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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.78 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572002000600014 

Densidade mineral óssea em crianças. Associação com dor músculo-esquelética e/ou hipermobilidade articular

Bone mineral density in children. Association with musculoskeletal pain and/or joint hypermobility

Adriana Madureira Roberto1, Maria Teresa R.A.Terreri2, Vera Szejnfeld3, Maria Odete E. Hilário4

 

 

RESUMO

ABSTRACT

Introdução: a hipermobilidade articular pode estar associada à dor músculo-esquelética. A relação da hipermobilidade com a redução da densidade mineral óssea ainda é desconhecida. Existem relatos de osteoporose em associação com doenças genéticas que cursam com hipermobilidade articular. O nosso objetivo foi detectar a possível associação entre hipermobilidade articular e alterações na densidade mineral óssea (DMO) em crianças com e sem dor músculo-esquelética.

Casuística e métodos: foram avaliadas 93 crianças, com idade entre 5 e 10 anos, quanto à presença de hipermobilidade articular e quanto à presença de dor músculo-esquelética, através de questionário dirigido aos pais. Todas as crianças realizaram densitometria óssea de coluna lombar ao nível das vértebras L2-L4.

Resultados: as crianças foram distribuídas de acordo com a presença ou não de hipermobilidade articular associada ou não à dor músculo-esquelética: 29 (31,2%) com hipermobilidade e com dor músculo-esquelética, 20 (21,5%) com hipermobilidade e sem dor, 22 (23,6%) sem hipermobilidade e com dor e 22 (23,6%) sem hipermobilidade e sem dor (grupo controle). Vinte e quatro (25,8%) crianças apresentaram perda de DMO maior que 10% com relação à DMO adequada para a idade e sexo. A DMO mostrou-se significantemente menor em relação ao grupo controle nos grupos: com hipermobilidade (independente da presença de dor), com dor (independente da presença de hipermobilidade), com hipermobilidade e sem dor e sem hipermobilidade e com dor.

Conclusão: a DMO pode estar diminuída em crianças com hipermobilidade (independente da presença de dor músculo-esquelética) e em crianças com dor (independente da presença de hipermobilidade) em relação aos controles.

densidade mineral óssea, hipermobilidade articular, dor músculo-esquelética

Objective: joint hypermobility can be associated with benign musculoskeletal pain. The relation between hypermobility and low bone mineral density is still unknown. Osteoporosis can be observed in some genetic syndromes associated with joint hypermobility. The aim of our study was to detect the possible relation between joint hypermobility, benign musculoskeletal pain and bone mineral density in children.

Patients and methods: ninety-three children from 5 to 10 years of age were evaluated concerning the presence of joint hypermobility and the presence of musculoskeletal pain based on a questionnaire directed to parents. We also performed densitometry to measure bone mineral density. All children underwent an L2-L4 lumbar bone densitometry.

Results: children were distributed into four groups according to the presence or not of joint hypermobility associated or not with musculoskeletal pain: 29 (31.2%) with hypermobility and pain, 20 (21.5%) with hypermobility and without pain, 22 (23.6%) without hypermobility and with pain and 22 (23.6%) without hypermobility and without pain (control group). Twenty-four children (25.8%) presented reduction in bone mineral density over 10% related to the adequate bone mineral density for age and gender. Bone mineral density was significantly lower in relation to the controls in the following groups: with hypermobility (independently of the presence of pain), with pain (independently of the presence of hypermobility), with hypermobility and without pain and without hypermobility and with pain.

Conclusion: bone mineral density may be lower in children with joint hypermobility (independently of musculoskeletal pain) and in children with pain (independently of hypermobility) when compared to controls.

bone mineral density, joint hypermobility, musculoskeletal pain

 

 



Introdução

A queixa de dor músculo-esquelética é freqüente na prática pediátrica. Geralmente é extra-articular, ocorrendo mais em membros inferiores, tipicamente bilateral, de localização difusa e profunda, e ocorre no final da tarde ou à noite, com uma relação variável com a atividade física e estresse (1-3). A história familiar de dor músculo-esquelética benigna costuma estar presente (2,4,5). O exame físico assim como os exames laboratoriais e radiológicos são normais (3).

Oster & Nielsen relataram uma prevalência de 15,4% em crianças escolares (1). A incidência de dor músculo-esquelética é maior no sexo feminino, e tem início na infância, geralmente antes dos 5 anos, com maior intensidade entre 3 e 5 anos de idade (2).

