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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.82 no.3 Porto Alegre May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572006000300002 

EDITORIAIS

 

Música é remédio para o coração

 

 

I David Todres

MD. Chief, Pediatric Ethics Unit, Massachusetts General Hospital (MGH), Boston, MA, USA. Former Chief, Pediatric Intensive Care Unit, MGH, Boston, MA, USA. Professor of Pediatrics, Harvard Medical School, Boston, MA, USA

 

 

O conceito de música como um remédio para a mente e o corpo é antigo. Apolo, o deus da mitologia grega, era o provedor da medicina e da música. Por séculos, os benefícios da música para aqueles que se encontram doentes têm sido reconhecidos, mas apenas em anos mais recentes esse benefício tem sido estudado de forma mais científica. Já foi mostrado que a música afeta as necessidades físicas, emocionais, cognitivas e sociais de indivíduos de todas as idades.

A música tem efeitos benéficos para pacientes com dor1, alivia a ansiedade pré-operatória nas crianças2, age sobre o sistema nervoso autônomo, reduzindo os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a dor pós-cirúrgica3, e tem um efeito positivo nos pacientes que sofreram infarto agudo do miocárdio4. A música reduz a ansiedade e a dor após cirurgias de coração em adultos5. Em um estudo sobre a dor após cirurgia abdominal, o uso de relaxamento e música foi efetivo na intensidade da dor6. Os efeitos da música na redução da dor se explicam pela teoria do portal do controle da dor. A música age como um estímulo em competição com a dor, distrai o paciente e desvia sua atenção da dor, modulando, desta forma, o estímulo doloroso. Estudos de imagem do cérebro mostraram atividade nos condutos auditivos, no córtex auditivo e no sistema límbico em resposta à música. Mostrou-se que a música é capaz de baixar níveis elevados de estresse e que certos tipos de música, tais como a música meditativa ou clássica lenta, reduzem os marcadores neuro-hormonais de estresse. A música diminui a confusão e o delírio em idosos submetidos a cirurgias eletivas de joelho e quadril7. Também auxilia na redução de distúrbios de humor em pacientes submetidos a tratamento com altas doses de quimioterapia seguido de transplante autólogo de células-tronco8.

Bernardi et al.9 recentemente estudaram as alterações cardiovasculares, cerebrovasculares e respiratórias induzidas por diferentes tipos de música em músicos e não-músicos. Verificaram que a música lenta (andamento lento) ou meditativa produzia um efeito relaxante, com redução da freqüência cardíaca, pressão arterial e ventilação, sendo que a música raga (forma melódica da música hindu) produzia a maior diminuição na freqüência cardíaca. Por outro lado, o aumento da velocidade das pulsações da música (andamento) pode produzir um efeito excitante, aumentando o ritmo da respiração, a pressão arterial e os batimentos cardíacos em conseqüência da ativação simpática. Estímulos auditivos, tais como uma prece ou um mantra de ioga repetido de forma ritmada, podem alterar a função cardiorrespiratória. A música pode afetar os batimentos cardíacos ou o ritmo circadiano e levar a uma freqüência respiratória em harmonia com o andamento musical. Outro aspecto de interesse foi relatado por Bernardi et al.9, que observaram maior evidência de relaxamento e benefício cardiovascular quando havia uma pausa após uma peça musical ter sido tocada.

O estudo de Hatem et al.10, apresentado neste número do Jornal de Pediatria, trata dos efeitos terapêuticos da música após cirurgia cardíaca e é uma contribuição importante para a apreciação dos benefícios potenciais da música no controle da dor e da ansiedade e na moderação de sinais vitais. Nesse estudo, os autores demonstraram mudanças significativas na intensidade da dor, na freqüência cardíaca e respiratória. A dor pós-operatória é rotineiramente controlada com agentes farmacológicos, mas a adição de agentes não-farmacológicos é importante, pois pode potencialmente reduzir as doses de drogas e seus efeitos colaterais. A dor pós-operatória pode exacerbar o estresse da criança e complicar a evolução pós-operatória, e a contribuição da música para o controle da dor e da ansiedade, que são freqüentemente inter-relacionadas, pode propiciar uma melhor evolução pós-operatória. Os autores reconhecem a possibilidade dos resultados terem sido afetados pelo tamanho da amostra e pela falta de randomização por grupo etário. Além disso, a análise da escala de dor foi feita por um observador e não pela criança, o que pode afetar a validade da avaliação. O efeito de outros fatores, tais como o uso de drogas sedativas cardiovasculares, apesar de não terem causado alterações durante os 30 minutos do experimento, podem, mesmo assim, ter tido algum impacto nos resultados, dependendo do momento em que as drogas foram usadas antes do estudo.

