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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000100003 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Obesidade e asma: associação ou coincidência?

 

 

Daniella Fernandes CamiloI; José Dirceu RibeiroII;Adyleia Dalbo Contrera ToroIII; Emilio Carlos Elias BaracatIV;Antonio de Azevedo Barros FilhoII

IMestre, Saúde da Criança e do Adolescente, Faculdade de Ciências Médicas (FCM), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP
IIProfessor associado, Pediatria, FCM, UNICAMP, Campinas, SP
IIIDoutora, Pediatria, FCM, UNICAMP, Campinas, SP
IVDoutor, Pediatria, FCM, UNICAMP, Campinas, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: A asma e a obesidade estão entre as maiores causas de morbidade na infância e adolescência. A obesidade precoce aumenta as chances de doenças crônicas degenerativas no adulto. Embora a concomitância de ambas as situações clínicas vem sendo demonstrada em vários estudos, os mecanismos intrínsecos dessa associação ainda são pouco conhecidos. Portanto, o objetivo deste artigo foi revisar os principais trabalhos sobre a associação de obesidade e asma e verificar se existe relação de causa e efeito entre ambas.
FONTES DOS DADOS: Revisão sistemática baseada em bases de dados indexadas MEDLINE (PubMed) e SciELO. Foram revisados artigos originais (transversal, caso-controle e prospectivo) e meta-análises publicados no período de janeiro de 1998 a janeiro de 2008. Foram pesquisados estudos divulgados em língua inglesa, espanhola e portuguesa.
SÍNTESE DOS DADOS: Embora existam muitos estudos sobre as crescentes prevalências da asma e da obesidade, poucos estabelecem relações de causa e efeito entre ambas. Os mecanismos fisiopatológicos e os fatores envolvidos nesse processo ainda são pouco conhecidos.
CONCLUSÃO: O rigor metodológico em estudos futuros deverá buscar respostas para melhor entender se existe associação entre asma e obesidade, ou se a relação entre ambas as doenças é coincidência.

Palavras-chave: Asma, obesidade, composição corporal, índice de massa corporal, crianças.


ABSTRACT

OBJECTIVE: Asthma and obesity are among the major causes of morbidity in childhood and adolescence. Early obesity increases the chances of chronic degenerative diseases in adults. Although the concomitance or both clinical situations are being demonstrated in various studies, the intrinsic mechanisms of this association are still very little known. Therefore, the objective of this article was to review the main studies on the association of obesity and asthma and check if there is a cause-effect relation between them.
SOURCES: Systematic review based on indexed data bases MEDLINE (PubMed) and SciELO. Original articles (cross-sectional, case-control, and prospective studies) and meta-analysis published in the period that ranges from January 1998 to January 2008 were reviewed. Studies published in English, Spanish, and Portuguese were researched.
SUMMARY OF THE FINDINGS: Although there are various studies on growing prevalence of asthma and obesity, few of them establish cause-effect relations between them. Physiopathological mechanisms and factors involved in this process are still little known.
CONCLUSION: Methodological rigor in future studies must seek for answers to better understand if there is association between asthma and obesity or if the relationship between both diseases is a coincidence.

Keywords: Asthma, obesity, body composition, body mass index, children.


 

 

Introdução

Asma e obesidade são doenças com altas prevalências e com aumento significativo nas últimas décadas. Ambas apresentam etiologias, fenótipos clínicos e gravidades distintas. Também se sabe que os componentes ambiental, genético e inflamatório são marcantes nas duas1-6.

Nos últimos 30 anos, a população mundial vivenciou a era da evolução tecnológica, que provocou profundas mudanças nos padrões de estilo de vida e nos hábitos alimentares7,8. Concomitantemente, houve melhoria das condições higiênico-sanitárias e redução das doenças infecciosas9,10. A industrialização dos alimentos caracterizados pelo alto teor de carboidratos simples e gordura hidrogenada tornou esses alimentos acessíveis a toda a população, substituindo os alimentos in natura. Além disso, o estilo de vida apresentou movimento inverso, ou seja, houve uma redução da atividade física, que foi substituída pelo sedentarismo, e um aumento do tempo gasto na televisão, computador e jogos eletrônicos11.

No Brasil, assim como em diversos países em desenvolvimento, ocorreu o processo de transição nutricional consistente na redução da prevalência da desnutrição infantil e no aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade7.

