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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.2 Porto Alegre Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000200004 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Vacina BCG: via percutânea ou intradérmica?

 

 

Lucia F. Bricks

Professora Doutora, Departamento de Pediatria da FMUSP. Médica Assistente do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Membro da Comissão Permanente de Assessoramento em Imunizações da Secretaria de Estado da Saúde do Estado de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: As variações na eficácia da vacina BCG têm sido atribuídas a diversos fatores do hospedeiro, ambiente, cepas vacinais, dose e métodos de administração da vacina. O objetivo deste estudo é analisar os métodos intradérmico e percutâneo no uso da vacina BCG.
FONTES DOS DADOS: Foi realizada uma pesquisa bibliográfica referente ao período de 1987 a 2002 no MEDLINE e Lilacs (OPS/Bireme), através das palavras-chave "vacina BCG/administração", "eficácia", "eventos adversos", "tuberculose/prevenção" e "eficácia". Alguns artigos publicados antes de 1987 foram incluídos devido à sua relevância para a discussão do tema.
SÍNTESE DOS DADOS: Não existem estudos clínicos que permitam comparar a efetividade das vacinas BCG intradérmica e BCG percutânea. A BCG percutânea é menos reatogênica do que a BCG intradérmica, porém estimula de forma menos eficiente a produção de interferon-gama pelos linfócitos Th1, considerada como o melhor marcador da resposta imune protetora contra tubérculos.
CONCLUSÕES: Testes imunológicos in vivo e in vitro demonstraram que a via intradérmica é mais eficiente para estimular a resposta imune. O método intradérmico deve ser recomendado para a administração da vacina BCG.

Vacina BCG/administração, eficácia, eventos adversos, tuberculose/prevenção e eficácia.


 

 

Introdução

A vacina BCG é uma das mais utilizadas em todo o mundo; entretanto, a tuberculose persiste como um dos mais importantes problemas de saúde pública1,2. No Brasil, no ano 2000, foram registrados 94.360 novos casos de tuberculose, apesar da queda significativa no número de casos de meningite tuberculosa em lactentes, associada ao aumento das coberturas vacinais3.

As variações na eficácia da vacina BCG têm sido atribuídas a diversos fatores relacionados ao hospedeiro, ambiente, cepas vacinais, dose e métodos de administração da vacina1,2.

A vacina BCG começou a ser utilizada em 1921 por via oral; posteriormente, passou-se a utilizar a via cutânea, devido à melhor indução da resposta cutânea de hipersensibilidade tardia (RCHT) à tuberculina, menor custo e menor taxa de eventos adversos4-8.

A vacina BCG utilizada no Brasil contém bacilos Calmette Guérin vivos, atenuados e liofilizados da cepa Moureau-Rio de Janeiro. A Fundação Ataulpho de Paiva (RJ) produz a vacina BCG para uso intradérmico (BCG-ID), em apresentações de 1 mg, 2 mg ou 5 mg (correspondendo a 10, 20 ou 50 doses), e vacina concentrada, para uso percutâneo (BCG-PC), que contém 40 mg. Ambas as apresentações devem ser reconstituídas de acordo com a orientação do fabricante antes da administração, que é feita na altura da inserção do deltóide direito.

O Ministério da Saúde recomenda aplicar 0,1 ml da vacina BCG (1 mg/ml) por via intradérmica3; entretanto, em muitas clínicas privadas, emprega-se a BCG por via percutânea.

Como salientamos, a apresentação para uso percutâneo é concentrada (40 mg). A vacina percutânea deve ser reconstituída com 1,0 ml de solução fisiológica (40 mg/ml correspondem a 200 milhões de bacilos vivos). Recomenda-se colocar uma gota da vacina reconstituída na região de inserção inferior do deltóide direito, espalhando essa gota numa área com 1,5 cm de largura por 3 cm de comprimento, utilizando-se o bordo do próprio multipunctor, que será utilizado para a aplicação percutânea.

O multipunctor é um dispositivo semelhante a um cilindro com pequenas agulhas, que deve ser pressionado fortemente sobre a pele, na área em que foi espalhada a vacina. Recomenda-se fazer uma segunda pressão com o aparelho sobre a pele, na área adjacente à primeira aplicação e, em seguida, com o bordo do aparelho, espalhar novamente a vacina sobre a região.