A dor músculo-esquelética benigna é um diagnóstico de exclusão. Causas orgânicas (hematológicas, oncológicas, endocrinológicas, reumatológicas, infecciosas, ortopédicas) devem ser afastadas (6).

A hipermobilidade articular é definida como a capacidade de desempenhar uma série de movimentos articulares com amplitude maior do que o normal (7,8). Ela pode fazer parte da normalidade como uma condição benigna em crianças (8,9), ou estar associada a doenças hereditárias do tecido conectivo como as síndromes de Marfan e de Ehlers-Danlos (9-11).

Para o diagnóstico de hipermobilidade articular, existem diversos trabalhos utilizando diferentes critérios e escores de avaliação. Atualmente são considerados os critérios de Carter e Wilkinson, parcialmente modificados por Beighton e Horan (12,13). A presença de 5 ou mais dos 9 pontos (4 bilaterais e 1 unilateral) permite o diagnóstico de hipermobilidade (14). Forléo e cols. observaram uma freqüência de 36% de hipermobilidade articular em 1.005 escolares brasileiros (15).

A síndrome de hipermobilidade é definida, segundo a Sociedade Britânica de Reumatologia (1992), como a presença de artralgias, ou dor em músculo-esquelética, com evolução de pelo menos 3 meses, associada à hipermobilidade (16).

Esta síndrome tem sido reconhecida predominantemente em crianças (9,17-20). Segundo Lewkonia, a síndrome de hipermobilidade é uma das causas mais freqüentes de sintomas músculo-esqueléticos em adolescentes, particularmente em meninas, com idade de 13 a 19 anos (21).

É discutida a associação entre baixos valores de densidade mineral óssea (DMO) e hipermobilidade articular. Síndromes genéticas, como a homocistinúria e a síndrome de Ehlers-Danlos, que se associam com hipermobilidade articular, podem apresentar diminuição de massa óssea (22). Não existem, no nosso conhecimento, trabalhos de avaliação da DMO em crianças com hipermobilidade articular, o que nos motivou a realizar este estudo.

O nosso objetivo foi detectar a possível associação entre hipermobilidade articular e alterações na DMO em crianças com e sem dor músculo-esquelética.

Casuística e métodos

Casuística

Foram incluídas consecutivamente, em um estudo de casos e controles, 93 crianças, de 5 a 10 anos de idade, atendidas no período de junho de 1997 a junho de 1998. As crianças controles foram pareadas por idade e sexo.

As crianças com dor músculo-esquelética (n=51) foram selecionadas no ambulatório de reumatologia pediátrica do nosso serviço. As crianças sem dor (n= 42) foram selecionadas na triagem do pronto-socorro de pediatria da mesma instituição, na ocasião de consulta por queixas agudas pediátricas (infecção de vias aéreas superiores, gastroenterocolite aguda, etc).

Os responsáveis pelas crianças foram questionados quanto à presença de dor músculo-esquelética (articular ou extra-articular) por mais de 3 meses, presença de doenças anteriores ou atuais e uso de medicamentos. Foram afastadas doenças que afetam o metabolismo do cálcio, doenças hereditárias, como Marfan e Ehlers-Danlos, e patologias crônicas (detectadas pela anamnese ou exame físico). Outros critérios de exclusão incluíram uso de medicamentos que influenciam a massa óssea, crianças com algum grau de desenvolvimento puberal e idade superior a 10 anos.

Métodos

Avaliação da hipermobilidade articular e da dor músculo-esquelética

Para o diagnóstico de hipermobilidade articular, foram adotados os critérios de Carter e Wilkinson, parcialmente modificados por Beighton e Horan (12,13):

1) aproximação passiva dos polegares sobre a região anterior do antebraço (2 pontos);

2) hiperextensão dos dedos das mãos, até que os mesmos fiquem paralelos à região dorsal do antebraço (2 pontos);

3) hiperextensão dos cotovelos em ângulo maior que 10 graus (2 pontos);

4) hiperextensão dos joelhos em ângulo maior que 10 graus (2 pontos);

5) flexão da coluna mantendo os joelhos estendidos, até encostar as palmas das mãos no chão (1 ponto).

A avaliação clínica foi realizada por dois examinadores independentes, para aumentar a confiabilidade do diagnóstico. Para os critérios 3 e 4 de hipermobilidade, foi utilizado um goniômetro para a medida da amplitude articular. Foi considerado critério diagnóstico de hipermobilidade articular a presença de pelo menos 5 dos 9 pontos (15).

