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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.83 no.3 Porto Alegre May/June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572007000400003 

EDITORIAIS

 

Refluxo gastroesofágico e doença respiratória crônica: passado, presente e futuro

 

 

Yvan Vandenplas; Thierry Devreker; Bruno Hauser

Universitair Ziekenhuis Kinderen Brussel, Vrije Universiteit Brussel, Brussels, Belgium

 

 

Introdução

Um estudo de caso-controle muito interessante publicado neste número do Jornal de Pediatria conclui que o pH nasofaríngeo é significativamente mais baixo em pacientes com sintomas respiratórios e com pHmetria anormal em comparação a crianças com sintomas gastrintestinais1. As crianças com sintomas respiratórios e pHmetria anormal possuem uma nasofaringe mais ácida que os pacientes do grupo controle. A mensuração do pH nasofaríngeo pode ser considerada um teste confiável que indica a probabilidade de obtenção de uma pHmetria esofágica anormal em pacientes com doença respiratória crônica.

Existe um consenso geral de que os exames que medem o refluxo durante o período pós-prandial (ultra-sonografia, raio X, cintilografia) têm valor limitado no diagnóstico da doença do refluxo gastroesofágico (RGE) devido à alta prevalência de RGE no período pós-prandial2. A porcentagem de episódios de refluxo não-ácido, avaliada por impedância esofágica sobre o número total de RGE, varia entre 40 e 89%, embora a maioria das publicações relate uma incidência de aproximadamente 50%3. A Tabela 1 apresenta os tipos diferentes de RGE avaliados por impedância. Mattioli et al. relataram em uma série de 50 crianças com sintomas típicos e atípicos de RGE que a incidência do refluxo detectado pela impedância foi equivalente a duas vezes a incidência do refluxo detectado pelo monitoramento do pH4.

 

Diagnóstico do RGE em pacientes com sintomas respiratórios

Os questionários são a forma de investigação mais simples e mais facilmente aceita pelas crianças5. Um questionário nada mais é que o desenvolvimento de um sistema de escore baseado nas respostas a perguntas validadas feitas durante a anamnese. Entretanto, a correlação entre os resultados dos questionários e dos exames, como endoscopia e monitoramento de pH, é bastante fraca6. As radiografias do trato intestinal alto são importantes se há suspeitas de anormalidades anatômicas, tais como má rotação intestinal. A ultra-sonografia tem a vantagem de não ser invasiva, mas seu resultado depende da experiência do profissional encarregado. A cintilografia pode demonstrar aspiração pulmonar, mas isso é tão raro que ela não é usada rotineiramente. A endoscopia e a biópsia são invasivas, mas são as únicas técnicas que conseguem diagnosticar a esofagite. A histologia permite o diagnóstico de outras doenças, tais como "esofagite eosinofílica". Uma endoscopia e histologia normais não descartam doença do RGE. A manometria é uma técnica que revela o mecanismo fisiopatológico do RGE, ou seja, o relaxamento do esfíncter esofágico inferior.

O monitoramento do pH esofágico ainda é considerado atualmente o padrão prata para o diagnóstico de doença do RGE: com essa técnica, o número e duração dos episódios de refluxo ácido são medidos durante 24 horas6. Tem-se usado também o monitoramento mais sofisticado do pH, através da pHmetria simultânea do esôfago inferior e superior7. A impedância tem a vantagem de medir o refluxo ácido e também não-ácido. A literatura também sugere que a mensuração contínua da bile no esôfago ("bilitec") é útil8.

Finalmente, foram propostas algumas outras técnicas. A maioria dos estudos conclui que os macrófagos com lipídeos ou seu índice apresentam uma sensibilidade ou especificidade muito baixa e, portanto, não são clinicamente úteis6. Alguns dados recentes sugerem que a determinação de pepsina em aspirados brônquicos pode ser mais sensível e específica. Em bebês prematuros, a presença de ácido nas secreções orofaríngeas pode auxiliar na detecção de RGE ácido9. O método é simples, barato e pouco incômodo.