No Brasil, a prevalência de obesidade varia de acordo com a região do país. Abrantes et al., em estudo, verificaram que a prevalência de obesidade em crianças foi de 8,2 e 11,9% e, em adolescentes, de 6,6 e 8,4% nas regiões Nordeste e Sudeste, respectivamente12. Outros estudos realizados nas cidades de São Paulo (SP) e Salvador (BA) encontraram prevalência de obesidade de 10,5 e 15,8%, respectivamente, em escolares de escolas públicas e privadas13,14.

Evidências epidemiológicas apoiam a teoria de que a relação entre obesidade e risco de doenças inicia-se na vida precocemente15. Sabe-se que quando o sobrepeso começa na infância aumentam três vezes as probabilidades de obesidade na vida adulta, em comparação com as de crianças de peso corporal normal16. Existe correlação significativa entre obesidade na infância, hipertensão arterial e hipercolesterolemia, representando estas três condições fatores de risco para doença coronária na fase adulta17-19.

Atualmente, diversos estudos visam estabelecer a relação entre obesidade e asma, principalmente porque houve aumento na prevalência de ambas no mesmo período. Um dos aspectos estudados é se a obesidade poderia representar um risco para o desenvolvimento de asma4-6. Contudo, ainda são pouco conhecidos quais mecanismos fisiológicos, imunológicos, mecânicos, genéticos, ambientais e dietéticos participam da relação asma e obesidade. Alguns questionamentos têm sido propostos: os aumentos nas prevalências da obesidade e da asma estão relacionados? A condição inflamatória favorecida pela obesidade poderia influenciar no desenvolvimento da asma? Os sintomas da asma estão relacionados à redução da atividade física e à menor exposição aos alergênicos, levando à obesidade6?

O objetivo deste estudo foi revisar os principais trabalhos sobre a associação obesidade e asma e verificar se existe relação de causa e efeito entre ambas.

 

Método

Revisão sistemática baseada em buscas em bases de dados indexadas MEDLINE (PubMed) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). Foram revisados artigos originais (transversal, caso-controle e prospectivo) e meta-análises publicados no período de janeiro de 1998 a janeiro de 2008. Foram incluídos os artigos em inglês, espanhol e português. Palavras-chave: obesidade, composição corporal, asma, infância, inflamação e índice de massa corporal (IMC).

Foram revisados 25 artigos e selecionados 18, que foram separados de acordo com o tipo de estudo aplicado: estudo transversal (seis artigos); caso-controle (quatro artigos); prospectivo (seis artigos) e meta-análise (dois artigos).

Mecanismos de relação entre obesidade e asma

O excesso de acúmulo de gordura corporal é definido como sobrepeso/obesidade, de acordo com a World Health Organization20. O critério utilizado na prática clínica para classificar o estado nutricional é o IMC. O IMC é calculado pela relação do peso (kg) dividido pelo quadrado da altura em metros (kg/m2)20,21.

O corpo humano necessita de uma quantidade de gordura para a manutenção de funções fisiológicas, entre as quais estão a formação de membrana celular, isolamento térmico, transporte e armazenamento de vitaminas lipossolúveis, bem como para o crescimento e maturação durante a puberdade22. Os adipócitos desempenham funções e apresentam características morfológicas diferentes dependendo da sua localização e são responsáveis por secretarem substâncias pró-inflamatórias como IL-6, IL-1ß, adiponectina, TNF-α, PC-R e leptina23.

O grau de obesidade determina níveis diferentes de inflamação, levando ao aumento das citocinas, que participam de diversas funções metabólicas, endócrinas, além de modular o processo inflamatório e a resposta do sistema imune. Uma dessas substâncias inflamatórias mais estudadas na obesidade é a leptina. É uma proteína endógena cujo papel se relaciona com o controle da saciedade, regulação da resposta imune, função pulmonar, regulação do metabolismo e de micronutrientes23-27.

Mai et al.28 avaliaram a concentração de leptina encontrada em crianças asmáticas e com sobrepeso. Verificaram que a baixa concentração sérica desta proteína foi fator de proteção para o desenvolvimento da asma. Assim, o aumento da concentração de leptina poderia influenciar na fisiopatologia da asma.

A obesidade provoca efeitos mecânicos no pulmão, altera o volume pulmonar, a capacidade e o diâmetro periférico respiratório, influindo no volume sanguíneo circulante e na perfusão da ventilação pulmonar26. A redução da capacidade funcional e do volume pulmonar nos indivíduos obesos influi na diminuição dos movimentos (contração e excitação) da musculatura lisa (hipótese de Lanch), hiper-reatividade e obstrução das vias aéreas2,23.

