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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000500013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aspectos clínicos e histológicos da úlcera duodenal em crianças e adolescentes

 

 

Elisabete KawakamiI; Rodrigo S. MachadoII; Jacqueline A. FonsecaII; Francy R. S. PatrícioIII

IProfessora adjunta, Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica, Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), São Paulo, SP
IIMestre em Medicina, Pós-graduando da Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica, Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), São Paulo, SP
IIIProfessora adjunta, Departamento de Anatomia Patológica, Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar as características clínicas e histológicas de crianças e adolescentes com úlcera duodenal.
MÉTODOS: Foram avaliadas prospectiva e consecutivamente 43 pacientes com úlcera duodenal ao longo de 6 anos (7,2 pacientes por ano). A avaliação consistiu de questionário clínico de sintomas dispépticos, exame físico e endoscopia digestiva com biópsias gástricas para exame histológico e detecção do Helicobacter pylori.
RESULTADOS: A idade no diagnóstico variou de 4 anos e 8 meses a 17 anos e 4 meses (mediana = 12 anos e 4 meses). O sintoma mais freqüente foi dor abdominal (39/43, 90,7%): no epigástrio em 31/39, periumbilical em 7/39 e noturna em 27/39. Outros sintomas freqüentes foram: diminuição do apetite (32/43, 74,4%), vômitos (30/43, 69,8%), plenitude pós-prandial (23/43, 53,5%), perda de peso (22/43, 51,2%) e sensibilidade abdominal (19/43, 44,2%). Hemorragia digestiva alta ocorreu em 19/43 pacientes (44,2%), e anemia em 21/43 (48,8%). H. pylori foi detectado em 41/43 (95,3%), e todos esses pacientes apresentaram gastrite crônica ativa de antro, 92% deles com predomínio do infiltrado linfomononuclear. A erradicação da bactéria ocorreu em 68,3% dos pacientes infectados, mas houve cicatrização da lesão em 100% dos pacientes erradicados e em 89% dos não-erradicados.
CONCLUSÃO: Úlcera duodenal foi associada à gastrite crônica por H. pylori na grande maioria dos pacientes. Houve grande freqüência de complicações, especialmente hemorragia digestiva alta.

Úlcera péptica, dispepsia, gastrite, Helicobacter pylori.


 

 

Gastrite crônica associada à infecção por Helicobacter pylori está presente na grande maioria das crianças com úlcera duodenal primária, havendo consenso para o tratamento de erradicação da bactéria, pela diminuição acentuada do índice de recidivas ulcerosas1. A colonização da mucosa gástrica por H. pylori, bacilo gram-negativo, microaerofílico, espiralado, atualmente ocorre em uma minoria das crianças de países desenvolvidos, ao contrário das crianças de países em desenvolvimento, sendo a prevalência até 10 anos de idade de 5-10% e até 80%, respectivamente2. Os principais fatores de risco para contrair a infecção são: viver em país em desenvolvimento e ser criança com pais infectados e de baixo poder aquisitivo3. A maioria dos pacientes é assintomática, estimando-se que cerca de 15% evoluem para úlcera péptica e 1% para câncer gástrico4. Após a instalação da gastrite, a bactéria geralmente persiste por toda a vida, sendo rara a erradicação espontânea. Não há conclusão definitiva a respeito da influência dos fatores de virulência da bactéria, assim como da resposta do hospedeiro ou das condições ambientais que poderiam interferir no curso evolutivo desta afecção.

Desconhece-se a real prevalência da úlcera duodenal em crianças, sendo descritos quatro a seis casos novos por ano em grandes centros, e sendo mais rara a úlcera gástrica. Nos países em desenvolvimento, há relatos de diferenças na prevalência de úlcera duodenal relacionadas a diferenças étnicas ou regionais5. As manifestações clínicas da úlcera duodenal geralmente são atípicas; em adolescentes, o quadro clínico é semelhante ao de pacientes adultos6.

O objetivo deste estudo consiste em avaliar aspectos clínicos e histológicos da úlcera duodenal associada à infecção por H. pylori em crianças e adolescentes.

