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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.84 no.4 suppl.0 Porto Alegre Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572008000500010 

ARTIGO DE REVISÃO

 

O impacto da genética na asma infantil

 

 

Leonardo A. PintoI; Renato T. SteinII; Michael KabeschIII

IInstituto de Pesquisas Biomédicas, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS. Programa de Pós–Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP
IIDoutor. Instituto de Pesquisas Biomédicas, PUCRS, Porto Alegre, RS
IIIChildren's Hospital, Ludwig Maximilian's University of Munich, Munich, Germany

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Apresentar os resultados dos estudos mais importantes e recentes sobre a genética da asma. Estes dados devem auxiliar os clínicos gerais a compreender o impacto da genética sobre este distúrbio complexo e como os genes e polimorfismos influenciam a asma e a atopia.
FONTES DOS DADOS: Os dados foram coletados do banco de dados MEDLINE. Os estudos de associação genética foram selecionados do Genetic Association Database, um repositório de estudos de associação genética de doenças e distúrbios complexos organizado pelo National Institutes of Health.
SÍNTESE DOS DADOS: Considerando os dados de diversos importantes estudos de gêmeos sobre a genética da asma, a heritabilidade, que mensura a contribuição dos fatores genéticos para a variância da asma, pode ser estimada entre 0,48 e 0,79. Uma grande quantidade de estudos de associação genética tentou identificar genes de susceptibilidade à asma. Os resultados mais replicados nos estudos de associação genética envolvem as cinco regiões do genoma humano a seguir: 5q31–32, 6p21, 11q12–13, 16p11–12, e 20p13. Recentemente, outro gene de susceptibilidade à asma (ORMDL3), considerado determinante crítico para a asma infantil, foi identificado por um estudo genômico de associação.
CONCLUSÕES: É possível estimar que a contribuição genética à asma varia entre 48 e 79%. Diversos loci parecem influenciar a susceptibilidade à asma. Os genes localizados no cromossomo 5q (ADRB2, IL13 e IL4) e o gene ORMDL3, no cromossomo 17, identificado recentemente, parecem ser determinantes para a asma infantil. O diagnóstico e a farmacogenética podem ser as primeiras implicações clínicas de estudos extensivos sobre a genética da asma.

Palavras–chave: Asma, genética, infância, farmacogenética.


 

 

Introdução

A asma é de natureza hereditária, mas a hereditariedade da doença não segue os padrões mendelianos clássicos. Diversos estudos de famílias evidenciam um forte padrão de agregação familiar no caso da asma1,2, mas a genética da doença é especialmente complicada por sua natureza poligênica e pela interação entre fatores genéticos e ambientais3. A melhor compreensão dos mecanismos genéticos da asma e da alergia fortalecerá nosso conhecimento de sua patofisiologia e representará um avanço importante para os esforços futuros de prevenção e tratamento da doença.

Alguns aspectos deste campo de pesquisa básica podem influenciar diretamente a prática clínica. A determinação genética das respostas alérgicas a estímulos ambientais e o papel da farmacogenética no manejo da asma são consideradas questões de pesquisa de suma importância4. O mapeamento de traços complexos, como a asma, é uma das áreas de pesquisa mais importantes na genética humana.

Apesar de sabermos que a susceptibilidade genética contribui para o risco de asma, poucos estudos de associação genética ou de ligação foram realizados com populações não–européias. Alguns estudos indicaram evidências de controles genéticos que diferem entre grupos étnicos5,6, mas estas evidências são raras. Mais estudos sobre a genética da asma em populações não–européias são necessários para ajudar a determinação das diferenças mundiais no papel das variações genéticas no desenvolvimento da asma e de alergias.

Um desenho clássico para estudos do impacto da genética sobre traços complexos e para distinguir entre a influência ambiental e a genética é o estudo de pares de gêmeos, em que a concordância entre gêmeos monozigóticos (MZ) e dizigóticos (DZ) é comparada. Os gêmeos MZ compartilham 100% de sua constituição genética, enquanto os gêmeos DZ compartilham, em média, 50% de seus genes. Esse tipo de estudo permite o cálculo da heritabilidade (h2) da asma. Na genética, a heritabilidade é a proporção da variação fenotípica em uma população que pode ser atribuída à variação genética7. A heritabilidade estima a contribuição relativa dos fatores genéticos e não–genéticos à expressão fenotípica total em uma população.

