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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000500010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Leptina como marcadora do dimorfismo sexual em recém-nascidos

 

 

Inês M. C. G. PardoI; Bruno GelonezeII; Marcos A. TambasciaII; José L. PereiraIII; Antonio A. Barros FilhoIV

IDoutoranda do Curso de Pós-Graduação em Pediatria, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP
IIDoutor; Professor da Disciplina de Endocrinologia e Metabologia, Departamento de Clínica Médica, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP
IIIChefe da Disciplina de Neonatologia, Departamento de Pediatria, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), São Paulo, SP
IVDoutor; Professor, Departamento de Pediatria, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar os níveis de leptina do cordão umbilical em recém-nascidos adequados para a idade gestacional conforme sexo, peso, comprimento e índice ponderal de nascimento.
MÉTODO: Estudo tipo transversal, envolvendo 132 recém-nascidos adequados para idade gestacional (68 do sexo feminino, 64 do sexo masculino), com idade gestacional de 35-42 semanas. Os dados foram obtidos mediante entrevista com as mães na maternidade, pelo estudo antropométrico dos recém-nascidos e pela dosagem de leptina, estradiol e testosterona no cordão umbilical por meio da coleta imediata após o parto.
RESULTADOS: Os recém-nascidos do sexo feminino apresentaram níveis de leptina significativamente maiores que os do sexo masculino (8,34±0,65 ng/ml versus 6,06±0,71 ng/ml; p = 0,000). Os níveis de estradiol e testosterona não variaram conforme o sexo. A leptina se correlacionou positivamente com idade gestacional (r = 0,394, p < 0,01), peso (r = 0,466, p < 0,01), comprimento (r = 0,335, p < 0,01) e índice ponderal (r = 0,326, p < 0,01) dos recém-nascidos.
CONCLUSÕES: A leptina do cordão umbilical se correlaciona positivamente com idade gestacional, peso, comprimento e índice ponderal do recém-nascido, sugerindo sua participação no processo de crescimento neonatal. Além disso, os recém-nascidos do sexo feminino têm níveis séricos de leptina maiores que os do sexo masculino, sugerindo que o dimorfismo sexual relacionado à composição corporal já possa existir em recém-nascidos.

Leptina, recém-nascido, peso de nascimento, crescimento.


 

 

Introdução

A leptina (palavra grega leptos, que significa "magro") é uma proteína de 16 kDa sintetizada pelos adipócitos que foi recentemente descoberta por intermédio de estudos genéticos realizados por Zhang et al.1. Desde então, uma série de estudos vêm sendo desenvolvidos no sentido de esclarecer seu papel na fisiologia humana.

Estudos em ratos revelaram que a leptina apresenta papel importante na função neuroendócrina. A mutação do gene ob/ob, que codifica a leptina em ratas, provoca infertilidade, ausência de desenvolvimento puberal, obesidade e resistência à insulina1.

Nos seres humanos, a leptina tem sido correlacionada com a massa gorda corpórea e o balanço energético, além de apresentar variações conforme o sexo e o desenvolvimento puberal2,3.

Em 1997, descobriu-se que a leptina é produzida também pela placenta e pelo feto4,5. Isso desencadeou a realização de estudos que investigam a relação da leptina com o crescimento fetal e também como indicadora dos depósitos de energia do recém-nascido através de sua dosagem no sangue do cordão umbilical. No Brasil, há carência de estudos que avaliem as concentrações de leptina no cordão umbilical, bem como sua variabilidade conforme o sexo dos recém-nascidos.

O objetivo deste estudo é avaliar os níveis de leptina do cordão umbilical em recém-nascidos adequados para a idade gestacional conforme sexo, peso, comprimento e índice ponderal de nascimento.

 

Material e métodos

Foi realizado um estudo epidemiológico tipo transversal por meio da avaliação de 132 recém-nascidos adequados para a idade gestacional (68 do sexo feminino, 64 do sexo masculino), com idade gestacional de 35-42 semanas, nascidos no centro obstétrico do Hospital Regional de Sorocaba durante o período de janeiro de 2001 a fevereiro de 2002. Foram selecionados para o estudo apenas os nascidos durante o período diurno (entre 7 e 16 horas), pois há referências na literatura sobre a variação nos níveis de leptina durante o período noturno6.