 

Métodos

O estudo foi prospectivo e incluiu 34 (79,1%) pacientes com úlcera duodenal e 9 (20,9%) com duodenite erosiva (que apresenta o mesmo curso evolutivo da úlcera duodenal) atendidos no Serviço de Endoscopia Digestiva da Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica da UNIFESP-EPM em um período consecutivo de 6 anos (média de 7,2 casos por ano). Foram excluídos pacientes em uso de drogas antiinflamatórias não-esteróides, corticosteróides ou antibióticos por pelo menos 1 mês antes da endoscopia e aqueles com outras patologias digestivas ou extradigestivas.

Avaliação clínica

Foi feito questionário clínico contendo sintomas e sinais dispépticos. As respostas eram dadas, sempre que possível, pelos pacientes e confirmadas pelos pais quando necessário. Quando as respostas não eram claras ou havia discrepância entre a resposta do paciente e a de seus pais, o dado era excluído. Os sintomas e sinais relacionavam-se aos existentes antes do exame endoscópico e incluíam: dor abdominal (localização: epigástrica, periumbilical, difusa, outro local; freqüência; tipo: queimação, cólica, pontada, fome, indefinida; intensidade: leve, moderada, intensa; dor noturna; relação com alimentação: alívio, piora e sem relação), vômitos, náuseas, perda de peso, apetite, história familiar, sensibilidade abdominal, plenitude pós-prandial, hemorragia digestiva alta e anemia. A intensidade da dor foi relacionada à interferência nas atividades habituais do paciente. Dor noturna foi definida quando a dor despertou o paciente durante o sono. História familiar positiva de úlcera péptica (parente de primeiro ou segundo grau) foi considerada somente com o relato de diagnóstico endoscópico de úlcera péptica. Estado nutricional foi avaliado através do índice de massa corpórea7.

Detecção do Helicobacter pylori

Foram obtidas quatro biópsias endoscópicas de antro a 2 cm do piloro para o teste rápido da urease e o estudo histológico (HE e Giemsa modificado). A desinfecção do endoscópio e das pinças de biópsia foi feita após cada procedimento com ampla lavagem manual com solução enzimática, imersão em solução de glutaraldeído a 2% durante 20 minutos e enxágüe em água corrente.

O teste rápido da urease foi realizado com solução aquosa com uréia a 10%, não comercializada, preparada no dia do exame e mantida em temperatura ambiente8. Para análise histológica, os fragmentos foram colocados em papel de filtro, orientados e fixados em solução de formaldeído a 10%. A presença de bactéria espiralada que se corava pelo Giemsa modificado e pela hematoxilina-eosina foi detectada na camada mucosa do epitélio gástrico ou na superfície das células epiteliais. A inflamação da mucosa gástrica foi avaliada de acordo com o sistema de Sydney modificado9. O paciente foi considerado infectado quando tinha exame histológico ou teste rápido da urease positivo. Erradicação do H. pylori após o tratamento antimicrobiano foi avaliada com os mesmos testes em biópsias gástricas obtidas por via endoscópica 2 a 3 meses após o término do tratamento.

Tratamento do Helicobacter pylori

Os esquemas terapêuticos para erradicação do H. pylori foram utilizados de acordo com o protocolo de tratamento vigente na época do diagnóstico da lesão. Ao longo deste período, novos esquemas substituíram aqueles que apresentavam índice de erradicação abaixo do esperado. Esquema duplo ou tríplice contendo subcitrato de bismuto coloidal (7-8 mg/kg/dia em quatro doses) ou inibidor de bomba de prótons associado a um ou dois dos seguintes antibióticos: amoxicilina (50 mg/kg/dia em três doses); claritromicina (15 mg/kg/dia em duas doses); tetraciclina (50 mg/kg/dia em três doses em crianças acima de 10 anos); derivados nitroimidazólicos, tinidazol (10-20 mg/kg/dia em duas doses) ou metronidazol (20 mg/kg/dia em duas doses); furazolidona (7 mg/kg/dia em duas doses) por 1 a 2 semanas. Nos casos de falha terapêutica, novos esquemas de antibióticos foram instituídos, substituindo-se os que mais freqüentemente desencadeiam resistência bacteriana (claritromicina e derivados nitroimidazólicos) ou aumentando-se o tempo de tratamento de 1 para 2 semanas. Três pacientes usaram subcitrato de bismuto coloidal por 4 e 8 semanas associado a amoxicilina e derivado nitroimidazólico. Antagonistas de receptores H2 (ranitidina 4-6 mg/kg/dia, até 150 mg, em duas doses por 6 a 8 semanas) ou inibidores da bomba de prótons (omeprazol 0,7 mg/kg/dia, até 20 mg, por 4 semanas) se seguiram ao esquema antimicrobiano.

