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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000100008 

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ARTIGO ORIGINAL

 

Prevalência de pressão arterial elevada em escolares e adolescentes de Maceió

 

 

Adriana A. MouraI; Maria A. M. SilvaII; Maria R. M. T. FerrazIII; Ivan R. RiveraIV

IMestre em Saúde da Criança, Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
IIProfessora adjunta, Departamento de Clínica Médica, UFAL
IIIMestre em Saúde da Criança
IVProfessor adjunto, Departamento de Tocoginecologia e Pediatria

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Definir a prevalência de pressão arterial elevada em amostra representativa de escolares e adolescentes de Maceió (Alagoas, Brasil) e pesquisar a associação de pressão arterial elevada com idade, gênero e estado nutricional.
MÉTODOS: Estudo epidemiológico descritivo, transversal, randomizado, realizado entre maio de 2000 e setembro de 2002, que avaliou indivíduos de 7 a 17 anos sorteados entre 185.702 alunos de escolas públicas e privadas de Maceió. O cálculo da amostra foi realizado com base no valor esperado da prevalência de hipertensão arterial sistêmica para a faixa etária. Após a randomização, os dados foram coletados através de questionário, aferição de peso e altura e duas medidas da pressão arterial. Pressão arterial elevada foi definida como pressão arterial sistólica e/ou diastólica igual ou acima do percentil 95 em qualquer das duas medidas realizadas.
RESULTADOS: A amostra final constituiu-se de 1.253 estudantes (706 do gênero feminino). Foram identificados 118 estudantes com pressão arterial elevada, média de idade de 13 anos, sendo 44% do gênero masculino. Risco de sobrepeso foi identificado em 9,3% das crianças, e sobrepeso, em 4,5%; houve associação significante dessas variáveis com pressão arterial elevada.
CONCLUSÕES: A prevalência de pressão arterial elevada foi de 9,4%, e foi significantemente maior nos estudantes com sobrepeso e com risco de sobrepeso.

Pressão arterial, prevalência, escolares, adolescentes.


 

 

Introdução

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma doença definida pela persistência de níveis de pressão arterial acima de valores arbitrariamente definidos como limites de normalidade1. É a doença cardiovascular mais comum, considerada o maior desafio de saúde pública para sociedades em transição socioeconômica e epidemiológica e um dos mais importantes fatores de risco de mortalidade cardiovascular, sendo responsável por 20-50% de todas as mortes2. No Brasil, a HAS afeta 14 a 18% da população adulta3.

Em lactentes e pré-escolares, a hipertensão é incomum e, quando presente, geralmente indica um processo patológico subjacente. Escolares e, em particular, adolescentes, podem apresentar hipertensão primária ou essencial, que usualmente é detectada através de avaliação rotineira da pressão arterial. Esta é atualmente a principal causa de hipertensão arterial nessa faixa etária4-8.

Muitos estudos têm revelado fortes indícios de que a HAS do adulto é uma doença que se inicia na infância,4-6,9,10 o que tem aumentado a preocupação com a avaliação da pressão arterial em crianças nas últimas décadas.

Em 1977, nos Estados Unidos, foi publicado o primeiro relatório da força-tarefa sobre o controle da pressão arterial em crianças4, que apresentava uma proposta de padronização do método de medida e das curvas de distribuição da pressão arterial em crianças normais, organizadas em gráficos de percentis de acordo com a idade e com o sexo. Neste estudo, o percentil 95 ficou estabelecido como o limite de normotensão, e a recomendação de que "todo pediatra deverá medir a pressão arterial das crianças maiores de 3 anos no mínimo uma vez ao ano e acompanhá-la anualmente em um gráfico de percentis" permanece válida até hoje.

Desde então, uma série de estudos nacionais e internacionais vêm sendo desenvolvidos, e novos conceitos vêm sendo elaborados. Em 1987, foi divulgado o segundo relatório da força-tarefa sobre o controle da pressão arterial em crianças5. Em 1993, Rosner et al. publicaram uma meta-análise com tabelas de referência para pressão arterial normal (abaixo do percentil 90), normal-alta (entre o percentil 90 e o percentil 95) e alta (acima do percentil 95), por idade e por sexo, subdivididas em percentis de altura, a partir de 76.018 medidas de pressão arterial10. Além disso, passaram a utilizar e também a recomendar a fase V de Korotkoff (K5) como referência para pressão diastólica para todas as idades. Em 1996, foi publicada a atualização do segundo relatório da força-tarefa de 19879.

