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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.81 no.3 Porto Alegre May/June 2005

http://dx.doi.org/10.2223/1349 

RELATO DE CASO

 

Fístula broncopleural cutânea causada por Eikenella corrodens

 

 

Kin-Sun WongI; Yhu-Chering HuangII

IMestre. Professor assistente, Departamento de Pediatria, Chang Gung Children's Hospital, Taoyuan, Taiwan
IIDoutor. Professor, Departamento de Pediatria, Chang Gung Children's Hospital, Taoyuan, Taiwan

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Fazer uma revisão sobre fistula cutânea broncopleural causada por Eikenella corrodens e relatar e discutir o caso de uma paciente.
DESCRIÇÃO: Paciente do sexo feminino, 16 anos de idade, foi encaminhada ao nosso hospital em estado febril com histórico de escarro com estrias de sangue há 2 meses; apresentava seqüelas neurológicas de encefalite herpética e estava confinada ao leito desde os cinco anos de idade. A mãe relatou ter detectado, dias antes, uma massa mole paraespinhal longitudinal. A paciente recebia alimentação via oral apesar da ocorrência de freqüentes engasgamentos nos últimos anos. À apalpação, a massa podia ser pressionada até encontrar menor resistência do espaço subcutâneo, estendendo-se longitudinalmente até a região torácica inferior. A tomografia torácica revelou pneumonia necrotizante do lobo direito inferior e uma fistula bronco pleural formando áreas de cavitação subcutânea. A paciente foi submetida a tratamento prolongado com antibióticos com decrescentes coletas de ar por 8 semanas.
COMENTÁRIOS: A Eikenella corrodens tem sido indicada como potencial patógeno causador de infecções pleuropulmonares. Não há relatos de fístula pleurocutânea e formação de abscessos como complicadores de empiema e pneumonia necrotizante causados por infecção de E. corrodens. A presença de lesão torácica proeminente que aumenta e diminui com a respiração pode ser uma indicação de fistula pleurocutânea. O tratamento do empiema de Eikenella com antibióticos sem decorticação cirúrgica exige um tratamento prolongado com antibioticoterapia.

Palavras-chave: Fistula cutânea, eikenella, infecção, antibióticos.


 

 

Introdução

A Eikenella corrodens tem sido implicada como um potencial patógeno causador de infecções pleuropulmonares1-3. No entanto, fistulas broncopleurais com formação de abscessos seguidas de empiema e pneumonite necrotizante (PN) resultantes de infecções por E. corrodens4 já foram também relatadas. Este relato apresenta o caso de uma paciente de 16 anos de idade com desnutrição de longa duração e aspirações pulmonares recorrentes, causadas por um abscesso frio paraespinhal resultante de empiema da pleura a fistula broncopleural.

 

Relato de caso

Paciente com 16 anos de idade, foi encaminhada ao nosso hospital, em estado febril, apresentando escarro com estrias de sangue há 2 semanas.

Mãe havia detectado massa paraespinhal, em situação longitudinal, que comprometia região toraco-lombo-sacral, e que aumentava e diminuía durante acessos de tosse. A paciente estava confinada ao leito desde os cinco anos de idade devido a uma encefalite herpética. Recebia alimentação por via oral, apesar de sofrer freqüentes engasgamentos nos últimos anos. Encontrava-se desnutrida, com severa escoliose toraco-lombar e portadora de contratura rígida das extremidades. Durante ausculta torácica foram observadas crepitações bilaterais e murmúrio vesicular diminuído na porção inferior do pulmão direito. A radiografia torácica apresentou infiltrações pulmonares bilaterais nos lobos inferiores e presença de ar loculado à direita em região subpulmonar. Uma tomografia computadorizada (TC) do tórax revelou PN no lobo inferior direito e pneumotórax. Foram aspirados 15 ml de secreção francamente purulenta da massa flutuante paraespinhal. Uma nova TC após a aspiração e inserção de um cateter tipo pigtail mostrou uma fístula broncopleural persistente, levando a formação de ar loculado no subcutâneo (Figura 1).