O cálculo do tamanho amostral foi determinado com base na ocorrência prévia relatada por Koistinen et al. em 19974, sendo 96 o número mínimo de amostras necessárias para este estudo. Os valores de a e b admitidos para este cálculo foram de 0,05 e 0,10, respectivamente.

Os recém-nascidos foram selecionados segundo os seguintes critérios: idade gestacional entre 35-42 semanas, adequados para a idade gestacional, recém-nascidos prematuros cujas gestantes não fizeram uso de corticoterapia, Apgar de primeiro minuto igual ou superior a 7, ausência de malformações congênitas, parto não-gemelar, ausência de enfermidades maternas como hipertensão arterial, diabetes melito, doenças da tireóide ou hipercolesterolemia.

Foram excluídos todos os recém-nascidos de mães tabagistas ou etilistas durante a gravidez.

O estudo foi realizado em duas etapas:

1ª etapa: preenchimento de questionário com dados maternos, coleta do sangue do cordão umbilical, avaliação do recém-nascido.

2ª etapa: dosagens laboratoriais.

Na primeira fase do estudo, foi preenchido pelo pesquisador um questionário materno, previamente testado, cuja meta era a obtenção de dados clínicos sobre a gestação. Ainda na primeira fase do estudo, foram obtidos os dados referentes ao recém-nascido: peso e comprimento ao nascer, índice ponderal, sexo, Apgar, idade gestacional e peso da placenta. Os recém-nascidos foram pesados utilizando-se uma balança microeletrônica portátil e medidos através de um antropômetro apropriado. Duas medidas foram realizadas e comparadas; quando essas medidas diferiram, utilizou-se a média entre as mesmas. O índice ponderal corresponde ao peso do recém-nascido em gramas, dividido pelo comprimento em centímetros ao cubo, multiplicado por 100. A idade gestacional foi calculada pela data da última menstruação e confirmada pela ultra-sonografia.

Os recém-nascidos foram classificados quanto à adequação do peso à idade gestacional de acordo com a curva de Alexander et al.7; após, selecionou-se apenas os recém-nascidos adequados para a idade gestacional.

A segunda etapa do estudo compreendeu as dosagens laboratoriais. A leptina foi obtida do sangue venoso do cordão umbilical, coletado imediatamente após o nascimento, não tendo ocorrido contaminação com o sangue materno, sendo centrifugado e congelado até a análise simultânea de todo o material. Todos os casos em que ocorreu ruptura da placenta foram excluídos do estudo. A leptina foi medida por radioimunoensaio (Linco Research, St. Charles, Missouri, EUA). A concentração mínima detectável de leptina foi de 0,5 ng/ml, com coeficientes de variação intra- e interensaios inferiores a 3 e 6%, respectivamente. O estradiol e a testosterona foram dosados por técnica de radioimunoensaio (Diagnostic Systems Laboratories, Texas, USA). A concentração mínima detectável de estradiol foi de 0,01 ng/ml, e a de testosterona foi de 0,08 ng/ml. Os coeficientes de variação intra- e interensaios para estradiol e testosterona foram inferiores a 5%.

Este estudo foi realizado de acordo com a revisão atual da Declaração de Helsinque e com a Resolução Brasileira 196, de 10 de outubro de 1996, sendo aprovado antes de seu início pelo Comitê de Ética local.

Para a análise dos dados, foram calculadas as médias e os respectivos erros padrão das médias ou mediana e variação, e verificadas as diferenças pelo teste não-paramétrico Mann-Whitney e teste de qui-quadrado para variáveis categóricas. Foi utilizado o coeficiente de Spearman para o cálculo das correlações e adotado p < 0,05 como valor significativo. O programa SPSS versão 7.5 foi utilizado para todos os cálculos estatísticos.