Em revisão sobre obesidade e asma, Beuther et al. sugerem um novo mecanismo fisiopatológico da asma envolvendo as quimiocinas (leptina, IL-6, TNF-α, TGF-ß, eotoxina). Estas substâncias seriam secretadas pelos macrófagos, presentes no tecido visceral, por meio dos monócitos (MHC-1), que provocariam efeitos na resposta atópica, afetando o desenvolvimento pulmonar, o equilíbrio da resposta Th1-Th2, a resposta imune, a musculatura lisa das vias aéreas e o aumento da hiper-responsividade brônquica26.

Estudos transversais

von Mutius et al.29, em estudo a partir dos dados da National Health and Nutrition Examination Survey III (NHANES III), avaliaram a relação do IMC com a asma e a atopia numa amostra populacional representativa de crianças americanas de 7 a 14 anos. Verificou-se associação positiva entre asma e IMC, com razão de chances (odds ratio, OR) = 1,77 [intervalo de confiança de 95% (IC95%) 1,44-2,19], mas em relação à atopia não ocorreu o mesmo. A prevalência de asma e atopia foram significativas com o aumento do IMC, não havendo diferença por gênero e/ou etnia. Os autores concluíram que o IMC pode ser um fator de risco ao desenvolvimento da asma.

Estudo realizado entre 2002 e 2005 com crianças de 7 a 10 anos avaliou qual o impacto da obesidade e da asma na qualidade de vida. Encontrou-se que crianças asmáticas com IMC elevado usavam mais corticoide inalatório (CI) e terem pais fumantes. Comparadas às demais, as crianças asmáticas e com sobrepeso/obesidade apresentaram baixa qualidade de vida. Os autores sugerem melhora na qualidade de vida destas, incluindo atendimento em equipe multidisciplinar (nutricionistas, psicólogos e educadores físicos), a fim de adequar a ingestão calórica e melhorar o nível de atividade física30.

A partir de dados de sete estudos epidemiológicos, Schachter et al.31 selecionaram crianças de 7 a 12 anos de sete regiões diferentes da Austrália. Verificaram que o elevado IMC nas crianças associa-se ao aumento na prevalência de sintomas que podem desenvolver a asma, porém não se relaciona ao aumento da prevalência de asma. Encontraram associação entre o IMC e a prevalência de atopia em meninas, mas não em meninos. Os autores citam que desconhecem a causa da associação, podendo estar relacionada às diferenças de níveis hormonais, de citocinas inflamatórias e de distribuição de gordura corporal.

Em estudo realizado com crianças brasileiras asmáticas persistentes com o objetivo de verificar se havia alguma alteração no estado nutricional, concluiu-se que os dados diferiram dos apresentados pela maioria dos estudos até então publicados. Os autores mostraram que não houve casos de obesidade e que a composição corporal estava adequada, de acordo com o gênero e a idade, quando comparada ao grupo-controle e à curva do National Center of Health Statistics (NCHS)32.

Leung et al.33 conduziram um dos únicos estudos que avaliaram a relação entre níveis inflamatórios e obesidade em crianças asmáticas. Investigaram crianças e adolescentes com idades entre 7 e 18 anos (92 casos e 23 controle), com diagnóstico de asma baseado no American Thoracic Society (ATS) e classificada de acordo com o Global Initiative for Asthma (GINA)34. Coletaram dados referentes a peso, estatura, IMC, espirometria, mensuração do óxido nítrico inalado e da concentração de LTB4 e marcadores de atopia pelo sangue periférico dos pacientes. Encontraram que 24% das crianças asmáticas eram obesas, sendo que o grupo-controle apresentou peso e altura significativamente maiores que os demais. Quanto às variáveis inflamatórias, não houve diferença entre os grupos-casos e controles. Os autores justificam que o processo inflamatório das vias aéreas em crianças asmáticas e obesas pode ser causado por mecanismos imunes, independente dos níveis de óxido nítrico e de eicosanoides. De acordo com os autores, o uso prolongado de CI na asma grave aumenta a susceptibilidade para alteração metabólica, provocando ganho ponderal, hipertensão arterial e diabetes melito.

Os resumos dos estudos do tipo transversal sobre obesidade e asma encontram-se na Tabela 1.