 

Estudos de gêmeos na genética da asma

Se os genes influenciam um traço específico, pares de gêmeos MZ, devido à sua maior semelhança genética, devem compartilhar o traço mais do que os gêmeos DZ. Um estudo australiano investigou 3.808 pares de gêmeos8 e as correlações para a asma foram maiores para os gêmeos MZ do que para os gêmeos DZ (0,48 para MZ, 0,09 para DZ, masculinos; e 0,33 para MZ, 0,12 para DZ, femininos), o que implica que uma parcela significativa da variância é de responsabilidade genética na patogênese da asma (h2 = 0,60). Duffy et al.9 reanalisaram os 3.808 pares de gêmeos australianos em 1990, e a correlação para asma auto–informada foi de 0,65 em gêmeos MZ e 0,24 em gêmeos DZ. A heritabilidade foi estimada em 0,60 para mulheres e 0,75 para homens.

Nieminen et al.10 publicaram um grande estudo populacional de mais de 13.000 pares de gêmeos finlandeses adultos. O diagnóstico de asma foi realizado por meio da ligação entre os registros dos gêmeos e os bancos de dados de baixas hospitalares e utilização de medicamentos. Os dados foram coletados do escritório central de epidemiologia. Um total de 4.307 pares de gêmeos MZ e 9.581 pares DZ entre 18 e 70 anos foram incluídos. A estimativa de heritabilidade foi de 0,68 para mulheres e 0,48 para homens (entre 28 e 59 anos). Uma forte diferença de heritabilidade entre os sexos foi encontrada neste estudo. Também foi encontrada uma forte diferença de heritabilidade entre as faixas etárias, com a heritabilidade inversamente proporcional à idade, o que está de acordo com evidências clínicas e epidemiológicas.

Outro estudo de gêmeos publicado em 1997 incluiu 1.480 pares de gêmeos suecos de 7 a 9 anos (do Registro Sueco de Gêmeos)11. Todos os gêmeos nascidos na Suécia entre 1985 e 1986 receberam um questionário detalhado sobre asma. A correlação para informação de asma por parte dos pais foi de 0,79 para pares de gêmeos masculinos MZ e 0,64 para pares de gêmeos femininos MZ, com correlações de 0,25 e 0,27 para pares DZ masculinos e femininos, respectivamente. A contribuição dos fatores genéticos para a variância da asma neste estudo foi de cerca de 0,76 para meninos e 0,64 para meninas.

Em um estudo norueguês, todos os gêmeos nascidos entre 1967 e 1974 (5.864 crianças) foram identificados através do Registro Nacional de Nascimentos norueguês12. A prevalência de asma auto–informada foi de cerca de 5%, e não houve qualquer diferença significativa entre os sexos. A concordância para a asma foi de 0,45 para gêmeos MZ e 0,12 para gêmeos DZ. Este estudo mostrou que os efeitos genéticos explicam 75% da variação para ambos os sexos, enquanto os 25% restantes são de responsabilidade de influências ambientais.

Outro estudo de gêmeos finlandeses, com gêmeos de 16 anos e seus pais, apresentou dados combinados de gêmeos e famílias sobre a genética da asma. A heritabilidade da asma foi de aproximadamente 79%. Os 21% restantes se deveram a influências ambientais13. Se considerarmos apenas famílias com pais asmáticos, a influência genética explica até 87% do desenvolvimento da asma entre os filhos.

Outro estudo em larga escala, com uma população de 11.688 pares de gêmeos entre 12 e 41 anos, foi publicado em 1999. Nele, a heritabilidade é estimada em 0,73 (amostra populacional dinamarquesa)14. Um estudo de gêmeos sobre a asma mais recente foi publicado em 200115, estimando a heritabilidade em 0,68 na população do Reino Unido.

Todos esses estudos de gêmeos demonstram a importância da genética sobre a variância da asma, com resultados de heritabilidade que variam entre 48% e 79%. Um achado importante é que a maioria dos estudos de gêmeos em diferentes partes do mundo (especialmente no Norte da Europa) demonstram resultados semelhantes e consistentes, e destacam o fato da asma (especialmente em sua variedade infantil) ter um forte fundo genético. A Tabela 1 resume esses importantes estudos populacionais de gêmeos.