 

Resultados

As características clínicas dos recém-nascidos estão resumidas na Tabela 1. A idade gestacional média dos recém-nascidos foi de 38,58 semanas, com peso médio de 3.053 g, comprimento médio de 47,78 cm, índice ponderal médio de 2,79 e peso da placenta com média de 539,96 g. Existiam 10 prematuros no grupo do sexo feminino e 12 prematuros no grupo masculino (p = 0,728). Não houve diferenças significativas quanto ao sexo desses dados.

 

 

Os escores de Apgar de 1 e 5 minutos não diferiram estatisticamente entre os sexos. Tanto no grupo feminino quanto no masculino a mediana do Apgar de 1 minuto foi 8 (variação 7-9) e de 5 minutos foi 9 (variação 9-10).

Recém-nascidos do sexo feminino possuem níveis de leptina significativamente maiores (p = 0,000) que os do sexo masculino (8,34±0,65 ng/ml versus 6,06±0,71 ng/ml). As concentrações séricas dos hormônios sexuais, estradiol e testosterona, não apresentaram variações entre recém-nascidos do sexo masculino e feminino (Tabela 1).

A leptina do cordão umbilical se correlacionou com parâmetros antropométricos dos recém-nascidos, conforme descrito na Tabela 2. A idade gestacional e o peso de nascimento apresentaram moderado grau de associação com a leptina sérica (p < 0,01). A leptina do cordão umbilical também se correlacionou em menor grau com o comprimento e com o índice ponderal do recém-nascido (p < 0,05).

 

 

Discussão

Este estudo demonstrou que as concentrações de leptina do cordão umbilical se correlacionam com parâmetros antropométricos neonatais e que os recém-nascidos do sexo feminino apresentam níveis superiores de leptina quando comparados aos do sexo masculino. Uma vez que este estudo apresentou um número de recém-nascidos similar conforme o sexo e não encontrou diferenças quanto ao índice ponderal, peso, comprimento e hormônios sexuais entre neonatos do sexo masculino e feminino, sugere-se, pela primeira vez, que este dimorfismo quanto à composição corporal esteja associado ao maior depósito de gordura subcutânea existente no sexo feminino.

O crescimento fetal é caracterizado por uma fase inicial de organização e diferenciação tecidual, associada a uma intensa proliferação celular. Fatores genéticos, suprimento transplacentário de oxigênio e de substratos, além das ações endócrina e parácrina de hormônios produzidos pelo feto, placenta ou mãe, são os principais moduladores do crescimento fetal8.

O controle hormonal do crescimento fetal é exercido por hormônios de origem placentária ou de origem fetal. A regulação pode ser indireta, por modular o crescimento e fluxo sangüíneo placentário, ou direta, pela transferência de hormônio placentário ao feto. Entre esses hormônios estão: GH fetal, insulina, somatomedina, hormônios tireoidianos e esteróides sexuais9. Estudos recentes sugerem que a leptina também esteja envolvida nesse processo10-11.

A leptina pode ser dosada tanto no fluido amniótico quanto no cordão umbilical a partir de 25 semanas de gestação5. Enquanto a leptina proveniente do líquido amniótico reflete o ambiente materno, a leptina do cordão é derivada tanto da placenta como do tecido fetal. Assim, a maioria dos estudos publicados até o momento são unânimes ao afirmar que a leptina dosada no sangue materno se correlaciona apenas com a adiposidade maternal12-14.

A presença de leptina no sangue do cordão umbilical humano tem sido demonstrada em diversos estudos. Este estudo demonstrou uma correlação positiva entre leptina do cordão umbilical e idade gestacional, peso, comprimento e índice ponderal dos recém-nascidos. Esse achado é semelhante ao encontrado em estudos prévios, sugerindo que a produção de leptina no cordão esteja relacionada com o desenvolvimento do tecido adiposo fetal. Koistinen et al.4 encontraram associação positiva entre crescimento fetal e concentração de leptina no cordão umbilical. Matsuda et al.15 realizaram um estudo com 82 recém-nascidos, com idade gestacional entre 36-42 semanas e peso de nascimento entre 2.306-4.128 g, e encontraram associação positiva entre peso de nascimento e leptina no cordão umbilical. Helland16 também descreveu essa mesma associação em seu estudo publicado em 1997.