Estudos caso-controle

Um estudo conduzido com 209 crianças e adolescentes hispânicas e negras na faixa etária entre 2 e 18 anos avaliou se o ganho ponderal de asmáticos diferia entre os asmáticos e os não-asmáticos. Este estudo também verificou se o sobrepeso se associava ao aumento dos sintomas de asma. Os critérios de diagnóstico e classificação da gravidade da asma foram os da ATS. Houve associação significativa entre a gravidade da asma e o risco de sobrepeso (IMC > 85). O grupo-caso apresentou risco relativo (RR) = 1,34 (IC95% 0,99-1,82; p = 0,06) de terem IMC > 85 quando comparado ao grupo-controle. Ao estabelecer IMC > 95 o RR aumentou para 1,51 (IC95% 1,05-2,19; p = 0,03). No grupo-controle 32,9% tinham IMC > 85 e 15,3%, IMC > 95. No grupo caso, 39,7% das crianças tinham IMC > 85 e 21,5%, IMC > 95, sendo que somente 12,4% estavam sob uso de CI. Os autores encontraram que as crianças com asma moderada/grave e IMC elevado estavam associadas ao baixo nível no teste de função pulmonar e ao maior uso de medicações para controle da asma. Os autores citam que os fatores que mais contribuem para o sobrepeso dessas crianças são a gravidade da asma e as limitações impostas, muitas vezes pelos pais, à prática de atividade física36.

Brenner et al.37 avaliaram 265 adolescentes asmáticos com idades entre 12 e 21 anos e um grupo-controle da mesma faixa etária de 482 não asmáticos. Compararam a prevalência da obesidade e se ela estava associada ao grau de gravidade da asma. A prevalência de risco de sobrepeso foi de 15 e 16% nos grupos controle e caso, respectivamente. Não houve diferença na prevalência de obesidade e no grau de gravidade da asma (21% asma moderada/grave; 19% asma leve; e 17% controles). Os autores concluíram que a obesidade não teve associação significativa com a asma moderada/grave em adolescentes afro-americanos.

Mai et al.38 avaliaram a relação entre o IMC e a asma e as manifestações atópicas em crianças com 12 anos de idade. Foram avaliadas 457 crianças (grupo-caso, 161 crianças; grupo-controle, 296). Encontrou-se associação entre o IMC elevado com os episódios atuais de sibilância (OR = 1,7; IC95% 1,0-2,5). O IMC elevado (IMC > 75) associou-se à gravidade da asma, aos episódios de sibilância nos últimos 12 meses e à presença de eczema atópico nas crianças casos. Não houve associação em relação à febre, ao aumento na hiper-responsividade brônquica e ao prick test positivo.

Um estudo italiano envolvendo 554 crianças asmáticas (casos) e 625 crianças saudáveis (controle) avaliou o desvio padrão (DP) do IMC (±2) considerando sobrepeso/obesidade IMC > 2 DP. Encontrou-se porcentagem semelhante de crianças com sobrepeso/obesidade tanto no grupo-caso como no controle. Observou-se também que as crianças e adolescentes com alto índice de infecção respiratória e que não estavam sob uso de CI apresentavam IMC < 2 DP. Portanto, não houve aumento na prevalência de sobrepeso/obesidade em crianças e adolescentes com asma39.

Os resumos dos estudos caso-controle sobre obesidade e asma encontram-se na Tabela 2.

Estudos prospectivos

Um estudo realizado com crianças asmáticas avaliou a composição corporal pela bioimpedância elétrica (BIA), pelo dual-energy-X-ray absortimetry (DXA) e pelas dobras cutâneas. Quanto ao tratamento medicamentoso, dividiu-se em grupo 1, sob uso de budesonida (400 µg/dia), e grupo 2, sob uso de fluticasona (200 µg/dia), comparados ao grupo-controle de crianças asmáticas tratadas com cromonas e beta 2 agonistas. Após 6 meses de uso, verificou-se que nos grupos-casos (1 e 2) não ocorreram alterações no crescimento, na composição corporal e no acúmulo de gordura abdominal. Os autores ressalvam a importância do monitoramento estatural e ponderal em crianças asmáticas sob uso de CI em doses baixa, média e alta40.