No Brasil, Alves et al., em 1988, investigaram a freqüência de hipertensão arterial em um grupo de 989 pré-escolares e escolares no Recife, todos de boa condição socioeconômica, e detectaram um percentual de 2,12% de crianças hipertensas, utilizando as normas do grupo da força-tarefa de 198711. Em 1995, Oliveira avaliou 1.005 alunos randomizados entre os estudantes regularmente matriculados em escolas públicas e privadas de Belo Horizonte, realizando exame antropométrico e duas medidas de pressão arterial. O autor encontrou valores da pressão arterial sistólica e diastólica discretamente inferiores aos da referência da força-tarefa de 198712.

Este trabalho tem como objetivos: 1) definir a prevalência de pressão arterial elevada em escolares e adolescentes da cidade de Maceió; 2) pesquisar a associação de pressão arterial elevada com variáveis como idade, gênero e estado nutricional.

 

Casuística e métodos

O presente trabalho é um estudo epidemiológico, descritivo, observacional, em corte transversal, realizado no período de maio de 2000 a setembro de 2002. A amostra consistiu de escolares e adolescentes que freqüentavam as escolas de nível fundamental e médio de Maceió, Alagoas, de ambos os sexos, com idades de 7 a 17 anos.

Para definir a prevalência de pressão arterial elevada em crianças e adolescentes na cidade de Maceió, de forma que os valores encontrados representassem a população em estudo, o cálculo da amostra foi realizado com base num valor esperado para a prevalência de HAS, na faixa etária considerada, utilizando o III Consenso de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, de 1998: 7%13. Assumiu-se um intervalo de confiança de 95% e uma precisão de 2%. O tamanho final da amostra foi de 1.253 indivíduos.

A randomização foi realizada mediante uma amostragem por conglomerados, sendo cada escola considerada um conglomerado. Escolheu-se trabalhar com 40 escolas para que se obtivesse melhor precisão nas estimativas de prevalência encontradas e uma melhor distribuição demográfica dos alunos pesquisados.

Após o sorteio, a distribuição das escolas foi a seguinte: uma federal, 20 estaduais, oito municipais, 11 particulares.

Como as escolas sorteadas tinham tamanhos diferentes, para obter uma representação na amostra final que fosse proporcional ao tamanho de cada uma, foram sorteados 2,7% dos alunos nelas matriculados; estes, somados, completariam os 1.253 indivíduos necessários. O consentimento para a participação no estudo foi obtido das escolas sorteadas e dos pais dos indivíduos selecionados.

Os dados foram coletados sob a forma de questionário e medidas da pressão arterial, do peso e da altura do indivíduo. A medida da pressão arterial foi realizada apenas por uma pesquisadora médica, a qual recebeu treinamento específico.

Os estudantes que se recusaram a participar da pesquisa foram substituídos utilizando-se o mesmo processo de randomização, de forma a manter o tamanho previsto da amostra.

Com relação aos parâmetros utilizados, a pressão arterial foi considerada elevada quando a medida da pressão arterial sistólica e/ou diastólica era igual ou superior à encontrada no percentil 95 nas tabelas de referência do Update on the 1987 Task Force Report on High Blood Pressure in Children and Adolescents, de 19969, para idade e sexo correspondentes, ajustados para o percentil de estatura do avaliado. Para a definição do percentil de estatura do indivíduo, foram utilizados os gráficos de estatura por idade e sexo do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde Norte-Americano14. Foram realizadas duas medidas de pressão arterial, com intervalo mínimo de dois minutos. Pressão arterial igual ou acima do percentil 95 em qualquer uma das duas medidas serviu para definir a prevalência de pressão arterial elevada. Foi utilizado um esfigmanômetro de coluna de mercúrio, avaliado quanto à fidedignidade no Instituto de Metrologia Brasileiro (INMETRO), com manguitos de duas dimensões diferentes (25 x 12 cm e 18 x 9 cm) e um estetoscópio pediátrico. Para as medidas de pressão arterial, foram seguidas as recomendações metodológicas do III Consenso Brasileiro de HAS de 199813 e do Task Force de 1996 (Tabela 1). Para a avaliação do estado nutricional, foi utilizada a classificação do CDC (Centers for Disease and Control and Prevention), Atlanta, 2001, que é baseada no índice de massa corpórea (IMC): baixo peso, IMC inferior ao percentil 5; peso normal, IMC superior ao percentil 5 e inferior ao percentil 85; risco de sobrepeso, IMC igual ou superior ao percentil 85; sobrepeso, IMC igual ou superior ao percentil 9515. Para a medida do peso, utilizou-se uma balança digital para até 150 kg calibrada e aferida pelo INMETRO; para a estatura, foi utilizado um estadiômetro com um cursor, ambos de madeira, graduado com precisão de 0,1 cm.

