análise estatística, utilizou-se o coeficiente de correlação de Spearman(17) para comparar o IMC com as dosagens séricas de ferro, cobre e zinco e os valores de ingestão destes oligoelementos com suas respectivas dosagens séricas. Adotou-se a a £ 5%.

Este trabalho foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo e do NUNADI, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Foi obtido dos pais ou responsáveis o prévio consentimento por escrito.

Resultados

Em relação à ingestão dos micronutrientes, 18 rapazes apresentaram adequação para ferro, dez para o cobre e quatro para o zinco. Das moças, dez apresentaram ingestão adequada de ferro, 16 de cobre e seis de zinco (Tabela 1). A Tabela 2 mostra as médias de ingestão dietética diária de Fe, Cu e Zn em comparação com as recomendações (RDA). Observa-se que a média de ingestão diária de ferro, no sexo masculino, apresenta-se acima do recomendado; e a ingestão média diária de zinco está abaixo do recomendado nos dois sexos.

 

 

 

 

Os adolescentes do sexo masculino apresentaram as médias de peso corporal e de estatura de 47,5 + 6,8 kg e 160,2 + 7,7cm, respectivamente, e a mediana do IMC de 18kg/m2. No sexo feminino, o peso corporal médio era de 43,4 + 12,5 kg, estatura média de 150,6 + 8,3cm, e IMC de 17,5 kg/m2. A Tabela 3 mostra que a maioria da amostra (16 rapazes e 21 moças) era eutrófica; dois adolescentes do sexo masculino eram magros, e um com sobrepeso. No sexo feminino, duas das adolescentes eram magras, duas com sobrepeso, e três obesas.

 

 

Todos os adolescentes apresentaram ferro sérico normal, com médias de 104,31mg/dl e 96,99mg/dl para rapazes e moças, respectivamente. A ferritina estava diminuída em três rapazes e uma moça, sendo a média de 37,36 para o sexo masculino, e 33,28mg/dl para o sexo feminino. Em relação ao cobre, 18 rapazes e 27 moças apresentaram valores de cobre sérico normais (Tabelas 4 e 5). A Tabela 4 mostra que a média da concentração de cobre sérico era de 98,82mg/dl no sexo masculino, e 101,48mg/dl no sexo feminino. A concentração sérica de zinco nos adolescentes do sexo masculino era de 88,66mg/dl, e nas adolescentes 77,50mg/dl, portanto todos exibiam valores de zinco sérico normais.

 

 

 

 

 

O tempo de acompanhamento dos 39 pacientes variou de 3,9 a 141,6 meses, com média de 47 ± 34,8 meses. Ocorreram sete óbitos (17,9%), e dois pacientes (5,1%) abandonaram o acompanhamento após 14,7 e 75,5 meses. O tempo de tratamento de seis pacientes que morreram variou de 2,8 a 114,2 meses, com média de 37,6 (±16,3).

Não houve correlação entre o IMC e os níveis séricos de ferro, ferritina, cobre e zinco nos dois sexos (Tabela 6). Os níveis séricos de ferro e cobre também não apontaram correlação com a ingestão dietética destes minerais, tanto no sexo masculino (r= –0,139 e 0,290) quanto no sexo feminino (r=0,094 e –0,76). Os adolescentes apresentaram correlação fraca e negativa (r= –0,48) entre a concentração sérica e a ingestão dietética de zinco, não sendo estatisticamente significante. No sexo feminino, não houve correlação (r= 0,336). Quando se relacionou a ferritina com os valores de ferro sérico, não houve correlação, tanto no sexo masculino (r=0,178) quanto no feminino (r=0,006).