Apesar de podermos estimar até que ponto a susceptibilidade genética contribui para o risco de asma, ainda demorará muito para que os loci específicos que influenciam os fenótipos clínicos sejam identificados. Uma quantidade significativa de estudos de associação genética descrevem genes de susceptibilidade à asma, mas estes dados demonstram a extrema complexidade da doença. Assim, a identificação destes genes e polimorfismos ainda pode considerada um grande desafio.

 

Estudos de associação de genes candidatos

Uma abordagem muito utilizada na identificação de genes de susceptibilidade à asma é o estudo de polimorfismos em genes candidatos. Os estudos de associação genética testam se uma variante genética específica é mais comum entre asmáticos ou não–asmáticos. Os controles em estudos de associação devem ser recrutados de populações que compartilham semelhanças étnicas ou geográficas com os indivíduos afetados. As vantagens desse tipo de estudo incluem a capacidade de detectar genes de susceptibilidade e sua aplicabilidade a populações gerais. Esta abordagem é poderosa se, e apenas se, o candidato selecionado para o estudo está claramente envolvido na patogênese da doença16.

No entanto, devido à diversidade de genes candidatos em potencial para cada traço complexo, o trabalho envolvido em estudos completos com a abordagem dos genes candidatos pode ser demais para qualquer pesquisador. Além disso, hoje reconhece–se que os resultados de estudos de polimorfismos podem ser enganosos, especialmente devido ao desequilíbrio de ligação (linkage disequilibrium). Assim, a abordagem dos genes candidatos precisa incluir a análise simultânea de múltiplas variantes. Com isto em mente, a correção para comparações múltiplas ou a replicação em diferentes amostras populacionais e/ou a análise funcional são exigidas para que se possa definir causalidade nestes estudos de associação17,18.

Diversos genes candidatos (mais de 100 loci) foram propostos e estudados em relação à asma. Diversos fatores contribuem para esta abundância de candidatos. Os resultados de triagens genômicas deram evidências de associações em múltiplos locais no genoma. Portanto, há muitas posições que incluem diversos genes candidatos. Além disso, os caminhos imunológicos associados com a resposta asmática envolvem uma grande variedade de mediadores inflamatórios, como as citocinas e as quimiocinas. No entanto, os melhores resultados replicados em estudos de associação genética envolvem as seguintes cinco regiões do genoma humano: 5q31–32, 6p21, 11q12–13, 16p11–12, and 20p13 (http://geneticassociationdb.nih.gov)19.

 

Genetic Association Database

O Genetic Association Database (GAD, ou Banco de Dados de Associação Genética) é um repositório de estudos de associação da genética humana de doenças complexas organizado pelo National Institutes of Health (http://geneticassociationdb.nih.gov). O objetivo deste banco de dados é permitir que os pesquisadores identifiquem rapidamente polimorfismos clinicamente relevantes a partir de um grande volume de variações genéticas no contexto de uma nomenclatura padronizada para genes e polimorfismos (números rs). O banco de dados inclui artigos científicos publicados seletos. Os dados de estudos são registrados com a nomenclatura oficial usada para o genoma humano. Se um estudo investiga mais de um gene para um distúrbio específico, há mais de um registro. Os registros enviados pelos pesquisadores são revisados antes de serem incluídos no GAD19.

Selecionamos oito genes associados à asma em mais de cinco estudos populacionais de associação genética, usando o GAD, para a presente revisão. Os genes estão localizadas nas cinco regiões do genoma mencionadas acima. Estes genes relevantes para a susceptibilidade à asma são discutidos detalhadamente a seguir (Tabela 2).

Cromossomo 5: ADRB2, IL13 e IL4

O gene receptor beta–2–adrenérgico (ADRB2) é membro da superfamília de receptores acoplados a proteínas G. Este complexo receptor–canal contém a proteína G, uma adenilil ciclase e a fosfatase alcalina. A configuração do complexo de sinalização cria um mecanismo que garante sinalização específica por parte deste receptor acoplado à proteína G. Diferentes loci polimórficos deste gene estão associados ao diagnóstico de asma, à asma noturna, a exacerbações da asma e à resposta a beta–2 agonistas no tratamento da asma.

Turki descobriu uma freqüência maior de glicina na posição 16 (Gly16, SNP rs1042713), em comparação com Arg16, em indivíduos com asma noturna.20 Outras evidências sugerem que a presença de Gly16 (seqüência de aminoácidos) de ADRB2 confere a regulação negativa promovida por agonistas do tipo que caracteriza esta forma de asma.