Até que a vacina esteja seca, as pessoas vacinadas não devem ser expostas ao sol, e não se deve molhar a região.

Ao contrário da técnica intradérmica, a percutânea não permite estimar a dose inoculada de bacilos, pois é muito mais difícil avaliar a dose efetivamente injetada no estrato córneo. Além disso, variações na técnica de aplicação e diferentes dispositivos para uso da vacina percutânea podem interferir na carga de bacilos efetivamente administrada e na resposta à vacinação6-9.

Neste artigo, apresentamos os resultados de uma revisão da literatura sobre as controvérsias sobre a melhor técnica de aplicação da BCG, enfatizando-se os aspectos relacionados aos eventos adversos e à resposta imunológica ao uso da vacina por essas duas vias de administração. A pesquisa foi feita através dos bancos de dados do MEDLINE e Lilacs, utilizando-se como palavras-chave "vacina BCG" (administração, eficácia, eventos adversos) e "tuberculose" (prevenção e controle). Foram selecionados artigos publicados nos idiomas inglês, português e espanhol, nos últimos 15 anos (1987 a 2002).

 

Bases para a escolha da melhor via de administração da BCG

A via intradérmica é a mais utilizada em todo o mundo e é a única recomendada pela OMS e pelo Ministério da Saúde do Brasil3. Entretanto, em alguns países, existe preferência pela via percutânea devido ao temor em relação aos eventos adversos associados à BCG-ID e à maior facilidade da técnica6,9-16.

A escolha do melhor método de vacinação deve levar em conta tanto a efetividade quanto a segurança das vacinas. A melhor forma de comparar a efetividade de diferentes procedimentos é através de estudos clínicos, de preferência prospectivos, controlados e avaliados pelo método duplo-cego, envolvendo grande número de indivíduos7.

A escolha do método de aplicação da BCG tem sido feita fundamentalmente com base na avaliação do perfil de reatogenicidade e capacidade das vacinas induzirem resposta imunológica de hipersensibilidade cutânea, não existindo estudos comparativos sobre a efetividade das diferentes técnicas de administração da BCG6.

Na discussão a seguir, serão apresentados os resultados de estudos que analisam os eventos adversos associados às diferentes técnicas de administração da BCG, os testes que avaliam a resposta imunológica à BCG in vivo e in vitro e, finalmente, os estudos que comparam as duas técnicas (ID e PC).

 

Eventos adversos associados à vacina BCG

A BCG-ID causa uma reação local de evolução prolongada (10 semanas). Enquanto não ocorre a cicatrização, pode haver presença de secreção no local de aplicação da vacina; enfartamento ganglionar na axila direita ocorre em 1 a 10%, e complicações supurativas em 0,1%. Mais de 95% dos vacinados com a vacina BCG-ID apresentam cicatriz (4 a 7 mm de diâmetro)3,5,6,17.

Os eventos adversos associados à vacina BCG são pouco freqüentes, mas podem ocorrer complicações loco-regionais ou sistêmicas. Úlcera maior de 1 cm, abscesso subcutâneo e linfadenite regional supurada ocorrem em 0,4 por 1.000 vacinados e surgem nos primeiros 6 meses após a vacinação. Cicatriz hipertrófica e quelóide ocorrem em 4 por milhão de vacinados. Complicações sistêmicas e disseminação fatal são raras (< 1,5 por milhão)3,5,6,17.

As reações locais e sistêmicas dependem da cepa utilizada e são mais comuns em recém-nascidos do que em adolescentes. Os eventos adversos locais estão associados a problemas técnicos, como a aplicação no subcutâneo e a técnica de vacinação6,10,18,19.

A cepa Moureau-Rio de Janeiro utilizada no Brasil induz boa RCHT e raramente causa eventos adversos locais ou sistêmicos3,18,20-26. Em estudo realizado com 1.325 recém-nascidos brasileiros foram registradas apenas 12 reações locais (0,9%), sendo quatro (0,3%) adenites supurativas, seis (0,45%) úlceras prolongadas e duas (0,15%) reações lupóides18.

