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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.84 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572008000700002 

v846a02

EDITORIAL

 

Asma nas etapas iniciais da vida: a hipótese da higiene está correta?

 

 

Scott T. WeissI

IMD, MS. Professor de Medicina, Harvard Medical School, Boston, MA, EUA. Diretor, Center for Genomic Medicine, Boston, MA, EUA. Diretor, Program in Bioinformatics, Boston, MA, EUA. Diretor associado, Channing Laboratory, Brigham and Women's Hospital, Boston, MA, EUA

Correspondência

 

 

Desde os estudos originais no final da década de 1980, literalmente centenas de estudos de coorte de nascimento objetivaram documentar o papel da infecção respiratória e susceptibilidade genética no desenvolvimento de asma nas etapas iniciais da vida, incluindo o artigo nesta edição que observa a sibilância na Região Sul do Brasil e explica os resultados com base na hipótese da higiene1.

Conforme formulada originalmente por Strachan, a hipótese da higiene sugeria que irmãos mais jovens apresentavam menos rinite alérgica do que seus irmãos mais velhos, porque tinham infecções mais freqüentes e, portanto, menos alergia2. Von Mutius e outros popularizaram esta hipótese como a explicação para a epidemia de asma3. No meu modo de ver, há dados contraditórios substanciais sugerindo que tanto a hipótese da higiene em si quanto sua capacidade de explicar a epidemia de asma estão corretas.

- Ponto 1: Embora haja uma relação ecológica entre o declínio de todas as infecções e o aumento de doenças de células T do subtipo helper 2 (Th2), a hipótese da higiene não explica porque as doenças auto-imunes de células T do subtipo helper 1 (Th1) aumentaram no mesmo intervalo de tempo que as doenças Th2.
- Ponto 2: Conforme apontado por Platts-Mills e outros, o declínio em doenças infecciosas é um resultado de antibióticos, melhores condições de moradia e melhor qualidade da água, e este declínio antecipou em muitos anos a epidemia de doenças auto-imunes Th1 e Th24.
- Ponto 3: Existem muitas evidências de que os pulmões de crianças suscetíveis à asma e à infecção respiratória são anormais ANTES da ocorrência de qualquer infecção. Dessa forma, danos pulmonares simplesmente não são o resultado do processo infeccioso5,6.
- Ponto 4: Não há evidências de que tenha ocorrido qualquer redução real de número, incidência ou tipo de infecções respiratórias virais ao longo do período de 30 anos em que a prevalência de asma aumentou.
- Ponto 5: Todo o fenômeno da epidemia de doença auto-imune poderia ser explicado por um fator que vem se alterando ao longo do período de 40 anos em que a doença auto-imune aumentou, o que poderia estar associado à ocorrência de infecção e à doença auto-imune Th1 e Th2.
- Ponto 6: A hipótese da higiene não pode explicar as altas taxas de asma entre a população urbana pobre nos EUA e em outros países industrializados.
- Ponto 7: A hipótese da higiene não pode de fato explicar a associação entre epidemia de asma e a industrialização e o gradiente rural-urbano no risco à doença.

A meu ver, a deficiência de vitamina D em grávidas e em seus filhos é a provável explicação para a maior parte do que vimos em relação ao aumento da incidência e prevalência de asma nas etapas iniciais da vida7-10. Ela explica a associação com a infecção, pois a deficiência de vitamina D está associada ao aumento de ocorrência e gravidade de infecção.

Ela explica por que os pulmões estão anormais antes da infecção, uma vez que em modelos animais de deficiência de vitamina D o desenvolvimento pulmonar se encontra anormal. Ela explica as diferenças entre urbano e rural e entre brancos e negros na prevalência de asma e as diferenças na prevalência entre países industrializados e rurais, pois essas tendências refletem as tendências epidemiológicas da deficiência de vitamina D. Tendências foram exacerbadas pela eliminação da suplementação com óleo de fígado de bacalhau durante a gravidez e em crianças pequenas, por maior tempo em local fechado e pelo aumento do uso de protetor solar.

O que é necessário para testar a hipótese de que a causa real da epidemia de asma é a deficiência de vitamina D em grávidas e em seus filhos, e não alterações nas taxas de infecção? Em primeiro lugar, são necessários estudos observacionais com medições cuidadosas de exposição. Para isso, questionários de freqüência alimentar e níveis de vitamina D precisam ser realizados em estudos de coorte de nascimento e no seguimento de crianças. É provável que cerca de 70% de todas as grávidas tenham deficiência de vitamina D, e que esses estudos observacionais possam ter um viés nulo considerável. Finalmente, serão necessários ensaios randomizados e controlados de doses suficientes de vitamina D dadas a grávidas em comparação com multivitaminas para testar essa hipótese. Ensaios como esses estão atualmente sendo conduzidos em diversos locais em nível internacional, e aguardamos seus resultados.

 

Referências

1. Chong Neto HJ, Rosario NA, Grupo EISL Curitiba (Estudio Internacional de Sibilancias en Lactantes). Risk factors for wheezing in the first year of life. J Pediatr (Rio J). 2008;84:495-502.         [ Links ]

2. Strachan DP. Hay fever, hygiene, and household size. BMJ. 1989;299:1259-60.         [ Links ]

3. von Mutius E. Pro: the increase in asthma can be ascribed to cleanliness. Am J Respir Crit Care Med. 2001;164:1106-7; discussion 1108-9.         [ Links ]

4. Platts-Mills TA, Woodfolk JA, Sporik RB. Con: the increase in asthma cannot be ascribed to cleanliness. Am J Respir Crit Care Med 2001;164:1106-7; discussion 1108-9.         [ Links ]

5. Hanrahan JP, Tager IB, Segal MR, Tosteson TD, Castile RG, Van Vunakis H, et al. The effect of maternal smoking during pregnancy on early infant lung function. Am Rev Respir Dis. 1992;145:1129-35.         [ Links ]

6. Tager IB, Hanrahan JP, Tosteson TD, Castile RG, Brown RW, Weiss ST, et al. Lung function, pre- and post-natal smoke exposure, and wheezing in the first year of life. Am Rev Respir Dis. 1993;147:811-7.         [ Links ]

7. Litonjua AA, Weiss ST. Is vitamin D deficiency to blame for the asthma epidemic? J Allergy Clin Immunol. 2007;120:1031-5.         [ Links ]

8. Weiss ST, Litonjua AA. Maternal diet vs lack of exposure to sunlight as the cause of the epidemic of asthma, allergies and other autoimmune diseases. Thorax. 2007;62:746-8.         [ Links ]

9. Devereux G, Litonjua AA, Turner SW, Craig LC, McNeill G, Martindale S, et al. Maternal vitamin D intake during pregnancy and early childhood wheezing. Am J Clin Nutr. 2007;85:853-9.         [ Links ]

10. Camargo CA Jr, Rifas-Shiman SL, Litonjua AA, Rich-Edwards JW, Weiss ST, Gold DR, et al. Maternal intake of vitamin D during pregnancy and risk of recurrent wheeze in children at 3 y of age. Am J Clin Nutr. 2007;85:788-95.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Scott T. Weiss
Email: scott.weiss@channing.harvard.edu

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste editorial.
Como citar este artigo: Weiss ST. Asthma in early life: is the hygiene hypothesis correct? J Pediatr (Rio J). 2008;84(6):475-476.