Em uma meta–análise publicada recentemente, Contopoulos–Ioannidis et al. confirmam a associação entre o polimorfismo de Gly16 e a asma noturna, mas não encontram qualquer associação entre essa variante e a hiperresponsividade brônquica21. Outros estudos não encontraram qualquer associação entre rs1042713 e respostas diferentes a agonistas beta–2 (especialmente albuterol e salmaterol)22.

O IL13 codifica uma citocina imunorregulatória produzida principalmente por células Th2 ativadas. A citocina regula positivamente a expressão do complexo maior de histocompatibilidade classe II (MHCII) e promove a comutação isotípica de IgE. O IL13 inibe a produção de citocinas e quimiocinas pró–inflamatórias. Esta citocina é crítica para a patogênese da asma induzida por alérgenos, mas opera por meio de mecanismos independentes de IgE. IL3, IL5, IL4, IRF1 e CSF2 formam um agrupamento gênico no cromossomo 5q, sendo que o IL13 está localizado particularmente próximo ao IL4.

Howard et al. informam que a variante promotora (C–1112T, rs1800925) do gene IL13 contribui significativamente para a hiperresponsividade brônquica e para a susceptibilidade à asma, mas não para os níveis séricos totais de IgE.23 Heinzmann24 determinou que uma variante R130Q de IL13 (rs20541) está associada à asma em populações de estudos de caso–controle da Grã–Bretanha e do Japão (odds ratio, OR = 2,31, IC95% 1,33–4,00); a variante também previu asma e níveis séricos elevados de IL13 em uma população pediátrica japonesa.

A proteína codificada pelo gene IL4 é uma citocina de Th2 produzida pelas células–T ativadas que influenciam uma resposta imune alérgica. O receptor IL4 também se liga ao IL13, o que pode contribuir para as muitas funções redundantes de IL4 e IL13. Sabe–se que IL4, IL13 e IL5 são regulados de maneira coordenada pelos elementos regulatórios no cromossomo 5.

Kabesch25 demonstrou um possível envolvimento de SNP no gene IL4 no desenvolvimento da asma e na regulação do IgE sérico total. Além disso, em 200626, este grupo demonstrou que especialmente as análises combinadas de alterações genéticas nas vias de IL–4/IL–13 revelam sua importância para o desenvolvimento da atopia e da asma infantil. Outros genes portados no lócus, como CD14 e IRF1, também podem contribuir para a asma e alergias.

Cromossomo 6: HLA–DQB1 e TNF

O HLA–DQB1, que pertence às cadeias beta do antígeno do leucócito humano (HLA), é um heterodímero que consiste de uma cadeia alfa (DQA) e uma beta (DQB), ambas ancoradas na membrana. O HLA–DQB1 tem um papel crucial no sistema imunológico, pois apresenta peptídeos derivados de proteínas extracelulares. Dentro da molécula DQ, tanto a cadeia alfa quanto a beta contêm polimorfismos, o que produz quatro moléculas diferentes. Diversos estudos27–29 demonstraram associação entre as variações de HLA–DQB1 e a asma ou a asma induzida por aspirina (Tabela 2).

O gene do fator de necrose tumoral (TNF) codifica uma citocina pró–inflamatória multifuncional que pertence à superfamília do TNF. Esta citocina é secretada principalmente por macrófagos e está envolvida na regulação de um espectro amplo de processos biológicos que inclui a proliferação, diferenciação e apoptose celular.

Witte30 avaliou a relação entre o polimorfismo promotor G–308A (rs1800629) do gene TNF e o risco de asma em 236 casos e 275 controles não–asmáticos. Este estudo indicou que ter uma ou duas cópias do alelo –308A aumenta o risco de asma (OR = 1,58), magnitude esta que aumenta quando se restringe os casos apenas àqueles com asma aguda (OR = 1,86, p = 0,04) ou apenas aos pacientes com histórico familiar de asma ou àqueles de descendência européia–americana (OR = 3,16, p = 0,04).

Aoki et al.31, ao contrário, não encontrou qualquer associação significativa entre este polimorfismo G–308A (rs1800629) de TNF e a asma atópica infantil em duas populações japonesas independentes, mas a meta–análise de um total de 2.477 pacientes asmáticos e 3.217 indivíduos–controle mostrou que o polimorfismo G–308A está associado significativamente à asma. O OR combinado foi de 1,46 para efeitos fixos ou aleatórios (p < 0,001).

