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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.85 no.6 Porto Alegre Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572009000600014 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Potencial hidrogeniônico de soluções de cloridrato de dobutamina expostas a condições ambientais de unidades de cuidados intensivos neonatais

 

 

Lidiane L. ReisI; Maria Angélica S. PeterliniII; Mavilde L. G. PedreiraIII

IMestre, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP. Enfermeira assistencial, Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP
IIProfessora adjunta, UNIFESP, São Paulo, SP, Coorientadora, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, UNIFESP, São Paulo, SP
IIIProfessora adjunta, UNIFESP, São Paulo, SP, Pesquisadora CNPq. Orientadora, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, UNIFESP, São Paulo, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar o potencial hidrogeniônico (pH) de soluções de cloridrato de dobutamina sob condições ambientais que mimetizam unidades de cuidados intensivos neonatais.
MÉTODOS: Analisou-se pH do fármaco em solução glicosada 5% ou NaCl 0,9% segundo temperatura (22 e 37 °C), luz (escuro, lâmpadas fluorescentes ambiente e equipamento de fototerapia) e equipos (incolor e âmbar) em intervalos de tempo (0, 1, 24, 48, 72 e 96 horas).
RESULTADOS: Evidenciaram-se valores próximos de pH do fármaco na apresentação comercial e diluído. Obteve-se média de pH de 3,45±0,19 a 22 °C e de 3,55±0,20 a 37 °C. A média de pH das soluções mantidas no escuro foi de 3,62±0,09, na luz ambiente, de 3,63±0,07, e sob fototerapia, de 3,31±0,16. Soluções em equipos incolores tiveram média menor (3,41±0,24) do que em âmbares (3,52±0,15). Obtiveram-se menores valores de pH nas soluções sob fototerapia em equipos incolores (3,17±0,03) do que em âmbares (3,55±0,03).
CONCLUSÃO: Sob a luz da fototerapia houve maior variação do pH das soluções, e o emprego de equipos âmbares minimizou tal efeito.

Palavras-chave: Enfermagem neonatal, cuidados intensivos, estabilidade de medicamentos, dobutamina, infusões endovenosas, erros de medicação.


 

 

Introdução

Fármacos e soluções são considerados estáveis durante o período no qual mantêm até 90% de sua atividade química e propriedades físicas inalteradas. A temperatura influencia a velocidade das reações químicas por promover energia cinética superior à energia de ativação, e a energia luminosa pode acarretar decomposição molecular com desdobramento ou rearranjo das ligações por fotólise1,2.

Um dos indicadores do comportamento químico é o valor do potencial hidrogeniônico (pH). A estabilidade farmacológica é inversamente proporcional ao distanciamento do pH ideal1,2.

Surge na prática clínica preocupação quanto à influência das características ambientais de unidades de cuidados intensivos neonatais (UCIN), como a ação da temperatura e luz provenientes, respectivamente, do uso de incubadoras e de equipamentos de fototerapia, na estabilidade farmacológica.

Em UCIN, utiliza-se amplamente o cloridrato de dobutamina, cujo pH pode oscilar entre 2,5 e 5,53; contudo, não foram identificadas na literatura pesquisas sobre a estabilidade desse fármaco sob temperaturas superiores a 25 °C ou sob irradiância e intensidade luminosa comparáveis às provenientes de equipamentos de fototerapia4-10.

Sendo a administração medicamentosa sob condições ambientais preestabelecidas essencial para a manutenção da estabilidade e para a consequente obtenção de terapêutica adequada, promoção da segurança do paciente e respaldo para a prática clínica do profissional de enfermagem responsável pela administração das soluções11, o objetivo deste estudo foi verificar o pH de soluções de cloridrato de dobutamina, no decorrer do tempo, segundo variações de temperatura, luminosidade e sistema para administração intravenosa (SAI) que mimetizam a prática clínica da enfermagem em UCIN.

 

Método

Estudo experimental aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, cuja coleta de dados ocorreu em ambiente laboratorial entre maio e julho de 2007.

A amostra foi composta por 180 valores de pH do cloridrato de dobutamina e dos diluentes solução glicosada (SG) 5% e NaCl 0,9% na apresentação comercial e das soluções formadas com estes constituintes na concentração de 7 mg/mL segundo condições de estudo e em períodos de tempo predeterminados.

