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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.82 no.3 Porto Alegre May/June 2006

http://dx.doi.org/10.2223/JPED.1477 

ARTIGO ORIGINAL

 

Quem são as crianças que se sentem gordas apesar de terem peso adequado?

 

 

Andréa Poyastro PinheiroI; Elsa Regina Justo GiuglianiII

IMestre. Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social, Pós-Graduação em Epidemiologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS
IIDoutora, UFRGS, Porto Alegre, RS

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar a prevalência de crianças com peso adequado que se sentem gordas e os fatores associados a essa percepção.
METODOLOGIA: Estudo transversal com 901 escolares, entre 8 e 11 anos, selecionados por conglomerados. As crianças tiveram peso e altura aferidos e responderam um questionário com escala de auto-estima, autopercepção do peso e percepção da expectativa dos pais e amigos em relação a seu peso.
RESULTADOS: A prevalência de escolares com percentil do índice de massa corporal (IMC) < 85 que se sentem gordos foi 13%, e as variáveis significativamente associadas a essa percepção foram sexo feminino (RC = 2,45; IC95% 1,42-4,24), ter 11 anos de idade (RC = 2,35; IC95% 1,13-4,89), quartil inferior de auto-estima (RC = 2,08; IC95% 1,17-3,68), percepção de que os pais gostariam que eles fossem mais magros (RC = 3,00; IC95% 1,52-5,91) e percentil do IMC (RC = 1,04; IC95% 1,03-1,06).
CONCLUSÃO: A percepção de ser gordo, mesmo com peso adequado, atinge crianças antes da adolescência, em especial meninas de 11 anos de idade, com maior IMC, menor auto-estima e que pensam que seus pais gostariam que fossem mais magras. São necessários mais estudos que aprofundem as causas e conseqüências desse comportamento.

Palavras-chave: Peso corporal, auto-imagem, criança.


 

 

Introdução

Atualmente, a fantasia coletiva do corpo ideal e da boa forma física tem gerado o que alguns autores denominam "descontentamento normativo"1. Em Porto Alegre (RS), por exemplo, foi constatado que somente 1/3 das mulheres entre 12 e 29 anos que desejavam pesar menos tinha índice de massa corporal (IMC) compatível com sobrepeso/obesidade2. Estudos com escolares brasileiros também têm descrito alta prevalência de insatisfação com o corpo e comportamentos, às vezes inadequados, que visam a redução do peso3-6.

As crianças aprendem cedo, em suas famílias e meio social, a valorizar o corpo delgado7, e muitas, mesmo com peso adequado, relatam insatisfação com seu corpo, engajando-se em condutas para perder peso8. O temor à obesidade pode estar criando distorções na imagem corporal de crianças e adolescentes, gerando condutas danosas à saúde, como ingestão inadequada de nutrientes, com prejuízo ao desenvolvimento cognitivo e risco para o desenvolvimento de transtornos do comportamento alimentar6,9. O presente estudo buscou investigar a prevalência de crianças com peso adequado que se sentem gordas e os fatores associados a essa percepção.

 

Métodos

Este é um estudo transversal que avaliou amostra representativa de escolares de 8 a 11 anos residentes em Porto Alegre (RS), Brasil10.

O cálculo do tamanho amostral, por conglomerado, indicou um número mínimo de 946 sujeitos, proporcional ao tamanho da rede escolar (98.210 alunos). Foram selecionadas 43 escolas (25 estaduais, 10 particulares e 8 municipais) por amostragem sistemática. Em cada escola, também por amostragem sistemática, foram selecionadas 20 crianças.

Os escolares foram entrevistados individualmente nas escolas, levando-se em conta a possibilidade de haver crianças não alfabetizadas. Foram questionadas a percepção da expectativa dos pais em relação ao peso da criança ["A tua mãe e/ou o teu pai gostariam que tu fosses mais magro(a)?"]; a percepção da expectativa dos amigos em relação ao peso da criança ["Os teus amigos ou amigas gostariam mais de ti se tu fosses mais magro(a)?"]; e a autopercepção do peso [ "Tu achas que tu és... gordo(a), normal ou magro(a)?"].