Estatística

As variáveis quantitativas foram descritas pelo cálculo de mediana e variação, enquanto que as variáveis qualitativas foram descritas pelo cálculo da proporção10.

O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética Médica da UNIFESP-EPM.

 

Resultados

A idade do início dos sintomas de 43 pacientes variou de 3 anos a 16 anos e 4 meses (mediana = 10 anos e 9 meses), enquanto que a idade à época do diagnóstico variou de 4 anos e 8 meses até 17 anos e 4 meses (mediana = 12 anos e 4 meses). O diagnóstico foi feito após os 10 anos de idade em 72,1% (31/43) dos casos, sendo a proporção de sexo 1,65 (M/F).

As características clínicas estão expressas na Tabela 1. Complicações da úlcera estavam presentes em 48,8% dos pacientes (21/43), sendo hemorragia digestiva alta em 44,2% (19/43) e obstrução gastroduodenal por estenose pilórica ou estenose duodenal em 4,7% (2/43). Na maioria dos pacientes (16/19, 84,2%), o sangramento digestivo esteve acompanhado de dor abdominal, mas em três a queixa foi isolada; 11 apresentaram hemorragia aguda e oito tinham esta complicação como queixa pregressa. Nesses oito, a queixa principal no momento do diagnóstico foi dor abdominal em seis e vômitos em dois. Dos 19 pacientes com hemorragia digestiva, 16 apresentavam anemia (níveis de hemoglobina variaram de 4,5 a 9,9 mg/dl) e 11 receberam transfusão sangüínea, porém em nenhum paciente houve necessidade de procedimento hemostático por via endoscópica. Peristaltismo na região epigástrica associado à intensa plenitude e vômitos constituíram queixa principal em uma criança de 7 anos com estenose pilórica. Quanto ao estado nutricional na época do diagnóstico, 76,7% apresentavam eutrofia (percentil 15-85), 11,6% déficit ponderal (percentil < 15), e 11,6% sobrepeso (percentil > 85). Três dos cinco pacientes com déficit ponderal apresentavam complicação da úlcera.

 

 

O tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico foi maior em pacientes menores: em 10 pacientes com início dos sintomas antes dos 6 anos, o tempo variou de 1 ano e 4 meses a 10 anos e 6 meses (mediana = 5 anos); em 12 pacientes com início dos sintomas entre 6 e 10 anos, variou de 1 mês a 5 anos e 10 meses (mediana = 2 anos e 8 meses); e em 21 pacientes com início dos sintomas após os 10 anos, variou de 2 dias a 2 anos e 7 meses (mediana = 1 ano). Quando o sintoma foi hemorragia digestiva, o diagnóstico foi mais precoce. O intervalo entre o início dos sintomas e a endoscopia em 12 pacientes que apresentaram hemorragia digestiva como queixa principal variou de 2 dias a 2 meses (mediana = 6 dias) ao passo que em 26 pacientes com dor abdominal, este tempo variou de 9 meses a 10 anos (mediana = 2 anos e 6 meses).

História familiar para doença ulcerosa péptica foi referida em 24/42 (57,1%) pacientes, sendo excluída uma por ser adotada. Úlcera duodenal foi referida em sete parentes de I grau e três de II grau, gástrica em seis de I grau e quatro de II grau, e indefinida em quatro de II grau.

Helicobacter pylori

Foi detectado em 41/43 pacientes (95,3%), sendo tanto o teste rápido da urease quanto o exame histológico positivos em 85,4% (35/41). A histologia isoladamente foi positiva em cinco, enquanto que, com o teste rápido da urease, isso ocorreu em apenas um paciente, que tinha um exame histológico anterior ao tratamento com resultado positivo e não havia sido tratado previamente com esquema de erradicação.