Para o diagnóstico de dor músculo-esquelética, foi utilizado um questionário com perguntas dirigidas sobre a localização, a duração e a freqüência da dor.

As crianças foram distribuídas em 8 grupos, de acordo com o sexo e a presença, ou não, de hipermobilidade articular e/ou dor músculo-esquelética.

Densitometria óssea

Após a avaliação clínica, as crianças foram submetidas à densitometria óssea, especificamente de coluna em vértebras lombares L2-L4. As medidas da DMO, expressas em gramas por centímetro quadrado (g/cm²), e as da área do corpo vertebral do segmento lombar L2-L4, expressas em centímetro quadrado (cm²), foram obtidas através de uma unidade de DEXA (Modelo DPX, Lunar Radiation Corporation, Madison, Wisconsin, EUA). O densitômetro foi calibrado diariamente, com coeficiente de variação 2,0% para a coluna lombar em adultos23, e a precisão do aparelho foi de 0,5% a 2%. A varredura foi realizada com o paciente na posição supina, com apoio para membros inferiores, mantendo flexão de 90 graus em quadris.

Para o cálculo da DMO ideal de coluna lombar (vértebras L2-L4), foram utilizadas para todas as crianças as seguintes fórmulas, determinadas no estudo de Fonseca e cols., que corrigem a DMO em função da área vertebral e idade (24):

a) sexo feminino:

DMO = 0,225 + 0,012 x área vértebral (L2-L4) + 0,025 x idade (anos);

b) sexo masculino:

DMO = 0,336 + 0,009 x área vértebral (L2-L4) + 0,017 x idade (anos).

A adequação (em porcentagem) foi calculada levando-se em conta a relação entre a DMO encontrada e a ideal. Perdas de DMO maiores que 10% da DMO ideal, correspondendo a osteopenia ou osteoporose, foram consideradas patológicas, e cada 10% de perda correspondeu a um desvio-padrão (25).

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética da instituição e realizado após o consentimento dos pais, que foram previamente informados da natureza do mesmo.

A análise estatística foi baseada nos testes de Mann-Whitney e qui-quadrado ou Fischer.

Resultados

Participaram do estudo 93 crianças, 49 (52,7%) do sexo feminino, pré-escolares e escolares, com idade variando de 5 a 10 anos (média de 7,3 anos). Houve predomínio da raça caucasóide (93,5%). A Tabela 1 mostra a presença ou não de hipermobilidade articular associada, ou não, à dor músculo-esquelética, de acordo com o sexo e a idade.

 

 

Hipermobilidade articular

A presença de hipermobilidade articular foi observada em 49 (52,7%) crianças, sendo 27 (55,2%) do sexo feminino, com média de idade de 7 anos, e 91,2% da raça caucasóide. A presença de 5 pontos de hipermobilidade foi observada em 14 crianças (28,6%), 6 pontos em 18 (36,8%), 7 pontos em 6 (12,2%), 8 pontos em 8 (16,3%), e 9 pontos em 3 (6,1%) crianças (média de 6,3 pontos). A média de pontos de hipermobilidade foi igual em ambos os sexos (6,3 pontos).

Não encontramos diferença significante entre as diversas faixas etárias e o número de pontos de hipermobilidade articular. Entretanto, observamos uma tendência para o maior número de pontos nas crianças com menor idade (menos de 7 anos).

Dos critérios diagnósticos de hipermobilidade articular, os mais encontrados, em ordem decrescente, foram: aproximação passiva do polegar sobre a região anterior do antebraço (49 crianças), hiperextensão dos dedos das mãos até que os mesmos fiquem paralelos à região dorsal do antebraço (48 crianças) e hiperextensão dos cotovelos em ângulo maior que 10 graus (45 crianças).

Não houve resultados divergentes entre os dois observadores que avaliaram a hipermobilidade articular.

Dor músculo-esquelética

Cinqüenta e uma crianças (54,8%) apresentaram dor músculo-esquelética, sendo 27 (52,9%) meninas, com média de idade de 7,4 anos e 90% da raça caucasóide.

Quanto à localização, 21 (41,1%) crianças apresentaram dor difusa sem localização definida, 11 (21,6%) dor nos joelhos, 6 (11,7%) nos joelhos e tornozelos, 3 (5,9%) nos tornozelos, 2 (3,9%) nos cotovelos e tornozelos e 1 (2,0%) em quadris. Sete crianças (13,7%) não souberam especificar a localização da dor.