Na África do Sul, a ocorrência de reações locais após o uso da BCG-ID foi de 3% em 9.763 recém-nascidos. A ocorrência de eventos adversos foi muito mais baixa nos hospitais e serviços de referência do que nos centros localizados em regiões periféricas, o que sugere que esses eventos estejam mais relacionados a problemas técnicos na administração da vacina19.

Mais de 95% dos vacinados com a BCG-ID apresentam uma pequena cicatriz. Quando a vacina é administrada mais de 8 horas após a preparação, ocorre diminuição da RCHT e formação de cicatrizes menores do que quando a vacina é preparada e utilizada em menos de 8 horas18.

No Brasil, a maioria das crianças vacinadas com BCG-ID apresenta cicatriz20-26, recomendando-se revacinar aquelas que não apresentam nenhuma reação local até 6 meses após a vacinação3,17. Embora essa medida seja bastante útil, na prática, a leitura da cicatriz nem sempre é confiável.

O tamanho da cicatriz deixada pela BCG, assim como a RCHT, é menor em recém-nascidos do que em escolares e adultos, e o tamanho da cicatriz diminui com o tempo18,24.

A sensibilidade de leitura da cicatriz da BCG-ID 3 meses após a administração da vacina em recém-nascidos é alta (93%) e reprodutível em 94% das vezes; quando a leitura das cicatrizes é feita 4 anos após a vacinação, a sensibilidade é bem mais baixa (80%)27. No Brasil, a correlação entre a leitura da cicatriz e o registro da BCG-ID foi de 80%24.

Vacinas contendo bacilos mortos podem deixar cicatriz. Portanto, a leitura da cicatriz não é um bom método para avaliar cobertura vacinal e qualidade das vacinas administradas4,7,27,28.

Apesar de os eventos adversos associados à BCG-ID serem pouco freqüentes, nos Estados Unidos, Japão e em alguns países da Europa foi adotada a BCG-PC, pela facilidade da técnica e menor taxa de reações locais4,9,10,16,29,30.

Na Inglaterra, 95% dos bebês vacinados com a BCG-ID apresentaram cicatriz versus 63% dos vacinados com a BCG-PC. A técnica intradérmica foi considerada difícil por mais de 35% dos médicos, e como a RCHT foi semelhante nos dois grupos (68 e 73%, respectivamente), concluiu-se que a BCG-PC era mais aceitável para uso em larga escala11. Além disso, o número de abscessos foi 10 vezes maior após a BCG-ID do que após a BCG-PC (2,8 e 0,29%)13,14.

No Japão, a via percutânea é preferida, devido à elevada incidência de quelóides após a BCG-ID. Num estudo envolvendo 34.516 crianças vacinadas com a BCG-PC, 0,4% apresentaram gânglios > 1 cm, e 0,02% apresentaram adenite supurativa. Na maioria dos casos, a adenite surgiu entre 4 e 6 semanas após a vacinação e regrediu espontaneamente dentro de 2 meses6.

Apesar de os eventos adversos associados ao uso da BCG-PC serem menos freqüentes em comparação à BCG-ID, é importante ressaltar que poucas vezes ocorrem complicações supurativas após o uso da BCG-ID6, e que mesmo após o uso da BCG-PC podem ocorrer complicações. Há evidências de que as complicações dependem da cepa utilizada e da dose inoculada6,30.

 

Efetividade da vacina BCG

A efetividade da vacina BCG varia entre 0 e 80%. A proteção é maior contra as formas graves, como meningite tuberculosa, tuberculose miliar e morte (70%) do que contra as formas pulmonares (50 a 55%)1,2,30-33.

Geralmente, a proteção é mais baixa nos locais onde os coeficientes de incidência da doença são extremamente elevados; apesar disso, mesmo nas regiões de extrema pobreza e altos índices de desnutrição, a vacina BCG administrada nos primeiros meses de vida confere proteção contra a meningite tuberculosa34-36.

Não existem estudos comparativos sobre a efetividade dos métodos de administração da BCG (BCG-ID e BCG-PC)6,19.

