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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.78 no.5 Porto Alegre Sept./Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572002000500003 

O que significa a avaliação do estado nutricional

The meaning of nutritional status assessment

Elza Daniel de Mello*

 

 

A avaliação do estado nutricional é uma etapa fundamental no estudo de uma criança, para que possamos verificar se o crescimento está se afastando do padrão esperado por doença e/ou por condições sociais desfavoráveis. Ela tem por objetivo verificar o crescimento e as proporções corporais em um indivíduo ou em uma comunidade, visando estabelecer atitudes de intervenção. Assim, quanto mais populações e/ou indivíduos são avaliados do ponto de vista nutricional, e quanto mais seriadas são essas avaliações, mais intervenções precoces podem ser instituídas, certamente melhorando a qualidade de vida da população de uma forma geral. Não existe forma de diminuir a desnutrição se ela não for diagnosticada de maneira adequada.

A avaliação nutricional é um instrumento diagnóstico, já que mede - de diversas maneiras - as condições nutricionais do organismo, determinadas pelos processos de ingestão, absorção, utilização e excreção de nutrientes; ou seja, a avaliação nutricional determina o estado nutricional, que é resultante do balanço entre a ingesta e a perda de nutrientes. O estado nutricional de uma população é um excelente indicador de sua qualidade de vida.

Quanto à avaliação do estado nutricional, sabe-se que não existe um método sem críticas, tanto em se tratando de crianças saudáveis como de crianças portadoras de doença crônica. Existem diversos métodos para a avaliação do estado nutricional. Deve-se utilizar aqueles que melhor detectem o problema nutricional da população em estudo e/ou aqueles para os quais os pesquisadores tenham maior treinamento técnico(1). Em artigo de revisão publicado em 2000, neste Jornal, você poderá revisar os vários métodos de avaliação do estado nutricional(2). Um outro estudo publicado também neste Jornal já analisa as dificuldades da avaliação nutricional, salientando que ela deve ser criteriosa, tanto na metodologia empregada, quanto na análise dos resultados em relação à abordagem coletiva ou individual(3). A verificação seriada é a ideal, pois avalia o crescimento de cada criança. Para uma análise transversal, a associação de mais de um método de avaliação nutricional é o mais recomendado.

Neste número do Jornal de Pediatria, temos um artigo que avalia o estado nutricional de crianças índias do Alto Xingu. Este grupo já vem há algum tempo estudando esta população, como em outro trabalho publicado por esse Jornal, sobre o estado nutricional e o teste de hidrogênio no ar expirado(4). O atual estudo diferencia-se por avaliar mais atentamente o estado nutricional, comparando métodos antropométricos com a impedância bioelétrica . Ele deve ser atentamente lido, especialmente porque demonstra baixas taxas de desnutrição e obesidade, o que nos leva a crer que, mesmo com influências diversas, essa população consegue manter sua integridade ambiental e cultural. A dificuldade de acesso ao Parque do Alto Xingu, como comentam os autores, talvez seja uma justificativa para tal qualidade nutricional.

O estudo do crescimento físico de crianças indígenas xavantes já não demonstrou tão bom estado nutricional, fato mais habitualmente encontrado quando se avalia populações indígenas. A desnutrição de populações indígenas as coloca em situações de risco, nas quais as mudanças socioeconômico-culturais impostas a estas populações são certamente os fatores determinantes(5).

A população indígena do Alto Xingu estudada segue os princípios de uma boa nutrição. As crianças são amamentadas de forma exclusiva durante o primeiro ano de vida, e de forma mista até os 3 anos de idade. Ingerem uma variedade de alimentos, mantendo um representante de cada classe: mandioca, peixe, ovos e frutas silvestres. Ingesta bem diferente da tendência mundial, onde o consumo de alimentos de origem animal, de açúcares e de farinhas refinadas é alto, e o de cereais integrais e fibras é baixo.

Esse estudo salienta uma população com boa qualidade de vida, já que tem oferta de alimentos saudáveis e não é possuidora de doenças crônicas e más condições ambientais que determinem desequilíbrio entre a ingesta e o gasto calórico.

Outro dado de extrema importância é a pequena incidência de obesidade, fato contrário à tendência da população industrializada mundial, demonstrando que uma dieta variada, na ausência de sedentarismo e de modismos da vida industrializada, como fast food e produtos alimentares industrializados, diminui o risco de obesidade.

Assim, recomendo a leitura do artigo de autoria do Dr. Ulysses Fagundes e colaboradores, pelos métodos de avaliação do estado nutricional empregados e pelos resultados tão relevantes encontrados.

 

Sobe

Referências bibliográficas

1. Heyward VH, Stolarczyk. Avaliação da composição corporal aplicada. Rio de Janeiro: Manole; 2000. p. 243.

2. Sigulem DM, Devincenzi UM, Lessa AC. Diagnóstico do estado nutricional da criança e do adolescente. J Pediatr (Rio J) 2000;76 Suppl 3:275-84.

3. Goulart EMA. A avaliação nutricional infantil no software EPI-Info (versão 6.0), considerando-se a abordagem coletiva e individual, o grau e o tipo da desnutrição. J Pediatr (Rio J) 1997;73(4):225-30.

4. Alves GMS, Morais MB, Fagundes-Neto U. Estado nutricional e teste do hidrogênio no ar expirado com lactose e lactulose em crianças indígenas terenas. J Pediatr (Rio J) 2002;78(2):113-9.

5. Gugelmin AS, Santos RV, Leite MS. Crescimento físico de crianças indígenas xavantes de 5 a 10 anos de idade em Mato Grosso. J Pediatr (Rio J) 2001;77(1):17-22.

 

Sobe

* Elza Daniel de Mello- Gastroenterologista Pediátrica e Nutróloga. Professora Assistente de Pediatria da UFRGS.