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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.82 no.5 Porto Alegre Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572006000600017 

CARTAS AO EDITOR

 

Prevalência de doença celíaca em crianças e adolescentes com diabetes tipo 1

 

 

Prezado Editor,

Referente ao artigo "Serum prevalence of celiac disease in children and adolescents with type 1 diabetes mellitus"1, gostaríamos de fazer algumas considerações.

Na maioria dos pacientes diabéticos, a doença celíaca (DC) apresenta-se de forma silenciosa e assintomática, por isso a triagem sorológica para DC é fundamental para o diagnóstico precoce e a introdução do tratamento adequado2. Araújo et al.1, em estudo com eixo transversal, observaram 10,5% de prevalência da DC entre as crianças e adolescentes com diabetes melito tipo 1 (DM-1) pela dosagem de anticorpos antitransglutaminase (AATG), recomendada como o teste de escolha para a triagem inicial de DC em pacientes diabéticos3.

As sorologias para detecção de AATG e anticorpos antiendomísio (AAE) são limitadas aos isotipos IgA, portanto deve-se previamente conhecer os pacientes com deficiência de IgA (DIgA) para excluir resultados falso-negativos.

Do total de 361 pacientes diabéticos selecionados por Araújo et al.1, sete (1,9%) apresentaram DIgA.

Em estudo previamente realizado no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná de 149 crianças e adolescentes diabéticos submetidos a triagem para DC, oito apresentaram DIgA (IgA < 5 mg/dL), uma prevalência de 5,3%. As dosagens de IgA sérica foram realizadas pelo método imunoenzimático (ELISA) padronizado para determinar níveis séricos de IgA menores do que os limites de detecção da imunodifusão radial em placa de baixa concentração e turbidimetria. Nesse mesmo grupo de pacientes diabéticos, 8,7% (13/149) dos pacientes tiveram o diagnóstico confirmado de DC por AAE e biópsia intestinal4.

Liblau et al.5 relataram que um entre 261 pacientes diabéticos na França apresentam DIgA, prevalência maior do que na população francesa normal, que é de 1:1.400. Na Itália, a DIgA foi detectada em sete dentre 191 pacientes diabéticos, ou seja, uma prevalência de 1:27, maior do que na população pediátrica italiana normal (1:500)6.

A prevalência de DC em pacientes com DM-1, avaliada recentemente no estado de São Paulo, foi de 4,8% por dosagens de AAE e biópsia intestinal, sendo comparável a estudos estadunidenses e europeus7.

Tanure et al. relataram uma prevalência de 2,6% de DC em pacientes diabéticos de Minas Gerais8. Os pacientes foram identificados com base na positividade dos anticorpos antigliadina (AGA), AAE e biópsia intestinal7. No entanto, apenas os pacientes diabéticos com detecção de anticorpos IgG-AGA positivos e IgA-AGA negativos tiveram quantificação de IgA por nefelometria. Os 12 pacientes positivos apenas para IgG-AGA tinham níveis normais de IgA sérica.

Concordamos que existe a necessidade de realização de estudos multicêntricos no Brasil sobre a associação de DC e DM-1 e que a triagem para DC em diabéticos deve ser realizada rotineiramente. No entanto, pela maior prevalência de DIgA entre os pacientes diabéticos, antes da realização das sorologias para detecção de AATG e AAE da classe de isotipos IgA para triagem de DC, a determinação dos níveis de IgA sérica deve ser realizada. Isso serve para evitar os resultados falso-negativos, inclusive utilizando critérios definidos para a DIgA e técnicas mais sensíveis para dosagem de IgA, como por ELISA (Tabela 1).

 

 

Referências

1. Araújo J, Silva GA, Melo FM. Serum prevalence of celiac disease in children and adolescents with type 1 diabetes mellitus. J Pediatr (Rio J). 2006;82:210-14.