As soluções foram acondicionadas em SAI com câmara graduada em volume (bureta). Para fins elucidativos, a extensão do equipo que antecedeu a instalação à bomba de infusão foi definida como de porção proximal, e a que a sucedeu, como de porção distal.

O equipamento de fototerapia utilizado foi do tipo convencional, com lâmpadas fluorescentes, sendo estabelecida a medida constante de 48 cm entre o aparelho e a porção distal do equipo. A irradiância foi mensurada por meio de radiômetro localizado a 48 cm.

Mediante luxímetro, verificou-se a intensidade luminosa das lâmpadas fluorescentes da sala que incidia sobre a bureta (média de 430 lx) e sobre a porção distal do equipo (média de 230 lx). Mensurou-se também a luminosidade a 48 cm do equipamento de fototerapia (média de 9.000 lx). Invólucros utilizados para manter os SAI no escuro permitiram uma incidência de, no máximo, 2 lx.

A aferição do pH foi realizada pelo equipamento ExStik pH Waterproof Meters, modelo PH100, da marca Extech® (Waltham, Massachusetts, EUA). Os valores foram obtidos imediatamente após imersão do leitor nas amostras das soluções acondicionadas em béqueres de vidro.

Após aferição do pH do fármaco e dos diluentes em sua apresentação comercial, as misturas foram acondicionadas nas buretas formando as soluções de estudo e, novamente, o pH aferido. Após preenchimento dos equipos, as amostras foram coletadas nos tempos 0, 1, 24, 48, 72 e 96 horas de infusão, identificados neste estudo como T0, T1, T2, T3, T4 e T5, respectivamente, representando uma medida de pH de cada situação estudada.

Em relação à temperatura, as amostras foram submetidas a duas situações distintas: quando o SAI permaneceu em sua totalidade sob 22 °C e quando a porção distal adentrou na incubadora ajustada a 37 °C.

Quanto à verificação da influência de luz, as amostras foram expostas a três condições diferentes: a totalidade do SAI sob ausência de luz, o sistema exposto à iluminação das lâmpadas do ambiente e as soluções contidas na porção distal dos equipos expostas à luz fluorescente do equipamento de fototerapia.

As soluções de cloridrato de dobutamina foram acondicionadas em dois tipos de SAI, os incolores (SAII) e os âmbares (SAIA). Utilizaram-se dispositivos incolores protegidos da luz (SAIP) para controle do experimento.

Os resultados foram registrados manualmente, armazenados em planilhas eletrônicas e apresentados descritivamente e em figuras. Para estudo das variações de pH nas diferentes situações investigadas, empregou-se análise da média aritmética ± desvio padrão.

 

Resultados

Analisaram-se 180 valores de pH dos quais 20 (11,1%) corresponderam ao cloridrato de dobutamina em sua apresentação comercial, 20 (11,1%) aos diluentes SG5% e NaCl 0,9% sob a mesma condição, 20 (11,1%) às soluções formadas por esses constituintes e 120 (66,7%) às amostras segundo situação de estudo nos períodos de tempo predeterminados.

Os valores de pH do cloridrato de dobutamina destinado à diluição em SG5% ficaram entre 3,10 e 3,31, com média de 3,23±0,06, e os do diluído em NaCl 0,9%, entre 3,07 e 3,36, com média de 3,27±0,08. Os valores de pH do SG5% estiveram entre 4,43 e 5,10, com média de 4,70±0,20, e os do NaCl 0,9%, entre 5,33 e 6,34, com média de 5,86±0,35. Em sua apresentação comercial, o cloridrato de dobutamina teve média de 3,25±0,07 e, após diluição, de 3,49±0,08 (SG5% 3,46±0,08; NaCl 0,9% 3,52±0,07).

Quanto à temperatura, foram obtidas médias de 3,45±0,19 das soluções sob 22 °C e de 3,55±0,20 sob 37 °C.

Em relação à luminosidade, obteve-se média de 3,62±0,09 no escuro, de 3,63±0,07 sob iluminação fluorescente do ambiente e de 3,31±0,16 sob luz do equipamento de fototerapia, sendo, nesta última condição, observados os menores valores de pH (2,96) e de média (3,15) e as maiores variações nas soluções (0,31).

Soluções acondicionadas em SAII tiveram menores valores de pH (3,17±0,03) do que aquelas condicionadas em SAIA (3,55±0,03).