Há controvérsias na literatura mundial quanto a uma possível correlação entre leptina do cordão umbilical e peso da placenta, existindo estudos que encontraram tal associação17-18, enquanto outros não encontraram19-20. Este estudo não encontrou uma correlação entre leptina e peso da placenta.

Recentemente, novos estudos têm sido publicados, confirmando a importância da leptina no crescimento fetal. Estudo publicado em 2000 verificou que a leptina do cordão umbilical se correlaciona negativamente com ICTP (carboxy-terminal telopeptide type I collagen), que é um marcador de reabsorção óssea, sugerindo que a leptina provavelmente diminui a reabsorção óssea, com conseqüente aumento da massa óssea21. Christou et al.22 observaram que o peso ao nascer apresenta uma associação independente dos níveis de IGF-I com as concentrações de leptina do cordão, sugerindo que a leptina esteja envolvida em mecanismos ainda desconhecidos de regulação do crescimento fetal.

Embora a diferença nas concentrações de leptina em adultos segundo o sexo seja bem documentada, em crianças e recém-nascidos existem poucos estudos23-24. Este estudo demonstrou que os recém-nascidos do sexo feminino apresentaram níveis séricos de leptina maiores que os do sexo masculino. Observamos que esta diferença existe mesmo quando comparamos recém-nascidos do sexo masculino e feminino com as mesmas características quanto ao peso, comprimento e índice ponderal. Resultado semelhante foi encontrado num estudo de coorte realizado com 197 recém-nascidos na Inglaterra, publicado em 199925, que demonstrou que os recém-nascidos do sexo feminino têm níveis maiores de leptina que os do sexo masculino, independentemente do tamanho de nascimento. Isso sugere que provavelmente o dimorfismo sexual relacionado à composição corporal já exista em recém-nascidos.

Os mecanismos envolvidos nas variações dos níveis de leptina conforme o sexo dos neonatos ainda são desconhecidos. Verificou-se neste estudo que as concentrações dos hormônios sexuais no cordão umbilical são similares quanto ao sexo. Deste modo, os hormônios sexuais no cordão umbilical não devem interferir na variabilidade da leptina quanto ao sexo. Este estudo sugere que provavelmente as diferenças quanto aos depósitos de gordura subcutânea conforme o sexo possam explicar essa diferença entre leptina dosada em recém-nascidos do sexo masculino e feminino. Estudo prévio26 relata que o índice ponderal não é um bom indicador dos depósitos gordurosos do recém-nascido, sendo que a medida das pregas cutâneas do sexo feminino é superior comparada à do sexo masculino. Estudos futuros utilizando métodos de bioimpedância poderão esclarecer as razões dessas diferenças e suas associações com o crescimento do recém-nascido.

Em conclusão, nosso estudo encontrou uma correlação positiva da leptina do cordão umbilical com a idade gestacional, peso, comprimento e índice ponderal do recém-nascido, sugerindo sua associação com o processo de crescimento neonatal. Concluímos também que os recém-nascidos do sexo feminino têm níveis séricos de leptina maiores que os do sexo masculino, sugerindo que o dimorfismo sexual relacionado à composição corporal já possa existir em neonatos.

 

Agradecimentos

Agradecemos à biomédica Sandra Grandin Pereira, do Departamento de Endocrinologia da UNICAMP, pela sua valiosa colaboração na realização da dosagem da leptina. Agradecemos também à FAPESP, pelo financiamento do projeto.

 

Referências

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Endereço para correspondência
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Fone: (15) 232.4699 - Fax: (15) 232.7050
E-mail: doctorpardo@hotmail.com and loli@terra.com.br

Artigo submetido em 17.12.03, aceito em 26.04.04
Fonte financiadora: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.