Na otimização dos benefícios da música, precisamos reconhecer que se, por um lado, ela pode ser oferecida de maneira passiva, como no estudo de Hatem et al., por outro, seus efeitos podem ser aumentados com a participação de um musicoterapeuta. Os musicoterapeutas integram seu trabalho ao cuidado de pacientes cardíacos, ajudando-os a suportar o estresse da doença. Essa integração leva em consideração a idade, o sexo e a formação cultural do paciente, entre outras variáveis11. Em estudos que compararam a audição passiva com a audição acompanhada por um musicoterapeuta, viu-se que a participação desse especialista sempre é mais vantajosa. No estudo de Hatem et al., foi tocada apenas uma peça musical (Primavera, das Quatro Estações de Vivaldi). A terapia musical deve levar em consideração a experiência musical prévia do indivíduo de forma a otimizar a escolha da música e do andamento musical. Nesse estudo, as crianças no grupo controle também tinham fones de ouvido, mas sem música. Os fones de ouvido podem ajudar a mascarar os sons intensos e perturbadores das unidades de terapia intensiva e contribuir para a redução do estresse. Entretanto, a validade desse grupo controle em que os pacientes não escutavam música é um ponto discutível.

Hatem et al. contribuíram para o nosso entendimento da importância da introdução da música nas unidades de terapia intensiva como forma de otimizar o atendimento aos pacientes por meio do alívio da dor e do estresse e da redução da atividade do sistema simpático. Precisamos reconhecer que a música é uma contribuição importante e humana para o tratamento de crianças após cirurgia cardíaca.

Em nossa unidade de terapia intensiva pediátrica no Massachusetts General Hospital, há alguns anos temos um harpista para acalmar não só os pacientes, mas também os familiares, que têm freqüentemente respondido de forma positiva. Além disso, o pessoal de enfermagem e médico tem seguidamente me dito que a música do harpista também os acalma!

 

Referências

1. Nilsson U, Rawal N, Enqvist B, Unosson M. Analgesia following music and therapeutic suggestions in the PACU in ambulatory surgery: a randomized controlled trial. Acta Anaesthesiol Scand. 2003;47:278-83.

2. Kain ZN, Caldwell-Andrews AA, Krivutza DM, Weiberg ME, Gaal D, Wang SM, et al. Interactive music therapy as a treatment for preoperative anxiety in children: a randomized controlled trial. Anesth Analg. 2004;98:1260-6.

3. Ikonomidou E, Rehnstrom A, Naesh O. Effect of music on vital signs and postoperative pain. AORN J. 2004;80:269-78.

4. White JM. Effects of relaxing music on cardiac autonomic balance and anxiety after acute myocardial infarction. Am J Crit Care. 1999;8:220-30.

5. Voss JA, Good M, Yates B, Baun MM, Thompson A, Hertzog M. Sedative music reduced anxiety and pain during chair rest after open-heart surgery. Pain. 2004;112:197-203.

6. Good M, Anderson GC, Ahn S, Cong X, Stanton-Hicks M. Relaxation and music reduce pain following intestinal surgery. Res Nurs Health. 2005;28:240-51.

7. McCaffrey R, Locsin R. The effect of music listening on acute confusion and delirium in elders undergoing elective hip and knee surgery. Int J Older People Nurs. 2004;13:91-6.

8. Cassileth BR, Vickers AJ, Magill LA. Music therapy for mood disturbance during hospitalization for autologous stem cell transplantation: a randomized controlled trial. Cancer. 2003;98:2723-9.

9. Bernardi L, Porta C, Sleight P. Cardiovascular, cerebrovascular, and respiratory changes induced by different type of music in musicians and non-musicians: the importance of silence. Heart. 2006;92:445-52.

10. Hatem TP, Lira PI, Mattos SS. The therapeutic effects of music in children following cardiac surgery. J Pediatr (Rio J). 2006;82:186-92.

11. Hanser SB, Mandel SE. The effects of music therapy in cardiac healthcare. Cardiol Rev. 2005;13:18-23.