Cromossomo 11: SCGB1A1 (ou UGB; CC16; CCSP)

A proteína secretória das células de Clara (CC16) é uma proteína expressa principalmente no trato respiratório por células secretórias bronquiolares não–ciliadas32. Sua atividade imunomodulatória está amplamente documentada. Camundongos com deficiência na expressão de CC16 exibem maior susceptibilidade a ferimentos pulmonares e respostas inflamatórias excessivas.

Realizou–se uma triagem em busca de mutações no gene CC16. Um polimorfismo (A38G, rs3741240) foi identificado e associado ao risco maior de asma diagnosticada por médicos em uma população de crianças australianas33. Em um estudo com adultos, o alelo CC16 38A foi associado a um risco moderado de asma34. Laing et al. demonstraram que a seqüência 38A está associada a níveis reduzidos de CC16 no plasma, e que indivíduos com níveis menores de CC16 no plasma possuem maior probabilidade de sofrer de asma34, mas são necessários estudos com amostras populacionais maiores para confirmar esta associação.

Cromossomo 16: IL4R

O gene IL4R codifica o receptor IL4, a proteína transmembranal que pode ligar o IL4 e o IL13 para regular a produção de IgE. A ligação do IL13 ou IL4 ao receptor de IL4 (IL4R) induz a resposta inicial para a polarização do linfócito Th2. Ambos IL13 e IL4 são produzidos por células Th2 e são capazes de induzir a comutação de classe isotípica de células B para produzir IgE após exposição ao alérgeno.

As variações alélicas nesse gene estão associadas à atopia, uma condição que pode se manifestar como rinite alérgica, asma ou eczema. Howard et al. investigou 5 polimorfismos de nucleotídeo único de IL4RA em uma população de famílias holandesas verificada através de um caso–índice com asma35. Os autores observaram associações significativas entre diversos polimorfismos de IL4RA e fenótipos relacionados com asma e atopia, especialmente S503P (rs1805015). Detectou–se uma interação gene–gene significativa entre S503P no IL4RA e a variação promotora C–1112T no IL13, que havia sido associada anteriormente a hiperresponsividade brônquica. Os indivíduos com o genótipo de risco para ambos os genes estavam sob risco quase cinco vezes maior de desenvolver asma do que os indivíduos com genótipos sem risco. Estes dados sugerem que as variações no IL4RA contribuem para níveis séricos totais de IgE elevados, e a interação entre IL4RA e IL13 aumenta consideravelmente a susceptibilidade do paciente à asma.

Cromossomo 20: ADAM33

Este gene codifica um membro da família do domínio de disintegrina e metaloprotease (ADAM). Os membros desta família são proteínas ancoradas em membranas que estão implicadas em diversos processos biológicos, incluindo o desenvolvimento muscular e a neurogênese. Esta é uma proteína transmembranal implicada na asma e na hiperresponsibidade brônquica. O splicing alternativo deste gene resulta em duas variantes de transcrição codificando diferentes isoformas. Este foi o primeiro gene candidato para a asma a ser detectado por clonagem posicional.

Van Eerdevegh36 realizou uma análise genômica de 460 famílias caucasianas e identificou um lócus no cromossomo 20p13 que está ligado à asma e à hiperrresponsibidade brônquica. Uma pesquisa de 135 polimorfismos em 23 genes identificou o gene ADAM33 como associado significativamente à asma em análises de caso–controle, de desequilíbrio de transmissão e haplotípicas (p = 0,04–0,000003). No entanto, estes resultados não foram replicados por diversos outros estudos de associação do gene ADAM33. Estudos com populações islandesas e britânicas não revelaram qualquer associação quando analisados isoladamente.

Recentemente, uma meta–análise demonstrou que as variantes rs511898 e rs574174 (localizadas no gene ADAM33) estão associadas significativamente à asma37. O risco adicional conferido por estas variantes pode ser responsável por 50.000 casos excessivos de asma apenas no Reino Unido.