 

 

Discussão

Apesar de a ingestão média diária de cobre nos dois sexos estar dentro da faixa de recomendação, observou-se que 9 rapazes e 12 moças apresentaram ingestão abaixo do mínimo recomendado. Em relação ao zinco, a maioria (15 rapazes e 22 moças) apresentou ingestão inadequada (Tabelas 1 e 2 ). Isso pode ser explicado pela composição da dieta brasileira, que é à base de arroz com feijão(18), portanto pobre em proteína de origem animal. Observando os alimentos comumente presentes no inquérito de freqüência alimentar, pode-se notar que as proteínas de origem animal, fontes de cobre e zinco, são escassas. Um trabalho, entre outros, que avaliou a ingestão destes minerais em adolescentes do sexo feminino relatou ingestão inadequada de cobre(19). Greger et al.(20), avaliando o estado nutricional relativo ao ferro, cobre e zinco em 267 adolescentes de Indiana/EUA, na faixa etária de 11 a 15 anos, relataram que o consumo de zinco alcançou 75% do recomendado, sendo que metade das moças consumiam menos que dois terços da quantidade recomendada. Em relação ao ferro, a ingestão inadequada por adolescentes do sexo feminino também foi observada. Assim sendo, Bergströn et al.(1995)(21), analisando a dieta de 731 adolescentes suecos, com médias de idade de 14 a 17 anos, relataram que a ingestão de ferro foi 1,6 vezes do recomendado para rapazes, e 0,9 vezes do recomendado para moças. Os resultados que encontramos em relação a ingestão de ferro são bastante desfavoráveis para as adolescentes, pois estas ainda não estão sofrendo as perdas menstruais e possivelmente entrarão na idade reprodutiva com baixos estoques de ferro. Sendo estes minerais bastante importantes para o crescimento, tornam-se preocupantes as baixas ingestões encontradas.

A análise bioquímica mostrou que todos os adolescentes apresentaram valores de ferro e zinco dentro do padrão de referência. Em relação ao ferro, há relato com resultado similar a este estudo, porém não considera o estirão pubertário(22). Os meninos têm maior risco de deficiência de ferro durante o período inicial da adolescência, que corresponde ao período de crescimento rápido. Muitas meninas apresentam risco de deficiência mais tarde, o qual provavelmente se traduz pelas perdas de ferro ligadas às perdas menstruais(23). No presente estudo, parece que no estirão pubertário estes riscos de deficiência estavam atenuados, já que o ferro sérico estava normal na amostra estudada (Tabela 5). O maior ganho de massa muscular, portanto maior necessidade de ferro, é alcançado no pico do estirão somente no sexo masculino, pois no sexo feminino isto ocorre por ocasião da menarca, ou seja, após o estirão. Considerando os estadios do estirão pubertário, Castillo-Durán et al.(24) investigaram o efeito da suplementação de zinco no período de um ano em adolescentes chilenos com baixa estatura idiopática, separado-os em grupos de impúberes (estadio I) e púberes (outros estadios). Para os adolescentes, nos dois sexos, que receberam placebo e cursavam a puberdade, o valor médio de zinco sérico foi adequado. Porém, neste estudo, estavam incluídos os adolescentes que ainda iriam entrar no estirão (os rapazes em G2), aqueles que efetivamente estavam no estirão (G3 e G4), e os que já haviam passado do estirão (G5). Outro trabalho que também considerou o estirão pubertário não relatou diferenças significativas na concentração de zinco sérico de adolescentes agrupados nos estadios de Tanner em 1-2, 3 e 4-5 para os dois sexos. Quando agrupados por idade, os rapazes de 13 a 14 anos apresentaram diminuição significativa de zinco sérico, comparado com grupos de outras idades. Devido a isso, os autores sugeriram que rapazes apresentam demanda de zinco aumentada nos primeiros estágios da puberdade. Mesmo classificando os adolescentes nos estadios de Tanner, os que estavam no estirão pubertário foram misturados com os impúberes e os pós-puberdade(25).