Histologia

Todos os 43 pacientes apresentavam gastrite crônica ativa, sendo o infiltrado neutrofílico de intensidade leve em 43%, moderado em 35% e intenso em 22%. A histologia da mucosa gástrica mostrou folículos linfóides em 28% dos pacientes, estando associados a nodularidades no antro gástrico em 31% dos casos.

 

Tratamento do Helicobacter pylori

Houve erradicação do H. pylori após tratamento antimicrobiano em 68,3% dos pacientes (28/41), com diferentes esquemas de tratamento. Em 64,3% (18/28), a erradicação ocorreu após o primeiro esquema antimicrobiano, em 14,3% (4/28) após o segundo, e em 21,4% (6/28) após o terceiro. Quando não houve erradicação da bactéria, optou-se por antibióticos que não haviam sido utilizados anteriormente, evitando-se aqueles que acarretavam mais resistência antimicrobiana (derivados nitroimidazólicos). A cicatrização da lesão ocorreu em 100% dos pacientes com erradicação da bactéria e em 89% dos não-erradicados.

 

Discussão

A freqüência anual de úlcera duodenal (7,2 casos novos por ano) foi ligeiramente superior à descrita em outros centros de referência (quatro a seis casos por ano), mas similar ao descrito em outro centro brasileiro, que relatou 27 pacientes em 4 anos ou 6,75 pacientes por ano11. Recentemente, estudo russo surpreendentemente reportou 31 adolescentes em um ano, todos com úlcera duodenal positiva para H. pylori12. Roma et al., ao revisar os resultados de endoscopias de 2.550 crianças em 9 anos com sintomas gastrointestinais, relataram 2% de prevalência de úlcera péptica, das quais 81% eram duodenais13.

A úlcera duodenal ocorre em qualquer idade, mas sua freqüência aumenta após os 10 anos, conforme observado neste estudo1. A incidência crescente com a idade pode ser relacionada à epidemiologia da infecção por H. pylori, que apresenta prevalência crescente com a idade, tanto em países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento2. O retardo no diagnóstico ocorreu principalmente em crianças menores, conforme relatado por outros autores14.

A dor abdominal foi o sintoma mais comum, e a localização foi epigástrica na maioria dos pacientes, confirmando outras séries11,12,14. Características típicas de doença péptica, como melhora com a alimentação, embora menos freqüentes em crianças, ocorrem e devem ser questionadas15. A doença péptica deve ser diferenciada da dor abdominal funcional, muito mais prevalente em crianças, podendo comprometer as atividades habituais; o diagnóstico diferencial com doença orgânica pode ser difícil apenas em bases clínicas. Os dados clínicos com maior poder discriminativo para diferenciar crianças sintomáticas com úlcera e sem úlcera são: localização epigástrica da dor, relação da dor com a alimentação, vômitos, dor noturna (acordando o paciente), sabor amargo na boca, queimação retroesternal, hemorragia digestiva alta e história familiar12,16. A dor noturna, apesar de sensível, é pouco específica, e, se for considerada a grande prevalência de dor abdominal funcional, seu valor preditivo positivo é baixo16,17.

História familiar positiva para úlcera péptica tem sido referida em 26 a 68% dos casos, sendo mais freqüente quanto maior o grau de parentesco pesquisado14,15. No presente estudo, considerando parentesco até II grau, o dado poderia estar subestimado, uma vez que foram registrados apenas os casos com diagnóstico endoscópico da lesão. O agrupamento de casos em famílias pode ser fruto da disseminação da infecção por H. pylori no lar, pois a história de doença péptica em familiares é muito mais freqüente em pacientes infectados. Essas observações podem ser explicadas pela transmissão intrafamiliar de H. pylori a partir de uma fonte comum ou do contato pessoa-pessoa18.