Os dados obtidos durante a coleta foram armazenados num programa de banco de dados (Microsoft® Excel 2000) e analisados utilizando o programa Epi Info 200017. Foi utilizada análise de variância simples para comparar diferenças de médias de pressão arterial sistólica ou diastólica entre grupos por gênero, faixa etária e estado nutricional. Foram utilizados os testes de qui-quadrado (c2) e de Fisher para comparar diferenças de prevalência de pressão arterial normal-alta ou alta nos mesmos grupos. Foi estabelecido como nível de significância estatística para rejeição de uma hipótese nula um p < 0,05 ou 5% para todos os testes.

O protocolo de pesquisa foi aprovado previamente pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário da Universidade Federal de Alagoas.

 

Resultados

A amostra final foi constituída por 1.253 escolares e adolescentes, com idades de 7 a 17 anos e média de 12,4 ±2,9 anos, sendo 547 do gênero masculino e 706 do gênero feminino.

Pressão arterial elevada esteve presente em 9,41% dos estudantes quando avaliadas as medidas isoladas (intervalo de confiança: 7,8-11,02). Quando considerada apenas a média das duas medidas, a prevalência foi de 7,7% (intervalo de confiança: 6,5-9,5).

A análise dos questionários demonstrou que os estudantes com pressão arterial elevada não se encontravam em uso de drogas que elevam a pressão arterial nem possuíam, no momento da investigação, diagnóstico de doenças que cursam com hipertensão arterial.

Em relação à prevalência de pressão arterial elevada, não foram observadas diferenças estatisticamente significantes entre os gêneros: 9,5% (52) no sexo masculino e 9,3% (66) no sexo feminino (p = 0,95). Também não foi observada diferença estatisticamente significante quando comparados indivíduos de diferentes gêneros com a mesma faixa etária. Quando não subdivididos em relação ao gênero, os estudantes apresentaram diferença significante na comparação do grupo de 11-14 anos com o de 15-17 anos, e de 7-10 anos com o de 15-17 anos (Tabela 2).

 

 

Em relação ao estado nutricional, encontrou-se a seguinte distribuição na população estudada: peso normal, 86,3% (1.081); risco de sobrepeso, 9,3% (116); e sobrepeso, 4,5% (56).

Em relação à prevalência de pressão arterial elevada, houve diferença extremamente significante quando comparados os grupos peso normal versus sobrepeso, significante quando comparados os grupos sobrepeso versus risco de sobrepeso, e não-significante quando comparados os grupos peso normal versus risco de sobrepeso (Tabela 3).

 

 

Discussão

Como doença do adulto de alta morbimortalidade que pode ter seu início na infância e na adolescência, a HAS tem sido uma das afecções mais estudadas em toda a medicina. Os estudos epidemiológicos têm grande importância nesse cenário, pois trazem informações sobre como essa entidade evolui com a idade e quais os fatores de risco envolvidos no surgimento e na manutenção de níveis tensionais elevados, bem como o modo como esses níveis desencadeiam estados mórbidos. Fatores genéticos, nutrição e estilo de vida vêm sendo cada vez mais implicados e correlacionados com níveis altos de pressão arterial18. Assim, pais, professores e pediatras devem investir nos aspectos relacionados à prevenção e ao seguimento da rotina de aferições anuais já propostas amplamente nos consensos de cardiologia e pediatria.

