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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000100003 

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EDITORIAL

 

Presença ou ausência de bactérias na otite média com efusão?

 

 

Luc L. M. Weckx

Livre-docente em Otorrinolaringologia. Professor associado da disciplina de Otorrinolaringologia Pediátrica. Chefe, Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, UNIFESP-EPM

Endereço para correspondência

 

 

A otite média secretora (OMS) ou otite média com efusão (OME) é uma inflamação do ouvido médio com a presença de secreção serosa ou mucóide na orelha média, na vigência de membrana timpânica íntegra, sem as manifestações clínicas de infecção aguda, resultando em perda auditiva geralmente leve ou moderada. Como conseqüência, a criança poderá apresentar baixo rendimento escolar, sendo rotulada como distraída, além de pedir para repetir o que os outros falam e de ouvir televisão em volume alto.

Existem controvérsias quanto à origem da liberação de mediadores inflamatórios, os quais mantêm a inflamação da orelha média; ela pode ou não ser causada por antígenos bacterianos ou virais1.

Na literatura nacional, a positividade bacteriana da efusão da orelha média varia de 0 a 33%, e as bactérias mais freqüentemente encontradas são: Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae, Haemophylus influenzae e Moraxella catarrhalis2-5. É muito importante afastar qualquer possibilidade de contaminação no conduto auditivo externo quando da colheita.

Como conseqüência, o tratamento clínico da OME é um dos temas mais controversos e discutidos entre os problemas de orelha média. Embora, segundo um questionário apresentado por Bogar em 1998, 67% dos otorrinolaringologistas brasileiros optem por antibioticoterapia como primeira opção no tratamento clínico da OME, o Consenso Brasileiro sobre Otites Médias de 1999 não recomenda o antimicrobiano de rotina, reservando seu uso para alguns casos particulares, como instalação recente da OME, paciente virgem de qualquer tratamento ou na presença de sinais de processo infeccioso e/ou inflamatório em agudização6.

Além disso, começam a surgir questionamentos em relação à vacina conjugada do pneumococo e a OME7.

No estudo "Determinação da prevalência de bactérias em crianças com otite média com efusão", capitaneado por Pereira et al.8, o índice de culturas positivas foi de 25,1%, enquanto a PCR foi positiva em 57% das amostras estudadas. Embora o emprego da PCR para investigação das amostras de OME seja pioneiro em nosso país e os resultados estejam de acordo com a literatura internacional9-11, os autores tomam o cuidado de lembrar que há discrepância quanto ao significado da PCR positiva: trata-se de bactérias viáveis ou apenas restos fossilizados de bactérias (fragmentos de DNA)?

Isso decorre do fato de que, na técnica da PCR, "o primer" amplifica pequenos fragmentos do DNA bacteriano; portanto, posso ter um fragmento íntegro e a bactéria já estar morta.

Por fim, os dados obtidos neste estudo, mostrando resistência à penicilina por parte do pneumococo e da moraxela, semelhantes aos de outros países, servem de alerta para nós, mas é necessário respeitar a limitação frente ao número reduzido de isolados, como bem ressaltam os autores deste estudo, realizado metodologicamente de forma correta e analisando os resultados de forma bastante criteriosa.

 

Referências Bibliográficas

1. Saffer M, Piltcher OB. Otite Média Secretora. In: Campos CAH, Costa HOO, editores. Tratado de Otorrinolaringologia. vol. 2. São Paulo: Rocca; 2002. p. 65-71.

2. Filizzola VC, Weckx LL, Carlini D, Martino MD, Mimica IM. Estudo bacteriológico da secreção da orelha média em crianças com otites média secretora crônica. Rev Bras Otorrinolaringol. 1998;64:604-8.

3. Saffer M, Lubianca Neto JF, Piltcher OB, Petrillo VF. Chronic secretory otitis media: negative bacteriology. Acta Otolaryngol. 1998;116:836-9.

4. Rezende VA, Almeida ER, Bento RF, Durigon EL, Botosso VF, Queiroz D. Estudo da flora bacteriana e viral na otite média secretora e rinofaringe na infância. Rev Bras Otorrinolaringol. 1999;65:10-7.

5. Piltcher OB. Um novo modelo experimental de OME em ratos para estudo do perfil das citocinas no continuum dessa doença [tese]. São Paulo: Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; 2000.

6. Campos CA, JA Oliveira, Endo L, Bento R, Pignatari S, Weckx LLM. Consenso sobre Otite Média. Rev Bras Otorrinolaringol. 1999;65 Supl 8:14-17.

7. Straetemans M, Palmu A, Auranen Y, Zielhuis GA, Kilpi T. The effect of a pneumococcal conjugate vaccine on the risk of otitis media with effusion out 7 and 24 months of age. Int J Ped Otorhynolaryngol. 2003;67:1235-42.

8. Pereira MBR, Pereira MR, Cantarelli V, Costa SS. Determinação da prevalência de bactérias em crianças com otite média com efusão. J Pediatr (Rio J). 2004;80:41-7.

9. Hotomi M, Tabata T, Kakiuchi H, Kunimoto M. Detection of Haemophilus influenzae in middle ear of otitis media with effusion by polymerase chain reaction. Int J Ped Otol. 1993;27:119-26.

10. Post JC, Preston R, Aul J, Larkins-Pettigrew M, Rydquist-White J, Anderson K, et al. Molecular analysis of bacterial pathogens in otitis media with effusion. JAMA. 1995;273:1598-1604.

11. Hendolin P, Markkanen A, Ylikoski J, Wahlfors J. Use of multiplex PCR for simultaneous detection of four bacterial species in middle ear effusion. J Clin Microbiol. 1997;35:2854-8.

 

 

Endereço para correspondência
Luc Louis Maurice Weckx
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