Jani et al.41 avaliaram pacientes menores de 18 anos, analisando se houve diferença no IMC entre os que recebiam dose alta de CI (> 400 µg/dia) e os que recebiam dose baixa (< 200 µg/dia) num intervalo de tempo de 12 meses. A comparação daqueles que recebiam baixas doses versus os que recebiam altas doses de CI evidenciou que os últimos tinham aumento anual significativo do IMC. Verificaram que há necessidade de estudos sobre a influência dos CI no IMC, considerando o tempo de uso da medicação e a gravidade da asma.

Um estudo prospectivo investigou a relação entre o aleitamento materno e a asma, bem como a influência no IMC. Foram avaliadas 2.165 crianças, sendo que em 1.596 foi realizado o prick test. O diagnóstico de asma foi realizado por médico especialista. Encontraram que 17% das crianças confirmaram diagnóstico de asma, sendo que 15% das mães também apresentavam a doença; 41% confirmaram atopia pelo prick test. A correlação entre IMC e asma foi baixa, sendo significativa somente em meninos. Crianças com aleitamento materno exclusivo reduzem em 4% o risco de desenvolver asma, sendo o leite materno fator protetor42. Aspectos da relação entre aleitamento materno e asma ainda são controversos apesar dos inúmeros artigos publicados, e não fazem parte desta revisão.

Arend et al.43, em estudo prospectivo longitudinal, verificaram a influência do uso de CI no ganho ponderoestatural em crianças asmáticas acompanhadas em serviço público em Porto Alegre (RS). Foram incluídas 124 crianças e adolescentes de 3 a 16 anos que recebiam corticoides pelo menos há 1 ano e que tinham sido acompanhadas por 12 meses. Foram excluídos pacientes com baixo peso ao nascer (< 2.500 g) e sob uso de terapia mista. Verificaram que não houve diferença estatística entre o IMC da primeira avaliação e após 1 ano. Em comparação à curva do NCHS, os pacientes sob tratamento com CI não tiveram comprometimento estatural.

Eijkemans et al.44, em recente estudo retrospectivo, analisaram a correlação entre sibilância, nível de atividade física e IMC. Foram incluídas um total de 305 crianças de 4 a 5 anos e que foram avaliadas com 7 meses, 1, 2 e 4 a 5 anos. Não houve diferença no nível de atividade física entre crianças que tinham tido crises de sibilos e as que nunca as tinham tido. Os resultados não confirmam que os sibilos levam ao sobrepeso devido aos baixos níveis de atividade física.

Os resumos dos estudos de coorte prospectivos sobre obesidade e asma encontram-se na Tabela 3.

Estudos de meta-análise

Flaherman & Rutherford4, em meta-análise, mostraram forte evidência de que o elevado peso na infância aumenta o risco de desenvolver asma (RR = 1,5; IC95% 1,2-1,8), sendo que o elevado peso ao nascer também representa o mesmo risco (RR = 1,2; IC95% 1,1-1,3). Entretanto, algumas limitações não foram consideradas no estudo, como o critério de diagnóstico das doenças atópicas (muitas vezes relatada pelo indivíduo e não diagnosticada pelo médico), se houve exposição ao tabagismo, antecedente familiar com asma e/ou atopia e gênero. Os autores sugerem que nos próximos estudos longitudinais haja uma coleta de dados mais criteriosa, com avaliação antropométrica adequada e intervalos regulares e também com a avaliação anual da classificação da gravidade da asma.

Em outra meta-análise, Beuther & Sutherland45 verificaram que o sobrepeso e a obesidade se associaram, com elevada OR, ao aumento da incidência de asma em homens e mulheres. Foram selecionados sete estudos epidemiológicos, a partir de uma revisão, que incluíram 2.006 referências. Os autores estabeleceram critério de classificação do estado nutricional como eutrófico (IMC < 25); sobrepeso (IMC 25-29,9); e obesidade (IMC > 30). Encontraram que os indivíduos com IMC > 25 kg/m2 tinham elevada incidência de asma (OR = 1,51; IC95% 1,27-1,80).

Entretanto, algumas considerações são feitas pelos autores e mostram limitações nos estudos incluídos na meta-análise. Dados antropométricos (peso, altura) e de sintomas da asma são relatados pelos pacientes e não avaliados por profissional médico, podendo isso implicar sub ou superestimação de dados estatísticos. Ressalvam que o IMC não é o melhor critério de classificação da obesidade, pois não avalia a distribuição da composição corporal (massa gorda e massa magra) nem a sua localização45.

Os resumos dos estudos de meta-análise sobre obesidade e asma encontram-se na Tabela 4.