Em crianças, os níveis que definem pressão arterial elevada baseiam-se em limites estatísticos, ou seja, arbitrários9. Por isso, medidas isoladas são úteis apenas para avaliações em momentos específicos. É necessário avaliar os níveis tensionais ao longo do crescimento da criança, descobrindo qual o percentil de pressão arterial que se correlaciona com esses valores9.

Prevalência de pressão arterial elevada em escolares e adolescentes da cidade de Maceió

Estudos nacionais e internacionais têm encontrado valores de prevalência com ampla variação - de 1,2 a 13%. Diferenças metodológicas, número de medidas utilizadas e critérios de referência diferentes são as principais causas dessa variabilidade.

No estudo de Muscatine19, a prevalência diminuiu de 13% para menos de 1% com o decorrer da pesquisa. Londe, em 1966, nos Estados Unidos, encontrou 12,6% de crianças hipertensas entre 1.805 avaliadas em consultório. Após o acompanhamento, esse valor caiu para 1,9%20. Adrogué & Sinaiko, em 2001, avaliando 19.452 crianças de 10 a 15 anos de acordo com os padrões do Task Force de 1996, encontraram 2,7% com hipertensão sistólica e 2% com hipertensão diastólica. Reexaminando todas as crianças que tiveram sua pressão arterial acima do percentil 70, os autores encontraram 0,8% de hipertensão sistólica e 0,4% de hipertensão diastólica21.

Em relação aos estudos nacionais, também tem sido encontrada grande variabilidade entre as prevalências. Devemos observar, entretanto, que, para caracterizar uma criança como portadora de HAS, são necessárias três medidas de pressão arterial acima do percentil 95 correspondente ao percentil de estatura para idade e sexo deste indivíduo. Essas três medidas deverão ser realizadas em ocasiões diferentes (em dias diferentes)9.

Os resultados do presente estudo demonstram uma prevalência de pressão arterial elevada em 9,4% dos analisados em uma única oportunidade. Essas crianças deverão ser reavaliadas em mais duas ocasiões para se definir a presença ou não de HAS. Uma vez detectado o problema, o indivíduo deverá ser submetido a uma investigação exaustiva de causas secundárias de hipertensão, principalmente os mais jovens.

Diferenças de pressão arterial entre diferentes faixas etárias

O aumento da prevalência de níveis tensionais altos nas faixas etárias mais elevadas, encontrado no presente estudo, é esperado, já que a hipertensão essencial (mais comum) tende a ser mais prevalente na pré-adolescência, adolescência e idade adulta19,22,23.

Diferenças de pressão arterial entre estudantes de acordo com o estado nutricional

O achado de prevalência de pressão arterial elevada maior nos estudantes com sobrepeso é semelhante ao de inúmeros estudos epidemiológicos, nacionais e internacionais, que estudaram a relação entre obesidade e pressão arterial tanto em adultos quanto em crianças e adolescentes, e confirma uma unanimidade científica: a obesidade tem grande impacto sobre a pressão arterial21,24-28.

O presente estudo, o primeiro de cunho epidemiológico realizado em Maceió, aponta para a necessidade de que a medida da pressão arterial seja realmente incorporada à prática clínica pediátrica, de forma que, cada vez mais precocemente, crianças e adolescentes com pressão arterial elevada sejam identificados e avaliados, o que permitirá a detecção e o tratamento de causas secundárias de HAS e de fatores contribuintes para a elevação da pressão arterial, como a obesidade, bem como a intervenção específica nos casos de hipertensão arterial primária. Apenas desta forma poderemos contribuir para a prevenção da epidemia de doenças cardiovasculares prevista pela Organização Mundial de Saúde para os países em transição epidemiológica.

Este trabalho tem como conclusões que a prevalência de pressão arterial elevada foi de 9,4%; não existem diferenças estatisticamente significantes entre as prevalências de pressão arterial elevada entre os gêneros; a diferença entre as prevalências de pressão arterial elevada foi significante quando comparados os grupos escolar e pré-adolescente com o grupo adolescente, e extremamente significante quando comparados os grupos peso normal e sobrepeso.

 

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Artigo submetido em 16.04.03, aceito em 03.11.03
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