Em relação à ferritina, três rapazes e uma moça estavam com valores abaixo do adotado como referência, possivelmente devido à maior formação de massa muscular nos rapazes do que nas moças no período do estirão. Quando se observa que 18 moças estão com ingestão inadequada de ferro, e toda a amostra exibe valores séricos normais de ferro e ferritina (Tabelas 4 e 5), pode-se pensar que os estoques de ferro estão sendo mobilizados para manter estes níveis, pois a concentração do ferro sérico reflete o equilíbrio entre ferro absorvido, ferro utilizado na síntese de hemoglobina, ferro liberado na destruição de eritrócitos e o tamanho do compartimento de depósito, ou seja, representa um equilíbrio preciso entre a entrada e a saída do ferro da circulação.

Quando se classificou os adolescentes nos percentis do IMC, três moças eram obesas (Tabela 3). Apesar de estudos nacionais representativos da obesidade na adolescência serem escassos, trabalho multicêntrico realizado nas cinco regiões brasileiras, avaliando 13.715 adolescentes na faixa etária de 10 a 19 anos de idade, relatou a prevalência maior de sobrepeso e obesidade no sexo feminino(26). Em virtude do risco de obesidade ser maior depois da menarca, e a obesidade na adolescência persistir até a vida adulta, a constatação da obesidade em adolescentes no estirão, isto é, antes da menarca, é bastante preocupante.

Não houve correlação entre o IMC e os níveis séricos de ferro, ferritina, cobre e zinco nos dois sexos (Tabela 6), o que provavelmente indica aumento na absorção intestinal de ferro para atender as demandas deste mineral durante o estirão pubertário. Vale ressaltar que o hormônio do crescimento mobiliza os estoques de ferro, e pode estar influenciando estes resultados. Laitinen et al.(27), em estudo com adolescentes, mostraram correlação positiva para o cobre, porém abrangendo as fases pré e pós-estirão pubertário, o que impossibilita a comparação com nossos resultados. Antilla et al.(22), em estudo longitudinal, durante dois anos, na Finlândia, que envolveu 60 adolescentes do sexo masculino, mostraram que houve queda nos valores de ferritina sérica no decorrer de dois anos de seguimento, porém não conseguiram correlacionar os estoques de ferro com o ferro sérico, nem tampouco a ferritina com o IMC.

Os níveis séricos de ferro, cobre e zinco não apresentaram correlação com a sua ingestão dietética nos dois sexos, exceto o zinco, que nos adolescentes do sexo masculino teve correlação fraca e negativa, não sendo estatisticamente significante (Tabela 6). Outros trabalhos sobre o status de ferro na adolescência correlacionaram outros parâmetros de ferro com a ingestão deste mineral. Assim sendo, Fernández-Ballart et al.(28), na Espanha, estudando 302 crianças saudáveis na faixa etária de 6 meses a 15 anos de idade, não encontraram correlação entre os nutrientes ingeridos e os parâmetros bioquímicos. Greger et al.(20) não acharam correlação entre ingestão de ferro, hemoglobina e hematócrito em adolescentes do sexo feminino.

Parece que a concentração sérica de ferro sofre outras influências tão importantes quanto a da ingestão dietética. Sabe-se que a anemia é doença nutricional de maior prevalência mundial, que começa na infância e persiste na adolescência, porém, no Brasil, estudos epidemiológicos em adolescentes são poucos, em comparação com os demais grupos de risco. Nos países em desenvolvimento, a prevalência de anemia na adolescência tem taxas elevadas, que podem variar de 9 a 50%(29). A interação entre os minerais é de extrema importância para o seu aproveitamento pelo organismo. Rodriguez-Matas et al.(30), estudando ratos deficientes em ferro, demonstraram que a restrição de ferro após 30 a 40 dias provocou alterações marcantes no metabolismo do cobre e do zinco.