A dor teve duração de horas em 15 (29,4%), de dias em 26 (50,9%), de semanas em 3 crianças (6,0%) e 7 (13,7%) não souberam especificar.

A freqüência da dor foi diária em duas crianças (4,0%), semanal em 11 (21,5%), 1 a 3 vezes por mês em 31 (60,8%) e 7 crianças não souberam especificar (13,7%).

Densidade mineral óssea

A DMO (g/cm2) e a adequação média (%), calculadas para cada grupo, foram as seguintes: grupo 1 – 0,648/96%; grupo 2 – 0,635/96,5%; grupo 3 – 0,677/94,8%; e grupo 4 – 0,674/105,1%.

Como não encontramos diferença significante entre os sexos masculino e feminino nos diferentes grupos, ambos os sexos foram agrupados para fins de análise estatística. Na Tabela 2, observamos a adequação da DMO de acordo com a presença, ou não, de hipermobilidade articular e de dor músculo-esquelética. A comparação entre a hipermobilidade e a dor músculo-esquelética mostrou que crianças sem hipermobilidade com dor apresentam uma DMO significantemente menor em relação às sem dor. Esta comparação no grupo com hipermobilidade não mostrou diferença. Entretanto, ao compararmos crianças com e sem hipermobilidade, também não encontramos diferença significante na DMO no subgrupo com e sem dor.

 

 

Vinte e quatro (25,8%) crianças apresentaram redução de DMO maior que 10%, com relação à DMO adequada para a idade e sexo (Tabela 3). O estudo estatístico não mostrou diferença entre as crianças com e sem hipermobilidade e entre aquelas com e sem dor músculo-esquelética. Entretanto, utilizando o teste do qui-quadrado ou de Fisher para comparar cada subgrupo, observamos que a DMO mostrou-se significantemente menor nos seguintes grupos em relação ao controle (f): com hipermobilidade articular (a) (p ,02), com dor músculo-esquelética (c+e) (p ,014), com hipermobilidade e sem dor músculo-esquelética (d) (p ,005) e sem hipermobilidade e com dor músculo-esquelética (e) (p ,004).

 

 

Discussão

No presente estudo, selecionamos apenas crianças (de 5 a 10 anos) para evitar a influência da puberdade no aumento de massa óssea.

A freqüência de hipermobilidade articular na literatura varia de 10 a 36% (12,26,27). As diferenças entre os diversos resultados podem ser atribuídas às variações étnicas, às diferentes faixas etárias estudadas e à falta de uniformidade nos critérios e escores utilizados.

No estudo de Forléo e col., a freqüência de hipermobilidade variou de acordo com o escore empregado (15). Ao utilizarem 4 pontos ou mais, a positividade foi muito elevada (65,9%), já os escores de 5 ou mais pontos e 3 ou mais critérios mostraram freqüências aproximadas de hipermobilidade articular (36,3% e 28,1%, respectivamente). Em nosso estudo, optamos por utilizar o escore de 5 pontos, a exemplo do que já havia sido feito por outros autores(8,9,15).

Com relação à freqüência do número de pontos de hipermobilidade, Forléo e col. observaram que apenas 9/1.005 escolares (0,9%) apresentaram 9 pontos positivos (15). Em nosso estudo, também encontramos pequena freqüência de 9 pontos. Assim como descrito na literatura, observamos uma tendência a maior número de pontos em crianças mais novas (28). Isto ocorre em virtude da frouxidão ligamentar, própria dessa faixa etária.

Com relação à dor músculo-esquelética, a sua associação com hipermobilidade articular foi encontrada em diferentes estudos (9,17). Gedalia e col. encontraram 66% de hipermobilidade em 32 crianças com "artralgia/artrite episódica juvenil"(29).

Em nosso estudo, a dor músculo-esquelética ocorreu em 51 (54,8%) crianças. Destas, 29 (56,9%) apresentavam também hipermobilidade, enquanto que 22 (43,1%) somente dor. Quanto à característica da dor músculo-esquelética, esta foi difusa na maioria dos casos (41%), o que está de acordo com a literatura, que refere a dor mais freqüentemente como extra-articular, e a criança não consegue especificar um local preciso da dor (1,3,28).