 

Correlação entre RGE e sintomas clínicos

O RGE está associado a bronquite crônica, sibilância, tosse crônica e apnéia infantil. Wenzl et al. sugeriram uma forte relação entre RGE ácido e não-ácido e problemas respiratórios: em um grupo de 22 crianças com regurgitação recorrente e sintomas respiratórios crônicos, a impedância registrou 364 episódios de refluxo, dos quais apenas 11,4% foram ácidos5,10. A análise polissonográfica revelou 165 episódios de apnéia, dos quais 30% estavam associados a um episódio de refluxo; a maioria (78%) dos episódios de refluxo foi detectada apenas através da impedância10. Contudo, não houve associação entre apnéia patológica central, obstrutiva ou mista (mas isso ainda não foi devidamente investigado). Pontos de corte adequados para a distinção entre crianças normais e doentes ainda precisam ser estabelecidos. Comparativamente ao monitoramento de pH, a impedância é uma técnica que permite uma demonstração mais precisa de que a apnéia de curta duração provavelmente seja um fenômeno fisiológico que ocorre mais freqüentemente que os episódios de RGE11. Dezenove lactentes prematuros (idade gestacional de 30 semanas) com apnéia foram estudados, com média de idade de 26 dias (13-93 dias)12, com detecção de 2.039 episódios de apnéia (mediana: 67; variação: 10-346), 188 dessaturações de oxigênio (mediana: 6; variação: 0-25), 44 bradicardias (mediana: 0; variação: 0-24) e 524 episódios de RGE (mediana: 25; variação 8-62)12. A freqüência de apnéia em um período de 20 segundos antes e depois de um episódio de RGE não diferiu da freqüência de apnéia não relacionada a um episódio de refluxo [0,19/min (0,00-0,85) versus 0,25/min (0,00-1,15)]12. A análise e conclusões foram idênticas para as dessaturações de oxigênio e bradicardias12. Mousa avaliou a relação temporal entre apnéia e RGE em um grupo de 25 lactentes que apresentaram evento com aparente risco de vida (EARV) ou apnéia patológica13. Um intervalo de tempo de 5 minutos entre a apnéia e o refluxo foi considerado aceitável, demonstrando um "elo temporal" entre os dois fenômenos13. No total, ocorreram 527 episódios de apnéia, mas apenas 80 (15,2%) foram relacionados temporalmente ao episódio de refluxo. Desses 80 episódios, 37 (7,0% do total de episódios de apnéia) foram relacionados ao refluxo ácido e 43 (8,2%) ao refluxo não-ácido. Assim, mesmo considerando um intervalo de tempo de 5 minutos, é possível concluir que existe uma relação entre refluxo e apnéia, mas que ela é rara. A maioria dos episódios de refluxo atinge o esôfago proximal ou a faringe13. A falta de diferença entre crianças assintomáticas e doentes afasta a hipótese de macro ou microaspiração, mas não exclui hipersensibilidade ao refluxo como causa dos sintomas respiratórios.

Foram relatadas manifestações respiratórias crônicas, tais como tosse e sibilância, em crianças com doença do refluxo. Rosen et al. relataram sua experiência com 28 crianças (média de idade: 6,5±5,6 anos) com doença respiratória crônica, tratadas com antiácidos14. A impedância foi utilizada em 1.822 episódios de refluxo; 45% dos quais eram não-ácidos. Uma análise multivariada demonstrou uma associação mais forte dos sintomas respiratórios aos episódios de refluxo que aos episódios de refluxo ácido14. A altura atingida pelo refluxo no esôfago também foi associada a sintomas respiratórios: quanto mais alto o refluxo, mais forte a associação14. Todavia, parece óbvio que o monitoramento de pH detecta menos refluxo durante o tratamento com antiácido e que esse escore de monitoramento também deve ser considerado anormal. Em um grupo selecionado de 22 adultos, usou-se a combinação de manometria e impedância para investigar a relação entre tosse crônica e RGE15. Com um intervalo de tempo de 2 minutos e a probabilidade de associação de sintomas, 69,4% dos episódios de tosse foram considerados "independentes" do episódio de refluxo. Quando ocorreu uma seqüência de "refluxo-tosse", o refluxo foi ácido em 65% dos casos, fracamente ácido em 29% e fracamente alcalino em 6%15. Em uma série de 25 crianças (com idades de 6 meses a 15 anos) com tosse crônica inexplicável, sibilância ou produção de catarro, os dados apontam para uma relação entre RGE ácido e sintomas pulmonares crônicos, mas não mostram a participação de refluxo não-ácido em crianças com sintomas respiratórios, não tratadas com antiácidos16. Condino et al. avaliaram 24 crianças com asma recorrente e concluíram que o refluxo ácido e não-ácido ocorre com a mesma freqüência nas crianças com asma e que a maioria dos sintomas ocorre na ausência de episódio de refluxo17. As contradições na literatura sobre o papel do RGE ácido e não-ácido em crianças com sintomas respiratórios crônicos podem ser explicadas, em parte, pelo fato de que a literatura não considera se o refluxo é primário (problema de motilidade) ou secundário (à infecção, à alergia, aos esforços respiratórios, etc.).