As complicações da úlcera duodenal incluem hemorragia digestiva alta, perfuração e obstrução15,19. Sua freqüência relativa é maior entre crianças, possivelmente pelo diagnóstico tardio19. O retardo no diagnóstico pode ser ainda maior quando o sintoma presente é a dor abdominal em comparação à hematêmese, como observado neste trabalho. Nos pacientes com dor abdominal como principal manifestação clínica, dificuldades relacionadas à caracterização da dor e à grande prevalência de dor abdominal funcional podem retardar o diagnóstico. Em nosso estudo, a hemorragia foi a manifestação clínica mais freqüente de complicação da úlcera, enquanto que na literatura a freqüência de hemorragia digestiva alta como sintoma de apresentação varia de 24 a 80% dos pacientes1,20. Hematêmese isolada sem dor abdominal ocorreu em 15,8% (3/19) dos pacientes, mas pode ocorrer em até 25% dos casos21. Houve apenas um paciente com obstrução pilórica, enquanto que estudo realizado no sul da Índia em 198322 refere 8/12 pacientes com estenose pilórica em 29 pacientes com úlcera duodenal em 18 anos; outros autores referem taxas bem menores.

No presente estudo, gastrite crônica associada à infecção por H. pylori foi observada na maioria dos pacientes, de forma similar ao descrito em outras séries, de diferentes países, nas quais a infecção foi encontrada em até 100% dos pacientes com úlcera duodenal, embora alguns estudos apresentem casuísticas com índices menores, de até 27%1,12,18,20,23. Esta diferença talvez possa ser atribuída à distribuição focal da bactéria e ao menor número de fragmentos de biópsia coletados. A histologia e o teste rápido da urease são métodos diagnósticos que apresentam boa acurácia, como observado em nosso serviço, com sensibilidade e especificidade, respectivamente, de 92 e 100%, e de 100 e 84,2% (teste não comercializado)8. O paciente que apresentou apenas o teste rápido da urease positivo tinha resultado anterior de histologia positivo e apresentava biópsia com infiltrado neutrofílico, achado com alta especificidade para infecção por H. pylori, uma vez que a distribuição da bactéria pode ser focal24.

A ocorrência de úlcera duodenal em pacientes infectados está relacionada principalmente à presença de gastrite antral1,20,24, como observado no presente estudo. Em pacientes adultos, tem-se evidenciado predomínio de infiltrado polimorfonuclear25, enquanto que, em crianças, o infiltrado inflamatório é geralmente mais crônico, com um número significativamente maior de células linfoplasmocitárias em relação ao de células polimorfonucleares21. Porém, os achados histológicos em crianças infectadas não são uniformes, parecendo depender da condição socioeconômica26.

Os dois pacientes não infectados tinham infiltrado neutrofílico, que é considerado um achado histológico altamente específico de infecção por H. pylori, e talvez a bactéria não tenha sido observada devido à natureza focal da infecção24. A utilização de um teste não-invasivo, como o teste respiratório com uréia-13C, poderia complementar o diagnóstico, mas não dispomos deste exame para uso rotineiro27.

Os esquemas antimicrobianos utilizados para tratar a infecção tiveram baixo índice de erradicação (68,3%). Não há esquema terapêutico 100% eficaz, sendo necessário estabelecer a combinação ideal de antibióticos em cada local com base em fatores regionais, como resistência antimicrobiana e grau de aderência a um tratamento caro, com múltiplas drogas e com efeitos colaterais. Portanto, não há esquema terapêutico universal validado em crianças28,29. Ao longo dos anos, após várias combinações de antibióticos associados a um anti-secretor ou a sais de bismuto, obtivemos os melhores resultados com esquema tríplice contendo amoxicilina, claritromicina e inibidor de bomba de prótons, com taxa de erradicação de 73 e 50% com 10 dias e 7 dias de tratamento, respectivamente30; mais recentemente, obtivemos 88,9% em avaliação preliminar por intention-to-treat de 18 pacientes (dado não publicado) com furazolidona, claritromicina e omeprazol por 7 dias.

Concluindo, a úlcera duodenal foi associada à gastrite crônica e infecção por H. pylori na grande maioria das crianças e adolescentes. Houve grande freqüência de complicações, especialmente hemorragia digestiva alta, e observou-se retardo no diagnóstico, principalmente em crianças menores.

 

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Endereço para correspondência
Elisabete Kawakami
Rua Loefgreen, 1596
CEP 04040-032 - São Paulo, SP
Fone/Fax: (11) 5573.8998
E-mail:elkawakami.dped@epm.br

Artigo submetido em 09.01.04, aceito em 31.03.04