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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.3 Porto Alegre May/June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000300002 

EDITORIAL

 

Comentário: preocupações referentes à alimentação complementar de lactentes no Brasil

 

 

Frank R. Greer

MD, Professor, Pediatrics, School of Medicine and Public Health, University of Wisconsin, Madison, WI, EUA, Former Chairperson, American Academy of Pediatrics, Committee on Nutrition

Correspondência

 

 

O artigo de Caetano et al. publicado nesta edição do Jornal de Pediatria relata práticas de alimentação complementar preocupantes observadas em uma recente pesquisa com 179 lactentes em três cidades brasileiras1. Assim como nos EUA2, a grande maioria dos lactentes começa a receber alimentação complementar (inclusive substitutos do leite materno) aos 4 meses de idade. Porém, no Brasil, muitos lactentes começam a ser alimentados com leite de vaca integral antes dos 6 meses de idade e 80% já recebem leite integral no final do primeiro ano de vida. Nisso, o Brasil é diferente dos EUA, onde o leite integral não substitui a fórmula infantil até os 12 meses de idade, de acordo com as recomendações da Academia Americana de Pediatria2,3. Um aspecto ainda mais inquietante dessa pesquisa sobre práticas alimentares de lactentes no Brasil é o fato de que tanto o leite de vaca integral quanto as fórmulas infantis frequentemente são modificados através da adição de açúcar e/ou achocolatado mesmo quando oferecidos a lactentes menores de 6 meses de idade. Reconhecidamente, mais de 50% dos lactentes nascidos nos EUA atualmente recebem fórmula infantil gratuitamente através de um programa de alimentação suplementar do governo estadunidense para mães, lactentes e crianças4,5. O custo relativamente alto das fórmulas infantis para os lactentes brasileiros pode explicar seu uso por somente 12% dos lactentes menores de 6 meses e somente 6,7% daqueles com mais de 6 meses de idade. Isso também pode explicar a alta porcentagem de refeições em que a fórmula infantil é diluída ou concentrada de maneira inapropriada (através de outros aditivos que incluem açúcar e achocolatado).

O artigo de Caetano et al. apoia as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade devido às inadequações dos substitutos do leite materno utilizados atualmente no Brasil. Estranhamente, o padrão atual de alimentação de lactentes no Brasil durante o primeiro ano de vida é similar ao padrão observado nos EUA antes de 1972, quando foram observadas práticas similares de alimentação inapropriada, com o uso de substitutos do leite materno, incluindo leite integral com deficiências adicionais associadas5. Isso resultou na criação do Programa Nutricional Suplementar Especial para Mulheres, Lactentes e Crianças do governo dos EUA (Special Supplemental Nutrition Program for Women, Infants, and Children, frequentemente denominado de programa WIC) de 1972 a 19745. Embora as deficiências nutricionais tenham sido amplamente eliminadas, esse programa teve um impacto muito negativo no aleitamento materno nessa população, um problema que somente foi abordado recentemente5.

Os autores do estudo brasileiro também apontam as deficiências nutricionais específicas associadas à alimentação complementar nos lactentes pesquisados durante o primeiro ano de vida. As deficiências mais importantes estão relacionadas a zinco, ferro e vitamina A (a ingestão de vitamina D não foi avaliada). A deficiência de ferro é a mais preocupante devido ao seu potencial para causar um impacto negativo de longo prazo no desfecho de neurodesenvolvimento. Como evidenciado pelos autores, a deficiência de ferro pode ser amplamente causada pelo uso de leite integral como alimento complementar. Por outro lado, a ingestão de "carne" (ver Tabela 3) foi relativamente alta nessas crianças, embora não tenha sido especificado se se tratava de carne vermelha, a qual seria uma boa fonte de ferro e zinco. Também não ficou claro no artigo se os cereais oferecidos aos lactentes eram fortificados com ferro, como acontece nos EUA. A ingestão de alimentos processados, como biscoitos e sucos de fruta, também é muito alta no Brasil, sendo fontes deficientes desses nutrientes. O alto teor de gordura e açúcar nesses alimentos também é motivo de preocupação. Em um recente relato dos EUA, os achados para ingestão de alimentos processados foram similares durante o segundo semestre de vida, e observou-se que os lactentes frequentemente consumiam fast food ou alimentos prontos aos 10 meses de idade6.