Apesar de 9 rapazes e 12 moças apresentarem ingestão de cobre inadequada, a concentração sérica da maioria dos adolescentes estava adequada (Tabelas 4 e 5). Este fato poderia ser explicado pela secreção de estrógeno, que aumenta os níveis de cobre sérico(31). Klevay sugere que os valores de cobre sérico são proporcionais ao nível de estrógeno circulante(32). Outra explicação seria o mecanismo de regulação do cobre pelo organismo, ou seja, quando a ingestão de cobre é baixa, o organismo se protege da depleção, excretando pequenas quantidades, isto é, a eficiência da absorção de cobre varia inversamente à quantidade de cobre ingerida(33). Turlund et al.(34) observaram que, apesar da baixa ingestão de cobre, os adolescentes tiveram balanço positivo. Esta situação sugere que o limite mínimo estabelecido pela faixa de recomendação está muito alto, ou a deficiência marginal de cobre pode ser comum, mas difícil de diagnosticar, ou a água fornece quantidade adicional de cobre para alcançar as necessidades, ou, ainda, a combinação destes fatores.

Pode-se observar que a maioria dos adolescentes (Tabela 1) apresentou ingestão dietética de zinco inadequada (15 rapazes e 22 moças), abaixo das recomendações (RDA); no entanto, estavam com níveis séricos de zinco normais. Sabe-se que o zinco sérico está diminuído quando a restrição na dieta ocorre por período de tempo prolongado. Sendo assim, os resultados aqui observados podem ser explicados pela habilidade do organismo em fazer ajustes homeostáticos a diferentes níveis de ingestão de zinco. Parece ser difícil determinar o nível de ingestão de zinco abaixo da recomendação, no qual o organismo não consiga fazer a compensação. Assim, as deficiências de zinco provavelmente ocorrem em função de alguma falha na resposta homeostática compensatória do organismo, ou pela baixa ingestão dietética a longo prazo. O zinco desempenha papel importante no crescimento e na maturação sexual, como já demonstrado em trabalho realizado com primatas saudáveis(35), mostrando que o zinco dietético pode ser um fator limitante do crescimento na adolescência. Assim sendo, os primatas em estirão pubertário que sofreram privação de zinco, mas com ingestão adequada de outros nutrientes, apresentaram retardo no crescimento, na maturação sexual e diminuição de zinco sérico.

Embora os adolescentes estejam ingerindo cobre e zinco abaixo das recomendações, os tradicionais indicadores bioquímicos do estado nutricional destes minerais exibem valores dentro da faixa de normalidade. Não está claro se as recomendações diárias de ingestão podem estar desnecessariamente altas, ou se os indicadores bioquímicos comumente utilizados não tenham sensibilidade e especificidade necessárias para avaliar o estado nutricional destes minerais. Não sabemos se os valores séricos individuais de zinco e cobre flutuam durante o crescimento, ou se cada indivíduo tem um nível bastante estável destes minerais durante o crescimento, o que aponta para a necessidade de estudos populacionais comparando os níveis de ferro, cobre e zinco antes e após o estirão pubertário dos adolescentes.

A literatura, de modo geral, utiliza a distribuição por faixa etária, e não o momento fisiológico (maturação sexual) em que o adolescente se encontra. Durante as mudanças corporais que acontecem nos diversos estadios de maturação, são necessários cuidados nutricionais diferentes para cada sexo. Além disso, o ferro, o cobre e o zinco são elementos transacionais com interações biológicas fortemente relacionadas, fazendo-nos questionar se a suplementação de ferro é valida ou não neste momento tão importante de crescimento dos adolescentes.

 

Sobe

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Endereço para correspondência:
Dra. Marcia R.D. Urbano
Rua Luis de França Júnior, 100 - casa 62
CEP 04648-070 – São Paulo, SP
Fone: (11) 5549.8993
E-mail: vitalle.dped@epm.br

Sobe

1 Marcia R.D. Urbano - Mestre em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM).
2 Maria S.S. Vitalle - Doutora em Medicina pela UNIFESP/EPM.
3 Yara Juliano - Professora Titular de Saúde Coletiva – Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro.
4 Olga M.S. Amancio - Professora Adjunta-doutora do Departamento de Pediatria da UNIFESP/EPM

Artigo de tese apresentada à Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina para obtenção do Título de Mestre em Ciências Aplicadas à Pediatria – Área de Nutrição. Auxílio financeiro: CAPES.
Artigo submetido em 20.12.01, aceito em 08.05.02.