Nos EUA e Reino Unido, onde a vacina BCG-PC é adotada, existe baixa incidência de tuberculose, e a doença não é considerada um problema importante de saúde pública13,14,16,29-33. No Japão, apesar de a vacina BCG-PC ser amplamente utilizada, a incidência de tuberculose é mais baixa do que nos EUA, e atualmente se discute a necessidade de manter o programa de vacinação contra tuberculose15,34. Portanto, os estudos com BCG-PC publicados nesses países não fornecem dados sobre a efetividade da vacina.

Na África do Sul, onde a BCG-PC foi utilizada rotineiramente até o final da década de 90, a prevalência da tuberculose se manteve elevada, e recentemente foi feita a transição para a via intradérmica, sem que houvesse aumento significativo na ocorrência de eventos adversos19.

Muitos motivos, além das diferenças metodológicas entre os estudos, foram apontados para as variações nos resultados obtidos quanto à efetividade da vacina; dentre eles, os mais citados são a qualidade e conservação da vacina (diferentes cepas vacinais, rede de frio, exposição à luz ultra-violeta), método de aplicação da vacina, variações genéticas e nutricionais nas diferentes populações, latitude, exposição a outras micobactérias e diferenças na prevalência de outras doenças, como AIDS1-3,30-42.

Até o final da década de 70, as comparações entre as duas técnicas eram baseadas na avaliação da resposta imunológica in vivo (RCHT); mais recentemente, surgiram os dados de estudos que avaliam a resposta imunológica in vitro, através das dosagens de diversas citocinas produzidas pelos linfócitos Th1 e Th2, que parecem ter melhor correlação com a imunidade protetora40,43,44.

 

Métodos de avaliação da resposta à BCG

Testes realizados in vivo

A vacina BCG induz imunidade do tipo celular, que é muito mais difícil de avaliar do que a imunidade humoral.

No final da década de 30, verificou-se que a BCG-ID e a BCG-PC eram capazes de induzir RCHT positiva, que se mantinha por pelo menos 3 anos. Dessa forma, concluiu-se que a vacina BCG-PC era tão "efetiva" quanto a BCG-ID para estimular a imunidade e, além disso, tinha como vantagens a facilidade da técnica de aplicação e o fato de não deixar cicatriz7.

No início da década de 70, porém, iniciou-se a discussão sobre a validade dos resultados das provas tuberculínicas como marcadores da proteção contra tuberculose, tendo em vista que a RCHT varia de acordo com a cepa utilizada, população vacinada, tipo de instrumento utilizado para vacinar e técnica de aplicação e, no caso da vacina percutânea, do número de agulhas e de punções realizadas com os diferentes aparelhos4,33.

Comparando-se os resultados dos estudos realizados em crianças com aqueles realizados em adolescentes, verifica-se grande variação na RCHT, sempre mais baixa em lactentes jovens14 do que nos adolescentes adultos12.

Entre 6 e 9 semanas após a vacinação com BCG-ID ou BCG-PC, 16% dos recém-nascidos vacinados com a BCG-PC e 97% dos vacinados com a BCG-ID apresentavam RCHT positiva14. A ocorrência de abscessos locais após a vacinação foi 10 vezes maior no grupo que recebeu a vacina BCG-ID36,37.

Ao contrário dos recém-nascidos, a maioria dos adolescentes vacinados com BCG-ID e BCG-PC apresentava RCHT positiva, porém, enquanto a BCG-ID deixou cicatriz em 100% dos vacinados, apenas 17% dos vacinados com a BCG-PC apresentaram alguma reação local12.

As apresentações da vacina BCG para uso percutâneo contêm 40 a 50 vezes mais bacilos viáveis do que as vacinas formuladas para uso intradérmico. Acredita-se que a baixa taxa de eventos adversos associados ao uso da BCG-PC se deva à baixa quantidade de bacilos efetivamente administrada aos indivíduos30.

A RCHT e os eventos adversos estão diretamente relacionados ao número de bacilos viáveis efetivamente inoculados. No Reino Unido, a aplicação inadvertida da vacina formulada para uso percutâneo por via intradérmica foi responsável por elevada taxa de abscessos locais30.