Para avaliação da auto-estima, foi utilizado o instrumento Culture-Free Self-Esteem Inventory for Children11, que contém 20 itens e quatro subescalas - auto-estima geral, parental, acadêmica e social - já validado em amostras de língua inglesa. A validação lingüística para o português foi realizada após autorização dos autores por meio de duas traduções com tradutores independentes seguidas de duas retrotraduções com tradutores de língua materna inglesa. Após a divisão em quartis, os escolares foram divididos em duas categorias: com escore na escala igual ou abaixo do percentil 25 (quartil inferior de auto-estima) e os demais.

Para a aferição do peso e da altura, foram utilizadas balanças e antropômetros portáteis aferidos pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial. Foram considerados com peso adequado os escolares com percentil do IMC abaixo de 8512.

Todas as análises realizadas levaram em consideração o efeito de delineamento (amostragem por conglomerados) ao comparar crianças com e sem sobrepeso por meio de regressão logística. A magnitude da associação entre sentir-se gordo e variáveis de interesse (sexo, idade, tipo de escola, percentil do IMC, escore na escala de auto-estima e percepção da expectativa dos pais e dos amigos quanto ao peso da criança) foi medida inicialmente por meio de regressão logística simples e, posteriormente, por regressão logística multivariada, incluindo, no modelo final, somente as variáveis que se encontraram associadas a sentir-se gordo em um nível de significância igual ou menor que 0,2 na análise bivariada. Os programas utilizados foram Epi-Info 6.0 e Stata for Windows 6.0.

O projeto foi aprovado pela comissão de ética em pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pelas Secretarias Estadual e Municipal de Educação, juntamente com a direção de cada escola. Os pais e/ou responsáveis legais das crianças assinaram termo de consentimento informado, assim como todas as crianças que concordaram em participar da pesquisa.

 

Resultados

Todas as escolas selecionadas participaram do estudo. As perdas foram de 5% (n = 45), relativas a alunos que se recusaram a participar da pesquisa ou cujos pais não concederam autorização. A amostra final incluiu 901 sujeitos.

Aproximadamente 3/4 da amostra (n = 684 ou 75,9%) apresentaram percentil do IMC menor que 85. Dentre essas, 12,9% (n = 88) achavam-se gordas, o que representa 38,1% de todas as crianças que se achavam gordas (n = 231). Mais meninas (17%) do que meninos (9%) tinham essa percepção. A análise bivariada revelou que os escolares sem sobrepeso que se achavam gordos com mais freqüência eram do sexo feminino (p = 0,001), tinham 11 anos de idade (p = 0,191), maior IMC (p = 0,000), menor auto-estima (p = 0,000) e tinham a percepção de que os pais e os amigos gostariam que eles fossem mais magros (ambos p = 0,000).

Na Tabela 1, encontram-se as razões de chance bruta e ajustada para a percepção de ser gordo, sem apresentar sobrepeso. Após o ajuste, as seguintes características mantiveram-se associadas a sentir-se gordo: sexo feminino (RC 2,45; IC95% 1,42-4,24), 11 anos de idade (RC 2,35; IC95% 1,13-4,89), menor auto-estima (RC 2,08; IC95% 1,17-3,68) e percepção de que os pais gostariam que fosse mais magro (RC 3,00; IC95% 1,52-5,91). Além desses fatores, o IMC também mostrou-se associado à percepção de ser gordo. A cada aumento de um ponto percentual no IMC, a chance de a criança achar-se gorda aumentou em 4%.

 

Discussão

Este é o primeiro estudo brasileiro com amostra populacional que avaliou prevalência de crianças que se sentem gordas sem apresentar sobrepeso e os fatores associados a essa percepção. Acreditamos que os resultados podem ser generalizados para toda a população de Porto Alegre na faixa etária selecionada, uma vez que a taxa de escolarização de crianças entre 7 e 14 anos de idade da região é de 96,5%13.