Finalmente, os autores expressam sua preocupação de que essas práticas de alimentação pouco saudáveis nos lactentes brasileiros durante o primeiro ano de vida possam "potencializar o risco de desenvolvimento de doenças, como as cardiovasculares"1. Isso evidentemente não pode ser demonstrado nesse estudo observacional transversal, pois não oferece dados antropométricos para esses lactentes. Tem havido bastante exagero na literatura pediátrica com relação à ingestão alimentar de lactentes e a futura "programação metabólica". Sabe-se há muito tempo que os lactentes são capazes de regular sua ingestão alimentar à medida que os alimentos complementares começam a substituir o leite materno ou a fórmula infantil. Alguns estudos já demonstraram anteriormente que os alimentos complementares introduzidos no primeiro ano de vida têm um impacto limitado no crescimento global do lactente durante esse período7-9. O impacto do tipo e da quantidade de alimentos complementares introduzidos no primeiro ano de vida sobre a obesidade e as doenças cardiovasculares no futuro precisa ser mais investigado através de estudos longitudinais prospectivos. Enquanto isso, parece muito apropriado reforçar a ênfase na amamentação exclusiva dos lactentes no Brasil durante os primeiros 6 meses de vida devido à introdução de alimentos complementares inapropriados.

 

Referências

1. Caetano MC, Ortiz TT, da Silva SG, de Souza FI, Sarni RO. Complementary feeding: inappropriate practices in infants. J Pediatr (Rio J). 2010;86:169-201.         [ Links ]

2. Grummer-Strawn LM, Scanlon KS, Fein SB. Infant feeding and feeding transitions during the first year of life. Pediatrics. 2008;122 Suppl 2:S36-42.         [ Links ]

3. Formula feeding of term infant. In: Pediatric Nutrition Handbook. 6th Edition. American Academy of Pediatrics, Elk Grove Village, Il.  pp 76-77.         [ Links ]

4. WIC Food Packages. [website] Food and Nutrition Service. www.fns.usda.gov/wic/benefitsandservices/foodpkg.htm. Acesso: 31/03/2010.         [ Links ]

5. www.fns.usda.gov/wic/benefitsandservices/foodpkg.htm. WIC Food Packages: Time for a Change. Institute of Medicine, The National Academies Press, Washington, DC. 2006.         [ Links ]

6. Fein SB, Labiner-Wolfe J, Scanlon KS, Grummer-Strawn LM. Selected complementary feeding practices and their association with maternal education. Pediatrics. 2008;122 Suppl 2:S91-7.         [ Links ]

7. Mehta KC, Specker BL, Bartholmey S, Giddens J, Ho ML. Trial on timing of introduction to solid foods and food type on infant growth. Pediatrics. 1998:102:569-73.         [ Links ]

8. Dewey KG, Cohen RJ, Brown KH, Rivera LL. Age of introduction of complementary foods and growth of term, low-birthweight, breast-fed infants: a randomized intervention study in Honduras. Am J Clin Nutr. 1999;69:679-86.         [ Links ]

9. Morgan JB, Lucas A, Fewtrell MS. Does weaning influence growth and health up to 18 months? Arch Dis Child. 2004;89:728-33.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Frank R. Greer
Meriter Hospital Perinatal Center
202 S Park St, Madison, WI 53715 - EUA
E-mail: frgreer@pediatrics.wisc.edu

 

 

Conflitos de interesse: Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste editorial.
Como citar este artigo: Greer FR. Commentary: concerns for complementary feeding of infants in Brazil. J Pediatr (Rio J). 2010;86(3):169-170.