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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.80 no.5 Porto Alegre  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572004000600002 

EDITORIAIS

 

A participação do nutrólogo na escolha de dietas especiais

 

 

Ary Lopes Cardoso

Doutor. Médico assistente; Responsável pela Unidade de Nutrologia, Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP)

 

 

Sempre que houver indicação de se utilizar dieta de exclusão na prática pediátrica, impõe-se uma postura médica responsável. O estudo de Medeiros et al.1, publicado neste Jornal, merece a atenção dos leitores, pois consegue demonstrar como isso pode e deve ser equacionado.

Um sem-número de riscos nutricionais, conseqüentes à deficiência de macro- e micronutrientes, pode surgir com a adoção de dietas de exclusão de alimentos. Diversos autores2-5 destacam uma série de agravos a médio e longo prazos, sendo que o maior destaque, nos menores de 2 anos, consiste na dieta em que o leite de vaca é excluído.

Medeiros et al. demonstram o comprometimento nutricional das crianças estudadas, através de dados antropométricos e do detalhamento da ingestão de macro- e micronutrientes, especialmente do cálcio. Independentemente dos resultados, o grande mérito do trabalho é a valorização do envolvimento multidisciplinar. A participação do médico em conjunto com o nutricionista e a avaliação social são fundamentais para orientar a dieta que é mais adequada para substituir alimentos excluídos.

O não-cumprimento da prescrição médica tornou-se fato corriqueiro para o pediatra brasileiro. Isso é mais notório no que diz respeito a dietas de exclusão. Surge o risco nutricional6, que se torna grave na medida em que não é detectado7 ou, quando detectado, não é corrigido. Alguns exemplos de situações de risco8,9 e, eventualmente, de gravidade imediata10 em que a dieta de exclusão se impõe foram descritos e discutidos à luz do aspecto nutricional em trabalhos anteriormente publicados neste Jornal.

Infelizmente, a realidade social, cultural e econômica são os principais fatores determinantes da baixa aderência à prescrição de dietas de exclusão. Comumente isso acaba se traduzindo por preparo inadequado da dieta, com ingestão insuficiente (ou excessiva) de nutrientes, manutenção do processo alérgico e/ou inflamatório por transgressões da dieta prescrita, alergenicidade causada por alimentos substitutos e diferentes graus de má-absorção, tanto de macro- como de micronutrientes, entre outros.

A participação do nutrólogo se impõe na discussão e no planejamento dos atendimentos em que a dieta de exclusão é aventada. Entre outros motivos, destacam-se sua capacidade de avaliar as necessidades nutricionais através dos dados antropométricos e de outros métodos de avaliação corpórea, de interpretar o inquérito alimentar elaborado em conjunto com o nutricionista, e o conhecimento das características dos novos ingredientes que compõem as fórmulas e dietas completas, num mercado que é abastecido de novidades periodicamente, em progressão geométrica11,12.

 

Referências

1. Medeiros LCS, Speridião PGL, Sdepanian VL, Fagundes-Neto U, Morais MB. Ingestão de nutrientes e estado nutricional de crianças em dieta isenta de leite de vaca e derivados. J Pediatr (Rio J). 2004;80:363-70.

2. Henriksen C, Eggesbo M, Halvorsen R, Botten G. Nutrient intake among two-year-old children on cow's milk-restricted diets. Acta Paediatr. 2000;89:272-8.

3. Arvola T, Holmberg-Marttila D. Benefits and risks of elimination diets. Ann Med. 1999;31:293-8.

4. Mofidi S. Nutritional management of pediatric food hypersensitivity. Pediatrics. 2003;111:1645-53.

5. Christie L, Hine RJ, Parker JG, Burks W. Food allergies in children affect nutrient intake and growth. J Am Diet Assoc. 2002;102:1648-51.

6. Palma D. Avaliação da condição nutricional. J Pediatr (Rio J). 1995;71:125.

7. Mello ED. O que significa a avaliação do estado nutricional. J Pediatr (Rio J). 2002;78:357-8.

8. Hamamoto LA, Cardoso AL, Marques HS, Gomes C. Balanço de energia em lactentes filhos de mães soropositivas para o HIV. J Pediatr (Rio J). 2000;76:119-24.

9. Alves GMS, Morais MB, Fagundes-Neto U. Estado nutricional e teste do hidrogênio no ar expirado com lactose e lactulose em crianças indígenas terenas. J Pediatr (Rio J). 2002;78:113-9.

10. Machado RS, Kawakami E, Goshima S, Patricio FR, Fagundes-Neto U. Gastrite hemorrágica por alergia ao leite de vaca: relato de dois casos. J Pediatr (Rio J). 2003;79:363-8.

11. Walker-Smith J, Murch S. Gastrointestinal food allergy. In: John A Walker-Smith, editor. Diseases of the Small Intestine in Childhood. 4th ed. ISIS - Medical Media; 1999. p. 205-234.

12. Boehm G, Fanaro S, Jelinek J, Stahl B. Prebiotic concept for infant nutrition. Acta Paediatr Suppl. 2003;91:64-7.