Na literatura, não há descrição quanto à associação da síndrome de hipermobilidade a fraturas ósseas, ou a alterações da DMO.

No presente estudo, apesar de terem sido estudadas somente crianças saudáveis e sem uso de corticosteróides, foi encontrada uma redução da DMO maior que 10% em 24 (25,8%) crianças, das quais, 14 (58,3%) tinham hipermobilidade articular (6 com dor músculo-esquelética) e 10 (41,7%) não apresentavam hipermobilidade (9 com dor músculo-esquelética).

A massa óssea foi considerada patológica abaixo de 1 desvio-padrão, pois tais perdas já caracterizam uma osteopenia (25).

Não observamos nas crianças com hipermobilidade uma correlação entre maior número de pontos e maior freqüência de diminuição de massa óssea, ou maior freqüência de dor músculo-esquelética.

Em relação ao controle, observamos diferença estatística, ou seja, a diminuição da DMO ocorre predominantemente nas crianças com hipermobilidade articular (independente da dor) e com dor músculo-esquelética (independente da hipermobilidade articular). A comparação dos grupos isoladamente mostrou uma diminuição significante da DMO no grupo com dor e sem hipermobilidade e no grupo com hipermobilidade e sem dor, em relação ao controle. Isto nos faz pensar que tanto a hipermobilidade quanto a dor isoladas podem ser fatores predisponentes para a diminuição de massa óssea.

A DMO estatisticamente menor no grupo de crianças com dor músculo-esquelética (independente da hipermobilidade), em relação ao grupo controle, poderia estar relacionada a uma menor atividade física da criança, principalmente porque a família tende a protegê-la de exercícios, no sentido de atenuar a dor, ou evitar que ela apareça.

O fato de a DMO ser estatisticamente menor nas crianças com hipermobilidade (independente da dor), ao se comparar com crianças controles, nos leva a supor que alterações estruturais no tecido conectivo poderiam ser responsáveis por este fato.

Existe um pequeno número de estudos de DMO na síndrome de Ehlers-Danlos (22,29,30). Dolan e col. (1998), ao estudarem 23 adultos com síndrome de Ehlers-Danlos, observaram uma redução significante na DMO em colo de fêmur e coluna lombar, em relação a 23 adultos controles. Estes autores justificam seus achados como tendo causas multifatoriais, entre elas, alterações estruturais no tecido conectivo, além da diminuição da atividade física, muitas vezes recomendada por médicos para os indivíduos com esta síndrome (22).

Não existem, no nosso conhecimento, estudos que abordem a DMO em crianças com hipermobilidade articular benigna. Em um trabalho realizado com 58 adultos com síndrome de hipermobilidade articular benigna, apesar de não ter sido encontrada diminuição estatisticamente significante da DMO em relação a 30 adultos controles, os autores observaram uma tendência a valores menores em colo de fêmur e coluna lombar nos indivíduos com síndrome de hipermobilidade benigna, sendo esta diferença mais acentuada naqueles com idade inferior a 45 anos (32).

Em resumo, observamos uma menor DMO em crianças com hipermobilidade (independente da presença de dor músculo-esquelética) e em crianças com dor músculo-esquelética (independente da presença de hipermobilidade) em relação aos controles. É possível que alterações estruturais no colágeno de crianças com hipermobilidade articular (independente da presença de dor) sejam responsáveis por estes resultados.

 

Sobe

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Endereço para correspondência:
Dra. Maria Teresa R.A.Terreri
Rua Loefgreen, 2381 - apto. 141
CEP 04040-004 - São Paulo, SP
Fax: (11) 5579.1590
E-mail: terreri@uninet.com.br

Sobe

1 Adriana Madureira Roberto - Médica pós-graduanda do setor de Reumatologia Pediátrica da Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Departamento de Pediatria, Universidade Federal de São Paulo - EPM.

2 Maria Teresa R.A.Terreri - Profª Assistente do setor de Reumatologia Pediátrica da Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Dep. de Pediatria, Univ. Federal de São Paulo - EPM.

3 Vera Szejnfeld - Profª Adjunta da Disciplina de Reumatologia do Dep. de Medicina, Univ. Federal de São Paulo - EPM.

4 Maria Odete E. Hilário - Professora Associada, Chefe do setor de Reumatologia Pediátrica da Disciplina de Alergia, Imunologia Clínica e Reumatologia do Dep. de Pediatria, Univ. Federal de São Paulo - EPM.