 

Discussão

Tanto a asma como a obesidade aumentaram de forma significativa suas prevalências nas últimas décadas. Estudos buscam estabelecer relações entre ambas: o excesso de peso representaria um risco elevado de desenvolver asma, embora se desconheça o mecanismo fisiopatológico e ambiental envolvido nesse processo. Há necessidade de determinar e ter mais conhecimentos da influência da obesidade e do sedentarismo no impacto da etiologia da asma, o que justifica os resultados contraditórios demonstrados pelos estudos.

A asma é uma doença multifatorial, que envolve a participação de fatores ambientais e genéticos. Antecedentes familiares positivos aumentam a chance de um indivíduo vir a desenvolver a doença no futuro, mostrando a relevância da genética na determinação dessa doença6,46,47.

As mudanças ambientais e de hábitos de vida têm forte influência na ocorrência de asma. Estudos mostram que o ambiente e suas mudanças influenciam na gênese e nos aspectos fisiopatológicos das doenças crônicas.

As modificações no hábito alimentar, caracterizadas pelo desequilíbrio na relação entre os alimentos ingeridos, associadas à redução da prática de atividade física, contribuem para o crescente aumento na prevalência de sobrepeso/obesidade e das comorbidades associadas (doenças cardiovasculares, diabetes melito tipo 2, osteoartrite), como na asma47.

A asma persistente interfere na redução da qualidade da vida dos pacientes, propiciando a menor prática de atividade física. Os indivíduos com asma são mais propensos a realizarem atividades leves (assistir televisão, uso excessivo de videogame, computadores), tendo menor gasto calórico, e maior consumo de alimentos industrializados (ricos em gordura saturada, trans, carboidratos simples, e deficientes em fibras, vitaminas e minerais). A associação destes fatores contribui para o aumento do ganho de peso6,45,47-49.

A associação entre ambas as doenças aumenta o risco do aparecimento de doenças crônicas não transmissíveis na evolução das mesmas. Brisbon et al.47 propõem um organograma para melhor compreender a relação da influência do ambiente na prática de atividade física, na obesidade e na asma (Figura 1).

 

 

Deve-se entender que a obesidade por si não pode ser a única etiologia responsável pelo desenvolvimento e aumento na prevalência da asma. Outros fatores importantes como os genéticos, imunológicos e ambientais já discutidos devem ser considerados nos próximos estudos.

O aumento da exposição a ambientes poluídos e a emissão de gases poluentes ao ar são fatores que também contribuem com as alterações genéticas, elevando a prevalência de asma50.

Um fator de suma importância é a necessidade de realizar estudos com métodos adequados quanto ao estabelecimento do diagnóstico e tratamento da asma, já que na maioria dos estudos os pacientes relatam os sintomas da asma, não havendo classificação quanto a sua gravidade, bem como qual o medicamento indicado para o tratamento, a dosagem e o tempo utilizado.

Outro ponto é a necessidade de adotar outros métodos complementares de avaliação antropométrica e de composição corporal, além do IMC (kg/m2), como critério diagnóstico de obesidade. Outros parâmetros utilizados apresentam maior relevância e são complementares, como mensuração das pregas cutâneas, BIA, DXA, ressonância magnética abdominal, tomografia computadorizada, dosagem de água corporal total, entre outros.

Existe um entusiasmo na comprovação de que os aumentos das prevalências de asma e obesidade seriam consequências das mudanças ambientais, associadas ou não a outros fatores. O rigor metodológico nos futuros estudos deverá buscar respostas a fim de compreender melhor se há associações entre asma e obesidade, ou se a relação entre elas é coincidência.

 

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Correspondência:
Daniella Fernandes Camilo
Instituto de Pediatria
Avenida Jesuíno Marcondes Machado, 232 - Nova Campinas
CEP 13090-732 - Campinas, SP
Tel.: (19) 3255.6115, (19) 3241.7906, (19) 9236.9303
E-mail:daniellaf.camilo@gmail.com

Artigo submetido em 30.04.09, aceito em 27.07.09.

 

 

Este trabalho foi realizado no Departamento de Pediatria, Setor de Pneumologia Pediátrica, Faculdade de Ciências Médicas (FCM), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Campinas, SP.
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Camilo DF, Ribeiro JD, Toro AD, Baracat EC, Barros Filho AA. Obesity and asthma: association or coincidence? J Pediatr (Rio J). 2010;86(1):6-14.