As prevalências encontradas neste estudo, apesar de importantes, são inferiores às encontradas em estudo feito na Austrália14, onde 30% das meninas e 13% dos meninos entre 8 e 12 anos com peso normal expressaram o desejo de ser mais magros. Erling & Hwang15, em um estudo com crianças suecas de 10 anos, mostraram que, das crianças que se sentiam gordas, somente 30% apresentavam sobrepeso. É possível que essas diferenças se devam às distintas formas de avaliar imagem corporal em crianças (sentir-se gordo pode não ter o mesmo significado de querer ser mais magro), aos métodos de amostragem utilizados e às diferenças culturais dos grupos investigados.

Ser menina mostrou estar significativamente associado a sentir-se gordo nesta pesquisa. Outros trabalhos também têm demonstrado diferenças de sexo em relação à imagem corporal em crianças, com as meninas desejando um corpo mais magro do que os meninos3,6,15-17. É possível que o estereótipo do corpo ideal seja incorporado mais precocemente, ainda na infância, para o sexo feminino. Por outro lado, para os meninos, o ideal de corpo pode estar relacionado a um porte atlético e musculoso18.

No presente trabalho, as crianças com mais idade apresentaram uma chance maior de sentirem-se gordas. Outros autores também demonstraram que a insatisfação com o corpo mostra-se mais pronunciada com o aumento da idade7,14,17,19.

O desejo de um corpo mais magro mostra-se mais prevalente em crianças que apresentam maior IMC15,20. No presente estudo, mesmo entre crianças sem sobrepeso, o IMC esteve associado a sentir-se gordo, revelando um conflito entre os padrões de normalidade estabelecidos pela comunidade científica e os padrões de beleza da atualidade. Este achado possui relevância clínica, pois insatisfação com o corpo e preocupações com o peso em crianças pré-púberes estão associadas à ocorrência de sintomas da conduta alimentar na adolescência, particularmente entre jovens do sexo feminino9.

A imagem corporal negativa tem sido vista como faceta de auto-estima e autoconceito pobres20-22. Os achados do presente estudo reforçam esse conceito, uma vez que as crianças com peso adequado e com auto-estima mais baixa tiveram uma chance duas vezes maior de se sentir gordas quando comparadas com as que tinham auto-estima mais alta.

A variável que se mostrou mais fortemente associada a sentir-se gordo entre as crianças sem sobrepeso foi a percepção da expectativa dos pais em relação ao peso da criança. Crianças que achavam que os seus pais preferiam que elas fossem mais magras tiveram uma chance três vezes maior de se sentir gordas. Esse achado corrobora a idéia de que, até os primeiros anos da adolescência, os pais exercem grande influência na aparência e no estilo de seus filhos23-25. Por outro lado, é possível que a percepção da expectativa dos pais em relação ao peso da criança esteja distorcida e amplificada em razão da própria imagem corporal negativa que a criança apresenta de si mesma. Outro aspecto a ser considerado é a questão do modelo que os pais representam para os filhos. Estariam essas crianças refletindo a imagem corporal negativa não de si mesmas, mas de seus pais? Alguns estudos sugerem que existe correlação entre preocupações a respeito do próprio peso por parte dos pais e problemas de estima corporal e preocupação com o peso nos filhos22-24,26,27.

Esta pesquisa tem o mérito de ter gerado informações inéditas no Brasil, que podem ser aproveitadas como ponto de partida para discussão, entre profissionais de saúde, educadores e pais, sobre a existência de preocupações exageradas com peso e forma do corpo em crianças pré-púberes que não apresentam excesso de peso, tendo em vista a implementação de estratégias que promovam uma imagem corporal mais positiva entre as crianças desse grupo etário.

Pesquisas futuras qualitativas são necessárias para examinar mais profundamente as razões que levam as crianças sem sobrepeso a se sentirem gordas, bem como a força das influências familiares e socioculturais e sua relação com a auto-estima.

 

Referências

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Correspondência:
Andréa Poyastro Pinheiro
Travessa Agostinho Pastor, 87
CEP 91900-010 - Porto Alegre, RS
E-mail: poabd0a3@terra.com.br, andrea_pinheiro@med.unc.edu

Artigo submetido em 27.09.05, aceito em 03.03.06.

 

 

Artigo baseado em dissertação de mestrado na área de epidemiologia da Faculdade de Medicina, UFRGS, 2003.