2. Mahmud FH, Murray JA, Kudva YC, Zinsmeister AR, Dierkhising RA, Lahr BD, et al. Celiac disease in type 1 diabetes mellitus in a North American community: prevalence, serologic screening and clinical features. Mayo Clin Proc. 2005;80:1429-34.

3. Hill ID, Dirks MH, Liptak GS, Colleti RB, Fasano A, Guandalini S, et al. Guidelines for the diagnosis and treatment of celiac disease in children recommendations of the North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2005;40:1-19.

4. Landgraf LF. Prevalência de deficiência de Imunoglobulina "A" em pacientes com diabetes mellitus tipo 1 e sorologia positiva para doença celíaca [dissertação]. Curitiba (PR): Universidade Federal do Paraná; 1999.

5. Liblau RS., Caillat-Zucman S, Fischer AM, Bach JF, Boitard C. The prevalence of selective IgA deficiency in type 1 diabetes mellitus. APMIS. 1992;100:9-12.

6. Cerutti F, Urbino A, Sacchetti C, Palomba E, Zoppo M, Tovo PA. Selective IgA deficiency in juvenile-onset insulin-dependent diabetes mellitus. Pediatr Med Chir. 1998;10:197-201.

7. Baptista ML, Koda YK, Mitsunori R, Nisihara N, Ioshi SO. Prevalence of celiac disease in Brazilian children and adolescents with type 1 diabetes mellitus. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2005;41:621-4.

8. Tanure MG, Silva IN, Bahia M, Penna FJ. Prevalence of celiac disease in Brazilian children with type 1 diabetes mellitus. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2006;42:155-9.

 

Nelson Rosário
Professor titular, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, PR

Loraine Farias Landgraf
Pediatra. Mestre em Pediatria, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, PR. Especialista em Alergia e Imunologia

 


 

Resposta dos autores

 

 

Ao Editor,

Foi com interesse que lemos a carta dirigida ao editor deste periódico e assinada por Dra. Loraine Farias Landgraf e Dr. Nelson Rosário, do Departamento de Pediatria da Universidade Federal do Paraná relativa ao artigo "Serum prevalence of celiac disease in children and adolescents with type 1 diabetes mellitus"1.

As observações feitas pelos colegas são extremamente pertinentes e corroboram os achados do nosso estudo ao sinalizar para a necessidade da realização da dosagem da IgA sérica em pacientes portadores de diabetes melito tipo 1 (DM-1) em investigação para doença celíaca (DC). Isso se deve ao fato de que a triagem feita através da sorologia - anticorpos antitransglutaminase tecidual humana e antiendomísio - não é adequada para os portadores de deficiência de IgA sérica.

Essa preocupação é importante tanto em estudos de base populacional (de soroprevalência) quanto em estudos clínicos, para que não se subestime a prevalência da DC e também não se deixe de investigar com maior profundidade pacientes com resultados sorológicos falso-negativos.

Observamos, no quadro onde estão relatados os quatro estudos brasileiros, a similaridade dos resultados no tocante à freqüência de deficiência de IgA sérica e da DC entre os portadores de DM-1, uma vez que é provável que as diferenças númericas se devam mais a questões metodológicas do que a diferenças reais na freqüência.

Salientamos a importância das recomendações finais dos missivistas: há necessidade da realização de estudos multicêntricos no Brasil sobre a associação de DC e DM-1, e a triagem para DC em diabéticos deve ser realizada rotineiramente.

 

Referência

1. Araújo J, Silva GA, Melo FM. Serum prevalence of celiac disease in children and adolescents with type 1 diabetes mellitus. J Pediatr (Rio J). 2006;82:210-14.

 

 

Jacqueline Araújo
Endocrinologista pediatra, Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP) e Hospital das Clínicas, Recife, PE. Mestre, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, PE

Gisélia Alves Pontes da Silva
Professora adjunta,UFPE, Recife, PE. Doutora, Univ. Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM), São Paulo, SP

Francisco Montenegro de Melo
Professor adjunto, Universidade de Pernambuco (UPE), Recife, PE. Mestre, UFPE, Recife, PE