A cepa Moureau-Rio de Janeiro utilizada no Brasil é bastante imunogênica, tanto em escolares como em lactentes; porém, em lactentes, a vacina induz menor estimulação da RCHT3,17,21-25,37.

Existem grandes variações individuais na RCHT, e com a repetição do teste tuberculínico, alguns indivíduos apresentam negativação ou positivação do teste, enquanto outros mantêm o padrão de resposta inicial21.

A confiabilidade da leitura do teste cutâneo nem sempre é boa; em até 5% das vezes, uma segunda leitura da RCHT feita pelo mesmo observador pode levar à reclassificação do teste como positivo ou negativo45. Além disso, com o tempo, ocorre diminuição progressiva da resposta ao teste tuberculínico, porém se houver exposição à M. tuberculosis ou a outras micobactérias, costuma ocorrer aumento da RCHT21,46.

Embora a RCHT tenha sido muito utilizada em pesquisas para avaliar a resposta à vacina BCG, esse teste não é considerado um bom marcador de imunidade. Estudos realizados em animais de experimentação e em humanos demonstraram que a RCHT não tem relação com a proteção e que os indivíduos com reação fortemente positiva em resposta ao PPD podem estar menos protegidos contra a tuberculose em relação aos que não apresentam positivação da RCHT21,29,31,37. Além disso, a resposta pós-vacinal ao teste tuberculínico é bastante variável, dependendo da potência da vacina, cepa utilizada, idade em que o indivíduo foi vacinado e tempo decorrido após a vacinação18,21,28. Portanto, são necessários novos métodos para avaliar a capacidade da vacina BCG de estimular a resposta imune protetora37,38,40-47.

Em meados da década de 90, surgiram os primeiros questionamentos sobre os benefícios da técnica percutânea, tendo em vista que essa técnica está associada à menor indução da RCHT e menor resposta linfocitária específica ncontra a M. tuberculosis, avaliada através da produção de interferon-gama (IF-g) e interleucina-2 (IL-2), considerados os melhores marcadores para avaliar a proteção contra a doença6,40-44,46.

Testes realizados in vitro

Os linfócitos T-CD4+ produzem diferentes citocinas que podem ser dosadas in vitro para avaliar a resposta aos antígenos das micobactérias. Os linfócitos Th1 produzem predominantemente IF-g e IL-2, enquanto os linfócitos Th2 produzem IL-4, IL-5, IL-6 e IL-10. Em animais de experimentação, a produção de IF-g e IL-2 está associada à resistência a vários parasitas intracelulares, e o IF-g aumenta a capacidade dos macrófagos de destruir a M. tuberculosis47.

Os mecanismos precisos de proteção contra a tuberculose ainda não estão totalmente esclarecidos; entretanto, há evidências de que o melhor marcador para avaliar a efetividade das vacinas contra a tuberculose seja a produção de IF-g , pelos seguintes motivos:

- o IF-g é essencial para a proteção contra a tuberculose em animais de experimentação;

- pacientes com as formas moderada ou avançada de tuberculose produzem menos IF-g;

- o uso de IF-g pode beneficiar indivíduos com tuberculose multirresistente;

- os contatos domiciliares saudáveis de pacientes com tuberculose apresentam elevação do IF-g;

- após a positivação da RCHT à tuberculina, ocorre elevação do IF-g;

- na tuberculose pleural, que apresenta tendência à resolução espontânea, ocorre elevação do IF-g nas células do fluido pleural e no sangue47.

Apesar de esses dados sugerirem que o IF-g é o melhor marcador da imunidade contra a tuberculose, ocorrem grandes variações na produção dessa citocina em pessoas saudáveis e doentes. O IF-g pode estar elevado em adultos saudáveis que tiveram contato com doentes, em adultos com tuberculose com lesões mínimas e em crianças com tuberculose progressiva. Adultos com doença moderada ou grave apresentam baixa produção de IF-g, porém ainda se desconhece se a baixa produção de IF-g nesses indivíduos é causa ou conseqüência da evolução da doença47,48.

Acredita-se que a proteção contra a tuberculose esteja mais relacionada à relação entre os títulos de IF-g e de citocinas produzidas pelos linfócitos Th2 do que aos títulos absolutos de cada citocina49.

