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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.2 Porto Alegre Mar./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000200002 

EDITORIAL

 

A obesidade é um problema emergente em crianças e adolescentes brasileiros?

 

 

Nancy F. ButteI;Tuan Thanh NguyenII

IPhD. Professor, Department of Pediatrics, USDA/ARS Children's Nutrition Research Center, Department of Pediatrics, Baylor College of Medicine, Houston, TX, EUA
IIMD, PhD. Post-doctoral Fellow, Department of Pediatrics, USDA/ARS Children's Nutrition Research Center, Department of Pediatrics, Baylor College of Medicine, Houston, TX, EUA

Correspondência

 

 

A obesidade na infância é um problema emergente de saúde pública em todo o mundo1. O alto índice de massa corporal (IMC, kg/m2) na infância está associado a 1) hiperlipidemia, resistência à insulina e hipertensão2; e 2) obesidade e doença cardiovascular (DCV) na vida adulta3,4. Em muitos países em desenvolvimento, baixo peso ao nascer, baixo peso e nanismo ainda são prevalentes5,6, o que pode estar associado ao risco aumentado de DCV na vida adulta7. O duplo fardo representado por obesidade e baixo peso traz desafios econômicos e de saúde pública, especialmente nos países que estão atravessando uma transição socioeconômica.

Neste número do Jornal de Pediatria, Silva et al.10 comparam os padrões de crescimento de crianças e adolescentes brasileiros com as curvas de crescimento do Center for Disease Control and Prevention (CDC)11 e da Organização Mundial da Saúde (OMS)12. Esse estudo transversal analisou dados que incluíram 41.654 estudantes (23.328 meninos e 18.326 meninas) entre 7 e 17 anos. Os dados foram coletados em escolas públicas e particulares localizadas em 23 estados das cinco regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul) em 2004 e 2005. Altura e peso foram medidos por profissionais treinados utilizando equipamento calibrado. Peso, altura e IMC foram comparados com os valores de referência do CDC e da OMS de acordo com idade e sexo, utilizando o teste t de Student. O estudo demonstrou variação de altura, peso e IMC de acordo com o sexo. Os meninos eram mais altos aos 7 anos e entre 13 e 17 anos; já as meninas eram mais altas entre 10 e 12 anos e tiveram IMC mais alto aos 10 anos e entre 12 e 16 anos (p < 0,05). Em quase todas as idades, os meninos e as meninas brasileiros tiveram altura e peso médios mais altos quando comparados às curvas de crescimento correspondentes do CDC e da OMS (p < 0,05). O IMC médio foi significativamente mais baixo do que o percentil 85 da curva de crescimento da OMS em todas as idades (p < 0,05); contudo, a diferença aumentou com a idade de tal forma que o IMC médio dos brasileiros se aproximou do percentil 80 na no início da infância e alcançou o percentil 50 no final da adolescência.  Em média, os adolescentes brasileiros parecem ser mais magros do que as crianças brasileiras menores de acordo com as curvas de IMC da referência da OMS.

O estudo de Silva et al. baseia-se em uma amostra grande e recente das diferentes regiões do Brasil, o que permite que os achados sejam generalizados para os jovens brasileiros. Os autores apresentaram média e desvio padrão para peso, altura e IMC por idade e gênero, oferecendo parâmetros comparativos úteis. Infelizmente, os autores perderam a oportunidade de avaliar a prevalência de nanismo, baixo peso, sobrepeso e obesidade em uma grande amostra de crianças e adolescentes brasileiros. Embora tenham mencionado uma prevalência crescente de sobrepeso na discussão do artigo, os autores não calcularam a porcentagem de crianças e adolescentes acima do percentil 85 para IMC. Seria útil computar o 1) escore z de altura/idade, peso/idade e IMC/idade; e 2) estimar a prevalência de nanismo, baixo peso, sobrepeso e obesidade utilizando as curvas de crescimento específicas para idade e sexo do CDC e/ou da OMS.

O estudo tem algumas limitações que foram mencionadas pelos autores. Trata-se de um estudo transversal baseado em escolas no qual se utilizou um método de amostragem não-probabilística para recrutar as crianças. Como consequência, 97% dos participantes foram selecionados de escolas urbanas (uma amostra esperada seria de 84% para se alcançar representatividade nacional). Portanto, os achados podem ser mais relevantes para a população urbana do Brasil.

O estudo de Silva et al. tem implicações de saúde pública significativas. Primeiro, o uso de valores de referência de crescimento internacionais para classificar altura, peso e IMC em crianças e adolescentes brasileiros ampliarão a comparabilidade dos dados de crescimento10. Segundo, o estudo demonstra a necessidade de estratificar o monitoramento do crescimento por idade, sexo e região geográfica e estabelecer um valor basal para futuras investigações das tendências seculares. Terceiro, o estudo enfatiza a utilidade do monitoramento do crescimento para a priorização de intervenções de saúde pública direcionadas a mudanças individuais, familiares, sociais e ambientais necessárias para promover o crescimento ideal. As estatísticas nacionais sobre prevalência de nanismo, baixo peso, sobrepeso e obesidade em crianças brasileiras influenciarão as políticas de saúde pública e responderão se a obesidade é um problema emergente em crianças e adolescentes brasileiros.

 

Referências

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Correspondência:
Nancy F. Butte
E-mail:nbutte@bcm.tmc.edu;nbutte@bcm.edu

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste editorial.
Como citar este artigo: Butte NF, Nguyen TT. Is obesity an emerging problem in Brazilian children and adolescents? J Pediatr (Rio J). 2010;86(2):91-92.