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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000500018 

CARTAS AO EDITOR

 

Baixo peso ao nascer e desmame precoce: novos fatores de risco para aterosclerose

 

 

Sr. Editor:

Bastante oportuno o estudo de Romaldini et al.1 sobre os fatores de risco em crianças e adolescentes para aterosclerose, principal causa de morte no mundo e no Brasil. Observaram, em 41% de 109 crianças e adolescentes com história familiar de coronariopatia precoce, um ou mais fatores de risco para aterosclerose. Quanto maior o número dos fatores de risco, maior a probabilidade de doença, uma vez que seus efeitos são multiplicados. Dessa forma, parece da maior importância, especialmente para aqueles que assistem a criança, as recentes divulgações de evidências científicas que apontam para dois novos fatores de risco das doenças cardiovasculares: o baixo peso ao nascer e a ausência de aleitamento materno.

Singhal et al.2 sugerem que a nutrição na infância afeta permanentemente o perfil lipoprotéico, e o leite materno apresenta um efeito protetor sobre esse perfil. Em recente ensaio clínico randomizado, observaram concentrações mais baixas de colesterol e uma menor relação LDL/HDL em adolescentes que tinham sido prematuros e amamentados. O ALSPAC (The Avon Longitudinal Study of Parents and Children) também detectou efeitos protetores a longo prazo do leite materno contra as doenças cardiovasculares, recomendando que a promoção do aleitamento materno exclusivo seja um componente essencial na estratégia para o controle da hipertensão arterial3. A importância dessas evidências, tanto para os países ricos como para os pobres, é respaldada pela recente publicação da Organização Mundial da Saúde sobre a dieta e a nutrição na prevenção das doenças crônicas4.

O baixo peso ao nascer, resultado da subnutrição fetal, leva a adaptações da célula em períodos críticos do crescimento, o que altera permanentemente o seu metabolismo; o feto, na tentativa de preservar tecidos nobres, como o cérebro, promove alterações hormonais visando adaptar o organismo a uma vida com menor aporte calórico e protéico, o que chega a comprometer o desenvolvimento de vários órgãos (rins, fígado, pâncreas) e sistemas (vascular, muscular, ósseo). Esse mecanismo, desde que superada a subnutrição após os primeiros meses de vida, predispõe a afecções cardiovasculares, doença vascular cerebral, diabetes melito tipo II, obesidade, hipertensão arterial, osteopenia, alguns tipos de câncer e doenças mentais5,6.

Essas evidências trazem novas preocupações à saúde pública, tanto para os países ricos, que ainda mantêm elevadas taxas de desmame precoce, mas principalmente para os mais pobres, que, ao lado da baixa duração do aleitamento materno, ainda apresentam elevados índices de baixo peso ao nascer. No Brasil, até que ponto esses novos fatores de risco poderiam justificar o aumento das taxas de obesidade e de diabetes melito tipo II (mais de 40% nas últimas décadas), ou antever a elevação dos coeficientes de morbimortalidade pelas doenças cardiovasculares nas áreas mais carentes? Essas e outras perguntas aguardam respostas urgentes dentro desse novo cenário: a prevenção das doenças do adulto com origens fetais e na infância.

 

João Guilherme B. Alves

Coordenador do Mestrado em Saúde Materno-Infantil pelo Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP). Professor adjunto, Universidade Estadual de Pernambuco (UPE), Recife, PE

 

Referências

1. Romaldini CC, Issler H, Cardoso AL, Diament J, Forti N. Fatores de risco para aterosclerose em crianças e adolescentes com história de doença arterial coronariana prematura. J. Pediatr (Rio J). 2004;80:135-40.

2. Singhal A, Cole TJ, Fewtrell, Lucas A. Breastmilk feeding and lipoprotein profile in adolescents born preterm: follow-up of a prospective randomised study. Lancet. 2004;363:1571-8.

3. Martin RM, Ness AR, Gunnell D, Emmett P, Davey Smith G, ALSPAC Study Team. Does breast-feeding in infancy lower blood pressure in childhood? The Avon Longitudinal Study of Parents and Children (ALSPAC). Circulation. 2004;16:1259-66.

4. WHO Technical Report Series 916. Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. Geneva; 2003.

5. Krishnaswamy K, Naidu NA, Prasad MP, Reddy GA. Fetal malnutrition and adult chronic disease. Nutr Rev. 2002;60:S35-9.

6. Barker DJ. The development origins of adult disease. Eur J Epidemiol. 2003;18:733-6.