A resposta à BCG varia de acordo com a sensibilização prévia a micobactérias. Testes realizados in vitro demonstraram que, em adultos com reação negativa ao teste tuberculínico, a resposta a antígenos solúveis da M. tuberculosis surge 1 semana após a aplicação da BCG; a resposta a antígenos da membrana e da parede celular só ocorre 4 semanas após a vacinação (coincidindo com a conversão ao teste de Mantoux), e a resposta a antígenos preparados através da citólise da M. tuberculosis surge 1 ano após a vacinação. Adultos previamente sensibilizados apresentam um amplo espectro de resposta aos diversos antígenos da M. tuberculosis49. Esses resultados obtidos in vitro confirmam os achados clássicos da resposta acelerada e mais intensa à BCG quando pessoas previamente sensibilizadas são vacinadas22,23,26,49.

A vacina BCG induz resposta Th1 e Th2, porém a ação dos linfócitos citotóxicos é modulada pelas citocinas produzidas pelos linfócitos Th1. Os resultados de estudos recentes, realizados em humanos e em animais de experimentação, sugerem que a exposição prévia a antígenos micobacterianos esteja associada a maior atividade citotóxica, e que, para ser eficiente, a vacina BCG deve ser administrada antes que o indivíduo seja exposto à M. tuberculosis ou outras micobactérias39,43,49.

Em adultos, a BCG induz forte resposta Th1; entretanto, estudos realizados em animais de experimentação indicam que a exposição precoce a antígenos bacterianos pode induzir resposta predominante de linfócitos Th2, mais associada à hipersensibilidade do que à imunidade protetora. Este fato é bastante preocupante, tendo em vista que a vacina BCG é recomendada para recém-nascidos50.

A avaliação da resposta imunológica à BCG em recém-nascidos ainda é pouco estudada, porém já foi demonstrado que, embora a BCG-ID estimule os linfócitos citotóxicos, a resposta é modulada, ocorrendo alta produção de IF-g e baixa produção de IL-5.

Em recém-nascidos, a BCG-ID é capaz de induzir a geração de linfócitos citotóxicos específicos contra micobactérias, e a atividade citotóxica, avaliada pela produção de IL-5 e IL-10, é maior nas crianças que apresentam menor produção de interferon-gama49. Além disso, as crianças vacinadas entre 0 e 4 meses de idade com a BCG-ID apresentam memória de células Th1, mantendo alta produção de IF-g e baixa produção de IL 550.

Relação entre RCHT e produção de IF-g

Em países como Suécia e Reino Unido, onde existe baixa exposição a micobactérias, existe correlação positiva entre a viragem ao teste tuberculínico e a produção de IF-g29,38. O mesmo não é verdadeiro quando se avalia a resposta à vacina BCG em indivíduos que vivem em comunidades muito expostas à M. tuberculosis ou outras micobactérias, como na África (Malawi).

A magnitude da resposta imunológica, avaliada pelo aumento da RCHT e pela produção de IF-g antes e após a vacinação com BCG, foi comparada em ingleses e africanos. Antes da vacinação, a RCHT positiva e a produção de IF-g foram mais comuns entre os africanos (46 e 61%) do que nos ingleses (13 e 22%).

Um ano após a vacinação, a distribuição do IF-g foi semelhante nas duas populações. A RCHT aumentou nas duas populações, porém com maior intensidade no Reino Unido, e a correlação entre RCHT e produção de IF-g só foi verificada no Reino Unido, sugerindo que a exposição a micobactérias interfere de forma significativa na resposta imunológica à vacina BCG38.

Acredita-se que a proteção conferida pela vacina BCG esteja mais correlacionada com a magnitude da resposta imunológica após a vacinação do que com os valores absolutos de IF-g ou RCHT. É provável que a sensibilização devido à exposição a outras micobactérias seja o determinante mais importante das variações na proteção conferida pela BCG em diferentes populações38.

A vacina BCG-ID tem maior capacidade de estimular a resposta imune mediada por células do que a BCG-PC; 83% dos adultos vacinados com a BCG-ID apresentam RCHT positiva, versus 40% dos vacinados com a BCG-PC. Além, disso, verificou-se que a resposta linfoproliferativa específica à M. tuberculosis só aumenta de forma significativa nos vacinados com a BCG-ID40.

