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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.78 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572002000600002 

Perfil etiológico das meningites bacterianas na infância - uma realidade transitória

Etiological profile of bacterial meningitis in children - a transitory reality

Regina Célia de Menezes Succi1

 

 

Os primeiros dois anos de vida são aqueles em que ocorre a maioria dos casos de meningites bacterianas. Conhecer o perfil etiológico dessa doença em uma cidade, estado, região ou país, antes de ser apenas uma simples curiosidade médica, tem valor fundamental na tomada de decisões terapêuticas e profiláticas. Os riscos potenciais de determinar morte ou seqüelas definitivas tornam as meningites bacterianas objeto de temor não só entre profissionais, mas entre os familiares das crianças atingidas.

Vários agentes bacterianos podem causar meningites na infância, mas três bactérias são responsáveis por mais de 90% das meningites com agente etiológico identificado em nosso meio: Neisseria meningitidis (meningococo), Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e Streptococcus pneumoniae (pneumococo)(1-4).

A letalidade nas meningites bacterianas pode atingir níveis próximos a 30%, dependendo da faixa etária acometida e do agente etiológico. Para diminuir a letalidade e os riscos de seqüelas graves, o início do tratamento antimicrobiano deve ser estabelecido precoce e adequadamente. A escolha do antimicrobiano depende da sua atividade para o agente infeccioso, da sua penetração liquórica e do conhecimento do perfil etiológico das meningites numa determinada região. A emergência de cepas bacterianas resistentes aos antimicrobianos comumente utilizados e as dificuldades no isolamento dos agentes causadores aumentam a preocupação com as meningites bacterianas.

Como demonstraram o Dr. Mantese e colaboradores, em artigo deste número do Jornal de Pediatria (2), o uso prévio de antimicrobianos é prática comum em nosso meio. Esse uso indiscriminado dos antimicrobianos, além de não contribuir para a prevenção de danos, dificulta o diagnóstico etiológico e pode ser fator determinante de pior prognóstico.

O perfil etiológico das meningites bacterianas mudou significantemente nos últimos anos, e a intervenção mais eficaz nessa mudança foi a introdução da vacina conjugada contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib), que está disponível no Brasil, para crianças até dois anos de idade, a partir do segundo semestre de 1999 (5). A vacina conjugada contra Hib produz imunidade duradoura e interfere no estado de portador, e como conseqüência, nos países onde se instituiu a vacina aplicada na rotina com ampla cobertura, a infecção por essa bactéria apresentou significante redução da incidência (6,7). No Brasil, o número de casos de meningites por Hib caiu de 1.731 no ano de 1998 para 577 no ano de 2000 (8), e a diminuição da incidência da doença causada por Hib após a introdução da vacina, em vários estados, foi evidente (3,4). No estado de São Paulo, a prevalência de meningite por Hib variou de 13,16% (sobre todas as etiologias de meningite) em 1994, para 3,81% em 2001 (9).

A utilização de novas vacinas como as vacinas conjugadas para pneumococo e para meningococo C devem no futuro modificar ainda mais o perfil etiológico das meningites bacterianas. O pediatra deve estar atento para a realidade local e possivelmente transitória do perfil etiológico das doenças infecciosas e da possibilidade de utilizar meios preventivos que têm ação muito mais duradoura e eficaz no controle das doenças.

 

Sobe

Referências bibliográficas

1. Farhat CK, Ribeiro AF, Musa SCF, Succi RCM, Marques SR, Carvalho ES. Meningites na Infância - estudo de 777 casos - 1. Etiologia. XXXI Congresso Brasileiro de Pediatria. Tema nº 390. Rev Pediatr Ceará 2000;1(Supl 1):215.

2. Mantese OC, Hirano J, Santos IC, Silva VM, Castro E. Perfil etiológico das meningites bacterianas em crianças. J Pediatr (Rio J) 2002;78(6):467-74.

3. Romanelli RMC, Araújo CA, Dias MW, Boucinhas F, Carvalho IR, Martins NRL, et al. Etiologia e evolução das meningites bacterianas em centro de pediatria. J Pediatr (Rio J) 2002; 78:24-30.

4. Takemi NS, Andrade SM Meningite por Haemophilus influenzae tipo b em cidades do Estado do Paraná. J Pediatr (Rio J) 2001;77:287-92.

5. FUNASA - Programa Nacional de Imunizações. Disponível em: http://www.funasa.gov.br/imu/imu01.htm

6. Forleo-Neto E, Oliveira CF, Maluf EMCP, Bataglin C, Araújo JMR, Kunz Jr. LF, et al. Decrease point prevalence of Haemophilus influenza type b (Hib) oropharyngeal colonization by mass immunization of Brazilian children less than 5 years old with Hib polyribosylribitol phosphate polyssacharide-tetanus toxoid conjugate vaccine in combination with diphteria-tetanus toxoids- pertussis vaccine. J Infect Dis 1999;180(4):1153-8.

7. CDC. Progress toward elimination of Haemophilus influenzae type b disease among infants and children - United States, 1987-1997. MMWR 1998;47:993-8.

8. FUNASA. Casos confirmados, segundo o período de diagnóstico e local de residência, por UF. Brasil, 1980-2001. Disponível em: http://www.funasa.gov.br/epi/pdfs.

9. SVE-DDT respiratória-CVE/SINAM (1989-2001). Meningites determinadas segundo os principais agentes etiológicos - Estado de São Paulo 1989 a 2001. Disponível em: http://www.cve.Saude.sp.gov.br/htm/resp/meni_detetio8901.htm.

 

Sobe

1 Regina Célia de Menezes Succi - Profª Adjunta de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo e Presidente do Departamento de Infectologia da SBP.