 

Estudos genômicos de associação

Com a conclusão do Projeto Genoma Humano em 2003 e do International HapMap Project em 2005, os pesquisadores agora têm à sua disposição um conjunto de ferramentas de pesquisa avançadas que facilitam a identificação da contribuição genética a doenças comuns. Estas ferramentas incluem bancos de dados computadorizados que contêm a seqüência genômica humana de referência e um mapa da variação genética humana. Um estudo genômico de associação (GWA, ou genome–wide association study) é uma abordagem que envolve a análise de marcadores através de conjuntos completos de polimorfismos humanos.

Recentemente, o primeiro estudo GWA sobre a asma38 caracterizou mais de 317.000 SNP no DNA de 994 pacientes com asma de início infantil e 1.243 não–asmáticos usando painéis familiares e de caso–referência. Os autores demonstraram que múltiplos marcadores no cromossomo 17q21 estão associados à asma infantil de maneira forte e consistente. Seu valor p combinado é < 10(–12). Um estudo de replicação independente demonstrou que o lócus 17q21 possui associação significativa com o diagnóstico de asma infantil em 2.320 pacientes de uma coorte de crianças alemãs (p = 0,0003) e em 3.301 pacientes da Coorte de Nascimento em 1958 do Reino Unido (p = 0,0005). Este estudo38 avalia a relação entre os marcadores do lócus 17q21 e os níveis de transcrição dos genes. O SNP (rs7216389) associado à asma infantil foi associado de maneira forte e consistente (p = 10(–22)) a níveis de transcrição de ORMDL3, um membro da família genética que codifica as proteínas transmembranais ancoradas no retículo endoplasmático. Moffat et al.38 concluíram que as variantes genéticas que regulam a expressão de ORMDL3 são determinantes da susceptibilidade à asma infantil. Dentro do subconjunto de indivíduos para os quais os dados de expressão estavam disponíveis, o alelo T do SNP rs7216389 foi o marcador com associação mais forte à doença no GWA combinado (Figura 1).

 

 

Conclusões e perspectivas futuras

Diversos loci diferentes parecem influenciar a susceptibilidade à asma. Os genes localizados no cromossomo 5q (ADRB2, IL13 e IL4) e o gene ORMDL3, no cromossomo 17, identificado recentemente, parecem ser determinantes importantes para a asma infantil.

No entanto, há poucos estudos sobre a genética da asma na América Latina, e menos ainda nas áreas subdesenvolvidas do mundo onde há alta prevalência de asma . Um estudo recente do grupo ISAAC–Phase II39 demonstrou que a asma em comunidades não–afluentes está significativamente menos associada a alergias do que em áreas mais socialmente desenvolvidas.

Não está claro se os resultados de estudos genéticos em populações européias podem ser transferidos facilmente para populações de etnias diferentes. São necessários estudos genéticos epidemiológicos na América Latina, Ásia e África para determinar o impacto dos genes e do ambiente nestas regiões, o que pode diferir dramaticamente dos achados em amostras populacionais da Europa e dos EUA.

As melhorias no diagnóstico e na farmacogenética podem ser as primeiras implicações clínicas destes estudos extensivos sobre a genética da asma. Em um estudo randomizado, com um grupo controle tratado com placebo, que envolvia 78 pacientes com asma leve (41 com o genótipo G/G (rs1042713) e 37 com o genótipo R/R), Israel22 descobriu que havia diferenças significativas na resposta ao albuterol, em contraste com o placebo, relacionadas ao genótipo. Os pacientes com o genótipo R/R melhoraram quando a terapia com beta–agonistas foi interrompida e substituída por brometo de ipratrópio, enquanto aqueles com o genótipo G/G tiveram resultados melhores com a terapia normal com beta–agonistas do que quando ela foi interrompida. O genótipo no aminoácido 16 de ADRB2 afeta significativamente a resposta ao albuterol. Além disso, tratamentos broncodilatadores que evitam o albuterol podem ser adequados para pacientes com o genótipo R/R22. Este é apenas um exemplo de como a genética pode influenciar nossa prática clínica no futuro próximo.

 

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Correspondência:
Leonardo A. Pinto
Instituto de Pesquisas Biomédicas
Hospital São Lucas — PUCRS
Av. Ipiranga, 6690, 2º andar
CEP 90610–000 — Porto Alegre, RS
Tel.: (51) 3384.5104

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

 

 

Como citar este artigo: Pinto LA, Stein RT, Kabesch M. Impact of genetics in childhood asthma. J Pediatr (Rio J). 2008;84(4 Suppl):S68–75.