 

 

Um crescimento misto de E. corrodens e Capnocytophagia sputigena foi observado após 5 dias. A família da paciente não autorizou o esvaziamento do empiema e a decorticação pleural; foram então administradas empiricamente clindamicina e gentamicina parenteral. O tratamento com antibióticos foi de longa duração, 8 semanas, com gradual resolução de coletas de ar das coleções aéreas no subcutâneo.

 

Discussão

A paciente apresentava paralisia cerebral, e a disfunção na deglutição predispunha-a a freqüentes aspirações e infecções no trato respiratório. Subseqüente disseminação por continuidade da PN e empiema levaram a formação de fístula broncopleural cutânea. Diferente da PN em adultos com prognóstico pobre, os pacientes pediátricos com PN podem ser seguramente tratados com antibióticos, apresentando melhora completa5. Intervenções cirúrgicas em casos de PN ficam limitadas a decorticação de pulmão encarcerado, afecção por bactérias anaeróbicas e empiema, não responsivo à drenagem torácica, ou com presença de fístula broncopulmonar persistente5.

A E. corrodens é uma habitante normal da cavidade oral humana, e dos tratos respiratórios e gastrointestinais, e tem se mostrado um patógeno incomum de empiema em pacientes pediátricos3,4. Trauma local, presença de doença crônica, neoplasias, cirurgia prévia do intestino, síndrome de Down, paralisia cerebral e retardo mental predispõem as infecções por E. corrodens. Em pacientes adultos, a bactéria E. corrodens é freqüentemente encontrada em infecções no pescoço, cabeça, pulmão e intra-abdominais. Joshi et al. relataram 24 casos de infecções pulmonares causadas por E. corrodens, dentre esses, 15 pacientes tiveram efusão pleural mas nenhum apresentou infiltrações nas estruturas adjacentes2 Killen et al. foram os primeiros a descreverem um caso de empiema parapneumônico causado por E. corrodens com envolvimento do espaço intrapleural, identificado em paciente do sexo masculino, 33 anos de idade4.

A E. corrodens apresentou um padrão não usual de suscetibilidade ao antibiótico, sendo não suscetível a agentes antimicrobianos normalmente utilizados contra a maioria dos anaeróbios, como a clindamicina e o metronidazol. A drenagem cirúrgica oportuna dos abscessos e o debridamento adequado de tecidos devem ser considerados em casos de infecções progressivas causadas por E. corrodens6. A lesão torácica subcutânea proeminente, apresentando aumento e diminuição durante a respiração, sugere a possibilidade da presença de uma fístula broncopleural, terapia conservadora com antibióticos e aspiração em tais casos podem demandar um tratamento prolongado com antibióticos.

 

Referências

1. St John MA, Belda AA, Matlow A, Prober CG. Eikenella corrodens empyema in children. Am J Dis Child. 1981;135:415-7.        [ Links ]

2. Joshi N, O'Bryan T, Appelbaum PC. Pleuropulmonary infections caused by Eikenella corrodens. Rev Infect Dis. 1991;13:1207-12.        [ Links ]

3. Paul K, Patel SS. Eikenella corrodens infections in children and adolescents: case reports and review of literature. CID 2001;33:54-60.        [ Links ]

4. Killen JW, Swift GL, White RJ. Pleuropulmonary infection with chest wall infiltration by Eikenella corrodens. Thorax. 1996;51:871-2.        [ Links ]

5. Wong KS, Chiu CH, Yeow KM, Huang YC, Liu HP, Lin TY. Necrotizing pneumonitis in children. Eur J Pediatr. 2000;159:684-8.        [ Links ]

6. Kosloske AM, Cushing AH, Shuck JM. Early decortication for anaerobic empyema in children. J Pediatr Surg. 1980;15:422-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Kin-sun Wong
Chang Gung Children's Hospital
5 Fu Hsin Street, Taoyuan, Taiwan
Fone: 886-3-3281200
Fax: 886-3288957
E-mail: pchest@adm.cgmh.org.tw

Artigo submetido em 09.11.04, aceito em 17.01.05