A RCHT e a resposta linfoproliferativa a diferentes proteínas secretadas pela M. tuberculosis foram avaliadas em indivíduos vacinados com quatro diferentes doses da BCG-PC. Indivíduos vacinados com doses baixas de BCG não apresentaram produção de IF-g, e somente 10% apresentaram RCHT 8 semanas após a vacinação; enquanto isso, 95% e 100% dos vacinados com a BCG dose-padrão e dose alta, respectivamente, apresentaram elevação do IF-g e positivação da RCHT. Esses resultados comprovam que baixas doses da vacina BCG são ineficientes para estimular a resposta imune associada aos linfócitos Th142.

Em adultos, a RCHT é mais intensa após a BCG-ID e se correlaciona com outros marcadores da imunidade protetora, como IF-g e resposta linfoproliferativa específica46.

A resposta à vacina BCG varia de acordo com diversos fatores. Em crianças, tanto a RCHT como a produção de citocinas em resposta a diferentes cepas da vacina BCG, utilizadas por via PC ou ID, no período neonatal ou com 10 semanas, foram mais intensas nos grupos vacinados com a cepa japonesa por BCG-ID e com 10 semanas49.

Apesar de alguns autores sugerirem que a vacinação de crianças maiores de 2 meses de idade poderia estimular melhor a resposta imunológica à vacina BCG49, no Brasil já foi demonstrado que mesmo os recém-nascidos de baixo peso apresentam boa resposta imune após receberem a BCG-ID26. Não encontramos nenhum estudo avaliando a resposta celular do tipo Th1 após o uso da BCG-PC no nosso meio.

A análise dos estudos comparativos entre BCG-ID e BCG-PC leva às seguintes conclusões:

- a estimulação da RCHT e a produção de citocinas associadas aos linfócitos Th1 são mais eficientes com a BCG-ID4,12,49;

- baixas doses da vacina BCG são ineficientes para induzir resposta protetora, avaliada pela produção de IF-g 42;

- provavelmente, as diferenças encontradas nos resultados de estudos que comparam as técnicas de aplicação da BCG-ID com a BCG-PC se devem à menor dose inoculada quando se usa a via percutânea6-9,30-42;

- os eventos adversos da BCG são mais freqüentemente associados à má técnica de administração4,9,18;

- a presença de cicatriz para avaliar a "pega" vacinal só tem validade após o uso da BCG-ID, pois a BCG-PC não deixa cicatriz9,18,19;

- a verificação da presença de cicatriz pós-BCG deve ser feita na infância, pois o tamanho da cicatriz diminui com o passar dos anos27,29;

- a BCG-ID protege melhor contra as formas graves da doença, que ocorrem principalmente em lactentes jovens, como a meningite tuberculosa2,3,32,33,35;

- até o presente, não há evidências que comprovem a efetividade da revacinação para aumentar o grau de proteção contra a tuberculose em adolescentes e adultos28,33,41,47.

 

Recomendações

No Brasil, o impacto na redução da meningite tuberculosa em lactentes foi nitidamente associado ao aumento da cobertura vacinal com a BCG-ID. Embora a vacina BCG-PC contendo a cepa Moureau-Rio de Janeiro esteja licenciada no Brasil, ela tem sido pouco utilizada, não sendo possível comprovar sua efetividade.

Os avanços no campo da imunologia e biologia molecular têm estimulado pesquisas sobre novas técnicas de vacinação contra a tuberculose, porém é pouco provável que a BCG-ID seja substituída por novas vacinas nos próximos anos51-54.Enquanto não surgirem vacinas mais efetivas, deve-se preferir o método ID para administrar a BCG, pois ele induz a resposta imunológica protetora de forma mais eficiente.

 

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Endereço para correspondência
Lucia F. Bricks
Instituto da Criança – HCFMUSP
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 647
CEP 05403-900 - São Paulo, SP
Fax: (11) 3069.8503
E-mail: luciafb@icr.hcnet.usp.br

Artigo submetido em 07.05.03, aceito em 14.07.03