Quando submetidas à energia luminosa emitida de forma próxima, direta e constante pelas lâmpadas fluorescentes do equipamento de fototerapia, independente do diluente e da temperatura, as soluções acondicionadas em SAII tiveram significativa queda nos valores de pH até T2, passando também de incolores à róseas. Em contrapartida, as soluções acondicionadas em SAIA mantiveram seus valores de pH mais constantes e não apresentaram tal alteração física (Figuras 1 e 2).

 

 

 

Discussão

Fármaco e diluentes, em sua apresentação comercial, encontravam-se com valores de pH condizentes com os de referência3.

Independente do diluente, os valores de pH das soluções permaneceram próximos aos da apresentação comercial do fármaco e menores do que os considerados seguros para infusão em veias periféricas no tocante à prevenção de complicações locais da terapia intravenosa, ressaltando a necessidade de administração através de cateteres centrais12,13.

A pequena diferença nos valores médios e de desvio padrão das soluções sob 22 ou 37 °C sugere que a temperatura não desencadeou alterações no comportamento químico; contudo, não foi possível realizar uma comparação desses dados com a literatura por não serem encontrados estudos que avaliassem a estabilidade dessas soluções sob temperatura próxima a 37 °C.

Ressalta-se que a maioria das UCIN brasileiras não possui condição térmica controlada e, portanto, soluções em infusão contínua permanecem expostas às variações do padrão dia-noite e às altas temperaturas de um clima tropical. Complementarmente, ocorre nesses locais a utilização de equipamentos eletrônicos que favorecem o aquecimento do ambiente.

A diminuta diferença nos valores médios e nas variações de pH quando comparadas soluções no escuro com as submetidas à iluminação fluorescente do ambiente sugere que este tipo de luminosidade não desencadeou alteração do comportamento químico.

No tocante à mudança de coloração das soluções quando sob a iluminação próxima, direta e constante do equipamento de fototerapia, não foi encontrado na literatura respaldo para a utilização desses fluidos e nem afirmações de que a quantidade do princípio terapêutico neles presente se mantenha com até 90% de sua concentração inicial. Também não é possível afirmar que o fármaco se apresente instável. São necessários experimentos que avaliem tais soluções por meio de cromatografia líquida de alta performance (high performance/pressure liquide chromatography, HPLC).

Ressalta-se também a necessidade de estudos que utilizem outras modalidades de fototerapia, como a de Super LED, que emite luz de alta intensidade por meio de um conjunto de LED de composição físico-química diferenciada14.

Conforme recomendações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), é categoria IA a permanência dos SAI por, no mínimo, 72 horas, desde que se mantenham fechados15. Assim sendo, estudos que assegurarem a estabilidade do cloridrato de dobutamina por período superior a 24 horas poderão também contribuir para a redução dos riscos de infecção da corrente sanguínea associada à manipulação dos cateteres, além de fornecer subsídios para a revisão das ações de descarte de resíduos, colaborando com a preservação do meio ambiente e com a redução dos custos hospitalares.

 

Conclusões

Temperatura e iluminação proveniente de lâmpadas fluorescentes do ambiente parecem não contribuir para alterar o comportamento químico das soluções de cloridrato de dobutamina; contudo, é possível inferir maior influência da luz do equipamento de fototerapia no perfil químico da solução estudada e que o emprego de SAIA pode auxiliar a manter o fármaco com suas características iniciais.

Ressalta-se a importância de estudos adicionais sobre a temática que indiquem variações nas concentrações farmacológicas das soluções analisadas a fim de se verificar a adequação da prática clínica de enfermagem de cuidado ao recém-nascido em UCIN às especificidades da terapia medicamentosa para que intervenções cotidianas sejam fundamentadas em evidências científicas que promovam o desenvolvimento da ciência da enfermagem e, consequentemente, seja realizado um cuidado cada vez mais benéfico, seguro e centrado nas necessidades integrais e individuais do paciente e da família.

 

Referências

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Correspondência:
Lidiane L. Reis
Rua Pedro de Toledo, 544/207
CEP 04039-001 - São Paulo, SP
Tel.: (11) 9746.1736
E-mail: lidianelr@gmail.com

 

 

Artigo submetido em 21.08.08, aceito em 19.05.09
Apoio financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 476295/2004-1.
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Reis LL, Peterlini MA, Pedreira ML. Hydrogen-ion potential of dobutamine hydrochloride solutions exposed to environmental conditions of neonatal intensive care units. J Pediatr (Rio J). 2009;85(6):553-556.