 

Conclusão

A medida do pH nasofaríngeo através da pHmetria de 24 h em crianças com doença respiratória crônica é um parâmetro adicional valioso. Entretanto, esse parâmetro não informa sobre o mecanismo fisiopatológico envolvido.

A sensibilidade diagnóstica da impedância pode corresponder àquela da sonda de pH em pacientes não tratados, mas é superior à da sonda de pH em pacientes tratados com antiácidos (Figura 1). Os episódios detectados apenas através do monitoramento do pH são numerosos em crianças; portanto, o monitoramento do pH deve ser incluído na análise de impedância do pH18.

Embora a impedância registre claramente mais eventos de RGE que o monitoramento do pH, a vantagem e/ou relevância de se registrar "mais" episódios de RGE na prática clínica diária ainda precisa ser demonstrada. Hoje, a impedância ainda deve ser considerada como um instrumento (clínico) de pesquisa. A relevância clínica da detecção de refluxo fracamente ácido e não-ácido também é objeto de pesquisa porque os dados atuais são inconclusivos e não há tratamento específico disponível. A análise de correlação de sintomas, especialmente de sintomas extra-esofágicos, é provavelmente mais convincente através da impedância que através do monitoramento do pH19. Todavia, ainda faltam provas disso.

Já que o monitoramento do pH faz parte da análise de impedância, é provável que a impedância seja realizada com mais freqüência na prática clínica diária. Os dados acima mostram que é difícil obter conclusões a respeito da vantagem da aplicação rotineira de impedância em crianças, a fim de detectar episódios de RGE, devido à heterogeneidade dos estudos (em termos de população recrutada e critérios técnicos, tais como tempo e associação de sintomas) e à falta de dados normais e de medidas de desfecho. A principal vantagem da impedância pode ser a demonstração de uma melhor correlação no tempo entre sintomas e refluxo em comparação ao monitoramento do pH do que um melhor diagnóstico da doença do RGE como tal. A pesquisa clínica sobre a impedância deve se ocupar do "índice de sintomas"(porcentagem de refluxo associada aos episódios de sintomas), "índice de sensibilidade a sintomas" (porcentagem de sintomas associada aos episódios de refluxo) e "probabilidade de associação de sintomas" (cálculo da relação estatística entre sintomas e episódios de refluxo usando o teste exato de Fisher)20. Contudo, o simples fato de os pais terem que acionar o "marcador de eventos" no registrador e/ou terem que registrar os sintomas em um diário constitui um grande óbice. Foi demonstrado que os adultos registram apenas 39% dos episódios de tosse detectados pela manometria simultânea15. Critérios mais homogêneos de inclusão e de análise, juntamente com características clínicas basais e prospectivas, são essenciais. A impedância é uma técnica nova e promissora que oferece possibilidades inexploradas para investigar o RGE. A mensuração do pH nasofaríngeo, entretanto, parece adequada para distinguir crianças com doença respiratória crônica relacionada ao RGE daquelas em que os sintomas respiratórios não estão relacionados ao refluxo1.

 

Referências

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